Já vi por aqui umas pessoas que vieram para cá fazer College, buscando uma nova carreira onde não tinham nenhuma experiência. Mas, motivadas por algum interesse pessoal e principalmente por relatos de imigrantes que atuam nessa carreira e foram bem-sucedidos por aqui, vieram.

Um exemplo? Tecnologia da Informação. O famoso TI. Escuto todos os dias que "chovem vagas". Que "é fácil arranjar emprego".

Mas não acho que seja bem assim. É preciso colocar as coisas em perspectiva e contextualizar tudo direitinho.

Até 2014, boa parte das pessoas que obtinha residência permanente e imigrava para o Canadá vinha por meio de uma categoria chamada Federal Skilled Worker. Onde havia um número limitado de vagas e profissões contempladas. O nível de exigência era alto e a competição por uma vaguinha no Canadá era feroz. Dessa forma, vinha apenas uma elite de profissionais. E praticamente só eles, pois não estava na moda vir para cá. Como sempre havia vagas abertas em TI, um número significativo de profissionais brasileiros dessa área imigrou para o Canadá nesse período.

Mas quer saber quem eram essas pessoas? Muito provavelmente eram aqueles que "comiam computador" desde muito novinhos... Que fizeram graduações e pós-graduações na área com honras. Talvez no exterior e, se no Brasil, pode acreditar que foi numa USP, UNICAMP, UFMG...  É verdade... talvez aquele pessoal que não era muito popular na escola e na faculdade lá pelos anos 90 e 2000... que em vez de ficar jogando futebol ou caindo nas baladas estava programando... riu por último. Veio para o Canadá. E como era bom de serviço, não ficou muito tempo sem emprego.

Aí quando vir para o Canadá tornou-se moda, coincidindo com o "fim do sonho brasileiro", quem eram as referências? Eles! Que talvez fizessem blogs e vídeos apenas para manter algum contato com familiares e amigos ou ajudar um punhado de pessoas, e de repente começaram a receber gente estranha (e talvez aflita e desesperada) buscando informações sobre o Canadá...

Quando o "sonho canadense" dos marqueteiros (que passava por fazer um College por aqui... lembrando que os Colleges pagam comissão a esses marqueteiros de imigração) popularizou-se, o que muitos fizeram? Correram para os cursos de programação, redes ou qualquer outra coisa relacionada a TI. Que experiência tinham nessa área? Pouca ou nenhuma. Que interesse prévio haviam manifestado por isso? Pouco ou nenhum. Então por que engradados de água estavam fazendo aqueles cursos?

Porque tinham a ilusão do emprego fácil e rápido, com alta remuneração e residência permanente fácil.

E é aí que seu planejamento mostrou-se completamente equivocado. Aqueles pioneiros tinham planejado tudo certinho. Mas você não faz ideia do que precisaram fazer ao longo da vida para chegar até aqui. Enquanto você simplesmente quer comprar uma passagem, fazer as trouxas e vir para cá acreditando que é para sempre... Saiba que o sucesso dessas pessoas foi construído aos poucos e com muito suor!

Pode até haver uma grande quantidade de empregos em certas áreas por aqui. Mas há também muita competição envolvendo profissionais de excelente nível, que já têm familiaridade com a carreira há um bom tempo. Por isso, a não ser que você tenha um interesse sincero e legítimo naquela determinada carreira e tenha visto na vinda para cá uma oportunidade para abraçá-la - o que envolve muito trabalho duro e estudo, pode acreditar! - deixe essa ideia pra lá. Mesmo que sua carreira original pareça não ter tantas vagas e perspectivas de boa remuneração, é com ela que você vai. 

É esse o caminho. Que a cada dia que passa promete ser mais árduo porque a competição está mais dura. Vem fazer College? Saiba que vai ser difícil, caro e arriscado.

"Espera aí, Alexei. Mas você não é músico? Agora formou-se em Interactive Media Design e já arrumou emprego nessa área antes mesmo de receber seu diploma!"

Então... eu procurei IMD porque essa carreira tinha alguma coisinha a ver com meu trabalho como músico e produtor de áudio e música. E com atividades que eu fazia por hobby e para complementar minhas atividades como músico. Eu gostava de desenhar capas de discos, fazer websites para mim mesmo, editar fotos e mexer com vídeo. Não tinha técnica nenhuma e ia na intuição. Fiz isso um bocado. Então fui me qualificar nessa área porque sabia que teria uma melhor empregabilidade por ali e não estava começando do zero absoluto.

Sem falar que já cheguei como residente permanente, e por isso paguei tuition fees de estudante canadense. Até o coordenador do meu curso se confundia e pensava que eu era estudante internacional. Mas nunca fui!

Eu dei sorte, também. Quem me contratou levou em conta meu currículo passado e se dispôs a investir em mim. Posso ter cara e jeito de "leite com pera", para o que (admito) contribuí um pouco até por ingenuidade... mas saiba que eu ralei bastante e ainda dou muita cabeçada por aí!!! Mas até no momento mais difícil por que passei, a busca pelo estágio remunerado, dei sorte. Demorei mas fui chamado aos 46 minutos do segundo tempo por uma ONG onde fui muito feliz e onde fui apresentado a esse segmento onde há muitas vagas em Ottawa...

Mas não foi fácil não, certo? E não é fácil!

Por tudo isso, reflita bem antes de tomar a decisão de vir para cá. Jogue no lixo a ideia de um país de sonho onde tudo é fácil. Pelo contrário, prepare-se para uma competição das mais árduas, contra gente bem preparada. Muitas vezes cuja formação é toda daqui e que conhece muito bem a cultura e a língua locais. Uma competição inclusive contra si mesmo... contra os seus valores culturais, contra o seu ritmo de vida e trabalho... No meu caso, preciso lutar até mesmo contra o peso da minha idade. Aos 44 anos, eu estava competindo com gente de 22, 24... Sem falar nas dificuldades que precisei passar no College, onde muitas vezes não consegui me fazer entender e onde muitos não me entenderam sem que eu precisasse fazer nada...

Se pareço ser "destruidor de sonhos" e tenho um nariz meio torcido para a ideia de imigrar em definitivo através do College, é exatamente porque me preocupo com você que está sonhando - muitas vezes insuflado por marqueteiros inescrupulosos - e se desconectando da realidade! Saiba que eu quero sim que você venha e que fique por aqui, mas que venha passo a passo sempre com os pés no chão! 







Quem vai entender as imprevisíveis combinações do jogo da vida? Pois aconteceu isso conosco: por pura coincidência, a Thaisa e eu encontramos empregos na mesma semana.

Há imigrantes brasileiros que conseguem bons empregos já nos primeiros dias de Canadá, mas são exceções. Principalmente agora que a maior parte das pessoas vem com vistos temporários para fazer college. Em princípio, obter um emprego "na área" não é fácil. Demora mesmo. A procura pode ser penosa e a sucessão de aplicações sem retorno ou de respostas padrão agradecendo e dizendo que não será desta vez é bem longa. Nós que o digamos! Tanto eu como a Thaisa procuramos muito. Como eu fui fazer o programa de Interactive Media Design no Algonquin College, só iniciei minha busca quando chegou a hora de fazer o estágio remunerado (co-op). Ela começou antes, aplicando para trabalhar em lojas relacionadas a cosméticos e maquiagem. É a área dela. Mas com as barreiras linguísticas que ela precisou superar - infinitamente maiores do que as minhas - e a total ausência de experiência canadense, ela ouviu uma enorme quantidade de "nãos" pelo caminho. Houve situações em que quase foi contratada mas havia uma pedra no meio do caminho. Aí ela foi seguindo em busca de experiência. Fez cursos de maquiagem e estética no Algonquin e no Gina's College (uma escola aqui em Ottawa que só atua com estética). Inscreveu-se nos cursos e workshops do World Skills, uma ONG especializada em inserir imigrantes no mercado de trabalho. Por alguns meses, fez um estágio não-remunerado de office administration lá. E quando acabou, foi trabalhar na loja de souvenirs do Cirque du Soleil durante a temporada do espetáculo Volta em Gatineau.

Eu ainda estava em aulas quando ela começou a trabalhar no Cirque, e também por isso - mas sobretudo por não ter security clearance - não pude dar sequência às conversas que tive com a empresa que cuidou do recrutamento para a temporada. Que chegou a me sondar para trabalhar como designer e videografista ali por três meses. No entanto, surgiu a necessidade de contratarem pessoas que falassem francês para algumas funções logo que as aulas acabaram e lá fui eu para a loja de merchandising também. Fiz de tudo por lá: atendi os clientes, fiquei no caixa, repus estoque, varri o chão, limpei as instalações da loja... E aí, você que diz que eu sou "leite com pera"?

Eu gostei muito da experiência de trabalhar numa loja e de trabalhar no Cirque du Soleil. Se você me perguntar se eu faria de novo, faria sim! Conheci ótimas pessoas, me diverti e ainda ganhei um dinheirinho inesperado. Mas a temporada acabou e voltamos para o limbo. Bom, nem tanto. A Thaisa seguiu aplicando para várias lojas e uma delas a chamou para uma entrevista. Ela precisou faltar ao Cirque du Soleil e eu fui cobrir o dia de trabalho dela. Enfim, ela voltou dizendo que tinha sido a melhor entrevista dela. Ela tinha gostado da gerente que a recebeu e parece que a conversa foi boa. Mas daí a receber uma oferta de emprego, o caminho é longo. Mas passados alguns dias, quando já estávamos no limbo de novo, os funcionários da loja começaram a procurá-la com insistência. Deixavam mensagens de voz no celular dela (o que às vezes é desesperador, porque falam rápido demais nessas horas e não entendemos muita coisa). Até o momento em que a mesma gerente que a entrevistou telefonou e fez a oferta de emprego para ela. Se não me engano isso aconteceu numa terça e ela começaria na terça seguinte com alguns dias de treinamento.

