Não sei o que aconteceu em Ottawa nos últimos anos, mas alugar um imóvel por aqui está ficando muito mais difícil do que no passado. Sem falar na disparada dos aluguéis, mais sensível sobretudo nas regiões próximas ao centro.

Antigamente, alugar um apartamento por aqui era relativamente simples. Não havia tanta competição e era possível fazer todo o processo com tranquilidade e ter um melhor poder de negociação. Porém, principalmente a partir do verão de 2017, o fenômeno começou. Provavelmente as festividades dos 150 anos do Canadá contribuíram para isso, mas outros fatores podem estar influenciando. Sobretudo as políticas towards a walkable Ottawa emitidas pela prefeitura e o LRT, que vem aí no fim do ano.

Ottawa também pode estar atraindo estudantes e profissionais que estão fugindo dos preços insanos de Vancouver e Toronto. Em certas áreas, principalmente perto das universidades, o influxo de estudantes internacionais endinheirados é visível e os landlords agradecem. Jogam o preço dos aluguéis lá no alto e transformam a busca pela moradia em verdadeiras competições insanas onde quem não é muito rápido no gatilho dança, literalmente. O imóvel é disponibilizado e em poucos dias já está alugado. 

Há muita oferta de imóveis para venda, e os preços não aumentaram. Já estavam altos! Mas para locação, está muito difícil. Para quem está chegando, todo cuidado é pouco porque embora esse fenômeno ainda esteja restrito às áreas nobres próximas ao centro, é bem capaz que os alugueis como um todo subam de preço até mesmo em outras partes da cidade.

Com isso, onde morar nos primeiros tempos de Ottawa?

Mais do que nunca, eu recomendo a região de Vanier, onde você ainda encontra bons apartamentos de dois quartos por volta de mil dólares por mês numa região próxima ao centro e com boa infra-estrutura. Ou a região próxima ao Algonquin College, principalmente para os que vêm estudar lá. Para quem tem crianças e não deseja um apartamento, recomendo a região de Centrepointe, com preços semelhantes ao do subúrbio de Barrhaven mas sem as mesmas inconveniências de transporte ocasionadas pelo desenvolvimento pouco amigável aos pedestres e ao transporte público lá observadas, além do acesso mais difícil à cidade até mesmo para quem tem carro.

Ou então Gatineau, oui! Le Québec!

(Pequena digressão: se você quer um subúrbio, eu sinceramente prefiro Kanata. Ali é possível trabalhar e viver sem sair da região e todos os pontos positivos encontrados em Barrhaven também estão, sem falar que o acesso à highway é mais fácil. Ou então Orléans)

Mas não consigo evitar um questionamento: com esses preços e outros fatores (como a dificuldade para encontrar o primeiro emprego), será que Ottawa ainda vale a pena?
Me sinto na obrigação de falar de Vanier em razão da culpa que trago comigo por ter considerado a região “barra pesada” num post escrito logo que cheguei por aqui. Eu não deveria ter feito aquilo naquela altura: quem era eu para falar qualquer coisa sem conhecer direito a cidade? Foi uma lição que aprendi, mas tudo bem: fazer blog, vlog ou o que seja é expor um aprendizado de vida repleto de erros.
Vanier é uma comunidade cheia de vida, e é onde se pode encontrar uma diversidade humana sem muitos correspondentes em Ottawa. Tem gente vinda de todo lugar. Todas as raças, todas as religiões, todas as culturas, o mundo se mistura em Vanier. Há mercados e lojas étnicas onde se pode comprar comida caribenha, árabe, chinesa, filipina, armênia, e até portuguesa e brasileira graças ao Mario’s Food Centre. Vanier é árabe, Vanier é negro africano e caribenho, Vanier é franco-ontariano, Vanier é anglófono... Vanier é tudo! Desde os casarões em Overbrook até as moradias sociais, Ottawa inteira se encontra em Vanier.
Vanier é arte, é música... é afro-beat, é reggae, é reggaeton, é cumbia colombiana, é pop árabe, é hip hop, é R&B, é country, é rock and roll.
Vanier é uma região que ainda está esquecida pela maxivalorização dos alugueis e pela crise imobiliária. Por isso mesmo é onde começa a aventura canadense de muita gente. Os ônibus que passam por lá estão sempre lotados, e lotados de gente.
Vanier é um retrato do Canadá real, onde nem tudo é perfeito nem a materialização de um sonho americano... Mas o Canadá multicultural, negro, asiático, latino, aborígene, leste europeu, árabe, francófono e anglófono estão de mãos dadas em Vanier!


Muitos imigrantes que vêm para o Canadá sentem-se tentados, no afã de querer ajudar outras pessoas (ou, em alguns casos, de monetizar no YouTube), a passar "fórmulas de sucesso". Do tipo:

- Quando chegar aqui, vá morar em tal lugar... é o melhor!
- More nesta cidade. O clima é ótimo!
- Logo que chegar, compre um carro! Assim você poderá explorar lugares mais remotos, sem falar nas crianças!

Os exemplos podem ser muitos. E posso falar de cadeira, porque eu mesmo fiz muito isso na época do canal de YouTube. Na verdade não era o que eu queria fazer. Eu queria mostrar que havia opções diferentes, mas queria tanto que outras pessoas seguissem o que eu dizia (grande ilusão, não?) e não me expressava tão bem, que acabei falando algo que - hoje sei, após muita reflexão - não saiu da melhor maneira.

A verdade é que não há fórmulas de sucesso para viver aqui. Cada pessoa terá sua própria experiência, suas próprias aventuras, seu próprio caminho. E virá com seus próprios desejos e disposições para adotar um determinado estilo de vida.

Por isso, haverá a turma do carro e a turma do transporte coletivo. A turma da cidade grande e a turma da cidade pequena. A turma do centro da cidade e a turma do subúrbio. A turma da cidade muito fria e a turma da cidade menos fria. A turma do empreendimento e a turma do emprego. E por aí vai (e nem precisamos ser tão dualistas, porque há situações que geram múltiplas possibilidades).

É importante mostrar que o Canadá não traz apenas uma perspectiva. Como nós, brasileiros, muitas vezes preferimos perguntar a pesquisar, perigamos formar nossas opiniões a partir da vivência de alguém que não conhecemos e que pode ser muito diferente de nós. Por isso mesmo, nossa caminhada sempre terá um componente de tentativa-e-erro. É a vida!

Não tenho ilusões: as fórmulas de sucesso continuarão vindo. Seja pelas mãos dos marketeiros que ganham dinheiro com elas, seja pelas mãos de pessoas bem-intencionadas que respondem a perguntas da forma como podem. Mas não mais pelas minhas mãos. A cada dia mais, o que trago por aqui é a minha experiência, numa visão em primeira pessoa. Acredito que isso pode ajudar outras pessoas, mas elas podem exercitar sua própria visão crítica e seguir meus passos ou não, desde que queiram. Só que não vou ficar dizendo: "me siga"! Não! O que espero é que você perceba que aqui há inúmeras possibilidades, inúmeros caminhos a seguir... e que você, desejando, pode ter uma boa oportunidade de se reinventar!
Recapitulando rapidamente: eu sou músico e vim para o Canadá com residência permanente graças a uma categoria de imigração voltada majoritariamente para artistas e profissionais da área criativa, a Federal Self-Employed Persons, onde meu currículo e minha formação como artista foram determinantes para a aprovação.

OK, mas cheguei... quase 3 anos de vida em Ottawa na data de hoje (16 de abril de 2018)... e aí vem a pergunta: o que vou fazer por aqui? Vim como artista. Devo buscar oportunidades na arte ou deixá-la de lado para fazer qualquer outro trabalho?

A resposta que aprendi com dor, após ter feito college por 2 anos em busca de uma maior empregabilidade e percebendo que talvez "não seja bem assim": sim, devo buscar oportunidades na arte! É um outro país, ora bolas!

Mas o trabalho como músico, ainda que não seja atingido pela lendária e infame "barreira da experiência canadense", envolve dificuldades particulares. Não há muitos empregos formais. O trabalho na maior parte das vezes é autônomo e não há salário regular. É preciso ir à luta por oportunidades, o tempo todo.

Logo nos meus primeiros dias por aqui, ouvi de um canadense uma frase que até hoje ecoa na minha cabeça:

- Você é brasileiro e cresceu em uma cultura musical diferente. E aqui em Ottawa, praticamente ninguém toca música brasileira. A competição é muito menor!