Muito bem, então ela ficaria encarregada de trazer dinheiro para casa por um tempo enquanto eu seguiria na minha procura de emprego. Estava aplicando para tudo que via pela frente: desde job postings postadas por ONGs no site Charity Village (lembrando que meu estágio remunerado foi numa ONG e eu fui muito feliz ali, daí nada mais natural que eu procurasse seguir nesse meio) até oportunidades para pessoas que precisavam de alguém para criar um site na Internet e postavam anúncios no site de classificados Kijiji. Tinha feito uma entrevista numa ONG ainda em agosto, não fui chamado. Apliquei mais uma vez para a Apple Store (e fui chamado para uma entrevista, coisa que nunca havia acontecido). Imaginei que poderia ficar uns dois ou três meses procurando trabalho. Ou até mais. Mas pelo menos a Thaisa já estava encaminhada.

Ela começou a trabalhar no dia marcado, aquela terça-feira, e por vários dias saiu quase desesperada à procura de roupas e sapatos para usar na loja. Acabei indo com ela todos os dias, e quando eu estava dentro da própria loja onde ela trabalha na quarta-feira, o telefone tocou. Era uma outra ONG, que tinha postado uma vaga bem interessante e parecida com o trabalho que eu tinha realizado no co-op e aí eu apliquei. Perguntaram se eu poderia ser entrevistado na manhã seguinte. Sim, perfeitamente. Aproveitei que estava na loja para comprar roupas, porque eu não tinha... Para resumir o resto, fui fazer a entrevista e me pareceu que fui bem. Foi uma entrevista longa com as diretoras, e a conversa evoluiu bem. Saí de lá pensando: "seria interessante eu trabalhar aqui e acho que fui bem... será que vai dar?" Mas como sou do tipo de pessoa que já caiu do cavalo muitas vezes por sonhar demais, mantenho meus pés no chão... Aí no mesmo dia me telefonaram de novo: "você pode vir aqui amanhã novamente para discutir os próximos passos?" Sim, posso sim! Mas para que cargas d'água estão me chamando aqui para discutir próximos passos? Tem outra entrevista?

Não, não tem. Fui lá e a diretora executiva dessa vez foi direto ao ponto. Me ofereceu a vaga e perguntou se eu poderia ir trabalhar já na segunda (era sexta). Bom, inicialmente é um contrato de um ano. Eu vim substituir uma funcionária que está saindo em licença-maternidade. Mas a executiva disse que queriam fazer uma experiência e ter um designer trabalhando em tempo integral lá dentro, interagindo com o time. E que dando certo batalharia com a board of directors para me efetivar em prazo indeterminado.

Temos um longo caminho pela frente.

Enfim, é isso! A Thaisa começou a trabalhar numa terça, e eu na segunda seguinte. Menos de uma semana de diferença! Em situações favoráveis para ambos: ela trabalha a três quadras de casa e eu a sete. Podemos os dois ir e voltar a pé mesmo com nevasca forte, algo que eu fazia durante o co-op. O fantasma de "K-a-n-a-t-a" está adormecido na minha vida pelo menos por um ano. Mas não foi fácil e nem é fácil! Falo isso até pelos colegas que estão se formando comigo (ainda não recebi o diploma!). Olho para o LinkedIn deles e tudo continua na mesma: procurando novas oportunidades. Nada de emprego novo para quase ninguém.

Eu mesmo fiz algo como 15 entrevistas de emprego para conseguir minha vaga no estágio remunerado no final do ano passado, lembra-se? Desta vez foi de segunda... 

Enfim: é preciso ter força e perseverança para superar as dificuldades do começo por aqui. Não há outra coisa! Mas para quem dá duro e faz sua parte direitinho e sem jeitinhos, o Canadá pode sorrir logo. Por isso, o negócio é correr atrás. Ir à luta mesmo.






Como vocês sabem, eu completei meu curso no college após dois anos. E, após essa experiência, fico pensando em tantas pessoas que vêm estudar aqui ou pretendem fazer isso. Qual será a expectativa dessas pessoas quanto ao curso? Como está a disposição delas para isso?
Porque o lance é o seguinte: se você pretende levar seu curso a sério - o que é fundamental, pois a maioria absoluta das pessoas que vêm fazer college aqui quer ficar de vez e depende de um bom trabalho nessa etapa para isso - saiba que muitos programas não são nem um pouco fáceis e não dá para achar que a vida vai ser tranquila.
Ainda mais se você estiver disposto(a) a aplicar a Regra de Ouro do Alexei, que resumidamente significa dar o seu melhor em 101% do tempo e fazer de tudo para ser o melhor que puder ser durante o curso, saiba que a vida periga não ser exatamente tranquila. Muitas vezes não existe essa de "tenho experiência, só estou aqui para me qualificar e obter a experiência canadense e o networking que tanto contam por aqui e daqui é partir pro abraço, pro emprego, pra residência permanente..."
A minha vida durante os períodos de aulas não foi nem um pouco tranquila. Além dos desafios extras que precisei superar, meu curso de Interactive Media Design foi insano. E por quê?

  • A carga horária é puxada. Dias com seis horas ininterruptas de aula, ou com uma jornada de oito ou nove horas de aulas e alguns intervalos, eram comuns no meu curso;
  • Os horários de aula não são regulares como frequentemente acontece no Brasil. A grade de horários depende da disponibilidade de professores que podem ter empregos regulares das 9 às 5 e por isso só dão aulas à noite. Muitas vezes eu saía do Algonquin College às 8 da noite para estar lá novamente às 8 da manhã. Em alguns dias eu chegava em casa às 11 da noite, em outros dias saía de casa às 6 da manhã (no inverno!)... Isso era bem sacrificante para mim, pois eu não tinha horários certos para nada. Nem para comer (e eu comia muito mal), nem para dormir... Meu corpo não gostava disso;
  • Além das longas horas em sala de aula, há os assignments. O que são esses ditos cujos? São trabalhos que você faz em casa para as disciplinas. No meu curso, praticamente não havia provas mas os trabalhos estavam sempre ali à espera. Os pequenos trabalhos e os grandes: há os de meio de semestre, chamados de midterm, e os finals. É dos trabalhos que vem o aproveitamento no curso. Quer saber? Não cheguei a virar noites sem dormir mas já fiquei várias vezes por 12, 14 horas ininterruptas fazendo assignments nos finais de semana;
  • Por conta dessa carga horária, que pode ser adequada à disponibilidade e ao nível de energia de jovens de 20 anos mas não exatamente a alguém com 35 ou 40 anos, é meio difícil trabalhar durante o curso. Normalmente, o máximo que vai dar para fazer é arranjar um emprego dentro do próprio campus;
  • Está levando a família, filhos, etc., e vai fazer college? Não haverá muito tempo para a família e você terá de se desdobrar heroicamente. A rotina de um college é muito adequada para jovens solteiros, sem maiores compromissos além do estudo. Não é fácil para casais com filhos onde um estuda e o outro trabalha. As crianças não podem ficar sozinhas em casa por aqui;
  • Os colleges tentam simular ambientes super-acelerados de trabalho para preparar os alunos para o trabalho. O que você experimenta num emprego de 9 às 5 é multiplicado durante o curso.
Há quem não leve muito a sério as aulas, pouco apareça e faça o suficiente para ser aprovado no fim do semestre. Na base da estratégia, saca? Porque na realidade, simplesmente passar nas matérias não é nada difícil. No meu curso, só não passava quem não queria. Mas passar com notas realmente boas não é para muitos. Como aqui a GPA (média numérica de aproveitamento de um curso) costuma ir para o currículo, nota boa conta sim! Uma GPA superior a 3.9 (em 4) salta aos olhos dos empregadores. E tem outra coisa: aqui no Canadá a reputação de uma pessoa é levada bastante a sério. Quando você vai procurar um emprego, é comum que o seu entrevistador telefone para as suas referências pedindo informações a seu respeito. E sabe quem serão as suas primeiras referências? Seus professores. Eles estão no mercado e rapidamente percebem os alunos mais interessantes.  Podem abrir portas. Não desperdice esses contatos!
Por essas e outras, ser medíocre aqui não rola. College não é brinquedo. Ainda mais se você está investindo as economias da sua vida e contando com isso para obter a sonhada residência permanente. No meu curso, a anuidade para alunos internacionais era de cerca de 15 mil dólares. Algo em torno de 40 mil reais, só em tuition fees.
Não se preocupe em ser o melhor aluno da turma. Por mais que o mundo seja competitivo, mantenha o foco em você e procure dar o seu melhor independente dos outros. O esforço honesto e sincero aqui conta muito.
Com tudo isso você ainda vai brincar e ficar levando o college na flauta? Bom, quem avisa amigo é. Essa é a batalha da sua vida! Faça as coisas direito, com seriedade, buscando dar o seu melhor em todo o tempo. E será recompensado.


Volta e meia aparece alguém me fazendo perguntas inoportunas sobre imigração. Não estão nem aí se estou trabalhando, se estou fazendo algo importante... disparam perguntas, perguntas, perguntas... E o pior de tudo é que se respondo "não", ficam com raiva.
A pessoa quer fazer mestrado no Canadá com bolsa (provavelmente concedida pelo Canadá). É possível? Creio que sim, mas não deve ser muito fácil. Não sei quase nada sobre questões acadêmicas aqui.
Além disso, a pessoa queria que eu a pusesse em contato com alguém que foi YouTuber mas desativou seu canal há tempos. Eu o conheci pessoalmente mas não falo com ele há dois anos. E sei o quanto ele preza sua privacidade.
Então eu tive que dizer "não" e Brazukis Pergunttis se alterou.
Vem cá... Não é que eu não queira ajudar pessoas, mas...
  1. Não tenho condições de ajudar qualquer pessoa da forma como ela quer. Não sou consultor de imigração e nem consultor educacional. E principalmente, sei muito bem que meus AMIGOS brasileiros são bem poucos por aqui - na maioria são "colegas de imigração" - e que o número relativamente grande de pessoas que me segue em redes sociais não corresponde a AMIGOS.
  2. Por mais que exista ajuda de outras pessoas, cada pessoa faz seu caminho porque os outros não têm obrigação de saber tudo o que ela precisa. Vocês acham que eu tive ajuda de brasileiros? Tive alguma ajuda sim, mas a maior parte da minha caminhada foi solitária. Fui atrás, pesquisei... E por um tempo me dispus a ajudar quem pudesse aplicar para imigração na categoria self-employed porque não havia informações na rede. Mas mesmo assim tive muitas dores de cabeça. Percebi que gratidão pode ser mais rara do que ouro e que basta uma divergência de pensamento sobre algo pequeno - ter carro ou não ter carro... oi??? - para a briga feia aparecer. Thoo Propósito, Ronda Rauzy, Guinho e outras personalidades do UFC estão prontos para atacar!
  3. Eu só ajudo quando eu quero e quando eu posso. E como eu posso. Não sou ONG para ajudar brasileiros!

A pessoa ficou dizendo algo como "ninguém ajuda" e dando a entender que nem eu nem ninguém lhe ajudaria... Não é verdade: há muitas pessoas, profissionais e amadoras, que disponibilizam informações. E podem ajudar muito mais do que eu! Já ouviu falar de Google? De Scholarships Canada? De Estudar Fora? Mas escute bem: ninguém vai te carregar no colo e te dar todo o caminho das pedras, de graça, para chegar aqui.
E ninguém morre por causa disso. Na verdade o que não mata, fortalece! Se eu consegui chegar até aqui da forma como cheguei, você também pode!
Então peço encarecidamente: respeite minhas limitações de tempo, disposição e estrutura para ajudar e não venha me inundando com perguntas. Não abuse da minha boa vontade, pois assim corremos o perigo de ela acabar. Nem fique com raiva se eu precisar te responder "não". Porque muitas vezes vou precisar, e vou fazer isso!



A vlogger Kitty Avelino, do canal Kitty no Canadá, fez uma viagem pela costa leste do país em busca de uma nova cidade para morar. Aparentemente ela não gostou de Vancouver e resolveu explorar Toronto, Ottawa e Montréal. E, dentre todas essas cidades, acabou preferindo Ottawa.

Todavia, a descrição da cidade feita por ela em seu vídeo mistura impressões típicas de quem vem e passa poucos dias com clichês a respeito da cidade que podem estar desatualizados ou simplesmente não corresponderem à verdade. Por isso mesmo, segue aqui um relato feito por alguém que mora na cidade há 2 anos e meio e pode trazer uma visão um pouco diferente não só para a Kitty mas para qualquer um que deseje viver em Ottawa.

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- Ottawa é uma cidade de área enorme porque houve uma amalgamação em 2001. Com isso, as pequenas cidades que ficavam ao redor da cidade - que tem até um enorme cinturão verde planejado - foram integradas a ela e transformaram-se em subúrbios e áreas rurais. E o que era uma pequena capital de 300 mil habitantes se transformou numa cidade grande com cerca de 1 milhão e repleta de contradições. Era a cidade com o maior walk score da América do Norte mas perdeu muitas posições em razão da integração dos subúrbios carro-dependentes. Particularmente, sempre fui contrário a essa amalgamação porque ela colocou o destino das pequenas comunidades nas mãos de pessoas que talvez nunca tenham ido até lá. E consequentemente impediu que cada uma delas adotasse soluções próprias, dependendo do poder central da City Hall de Ottawa. Essa é uma reclamação constante;

- Além disso, Ottawa é apenas parte da National Capital Region, salomonicamente dividida entre Ontario e Québec desde os tempos da Rainha Vitória da Inglaterra. A divisão prática entre Gatineau e Ottawa é inexistente e dá para ir a pé de uma cidade a outra. Vou da minha casa a várias partes de Gatineau muito mais depressa do que a muitas partes de Ottawa;

- A urbanização de Ottawa é bizarra. O centro antigo com cara de Inglaterra e Holanda é a melhor parte da cidade, mas os padrões estabelecidos ali não foram seguidos nas partes mais novas da cidade, que são totalmente influenciadas por um modelo norte-americano sem charme e sem alma;

- O transporte público de Ottawa é um assunto complexo e confuso. Ottawa está saindo de uma situação de dependência total do automóvel para uma situação onde o automóvel terá que dividir espaço e não será muito benvindo em certas áreas. Afinal, o centro da cidade é velho e não tem estrutura para tantos carros!
Há um Master Plan elaborado pela prefeitura para 2031, que pretende "build a livable Ottawa". E o objetivo é reduzir o percentual de viagens feitas de carro e aumentar o uso de transporte público, bem como as caminhadas e o uso de bicicleta.
Quanto aos ônibus, o que existe hoje é um sistema de BRT integrado com linhas que fazem as rotas estações - bairros. As rotas do BRT, chamadas de Transitway, são basicamente duas. Leste-oeste e norte-sul, ou seja, um T, e se encontram na atual estação Mackenzie King (situada no shopping Rideau Centre, perto do Parlamento). A Transitway foi desenvolvida principalmente para atender aos servidores do governo federal, mas quem mora perto dela, principalmente na área central, fica muito bem servido e consegue ir até a maioria da cidade com um ônibus só. Esses ônibus funcionam bem inclusive no inverno, porque a Transitway é prioridade absoluta para remoção de neve. Reclama-se muito da OC Transpo, mas quem faz isso precisa se lembrar que a maior culpa pelos problemas dos ônibus na cidade é da própria população. Muitas pessoas aqui estão mais preocupadas com seus carros e não fazem nada para reivindicar melhorias nos ônibus;

- O maior problema de Ottawa é o trânsito. Confuso, saturado, mal regulado e ainda por cima os motoristas são muito mal-educados;
- O segredo então para se viver bem em Ottawa com o transporte público é escolher bem onde você vai morar. Há algumas partes da cidade que são estratégicas e onde se vive muito bem sem carro. Você pode até fazer a maioria dos seus deslocamentos a pé - inclusive nos dias mais frios do inverno - se morar nessas regiões e tiver a sorte de trabalhar no centro. Infelizmente, muitas empresas de tecnologia estão situadas em Kanata, subúrbio situado a 25 km do centro. De qualquer forma, existe uma área na cidade que representa um verdadeiro oásis, porque as opções de transporte coletivo são fartas (com a Transitway do lado) e a facilidade para fazer coisas a pé é muito grande. Se você quiser saber qual é essa área, me pergunte! ;-) Fato é que eu vivo aqui há dois anos e meio, sem carro, e nunca me vi em uma situação em que lamentei não ter carro. Pelo contrário, gosto muito de caminhar pela cidade, ver pessoas e descobrir novos locais e novas perspectivas a cada quarteirão; - Ottawa já tem um LRT que funciona há alguns anos - o O-Train - mas hoje em dia ele vai do Nada para o Lugar Nenhum passando pela Carleton University. A celebrada expansão que será inaugurada no ano que vem e estendida em 2023 vai substituir a Transitway de hoje (ou seja, de BRT passaremos a LRT, com uma parte de subsolo no centro que representará nosso "pedacinho de metrô"). Mas as integrações com ônibus e a pouca frequência em áreas de menor densidade continuarão. E ah! Dos subúrbios, somente Orléans - o "subúrbio francófono" que não atrai muito os brasileiros - tem perspectivas de receber o O-Train e apenas em 2023; - Esse papo de que Ottawa é uma cidade parada e não tem muita vida noturna não procede. A cidade tem uma vida noturna bastante agitada e vibrante. Às vezes até demais! kkkkk! Só que tudo está localizado em pequenas regiões do centro... o Byward Market, o "baixo" Elgin Street, o "baixo" Somerset Street... Mas se você procurar há de tudo para todas as tribos: gays, lésbicas, hipsters, geeks, nerds, alternativos, headbangers, punks, motociclistas, hip-hoppers, fãs de música eletrônica, milionários ostentadores, fãs de música country, vegans, torcedores de hockey, estudantes sem muito dinheiro, fãs de artes mais refinadas... E Ottawa tem dezenas de festivais muito bons! A questão é que não existe muita divulgação nem muito hype em âmbito nacional e é preciso explorar um pouco a cidade até encontrar o que você procura. E sim, muitas vezes você encontrará as mesmas pessoas nos mesmos locais, sempre! Mas isso não é ruim: você terá a chance de fazer novos amigos! Mais uma vez, a culpa dessa caracterização de Ottawa como "a cidade que a diversão esqueceu" é dos próprios moradores da cidade. Mas pergunte a eles se querem fazer de Ottawa uma nova Montréal ou Toronto... E ah! Os subúrbios definitivamente não têm boas opções de cultura e diversão (exceto Orléans, que possui o Shenkman Centre);

- Os subúrbios de Kanata e Barrhaven são muito populares entre os brasileiros por diversas razões: tranquilidade, imóveis grandes e mais baratos, boa estrutura para famílias. Mas tudo que se encontra nesses subúrbios pode ser encontrado em outras partes da cidade da mesma forma e com os mesmos preços. Convém explorar bem para definir qual é o melhor lugar para você, a partir da sua própria perspectiva e não das opiniões de outras pessoas; - Muitas vezes as pessoas venderão a imagem de Ottawa como uma boa cidade para famílias. Sim, é! Mas é também uma boa cidade para jovens, estudantes, solteiros, pessoas idosas, casais sem filhos, malucos de todo tipo de vida alternativa e extraterrestres; - O mercado de trabalho em Ottawa tem suas peculiaridades e dificuldades e embora algumas pessoas consigam emprego com facilidade por aqui, não será fácil para todos. Não há tantas vagas como em Montréal ou Toronto e a competição com canadenses nativos que dominam os dois idiomas - francês é muito importante no mercado de trabalho daqui, inclusive para empregos de entrada! - e têm experiência local é acirrada.

Acabaram de sair as notas. Tudo certo. Cumpri com todas as obrigações escolares e agora posso me considerar graduado em Interactive Media Design no Algonquin College. Pronto, já tenho direito a um diploma canadense!

Foram dois anos de muito esforço e muito trabalho duro para fazer o melhor. Acho que fiz um bom trabalho. Em todo o meu currículo acadêmico há uma nota A- (80-85 em 100) e de resto há alguns A (85-90) e a maioria das notas é A+ (90-100). Isso me garante uma média muito boa e a permanência na Dean's List.

(importante: na figura aqui em cima só estão algumas das notas).

Não fui ao college para fazer amigos. Fui para obter uma certificação profissional canadense em uma área de certa forma compatível com minha formação anterior e onde há uma melhor empregabilidade do que a naturalmente instável carreira musical. Mas conheci ótimas pessoas das quais sempre me lembrarei com carinho e que sempre contarão com minha torcida. E também conheci pessoas que minha memória ficará grata em apagar, mas que espero que sejam felizes em sua caminhada.