Fiquei pensando nisso por um bom tempo. E dei razão ao canadense. Posso tocar rock 'n' roll, blues, jazz estilo norte-americano, essas coisas... mas se eu fizer isso não terei nada para me diferenciar de tantos outros músicos trabalhando por aqui e me colocarei numa competição mais selvagem, onde sim, faz-se a música que as pessoas conhecem por aqui... mas eles possivelmente farão melhor do que eu, pela vivência bem mais intensa com esse tipo de música.

Por outro lado, eu faço música brasileira muito melhor do que eles.

E Ottawa, com relação à inserção dos valores culturais de uma comunidade brasileira que só vem crescendo nos últimos anos num caldeirão multicultural muito receptivo aos valores dos imigrantes, praticamente não tem nada. O que isso significa? Oportunidades! É um trabalho um tanto quanto penoso de pioneiro, mas de grande importância para a exposição de uma cultura muito rica a um país que quer conhecê-la.

Mas quer saber qual é uma das maiores dificuldades no meu caminho?

É o desprezo que muitos brasileiros sentem pela própria cultura. Talvez isso seja decorrente das decepções que sentiram com a terra natal, o que de certa forma compreende-se. Mas isso não justifica certas atitudes.

Há alguns dias, bloqueei no Facebook uma brasileira que foi um tanto quanto rude comigo a partir do momento em que estava sendo discutida a desunião de uma das comunidades brasileiras por aqui e eu mencionei a questão cultural. Essa pessoa, em outras ocasiões, já tinha manifestado seu ódio pelo Brasil dizendo que evitava brasileiros a todo custo por seu caminho e preferia ter amigos de outras nacionalidades.

E já tive a oportunidade de constatar ao vivo e a cores como os brasileiros muitas vezes fogem de seus patrícios em vez de buscar uma união que resulte em ajuda, proteção e crescimento mútuo. Tanto no college como em uma experiência de trabalho de tive por aqui, tive decepções muito grandes com brasileiros que cruzaram meu caminho. Para começar, eles recusavam-se a falar comigo em português em qualquer situação, o que interpretei como uma bizarra tentativa de negar suas origens a todo custo. E para terminar... bom, isso eu prefiro nem dizer.

Os brasileiros precisam se dar conta de que nunca serão canadenses como os descendentes de ingleses, escoceses e irlandeses... ou franceses, para aumentar a complicação... que aqui vivem. Serão canadenses como tantos outros que, mesmo falando as línguas oficiais sem qualquer sotaque, trazem consigo uma origem imigrante próxima e uma bagagem de valores culturais diferentes que, em teoria - é claro que há problemas e que ainda há muito a se fazer, mas falo aqui da política oficial do país, que está consagrada na lei -, é recebida de braços abertos pelo Canadá. Idiomas, religião, culinária, música, dança, artes plásticas, literatura, atividades recreativas e desportivas, vida social, moda e vestuário, arquitetura e engenharia e tantos outros valores vêm sendo incorporados à cultura canadense e enriquecendo as opções que o povo deste país tem. Como vários exemplos pequenos e grandes atestam, os canadenses como um todo têm muita curiosidade pelo que os imigrantes oferecem. Eu citaria a shawarma libanesa, que graças ao empreendedorismo dos povos oriundos do Oriente Médio transformou-se no prato mais típico de Ottawa.

E onde entra o Brasil nisso? Ora, entra em tantas coisas que você nem imagina! Tantas coisas que podemos oferecer ao Canadá! Desde o Jiu Jitsu desenvolvido pela família Gracie até a Bossa Nova e o heavy metal da banda mineira Sepultura e o churrasco brasileiro que você tanto adora e do qual sente tanta falta, sem falar no futebol brasileiro... tudo isso é resultado dos movimentos culturais ocorridos no Brasil! Que, por mais que tenha falhado como nação e sociedade, tem, sim, muita coisa boa a oferecer ao mundo.

Que fique claro aqui que não estou defendendo nenhum grupo de valores culturais "inventados" ou "consagrados à força" como tipicamente brasileiros. Como ocorreu várias vezes, por exemplo com o samba. Meu doutorado, pesquisando também sobre a questão da identidade cultural brasileira, não me permite fazer isso nem tampouco discutir com pessoas como a que bloqueei, que foi ainda capaz de bradar: "o que é cultura brasileira?"