Foram dois anos de dificuldades e superação.

Aprendi que boa parte dos meus colegas mais jovens ainda não compreende as barreiras que seu país impõe aos imigrantes, incluindo aqueles que já possuem uma formação acadêmica completa como eu. E a contradição existente entre essas barreiras e as portas abertas para imigração legal. Por mais que se questione, a barreira da experiência canadense é uma realidade por aqui. Muitas vezes silenciosa, como tantos preconceitos e errinhos humanos indesejáveis pelas cartas de direitos e leis mas ainda existentes pelas ruas. 

Alguns não me entenderam. Enxergaram arrogância onde havia o medo e a incerteza de estar ali e poder fazer um bom trabalho. 

Conheci a solidão em muitos momentos. E aprendi que a solidariedade não virá simplesmente porque as pessoas têm a mesma nacionalidade; pelo contrário, quem fala a sua língua e possui um passaporte igual ao seu pode ser seu pior inimigo e estar pronto para lhe esfaquear pelas costas.

Mas agora chegou o momento de seguir em frente e, agora com uma qualificação canadense e com experiência profissional canadense adquirida no meu semestre de estágio remunerado - realizado numa ONG onde passei os melhores momentos do meu curso e da qual definitivamente sinto muitas saudades -, é hora de procurar trabalho para pagar as contas. Chegou a hora de enfrentar as feras por aqui... E como muitas coisas que surgem na caminhada de um imigrante neste país, haverá novos desafios e novas dificuldades. 

Não há muito tempo para pensar. É enfrentar o que precisa ser enfrentado. Não há muita escolha; essa é a vida. De qualquer forma, já posso olhar para trás e ver uma etapa cumprida nessa caminhada. E cumprida da melhor maneira que eu poderia cumprir. Com seriedade e sobretudo com integridade em todas as instâncias. Pois tudo que consegui veio do meu próprio esforço.

É isso, então. Adeus, Algonquin College! Ou até algum dia desses. 




Podia ser qualquer dia de aula. Mais um entre tantos. Semestre de verão, a turma de Interactive Media Design já estava bem reduzida porque ali estavam apenas os alunos que fizeram estágio remunerado durante o inverno. Os outros já tinham se formado ao final do mesmo semestre.


Podia acontecer por qualquer motivo. Muito frequentemente, eu estava fazendo uma pergunta para o professor ou falando com qualquer pessoa. Mas a voz de Nina (o nome foi alterado), com um inglês difícil de entender porque ela fala muito rápido e embolado, se fazia sentir:


- Alexei $#$%$%^$%^$#@@$#@$#...


Eu não entendia, até porque não prestava atenção nela e ela nunca fazia parte da conversa. Eu não estava falando com ela. Ela simplesmente estava por perto. Mas fazia questão de intervir. Não me deixava falar e eu podia perceber que a tônica da coisa era negativa.


Nina, no frescor de seus 21 anos recém-completos. Uma garota aparentemente inclinada a ser uma queen bee a todo custo dentro daquele mundinho estranho do IMD. E que parecia se sentir muito incomodada com a presença de um homem tão mais velho ali na sala de aula. Quando todos os alunos estavam por ali, passava apagada. Estava longe de ser uma garota popular e ficava quieta no seu cantinho. Mas com a turma menor, ela talvez tenha sentido uma oportunidade de transformar-se na dona do pedaço. Logicamente, ela não compreende as sutilezas de seu país natal. Mesmo sendo filha de imigrantes do Oriente Médio, desconhece a "barreira da experiência canadense". Devo admitir que é uma garota talentosa e boa aluna. Foi a primeira a conseguir uma vaga de co-op. Mas aparentemente não sabe conviver com equipes muito bem. Tanto que não gostou da experiência. O que ela parece conhecer muito bem é o mimo. Não sei como é sua vida familiar, mas não me parece que ali há coisa boa. Nina me parece bem infantil para sua idade. Gosta, por exemplo, de ficar imitando vozes de personagens de desenhos animados ou conversando no que eu chamo de duck language ("mi! mé! muu!") com seus amigos. Está habilitada para dirigir, mas sinceramente não acredito que estaria suficientemente madura para ter a responsabilidade sobre vidas alheias em suas mãos.


As semanas foram passando e as "participações especiais" de Nina na minha vida não pararam. Por muito tempo tentei ignorá-la. Mas era difícil, porque fomos designados para o mesmo time na disciplina Applied Projects. Teríamos que executar um projeto juntos. Éramos quatro no início. Eu, Nina, John (o líder) e Emma (a segunda líder). Mas, muito estranhamente, Emma desapareceu no início de junho. Aparentemente decidiu correr atrás do sonho de ser comediante e abandonou o college a poucos meses de se formar. Nina, então, literalmente "tomou de assalto" a posição de segunda líder e passou a se comportar como se fosse minha chefe.


Teria sido bem mais fácil se não fôssemos do mesmo time. Eu a evitaria (o que já estava fazendo), ficaria longe dela e pronto. Mas estávamos trabalhando juntos e era um inferno. Nas reuniões de time, ela não me permitia falar. Eu estava explicando algo relativo às minhas atividades para o professor ou para o facilitador, ela já vinha me cortando.


Alguém aí conseguiria manter a paciência e a frieza após a trigésima vez? Pois bem. Minha paciência se esgotou quando, no início de julho, tivemos um problema sério com um professor que (bem brasileiramente) se ausentou do college no dia em que precisaríamos fazer o trabalho de meio de semestre e tentou mandar um esquema para "estar em dois locais ao mesmo tempo" e receber por dois trabalhos realizados na mesma data e hora... Para encurtar a história, a decana da escola de Mídia e Design se envolveu e foi à nossa sala trocar uma ideia. Quando eu pedi a palavra e estava falando para ela como me sentia com o caso do professor - o que era meu pleno direito - Nina tentou me cortar mais uma vez. E eu reagi:


- Nina, pare! Me deixe falar! Pare, Nina! Você já fez o suficiente!


Ela parou. Mas não foi fácil: tentou continuar falando, eu mandei parar... E uma hora ela parou. Essa cena ocorreu diante de todos os outros alunos, da decana e do professor.


Vocês vão me perguntar por que nunca chamei a Nina para conversar num canto e abri o jogo com ela. As razões são várias:


- O que ela fazia era o cúmulo da falta de educação. Repito: me cortava quando eu estava falando com outras pessoas. Ela não estava participando da conversa e nada que eu dizia interessava diretamente a ela;

- Ela nunca me pareceu disposta a escutar. Seria perda de tempo;

- Em várias situações ficou muito claro que eu não estava gostando nem um pouco do que ela fazia. Foram vários avisos. Eu sempre imaginava que ela agora iria parar e pronto. Mas ela não percebia os sinais, ou percebia e os ignorava. E não parava. Não tinha jeito;

- Não havia qualquer possibilidade de ela estar fazendo tudo aquilo sobretudo por imaturidade ou infantilidade. Não. Ela não cortava outras pessoas. Ela não gostava de mim e resolveu pegar no meu pé. Bullying.


Voltando um pouco no tempo, ficou mais do que claro que ela não gostava de mim quando tivemos o tal problema com o professor. Ele ofendeu um outro colega nosso chamado Damon. A aula acabou ali mesmo, Damon saiu da sala e eu fui atrás para lhe prestar solidariedade e ajudá-lo a carregar o equipamento de vídeo. Nina não perdoou:


- O que você está fazendo aqui? Estamos indo fazer um vídeo!

- Estou aqui para ajudar Damon com o equipamento. Ele não vai levá-lo para a video room?

- Não! Vamos fazer um vídeo agora!


Eu fui embora. Nesse instante percebi que ela realmente não me queria por perto. Não reagi naquele instante mas prometi a mim mesmo que isso ia acabar. Eu iria reagir das próximas vezes. E assim foi quando a decana apareceu por lá. Ninguém iria me tirar o direito de me expressar e de falar com outras pessoas sempre que precisasse e quisesse.


Faltava pouco tempo para o fim do curso e eu provavelmente nunca mais veria Nina na vida. Cortei qualquer contato com ela fora do ambiente do time e, mesmo ali, eu só falava com ela o necessário. Evitava fazer contato visual com ela e não ficava junto do grupo nos momentos mais do que tediosos em que ficávamos esperando o horário de nossas reuniões. Nas atividades obrigatórias, a vida era essa: eu tinha que falar alguma coisa, Nina tentava me cortar na frente dos professores e da cliente, eu a mandava parar, ela parava. Avisei os professores responsáveis, que concordaram comigo que naquela altura não havia o que fazer, e também falei com John (o team lead).


A apresentação final do projeto foi difícil. Isso porque já estava claro para qualquer um que eu não suportava mais a convivência com Nina. Ela já sabia. A turma inteira sabia. John tinha falado com ela. Os professores também falaram. Sua expressão jururu, evitando chegar perto de mim, mostrou isso. Em seu afã para mandar, o fato de eu ter reagido e estar me insurgindo contra ela parecia incomodá-la profundamente. Fizemos nossa parte com profissionalismo e eu fui embora. Decidido a não voltar para o evento de demonstração e networking que ocorreria na semana seguinte. Não valeria nota e, diante de todos os acontecimentos, não seria positivo para ninguém. A missão estava cumprida. Nosso trabalho era bom - graças aos talentos individuais, porque nunca fomos um time de fato - e a cliente estava feliz. Mas estava longe de ser o melhor para ganhar o prêmio. O clima estava muito ruim e eu não queria me expor para outras pessoas numa situação em que eu não me sentiria feliz, livre e no meu melhor. Passar horas num mesmo stand na companhia desagradável de Nina? Não mesmo!


Avisei a todos que não queria ir ao ARI Day. E não fui. Acabou. Adeus, Nina!


Terminar esse curso, no final das contas, me exigiu uma força que nunca precisei ter no Brasil. Teria sido bem mais fácil se não tivéssemos que trabalhar em equipe em vários momentos do curso. Não sou perfeito e cometi meus erros por lá, mas em algumas situações (como no "caso Nina") eu não fiz absolutamente nada de mais. Estava tentando ser amigo de Nina ou me entrosar com ela? NÃO. No máximo, estava tentando conviver bem com ela e com qualquer outra pessoa num ambiente profissional. Fora isso era uma colega como qualquer outra. Mas alguns daqueles jovens ainda não estão preocupados com isso. Querem outro tipo de relacionamento, querem amigos para sociabilizar e se divertir. Terão tempo para se adequar às relações de trabalho e aprender - muitas vezes com dor. Fato é que o bullying pode ocorrer nos colleges e quando você é diferente pode ser que ele aconteça. Espero sinceramente que não ocorra com você. Mas se acontecer, não fique parado! O college periga ser importante demais para deixar levando e cada dia pode ser um degrau a mais para baixo. Procure ajuda. Fale com os profissionais responsáveis dentro da instituição. Se puder, converse com as pessoas que estejam lhe causando esses problemas (pode ser por imaturidade). Mas não fique parado. Bullying infelizmente é uma realidade que deve ser combatida.



Estou escrevendo este post ainda sob o efeito da tristeza de ler que uma família pela qual torci muito teve sua aplicação de residência permanente recusada na categoria Self-Employed Federal do Canadá.


Isso pode acontecer. Com qualquer um e a qualquer momento. O roteiro é parecido: a pessoa despeja seus sonhos e sua ânsia por uma vida melhor, tudo multiplicado pela situação atual do Brasil. É... não dá mais para varrer aquilo tudo para debaixo do tapete. Acabou...


E o Canadá vem se transformando na terra prometida dessa gente que perdeu a fé no próprio país. Alguns guerreiros vão para a batalha da residência permanente desde já, sem temporadas de estudo por aqui. Mas voltam vencidos em meio a lágrimas de desesperança. O sonho acabou. Mas pelo menos a batalha foi travada em casa. Pior só mesmo se a pessoa investisse o que tinha e o que não tinha, veio para cá fazer um college e por qualquer motivo a residência permanente não foi possível.

Sei que esse momento não é fácil. Mas pode chegar. Na realidade, todos nós passamos por reveses e derrotas nas nossas vidas. E às vezes a vida... e a imigração canadense... podem parecer muito injustas. Como entender quando uma pessoa que fez muito menos do que nós ao longo da vida comemora a residência permanente e nós não conseguimos?


Não que eu queira desmerecer qualquer pessoa que obtém a residência permanente. Na verdade, eu admiro muito quem parte para a aventura do College, com ética e respeito pelo próximo, pela coragem e pela ousadia. Todos são guerreiros e não é nada fácil deixar tudo para trás e investir o que podem ser as economias de uma vida inteira em algo incerto. Algo que eu poderia ter feito na Inglaterra, em 2008, e não tive coragem. Mas por outro lado também sei como é doloroso receber uma negativa após colocarmos uma vida inteira de esforço numa caixinha de documentos. Por alguns momentos é como se o seu mundo caísse.


Mas não deixe que seu mundo caia mesmo.


Nem se deixe levar por essa onda que faz crer que o Canadá é a terra prometida. Porque ele não é. Está na moda vir para cá - perigoso - e muitas pessoas nem sabem direito o que as espera aqui. Não é fácil. Respire e pense que você pode tentar de novo, ou tentar alguma outra coisa. A terra que espera por você pode ser outra. Sua missão pode ser outra.


A propaganda (meio enganosa) fala que o Canadá precisa de profissionais, precisa de gente... e seu coração dói. Mas acredite que há outros lugares precisando de gente boa e talvez com portas abertas para você. Ou então que a sua missão é outra: fazer parte desse grupo de gente tão especial que ficará com a missão de reconstruir esse país que hoje se chama Brasil. Que está no chão, despedaçado, mas precisa muito de gente boa, corajosa, ousada e competente! Por mais que o meu destino fosse ir embora em busca de uma segunda chance fora, não quero acreditar que todos os brasileiros se conformam com a situação e que o buraco é mais fundo.


Então por menos que você pense que pode fazer, saiba que o Brasil precisa de você! OK, o Canadá não deu certo para você. Chore o que precisar, mas levante essa cabeça. Se o que temos para hoje é ficar no Brasil e seguir a vida, vamos encarar a missão tão nobre e importante de levantar um país mesmo que através da soma de pequenos gestos. Quem sabe amanhã as coisas não estarão muito melhores?


Não há nada mais resiliente do que a verdadeira esperança.

Este post também foi publicado na minha coluna no Canadá Agora, mas diante da seriedade da questão quero repostá-lo aqui também.

Na última semana, fiquei sabendo de uma situação ocorrida em um dentre os vários grupos de imigrantes brasileiros no Canadá pelo Facebook. Vou copiar agora um relato resumido escrito por alguém que assistiu à discussão, para sintetizar o que houve:
“Uma pessoa (homem) escreveu um artigo bem misógino e tendendo totalmente para um lado religioso fanático a respeito da pílula abortiva que será distribuída no Québec. As mulheres que ali estavam se sentiram ofendidas, bem como diversos homens. Resultado: 6 criaturas, incluindo o autor, mandaram as mulheres voltarem para o seu habitat natural: cozinha, vender tupperware, etc. Não bastante essa situação de humilhação para as mulheres começaram a expulsar as mulheres do grupo e não os agressores.” 
Posso dizer que a situação me chocou. Sinceramente, não esperava esse tipo de situação ou atitude ocorrendo num grupo de imigrantes brasileiros no Canadá. Como não espero – e fico chocado – isso ocorrendo em qualquer lugar. Mas num país tão zeloso pela igualdade de direitos entre as pessoas independente do gênero, não posso acreditar que continuam mandando as mulheres para a cozinha ou vender tupperware. Na província de onde partiu o caso há uma carta de direitos e liberdades individuais. Lá se diz: toda pessoa tem direito ao pleno e igual reconhecimento de seus direitos humanos e liberdades. Independente de sexo e identidade/expressão de gênero, dentre outros elementos. E que ninguém deve assediar outra pessoa com base nessas condições.
Nessas horas fico pensando o que motiva uma pessoa a sair do Brasil e emigrar para um país como o Canadá. Cada pessoa poderá mencionar dezenas de motivos que talvez possam ser sintetizados na crise de valores que nosso país atravessa. Mas que no meu entender existe desde que o Brasil é Brasil. Só que agora os paliativos de sempre não funcionam mais para tirar o país de um beco sem saída.
Não podemos fechar os olhos para um fato inexorável: o Brasil como instituição deu errado e todos os brasileiros têm um pouco de culpa. Eu tenho um pouco de culpa, você tem um pouco de culpa, e por aí vai. Muitas vezes sem perceber, propagamos valores culturais podres e corruptos. Posso dar milhões de exemplos, mas cito a mãe que desaprova e xinga o político corrupto mas quando o encontra pessoalmente trata de lhe pedir um emprego para o filho. Nossas pequenas atitudes, por mais “inofensivas” que pareçam ser, também podem ser muito reprováveis. Falamos dos nossos agentes públicos mas nos esquecemos de que eles simplesmente têm meios para fazer isso em grande escala. E que muitos de nós, com a mesma oportunidade, faríamos o mesmo!
Precisamos ser coerentes quando tomamos a decisão de deixar nosso pobre país em busca de uma vida melhor. Esse movimento tão drástico deveria nos fazer buscar uma transformação interior profunda. Queremos um país de primeiro mundo? Precisamos aprender a nos portar como cidadãos de um país de primeiro mundo. Queremos uma nação menos corrupta? Devemos parar de praticar ou tolerar a corrupção já. Queremos serviços públicos de qualidade que funcionam? Precisamos fazer nossa parte para que eles funcionem, inclusive cobrando melhorias dos gestores públicos. Queremos menos violência? Temos a obrigação de praticar e plantar a paz em nossos quadradinhos. Queremos benefícios? Que nos façamos dignos deles. Queremos direitos e, mais ainda, direitos respeitados? Precisamos respeitar os direitos do próximo.
Às vezes me pergunto se certos brasileiros – deixando claro que não são todos os imigrantes brasileiros – não estriam atraídos pelo sonho norte-americano de sucesso material e profissional. Ao depararem com uma sociedade fortemente igualitária, passam a falar em “qualidade de vida”. Mas que qualidade de vida é essa? Cada um tem sua opinião, é claro! Mas eu acredito que isso sempre passa por ser aceito, acolhido e respeitado pela sociedade independente de suas condições ou características pessoais.  Não há dinheiro que compre.
É fácil pertencer a um grupo que não experimenta situações de discriminação e desrespeito em seu cotidiano. Mas dizem que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Há pessoas que não vêm para o Canadá acima de tudo em busca de melhores oportunidades do trabalho. Vêm atrás da oportunidade de ser elas mesmas numa sociedade que não irá agredi-las. Não irá humilhá-las nem impedir que alcancem tudo o que desejam mantendo-as sempre numa posição inferior. 
Precisamos também nos lembrar de que sim, somos diferentes uns dos outros! Temos o direito de ser e viver como quisermos ser desde que respeitemos o direito do próximo ser e viver como ele quer ser! Mas diante de tudo que vem sendo visto pelas redes sociais ao longo dos últimos anos, penso que um incômodo número de brasileiros não sabe lidar com a diferença. Enxerga a discordância como uma agressão e muitas vezes tenta a todo custo impor seus valores aos outros. Os canadenses, pelo que tenho visto, não são tão brigões assim. Se for o caso expressarão suas ideias e debaterão com você, mas defenderão seu direito à livre expressão até o fim.
Se desejamos ter um dia a tranquila consciência do sucesso nesse nosso projeto de deixar o Brasil para trás e alcançar uma vida melhor, temos que começar por nós mesmos. Tentar deixar para trás os valores culturais que contribuíram para a situação atual do nosso país e que trazemos dentro de nós. E abrir nosso espírito e nosso coração para tudo o que este país e sua gente podem nos trazer. Para sermos, acima de tudo, pessoas melhores e capazes de contribuir para a construção de um grande país. Que mantenhamos apenas o que o Brasil nos deu de bom e positivo; o Canadá está de braços abertos para isso.

Confesso que fui pego de surpresa com a repercussão da minha postagem anterior a respeito de pessoas com passaporte europeu. Por dois fatores: primeiramente, pelo desconhecimento geral de que a cidadania de um país da União Europeia dá direito ao seu titular de viver em qualquer país membro.