O que chamo de "cultura brasileira", aqui, é simplesmente o conjunto da produção intelectual feita por cidadãos brasileiros ou em território brasileiro e de certa forma disseminada e adotada indiscriminadamente ainda que com variáveis. Sem pureza nenhuma, nem qualquer traço de xenofobia. Palavra de um brasileiro que se chama "Alexei Michailowsky". Que nome mais brasileiro, eh?

Precisamos então deixar de lado nossa natureza passional e pensar de cabeça fria. E principalmente parar de fazer o Cazuza, lá no céu, rir de nós e repetir cantando: "São caboclos querendo ser canadenses"! Muito embora, levando em conta o multiculturalismo e as naturalizações, somos exatamente isso: caboclos brasileiros querendo ser canadenses. Pelo lado da nacionalidade não há problema nenhum nisso. Mas pelo lado da cultura pode haver: alguns de nós parecem querer a todo custo, a toda maneira, adotar os valores culturais norte-americanos consagrados pelo cinema... mesmo sem saber ao certo quais eles são e se os próprios nativos estão felizes com isso... é o tal do "sonho canadense" marketeado em vídeos de YouTube... pessoal, vamos para a vida real!

Chega de abaixar a cabeça para eles... eles mesmos não querem isso! Vamos parar de renegar nossa identidade cultural e ser coerentes conosco mesmos... a cada instante que reclamamos da culinária que os restaurantes servem e suspiramos pela gostosa comidinha caseira do Brasil ou por um churrasquinho, estamos expressando os valores com os quais crescemos! Isso muitas vezes acontece sem pensar e não há qualquer problema ou culpa nisso. Por isso mesmo, sinto falta de mais empreendedorismo voltado para a difusão das nossas coisas para os canadenses em geral. Nós somos beneficiados, eles também são, e com isso podemos crescer de verdade.





Continuação do último post. Se você chegou agora, visite esta página para ler tudo desde o começo e não perder nada!

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Quando procurei a CHUO, eu já havia percebido que não se tocava música brasileira em nenhuma emissora da região de Ottawa e que os canadenses desconheciam a produção fonográfica do nosso país por mais que o Roberto Carlos tenha vendido discos pela vida. A maior referência de artista latino para eles, acreditem, é o Julio Iglesias! Por isso, seria uma experiência muito interessante tocar música brasileira para canadenses e ver como eles reagiriam sem os mesmos pré-julgamentos dos brasileiros. Minha intenção seria fazer algo em que a comunidade brasileira seria benvinda, mas o programa seria para todos.

Eu também sabia que, para o artista brasileiro, ter seu trabalho divulgado até mesmo numa pequena rádio universitária do Canadá é motivo de muita alegria. Isso é muito bom, mas tem um lado triste e reflete muito o imenso complexo de vira-latas que o músico brasileiro tem. Pode ser uma pequena rádio universitária; pode ser um programa que não é muito ouvido. Mas é no exterior! É no primeiro mundo! Mas eu sempre soube disso e procurei usar esse elemento a meu favor. Eu desejava que esses artistas se tornassem meus parceiros, comemorando as execuções de suas músicas nas suas redes sociais. Isso faria com que a rádio fosse conhecida no Brasil e o retorno surpreendesse os diretores da rádio.

Sem falar que, aqui, artistas desconhecidos têm as mesmas chances — ou até mais chances — do que os grandes medalhões da MPB. Que muitas vezes só aparecem para que os ouvintes brasileiros não reclamem que "faltam músicas conhecidas"... kkkkkk

E o retorno de tudo isso tem sido muito bom. Pena que o trabalho é voluntário...

Porém, eu não me incomodo tanto com isso porque:

- a rádio me proporciona muitas oportunidades de networking e possíveis indicações para trabalhos artísticos remunerados;
- a rádio pode facilitar, até indiretamente, oportunidades para que eu empreenda no campo cultural e musical.

Hoje mesmo, daqui a pouco, já vou participar de uma conferência cuja admissão custa $175. Mas como sou da CHUO e vêm artistas brasileiros, eu consegui um passe de imprensa e não pagarei nada. ;-)

E neste começo de ano começaram a surgir oportunidades para tocar, para fazer pequenos shows. Isso porque comecei a buscá-las de fato.