Há pessoas tão obcecadas por viver no Canadá que simplesmente desconsideram outras possibilidades. Preferem vir na precária condição de estudante, pagando o que pode ser as economias de uma vida inteira, a ir para países onde já seriam acolhidas como cidadãos plenos e poderiam dispor de uma qualidade de vida semelhante à do Canadá. A matemática é simples: se você tem cidadania portuguesa, pode viver na Áustria, na Holanda, na Suécia... Não precisa viver necessariamente no país do qual é cidadão. Por mais que se fale negativamente da Europa, saiba que ela ainda apresenta boas opções para viver. O Canadá não é a única saída viável e se o seu desejo é sair do Brasil e buscar uma vida melhor em outro país, veja qual é a melhor alternativa para você. Eu no seu lugar não gastaria um dinheirão com tuition fees de college se o objetivo fosse apenas imigrar e eu tivesse a oportunidade de ser um cidadão europeu. Partiu Amsterdam! Mas o Canadá foi a saída que pude ter e graças a Deus deu certo. Vim como residente permanente. Jamais abriria mão da segurança de saber que posso ficar aqui o quanto quiser e ter vários benefícios que me são bem úteis. Muitos não têm essa opção e precisam vir de algum jeito, e é aí que entra o "plano college". Mas para quem tem a cidadania europeia, há outras possibilidades! Que bom!


A segunda surpresa, bem desagradável, foi ter recebido uma mensagem inbox no Facebook cujo remetente parece ser canadense. Não conheço essa pessoa e não faço ideia de como encontrou minha postagem. Mas tratou de aproveitar a oportunidade para destilar seu ódio e fazer algo que no mínimo é lamentável...


"Vá para a Europa... que tal ficar fora do Canadá? Por favor saia do Canadá"


Não sei se trata-se de um perfil falso de brasileiro, e não me surpreenderia se fosse. Mas pode ser um canadense nato também. Que percebeu que sou um imigrante e tratou de "me expulsar" do país.

Mas é importante que eu diga, mais uma vez, que não fiz nenhuma crítica ao Canadá. Critico apenas o sonho canadense padrão dos brasileiros que pensam que aqui é o paraíso em terra... e daqueles que faturam dinheiro com isso. Ozmano, certo? E companhia.


O Canadá é um ótimo país, mas não é perfeito. Tem manchas em sua história, tem um passado de preconceito e discriminação, enfrenta conflitos entre seus próprios cidadãos em razão de língua (e origem étnica), possui uma província separatista, possui rednecks conservadores... e a qualquer momento pode surgir alguma demonstração de ódio como esse pequeno exemplo demonstra. Por isso mesmo, não me entenda mal: há muita coisa boa no Canadá e há muitos blogueiros e youtubers falando disso. Eu optei pelo lado realista e crítico sobretudo porque não há monetização que pague me deitar com a consciência tranquila de passar para você uma noção exata do que é o Canadá e do que são os habitantes do país.


Não pretendo ir embora daqui, então não perca seu tempo me mandando de volta para o Brasil. Apenas quero ajudar você a sair do nosso país ciente de todas as opções e do que te espera por aqui se realmente fizer a escolha pelo Canadá. O mundo não é cor-de-rosa. Haverá dias de sol, dias de chuva, dias de nevasca, dias de frio intenso. Cabe a você se preparar, se proteger quando preciso e enfrentar as intempéries. (Espero que você tenha entendido a metáfora...)


E sim, denunciei esse Richard para o Facebook. Não sei o que vai acontecer nem vou ficar para ver. Aprendi a deletar e bloquear rápido. E vida que segue.


Tem cidadania portuguesa? Italiana? Espanhola? Francesa? Ou ainda não tem isso mas é neto(a) de português? Tem um bisavô italiano? Um ancestral polonês?

Está cogitando vir para o Canadá... simplesmente porque quer sair do Brasil?

Não faça isso! Não venha para o Canadá! Vá para a Europa!



Quase ninguém sabe, mas o Canadá não foi nossa primeira opção. No início queríamos ir para a Inglaterra, mas não tínhamos qualquer garantia de residência permanente por lá. Eu sou descendente direto de russos por parte de pai, o que não ajuda em nada a não ser que eu resolvesse viver na Rússia, e por parte de mãe as descendências europeias eram muito remotas. Minha família materna é quatrocentona no Brasil. A Thaisa, por sua vez, tem descendência portuguesa e italiana mais próxima. Mas nenhuma delas era suficiente para lhe dar uma cidadania. É tataraneta de portugueses por um lado, e a cidadania originária só atinge os netos e talvez os bisnetos. E por outro lado é tataraneta de italianos, mas numa linha completamente materna. Tataravó, bisavó, avó e mãe. As mulheres só conquistaram o direito de transmitir a cidadania italiana em 1948.



Precisamos então recorrer ao Canadá, que teria uma porta aberta para nós. Mas, repito, nunca pensaríamos no Canadá se tivéssemos uma oportunidade real na Europa.

Então se você é uma dessas pessoas afortunadas que têm uma cidadania europeia ou o direito a uma cidadania europeia, não caia nesse papo de vir para o Canadá. A não ser que seu objetivo seja realmente o de viver no país, e não simplesmente o de sair do Brasil e viver num "país de primeiro mundo". "Oh Canadá, we stand on guard for thee... é onde eu quero viver!" Então venha para cá! De resto, veja que outras possibilidades você pode ter!



"Mas se eu sou cidadão português, não seria obrigado a viver em Portugal? Portugal não me interessa tanto assim."

Portugal é um belo país, mas se você é cidadão português você NÃO precisa viver em Portugal! Pode residir e trabalhar em qualquer país membro da União Europeia! Se está buscando uma qualidade de vida "realmente de primeiro mundo", que tal a Holanda? A Bélgica? A Áustria? A Alemanha? A Dinamarca? Luxemburgo? A Suécia? A Finlândia?



"Meu Deus, mas você só está falando de países com línguas dificílimas!!! Holandês???? Alemão???? Sueco???? Eu quero língua inglesa!!!" Pois é, está rolando um tal de Brexit e a Inglaterra (outrora nosso objetivo e minha recomendação) está para sair da União Europeia. Mas que tal a Irlanda? Ou a Holanda, onde muita gente fala inglês e diversas vagas de emprego são postadas nessa língua? 

De qualquer forma, faça um esforço e aprenda a língua. Pode valer muito a pena. 



"Mas a União Europeia não está em crise, com empregos faltando?" Sim, apenas em alguns países que eu não mencionei... embora a França, por exemplo, possa ser uma boa opção. Numa considerável parte da União Europeia a situação está bem favorável. Principalmente quanto à qualidade de vida!

Esqueça o sonho americano e o sonho canadense. Isso é papo de comerciante (de intercâmbio e college). Esses países citados talvez possam te dar uma qualidade de vida melhor do que o Canadá. O Canadá, na verdade, precisa esquecer algumas lições que os americanos ensinaram e aprender muito com os europeus se quiser continuar entre os melhores países do mundo para se viver. Exemplos? Urbanismo sem dependência de carro, utilização de energia limpa em vez de petróleo, um sistema público de saúde melhor... 

O custo de vida em alguns desses países pode ser inferior ao de uma cidade grande canadense. 

E principalmente: com um passaporte da União Europeia, você chega a esses países com plenos direitos de cidadão. Pode residir ali o quanto quiser e pode trabalhar à vontade. A palavra "ilegal" não existirá no seu dicionário. Nada de projetos complexos e caros de imigração envolvendo estudar nesses países e depois depender de um emprego para pontuar em algo como o Express Entry! E provavelmente não haverá uma barreira discriminatória meio invisível de experiência local, como a famigerada "experiência canadense".


"Qualquer nacional de um país da UE é, automaticamente, cidadão europeu. Enquanto cidadão europeu, tem o direito de viver e viajar na UE sem ser objeto de discriminação com base na nacionalidade. Pode residir em qualquer país da UE, desde que satisfaça determinadas condições consoante alí pretenda trabalhar, estudar, etc..."

Vamos pôr tudo na balança então: se você tem a possibilidade de ter uma cidadania europeia desde já e ir para algum desses países já com a tranquilidade de saber que poderá ficar ali o quanto quiser, trabalhar e usufruir de todos os benefícios sociais concedidos aos cidadãos, para que Canadá? Principalmente se você não pode receber pelo menos a residência permanente ainda no Brasil sem precisar fazer college andando na corda bamba? Vamos para a Europa! O "sonho canadense" (que não existe, lembre-se) fica para os desafortunados como eu, que não têm como viver um lindo sonho europeu nos canais de Amsterdam.



Confesso que nunca tive a intenção de ser polêmico ou brigar com alguém. Mas acabo sendo.

É uma situação interessante, mas nem sempre confortável. Alguém pode sempre surgir do nada e te agredir. Quem parecia amigo se torna inimigo. Nas redes sociais, então... as discussões acaloradas surgem bem como os unfriends e bloqueios.

E o mais bizarro é saber que os motivos de tanta controvérsia, sinceramente, não merecem tanto ibope na minha opinião. Ter ou não ter carro? Ora ora, isso deveria ser uma opção e não uma questão de vida ou morte. Morar em subúrbio? A mesma coisa. Mas estamos vivendo num país que pode ter feito opções equivocadas há 60 anos e periga pagar o preço a qualquer momento. E numa cidade que, embora tenha sido novamente número 1 em qualidade de vida no Canadá, precisa tratar de resolver questões de urbanização e trânsito. Fazendo isso (e mais outras coisinhas), aí poderá olhar para as melhores cidades europeias de igual para igual.

É impossível melhorar? Não! Nada é impossível quando se deseja. Este livro mostra como Amsterdam deixou de ser uma cidade dependente de carros para transformar-se na capital mundial da bicicleta e desenvolver um estilo de vida próprio e, no meu entender (sobretudo após minha visita recente), maravilhoso.

Amsterdam, com seus ciclistas, com tantas pessoas andando pelas ruas, com os barcos nos canais, é uma cidade linda. Enquanto Ottawa também é uma linda cidade, mas que vem sendo castigada pelos carros em suas ruas e highways a cada dia mais engarrafadas, pelos estacionamentos ao ar livre em meio aos prédios do centro e sim, pelos subúrbios plastificados carro-dependentes.