Os canadenses de Ottawa têm uma característica bem semelhante à dos mineiros de BH: parecem meio difíceis de sair de casa, principalmente por coisas que eles não conhecem. E priorizam atividades onde toda a família, incluindo as crianças, podem participar. Esse é o meu grande desafio inicial: me fazer conhecer por eles. As comunidades de artistas aqui parecem ser muito "panelinhas", difíceis de transpor. Você sabe que eles existem mas não os vê. Ficam lá no guetinho, tocando em pequenos eventos em inferninhos ou escondidos em seus porõezinhos mostrando seus equipamentos no Facebook...

Mas já comecei a fazer meus shows. Participei da premiere de um projeto de sintetizadores e no mesmo dia o dono do bar me convidou para voltar duas semanas depois. Ou seja, na semana que vem... kkkkk

Por enquanto, a etapa é: me fazer conhecer e formatar meu trabalho. Passo a passo!

Estou agora meio apavorado, divulgando o evento para que pelo menos algumas pessoas compareçam para me ver... e aí voltam aqueles velhos medos e fantasmas...

"Você não é bom o suficiente para ter público..."
"Você mora na City that Fun Forgot..."
"Cidade de governo onde as pessoas se trancam nas suas bolhas e não saem de casa para se divertir..."
"Inverno, ninguém sai de casa..."
"Música não é trabalho, é hobby!"
"Você vai morrer na sarjeta, pobre e miserável!"
"Quem vai te respeitar sendo que você é um MÚSICO... Um MÚSICO!"
"Demos tudo para você, a melhor educação, para você jogar no lixo sendo MÚSICO!"

É difícil pensar positivo quando todo o mundo ao seu redor parece te jogar para baixo com velhos clichês e chavões tão brasileiros. Mas eu vim embora exatamente para mudar minha história. E deixar para trás todos os momentos de tristeza e humilhação por que passei no Brasil. As pessoas que me desrespeitaram, que me deixaram sozinho, que não acreditaram em mim. Preciso exorcizar esses fantasmas. É preciso enfrentar tudo isso e seguir em frente buscando, talvez, alguma coisa melhor que talvez possa me remunerar dignamente. Afinal de contas, mudei de país. Fui aceito em razão de tudo que construí como artista e músico e preciso tentar aproveitar as oportunidades que este país oferece. Ir atrás das grants e apoios do governo, seguir em busca de networking enfrentando a resistência dos canadenses a tudo aquilo que não conhecem... participar de eventos... etc.

Talvez assim eu possa um dia deixar o design e a web para aquilo em que eu pensava quando me inscrevi no College: algo que me permita promover e divulgar minhas atividades artísticas mais e melhor. Aí eu poderei deixar para trás todos os elementos prostituídos dessa área e a insana competição que joga a remuneração lá para baixo.

E ah! Se você está em Ottawa e quer ver o meu próximo show, será muito benvindo! Anota aí! Vai ser na sexta, dia 16 de fevereiro, a partir das 9 horas da noite, no Avant-Garde Bar. Com muita música brasileira! 135 1/2 Besserer Street, bem pertinho do Rideau Centre. E melhor ainda: você paga o que puder. O flyer está aí em cima do post!

Se alguém vier me dizer que pretende vir para o Canadá e tornar-se designer, tanto gráfico como web, principalmente num esquema de mudança de carreira e acreditando que o emprego virá fácil, eu juro que respondo na lata:

- Não faça isso!

Infelizmente a profissão de designer chegou a um ponto crítico, pelo menos em Ottawa, onde você esbarra em designers — com diferentes graus de competência, mas uma boa parte bem fraca — oferecendo serviços a cada esquina. O trabalho está a cada dia mais aviltado, com as pessoas contentando-se em cobrar muito barato para pegar o trabalho. E trabalhar duro por longas horas para receber migalhas e incluir mais um item no portfólio que talvez vá lhe ajudar a conseguir um emprego de verdade no futuro.

Clientes e contratantes adoram. Nunca pareceu tão fácil encontrar alguém para criar um site para você por quase nada. 100 dólares e você pode ter um trabalho de ótima qualidade, feito por alguém bem qualificado que não viu outra alternativa senão submeter-se a essa cruel regra do mercado e equiparar-se aos aventureiros e incompetentes. Sem falar que o conhecimento técnico desses contratantes muitas vezes é zero, mas elas se dão ao direito de não gostar de algo e pedir mudanças o tempo todo, bem como destruir trabalhos e demitir pessoas sem qualquer esforço — ou capacidade — para que aquela pessoa cresça, desenvolva seus talentos e produza no seu melhor.