Ninguém aqui está pretendendo abolir o automóvel. Mas sim essa doencinha urbana chamada dependência de carro. Uma cidade deve ser o retrato da pluralidade de seus habitantes e oferecer iguais opções para todos. Para os que podem dirigir e para os que não podem. Para os que querem dirigir e para os que não querem. Se isso significa restringir um pouco os carros, paciência! Ninguém morre se não tiver como dirigir, se a cidade estiver preparada!

Muito bem, eu acredito que toda essa polêmica resulta muitas vezes da dificuldade que muitas pessoas têm de aceitar uma mudança cultural atingindo algo que era tão simbólico de status e sucesso. Mas, para o Canadá, talvez seja o momento de aceitar que o mundo mudou. Repensar e transformar valores com humildade e objetividade. Tudo tem começo, meio e fim e nada se transforma sem resistência. É fato. Mas precisamos parar de brigar e encarar a vida como ela é. Perceber que somos diferentes e cada um tem o direito de viver sua vida e expor suas opiniões, dentro do seu espaço.

E viva a diferença! E vida que segue!


Acabo de retornar da Europa, onde fui apresentar um trabalho acadêmico relativo a um projeto de pesquisa desenvolvido para a UFMG entre 2014 e 2015.

Nos últimos tempos, tenho vivido uma situação complicada com a agência brasileira de fomento à pesquisa que financiou meu pós-doutorado. Ela não aprovou meu relatório final e exigiu produção acadêmica, colocando-me numa situação desconfortável na qual eu precisaria me virar com meu dinheiro para apresentar trabalhos e publicar artigos (o maior interesse da agência... não importa se é relevante. PUBLIQUE OU MORRA). Com isso, fui obrigado a viajar no meio de um semestre no college, em meio ao verão europeu (calor e alta temporada). Pagando todas as despesas.

A mudança para o Canadá prejudicou essa produção? Mais ou menos. Na área de Musicologia há poucos congressos, poucos periódicos e tudo acontece muito devagar. Alguns congressos são bianuais, os periódicos levam muitos meses para apreciar um artigo submetido... Eu simplesmente resolvi não apresentar ou publicar nada no Brasil porque meu trabalho seria melhor apreciado e criticado fora. Mas a agência exige, exige, e ameaça punir meu coordenador com a inabilitação para receber novos apoios financeiros... Ele que não tem culpa alguma da minha decisão de ir embora do Brasil. Que me punissem, então...

Mas durante a apresentação do meu trabalho no congresso da International Association for the Study of Popular Music na linda cidade de Kassel, na Alemanha, me bateu muita saudade da vida acadêmica. E muita tristeza e raiva da barreira da experiência canadense, que me atrapalha muito aqui nesse ponto.

Sempre fiz um bom trabalho e dei duro para que minhas pesquisas tivessem relevância internacional. Apresentei trabalhos e publiquei artigos na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e também aqui. Mas vir com a formação completa, ou seja, com doutorado, não me ajuda. Porque embora meu título seja reconhecido aqui, o fato de ele ser brasileiro não me torna competitivo para as oportunidades de trabalho. Barreira da experiência canadense!

Entrei no College em busca de empregabilidade rápida, mãos à obra e qualificação em áreas de meu interesse. Mas em janeiro de 2016, por motivos que já comentei, eu quis abandonar o curso e retomar a carreira acadêmica na Carleton University. Fui procurá-los e eles tinham as portas abertas pra mim.

Só que... vieram com a conversa de eu fazer um segundo doutorado porque as oportunidades são limitadas e seria melhor eu ter um doutorado canadense para ser mais competitivo... Ahã... sei, viu! Isso é pura barreira da experiência canadense somada à $. Porque fazendo doutorado, mesmo que receba dinheiro, eu tenho que pagar tuition fees.

E vamos pensar aqui com muito realismo: fazer outro doutorado e perder anos que eu já não tenho? Terminar tudo aos 50 anos sem grandes chances em razão da idade que já não me ajuda no resto? Sem chances. Além do que PRECISO GANHAR DINHEIRO E NÃO DÁ MAIS PARA FICAR PAGANDO TUITION FEES. Chega!

Por esse motivo fiquei no College.

Mas sinto falta da carreira acadêmica e fico triste por tanto esforço e investimento serem
jogados fora na prática porque o país onde estou não valoriza minha formação. Ruim para ele também, pois essa idiotice muitas vezes causa desperdício de talentos. Por mais que eu veja aspectos positivos na barreira da experiência canadense, vejo muitos outros negativos e muitos exageros que impedem mais e melhores contribuições para este país.

Eu poderia buscar outras oportunidades fora de Ottawa, mas aí esbarramos em algumas questões pessoais. Por ser casado preciso considerar os interesses da Thaisa, que não quer sair da cidade (eu sairia se precisasse).

Voltar para o Brasil ou trabalhar para o Brasil? Não, obrigado! Suzana Herculano-Houzel me representa!

A Thaisa gosta de positividade e diz para eu não pensar que Kassel foi meu canto de cisne na carreira acadêmica, que eu ainda posso ter chances no Canadá... Mas para qualquer um que diga... vamos parar de sonhar. Vamos manter os pés no chão e ser realistas. Aos 44 anos, não sou mais um jovem e a idade começa a pesar. Preciso ganhar dinheiro. O passo para trás na carreira acadêmica não compensa e por melhor que seja meu trabalho ele peca, aos olhos do Canadá, pela minha formação não-canadense. Outro doutorado, e ainda pago, não dá.

Por isso, ao terminar minha apresentação, senti uma dolorosa ponta de tristeza. Por saber que ao buscar segurança e qualidade de vida, preciso abrir mão de algo que me dá prazer e alegria, e que faz uma enorme parte de mim.

Mais um post onde eu respondo uma pergunta desagradável que me é feita frequentemente. Mais uma oportunidade para esclarecer uma opinião e deixar tudo registrado.

Em setembro de 2016, eu fui ao subúrbio de Barrhaven pela primeira vez e ali fiz um vídeo para o extinto canal Vida Que Segue - Canadá onde eu falava exatamente sobre os subúrbios. E misturando uma molecagem que sempre quis fazer com a crítica aos "vendedores de sonho", notadamente Diogo Esteves  de Orlando, cheguei a me sentar no meio da rua para fazer aquela analogia: é tão parado que até dá para sentar no meio da rua!

Achei que essa brincadeira passaria despercebida, mas não... Ronda Rouse, a justiceira dos barrhaveiros oprimidos pelas minhas palavras, surgiu montada em seu corcel negro para me dar porrada com a turma do UFC.

Começo fazendo uma pergunta, que acaba sendo desdobrada:

- Paulistanos: vocês morariam na Granja Viana ou em Alphaville?
- Cariocas: vocês morariam nos cafundós da Barra da Tijuca, no Recreio ou em Vargem Grande?
- Belo-horizontinos: vocês morariam nos condomínios fechados de Nova Lima?

Alguns moraria, outros não.

Transportem-se para Ottawa, e os locais que de alguma forma podem ser comparados às regiões que citei são exatamente os subúrbios.

Há três grandes subúrbios na cidade:

- Orléans, o mais antigo, situado na região leste e tradicionalmente francófono;
- Barrhaven, o famoso subúrbio onde me sentei no meio da rua, no sudoeste de Ottawa;
- Kanata, no extremo oeste; provavelmente o mais desejado pelos brasileiros em razão de muitos imigrantes considerados bem-sucedidos viverem lá e da existência de um polo tecnológico outrora descrito como "o Vale do Silício do Norte"... que decaiu na virada do milênio mas continua abrigando muitas grandes empresas de tecnologia.

E há ainda outros subúrbios menores como Findlay Creek (no sul), Manotick (extremo sudoeste), Stittsville e Carp (esses dois ainda pra lá de Kanata)...


Neste mapa você pode ver onde ficam os grandes subúrbios de Ottawa. Na área amarela do centro da imagem, está a parte urbana da cidade. As áreas em verde correspondem ao cinturão verde ou Greenbelt. É importante notar que esse mapa corresponde apenas a uma fração da área da cidade, pois as comunidades rurais não aparecem.

Quando surgiram, esses subúrbios não faziam parte da cidade de Ottawa. Mas em 2001, ocorreu a amalgamação de várias cidades vizinhas no propósito de "formar uma cidade que oferece melhores serviços e custa menos ao contribuinte". O resultado foi uma cidade imensa em área, altamente desfragmentada e uma situação que até hoje é controversa. Isso merece um post especial, mas resumidamente a minha opinião é a de que a amalgamação não deu certo e não deveria ter ocorrido, porque os locais amalgamados têm realidades muito diferentes entre si e seriam melhor administrados em âmbito local.

Ottawa é uma cidade repleta de contrastes e mal planejada. Tudo começou com o Plano Greber, elaborado pelo urbanista francês Jacques Greber nos anos 40 e 50. Esse plano, que não foi totalmente cumprido, criou algumas bizarrices como a remoção da estação ferroviária do centro da cidade em 1966 e a separação das áreas residenciais das áreas industriais e comerciais. Com a construção da highway cortando a cidade, esse plano coincidiu com o apogeu da car culture. E estabeleceu mais uma contradição: enquanto a área central (antiga) é densa e fácil de ser navegada sem um automóvel, as regiões mais novas são carro-dependentes.

O Plano Greber também implantou o Greenbelt ou "cinturão verde", cujo propósito era o de preservar parte dos recursos naturais da região bem como - ironicamente - conter o espalhamento da capital...

Os subúrbios - uma influência clara dos Estados Unidos - foram implantados já do lado de fora do Greenbelt. Originalmente não faziam parte de Ottawa mas uniram-se à cidade com a amalgamação. E tornaram-se regiões desejáveis basicamente pela oferta de casas grandes, adequadas para famílias com crianças, a um preço de compra supostamente mais baixo do que na cidade.

Os imigrantes são muito atraídos pelos subúrbios e tenho a impressão de que entre os imigrantes brasileiros morar em Barrhaven e principalmente em Kanata parece dar algum status. Orléans não costuma ser muito desejado, provavelmente diante da antipatia que seus habitantes francófonos despertam... mais por culpa dos seus colegas do outro lado do rio do que deles mesmos.