Principalmente o web design, que é complexo por natureza e ainda depende de código e linguagens de programação bem como um cenário favorável pelo lado do servidor onde seu site ficará hospedado, é complicado. O cliente, não raro leigo e desinformado, quer te pagar 100 dólares para que você faça milagres num ambiente francamente desfavorável. E tem gente que aceita.

Para piorar, há estudantes internacionais extremamente bem qualificados que oferecem seus serviços a preços irrisórios, porque não têm visto de trabalho. É possível que realizem esses trabalhos de forma ilegal, muito além das horas que lhes são permitidas. Mas muitos pequenos empregadores os contratam porque é mão-de-obra de excelência oferecida por quase nada. Deixo claro aqui que não condeno esses estudantes: eles precisam sobreviver e pagar contas num país de custo de vida alto, sobretudo para moradia. A culpa é de quem os contrata.

Não vou mentir a vocês: desde que pedi demissão do meu emprego há alguns meses, por motivos não muito diferentes, esse é o cenário que venho encontrando por aqui. Estou fazendo vários trabalhos. Mas a cada dia me encontro mais desanimado com o design, e sem muitas razões para pensar positivo quanto a essa carreira ou ver boas possibilidades.

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Por outro lado, todos sabem que tenho uma longa experiência na música e nos empreendimentos culturais, e foi isso que me permitiu receber a residência permanente ainda no Brasil e vir para o Canadá. Mas poucos sabem de tudo o que eu passei e de toda a perseverança e superação que precisei ter para conseguir meu doutorado, o conhecimento que tenho e o que consegui (que para quem conta moedas não é grandes coisas). Não foi nem um pouco fácil. Quase todos ao meu redor vieram com o tradicional papo de que música é hobby, não é trabalho. Que eu deveria ter outra profissão, um trabalho de verdade. Nesses momentos, pessoas que eu amava me deixaram completamente só e desamparado.

A lei do karma muitas vezes é implacável para quem faz mal, mas não são essas pessoas que sentem as dores primeiro. Paguei um preço muito alto por todos os momentos de bullying, de abusos, de feridas, de violência psicológica e de ofensas que passei simplesmente porque fui escolhido por uma arte. Muitos estragos foram feitos em mim e venho tentando, quieto no meu quadrado, entendê-los e consertá-los.

Ouvi de um analista: "o problema não era você, o errado não era você, o errado era o mundo ao seu redor que te julgou diferente e não te aceitou". Pode ser, mas quem sente os efeitos dos estragos sou eu. O maior deles talvez seja eu acreditar, no fim das contas, que não sou bom o suficiente para ser bem remunerado. E que música não é trabalho. É hobby. E não basta ser bom: é preciso ser bem relacionado.

Mudei de país, mas confesso que preciso mudar de pensamento para acreditar mais em mim. É meu grande desafio agora.

Aqui é o Canadá, oras!

Desde que cheguei, fiz alguns pequenos concertos de piano logo no primeiro ano e fiz gravações remuneradas em Quebec City com um amigo produtor de discos para um trabalho ainda inédito, mas o empenho para fazer o College e melhorar minha empregabilidade não me permitiu ir muito além, além da minha própria falta de coragem e do eterno medo de não dar certo. De ninguém querer me ver tocar. De ninguém me dar valor. De não conseguir locais para tocar. De levar portadas na cara. Porque não conheço ninguém do meio aqui. Porque a cidade é conhecida como "a cidade que a diversão esqueceu".

A universidade? Quando eu quis abandonar o College em 2016 e fui até lá em busca de oportunidades, me sugeriram fazer um segundo doutorado pois, simplesmente em razão da nacionalidade brasileira de minha formação, eu não seria competitivo por aqui. Fazer um segundo doutorado, pagar tuition fees e ser um eterno estudante? Não, chega de escola.

Mas terminado o curso e no período entre o fim das aulas e o momento em que consegui um emprego, procurei uma emissora de rádio. Para quem não sabe, tive um programa de rádio no Brasil por sete anos. Eu gostava muito de fazê-lo, mas a rádio não era ouvida porque, por conta de burocracias, a potência mal ia além do campus da universidade e ninguém a ouvia. Mas a experiência existe, e a qualidade da minha programação também.