Entretanto, o conceito dos subúrbios é coisa dos anos 40, quando a população das cidades (e do mundo) era bem menor e o automóvel não era tão massificado quanto hoje. Mas algo saiu fora do controle - para vocês entenderem, Jacques Greber imaginava que Ottawa teria uns 400 mil habitantes no ano 2000 - e os subúrbios começaram a transformar-se num problema urbanístico por toda parte. Em Ottawa, pelas condições particulares da cidade, isso tem se intensificado bastante porque:

- a cidade tem invernos muito longos e com muita neve, gelo e freezing rain, o que causa congestionamentos até nas highways e torna os deslocamentos de carro muito perigosos. Sem falar que os carros atolam nas nevascas e você pode levar horas protagonizando cenas de comédia pastelão para conseguir sair com eles. Isso dificulta muito a vida de quem precisa se deslocar por longos quilômetros até o trabalho. E como muitas áreas de subúrbios não são consideradas prioritárias para remoção de neve, pode ser difícil até sair de casa em alguns dias;

- os congestionamentos nas highways e ruas de Ottawa são frequentes mesmo fora do inverno (o trânsito aqui no geral é muito ruinzinho);

- os subúrbios têm crescido a um ritmo muito alto e descontrolado, alcançando densidades demográficas de centro de cidade mas sem as mesmas conveniências. E salvo Kanata, são cidades-dormitório e não geram muitos empregos. Por falar em Kanata, é um tanto quanto absurda a localização de várias empresas importantes num dos extremos da cidade. Imagine uma pessoa residindo em Orléans e precisando se deslocar 50 quilômetros para ir e 50 quilômetros para voltar do trabalho? Pode ser bem estressante e cansativo.
(muitas pessoas moram em Kanata porque precisam, não porque querem)

- os subúrbios não costumam gerar muita vida cultural e entretenimento se comparados ao centro, o que contribui para a fama de "cidade chata". Mas há o Canadian Tire Centre, arena dos Ottawa Senators, em Kanata. O maior elefante branco da cidade: a arena do principal time esportivo da cidade situada a 25 quilômetros do centro e a cerca de 50 quilômetros de algumas partes da cidade? Mesmo com o time nas semifinais da NHL, muitos assentos permaneceram vazios. A distância da arena é considerada um dos fatores para uma parcela da população da cidade não torcer para os Sens (mas para os Montréal Canadiens ou os Toronto Maple Leafs).  Aparentemente, o time vai se mudar para uma nova arena em Lebreton Flats - centro - num futuro próximo, o que certamente será positivo;

- os subúrbios podem dar uma falsa sensação de segurança. Não há mendigos nas ruas e a possibilidade de assaltos é praticamente nula. Porém, há sempre a possibilidade de abusos sexuais, acidentes de trânsito, roubos a residências, etc;

- as crianças que vivem toda uma vida no subúrbio e de repente vão para a faculdade aos 17 ou 18 anos podem experimentar dificuldades em áreas mais densas se os pais não as expuserem a esse tipo de lugar consistentemente. No college tive colegas de 22 anos, nascidos e crescidos aqui, que não sabiam navegar no centro e "apanharam" quando precisamos fazer trabalhos de fotografia perto do Parlamento. O distanciamento maior entre as pessoas pode gerar crianças e jovens com maiores dificuldades de relacionamento e mais propensão a viver online, sem grandes interações com a vida real, quase o tempo todo;

- nos subúrbios não se vê tanta gente andando nas ruas (muitas vezes nem há calçadas) e algumas pessoas acostumadas com mais agito perigam flertar com a depressão;

- os subúrbios resultam da sanha das construtoras por dinheiro e destroem importantes áreas verdes e regiões rurais que contribuem para o abastecimento da cidade, influindo também no clima e na vida animal;

- o custo mais baixo da moradia nos subúrbios pode ser neutralizado pelos custos obrigatórios com um carro ou com mais de um carro, o que não é raro para famílias;

os subúrbios são feitos para praticamente obrigar seus residentes a dirigir. Totalmente errado, pois existem pessoas que não querem ou não podem fazer isso! 
E as pessoas portadoras de alguma necessidade especial que não lhes permita dirigir? Ficam totalmente dependentes se moram nos subúrbios. 
Uma cidade jamais pode estar condicionada a um meio de transporte apenas. Deve oferecer alternativas igualmente eficazes para todos, sem excluir. E permitir que dirigir seja uma opção e não uma necessidade. Os subúrbios, portanto, representam uma urbanização excludente e isso é "unacceptable".

Confesso que quando estava para decidir a cidade onde moraria tive resistências com Ottawa, por causa de empregabilidade - tema para outro post - e da tendência a viver em subúrbios por aqui, que gera dependência de carro. Os subúrbios não são para mim. Nunca morei em casa, e sempre morei em regiões agitadas e repletas de conveniências. Esse tipo de lugar me causa um pouco de tédio e não quero (e nem po$$o!) ter um carro aqui! Acabei vindo para o centro.

Defendo a vida no centro para o recém-chegado, exatamente para evitar dependência de carro e os custos decorrentes (que são altos), pelo menos antes de se estabilizar financeiramente. E muitos brasileiros não entenderam que eu nunca disse "você não deve ter carro", mas sim "você não deve ser dependente de carro". Aí Ronda Rousey surgiu para descer porrada em mim, e pelas costas, kkkk (sobrevivi). Por isso é importante que eu diga que não sou contra quem mora no subúrbio, mas sim contra o fenômeno urbanístico de sprawl. Então sim, sou contra os subúrbios tal qual estão hoje em dia, mas não sou contra você que mora no subúrbio.

Acho válido questionar sim a preferência pelos subúrbios porque você pode encontrar tudo o que busca neles em outras regiões que te darão uma melhor conveniência e poderão ser melhores a médio e longo prazo... pois os subúrbios podem se tornar inviáveis com o crescimento da população de pessoas e carros na cidade em alguns anos... Muitos argumentos utilizados pelas pessoas que vão morar no subúrbio são passíveis de discussão. Por exemplo:

- No subúrbio eu encontro imóveis grandes, com espaço para minha família, a preços mais acessíveis... bom, você já pesquisou bairros que não são subúrbios e têm o mesmo tipo de moradia, a preços mais ou menos semelhantes? Vamos ao Realtor:


Tudo bem, eu sei que neste exemplo a casa de Barrhaven ($329 K) está algumas dezenas de milhares de dólares mais barata do que as outras duas ($379 K e $399 K), que não ficam em subúrbio. Mas vocês podem perceber que a diferença de preço não é gritante. E é possível encontrar imóveis até mais baratos do que os de subúrbio fora do subúrbio. Basta querer e pesquisar.


- Nos subúrbios estão as melhores escolas da cidade. Estou pensando nos meus filhos. De fato há ótimas escolas em Barrhaven e em Kanata, mas nem todas as melhores escolas elementares da região estão por lá.  E no caso das escolas secundárias, o páreo é ainda mais duro. Você estará bem servido de escolas para seus filhos se não optar pelos subúrbios.
Para as crianças que moram na área central (acredite, elas existem... moro num prédio de condos pequenos e só no meu andar moram três crianças), as opções culturais estão "in a walking distance", por sinal.

- Segurança, inclusive para minha família. A chance de morrer ou se ferir num acidente de trânsito em Ottawa é muito maior do que sofrer um crime realmente violento. Em 2015, houve 15.076 colisões de trânsito, com 3.789 feridos e 22 mortos.  
 O número de feridos no trânsito não é muito inferior ao total de crimes contra a pessoa ocorridos no mesmo ano na cidade. Ainda em 2015 houve sete homicídios.
Há ainda a questão da violência sexual, que pode estar em toda parte.
É interessante pontuar que a maior parte dos cruzamentos campeões de colisões não fica no centro (mas um fica em Orléans, subúrbio), e que a geografia dos homicídios em Ottawa é um tanto quanto difusa. A realidade daqui é diferente da de uma cidade grande brasileira e é preciso pensar com a cabeça daqui, sem comparações. Seus filhos podem estar a salvo dos mendigos e drogados da George Street se você mora num subúrbio, mas eles não estão a salvo de outros problemas como acidentes de trânsito e violência sexual.

- Subúrbio dá status. Só mesmo entre imigrantes movidos pelo sonho canadense... na verdade pelo sonho americano aplicado ao Canadá. O crescimento populacional do centro, após anos de números próximos ou abaixo de zero, está hoje em dia equiparado ao dos subúrbios. E entre os canadenses as regiões "it" da cidade, que realmente dão status, estão (e sempre estiveram) no downtown core: Westboro, Glebe, Golden Triangle, New Edinburgh, Rockcliffe Park, Old Ottawa South, Beechwood e Sandy Hill. Ah, e certos canadenses muitas vezes enxergam "livrar-se da dependência do carro" como uma bênção. Mais uma vez isso não quer dizer necessariamente "não ter carro", mas "não depender de carro para tudo". Veja aqui, aqui, aqui...


Se você decide morar num subúrbio porque gosta de viver nesse tipo de lugar e quer morar lá, não há problema algum. Be my guest! Se é mais conveniente para seu trabalho, vá correndo (me lembro do Rio de Janeiro: se você trabalha na Barra, viva na Barra!).

Que fique claro que eu não estou aqui para dizer a você onde morar, mas sim para fazer sua escolha considerando todos os fatores e adequando-os à sua situação. E não ir para um determinado lugar porque grande parte dos imigrantes com cara de bem-sucedidos que você vê pela Internet e adota como exemplo mora lá. Pode haver outras alternativas; considere-as. Faça do tempo e da paciência seus mestres na hora de fazer seus planos!

E o que eu vejo de bom num subúrbio? Basicamente eles são bonitos, geralmente tranquilos e silenciosos (um pouco demais para mim, mas...), têm muitos parques, muitas instalações esportivas, muitas escolas boas, e para quem gosta de encontrar bichinhos e de um maior contato com a natureza são um prato feito!

Enfim... Fiz este tratado para deixar registradas as minhas opiniões pois assim sempre que alguma Ronda Rouse vier me dar porrada por conta desse tema, está tudo aqui! Certo? Assunto fechado!