No Canadá, histórias onde a pessoa não tem estudos específicos em rádio — o tal do College — mas obtém empregos remunerados parecem ser raras. E meu Deus, como o rádio comercial é chato por aqui! Confesso que não escuto rádio comercial aqui. Além disso, eu estava em busca de algum lugar que me permitisse ser livre para tocar o que bem quisesse. E divulgasse a música e a cultura do Brasil para os canadenses sem me curvar a grandes interesses, podendo ajudar artistas amigos e pessoas em quem realmente acredito e que merecem essa oportunidade. Por isso passei a tratar a rádio como se fosse o meu playground, onde eu poderia descer para aquele porãozinho e simplesmente ser feliz. Me esquecendo de que existe dinheiro, jabaculê e outras forças ocultas lá fora. Isso é o que o trabalho voluntário na CHUO (sigla para CH University of Ottawa), a college radio da University of Ottawa, vem me proporcionando.

Bom... já escrevi bastante e o resto da história vai ficar para um próximo capítulo, certo? Prometo que vem já e que talvez muitos que encontrarem este post já poderão encontrar o seguinte. Não percam então!




Se você me perguntar se tenho muitos amigos brasileiros ou me envolvo em muitas atividades da comunidade brasileira, a resposta é... não, não tenho muitos amigos brasileiros e não participo de muitas atividades da comunidade brasileira.

"Mas você tem algo contra?"

Não. Absolutamente nada contra. Mas não sou como o Roberto Carlos que quer ter um milhão de amigos.

Tenho amigos brasileiros sim, mas não são muitos. E na verdade não tenho muitos amigos. Porque sou uma pessoa que prefere ter poucos mas bons amigos.

Além disso, a experiência do canal Vida Que Segue Canadá me ensinou muitas coisas. Em primeiro lugar, é muito fácil estar rodeado de pessoas que parecem ser amigos por algum tempo, mas... na verdade não são. A vida faz com que elas desapareçam ou você mesmo desapareça. Porque simplesmente os caminhos seguiram para direções contrárias. Tudo bem. Não sinto tristeza ou raiva por isso, embora no fundo acredite que não exista muita gratidão pela ajuda que lhes prestei em algum momento.

Há também o fator "divergências". Temos aprendido que a nossa cultura muitas vezes não nos ensina a lidar bem com elas. A ponto de transformá-las em briga. Às vezes em briga pesada, desnecessária. Não conseguimos respeitar e conviver com pontos de vista diferentes ou opostos: os debates políticos são a expressão máxima disso.

Se hoje eu teria feito certas coisas de modo diferente? Sim, com certeza. Mas outras coisas eu teria feito do mesmo jeito, e talvez os resultados fossem os mesmos.

Alguns permaneceram. Houve quem foi embora e eu dei graças a Deus. Em outros casos lamentei, mas acabei me conformando. E em um ou outro caso as pessoas praticamente desapareceram até da minha memória. Quase não me lembro que elas existem...

Aprendi lições muito importantes com minhas experiências, e talvez isso possa dar alguma luz para você que está deixando o Brasil para uma vida nova no Canadá:

- Os brasileiros que aqui estão não são seus amigos, salvo em casos excepcionais. São colegas de imigração que podem se tornar seus amigos, ou não;

- Há amizades imediatas, mas não são tão frequentes. É mais comum as amizades se construírem pouco a pouco, com o tempo;

- Os melhores amigos que você fará por aqui não serão necessariamente brasileiros;

- Amigo é amigo; pessoa querendo te vender algo ou prestar serviços pagos para você é profissional, por mais amigável que seja. Ela apenas se torna "amiga" mesmo se o (seu) dinheiro deixar de ser a tônica da maior parte da relação;

- Os colegas brasileiros que você encontra pelo caminho em situações de convívio obrigatório (estudo ou trabalho, por exemplo) não necessariamente irão querer sua amizade, gostar de você ou querer língua portuguesa por perto. É uma pena e pode ser um fator complicador para formar uma comunidade forte. Outros povos não fazem isso, mas certos brasileiros restringem-se a seus grupinhos e fazem. A nacionalidade em comum pode não significar grandes coisas. Então vá com cuidado e não force nada. Deixe as coisas acontecerem, se forem acontecer. E não fique triste se não acontecerem;

- Amigo é aquele que está pronto para te ajudar a qualquer momento e sempre que você precise, mesmo que não lhe peça ajuda;

- Seus melhores amigos do Brasil continuarão sendo seus melhores amigos, após toda uma vida construindo relações. Outros que aqui estão poderão juntar-se a eles, mas isso é construído. Com o tempo você terá amigos em todo lugar;

- Muitas amizades com brasileiros surgidas aqui são produto de circunstâncias e conveniências, e por isso podem ser frágeis e desfazer-se até com um vento fraquinho. Com o tempo, as pessoas vão na direção daquelas com quem realmente têm uma identificação;

- Amigos de verdade te aceitam independentemente do que você tem, do seu endereço, da sua conta bancária ou de outros fatores puramente transitórios. E que acaba sabendo, entendendo e ajudando quando há algum problema ou a adaptação está difícil; 

- Proximidade física não é um fator fundamental para o surgimento de amizades. Basta estar em contato de alguma forma, e a internet facilita muito. Há pessoas que nunca vi pessoalmente até hoje, mas que considero mais amigas do que outras que vejo todos os dias;

- Nem sempre existe um compromisso real em formar uma comunidade de brasileiros recém-chegados, mas quando existe pode ser muito bom. Não vejo muito esse tipo de coisa em Ottawa, mas em Montréal já vi e constatei como esse apoio ajudou quem precisava de apoio e carinho. Até porque lá o desafio é bem maior, em razão das características da província e da língua;

- Pergunta fundamental: essa pessoa teria chances de ser sua amiga se vocês estivessem no Brasil, na realidade de vida pré-imigração? 

Enfim... Se de alguma forma você se propõe a ajudar pessoas expondo a realidade, prepare-se para não ser convidado para muitos churrascos... Destruidores de sonhos e ovelhas negras não são muito queridos, bem como seus cônjuges e familiares (neste caso pode ser gratuito para eles, aplicando-se infelizmente o "diga-me com quem andas e eu te direi quem és" - eis o principal motivo que me fez abandonar o canal). Mas pensar que ficará livre de churrascos chatos onde estará mais por obrigação do que por prazer, e poderá priorizar o que e quem realmente vale a pena na sua vida - a começar por você mesmo, aproveitando a sua própria companhia e mantendo-se fiel aos seus valores - pode trazer muita paz e felicidade. A vida é muito curta e o tempo é muito precioso para ser perdido com quem não nos faça bem.

Por outro lado, é bom ver opiniões como esta que está aí embaixo na figura... depois de mais de um ano sem postar vídeos e me mantendo "na minha" (volto a repetir, nunca tive tanta paz por aqui do que após o fim do canal), ainda sou lembrado... Isso me faz deitar a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila e a sensação de missão cumprida. Não há dinheiro que pague.



... antes de embarcar numa aventura no Canadá, arriscando tudo que você tem. Sinceramente, admiro a coragem de quem faz isso mas é preciso ter um mínimo de ponderação. É isso mesmo que você quer? Você não tem outras alternativas mais fáceis?

Não acredite cegamente na propaganda, incluindo aí os YouTubers que mostram uma vida maravilhosa e repleta de troféus materiais que aparecem nos vídeos. As coisas não são bem assim. Recomeçar no Canadá é muito difícil e a palavra de ordem aqui não é glamour: é ralação.

Porque os tempos em que só pessoas muito bem qualificadas vinham para cá com residência permanente e arranjavam empregos com bom salário por aqui rapidamente passaram... e agora a imensa maioria dos que vêm possui vistos temporários e querem fazer um College com o objetivo de imigrar... o que é temerário. E não garante nada.

É o Canadá mesmo que você quer? Esqueça o Canadá do sonho e venha para a realidade. O que te espera aqui? Um custo de vida alto, uma cultura que pode te endividar bastante se você sair consumindo e consumindo, um mercado de trabalho bastante protecionista e sem conhecimento do potencial dos imigrantes, muito trabalho duro, muita ralação. Tuition fees bem caras sem garantia de ficar. Tensão constante. É isso mesmo?

Você não tem alternativas mais fáceis, como por exemplo uma cidadania europeia? Mesmo que na Europa você encontre ralação, já chegará como cidadão. Terá direito a uma educação bem mais barata do que a do Canadá. Terá benefícios que não estarão ao seu alcance no Canadá. Talvez um clima menos extremo que o do Canadá, e uma infra-estrutura melhor.

Mudar de país é uma decisão muito drástica. Pode ser menos difícil para alguns, mas no geral não é fácil! Você não vai encontrar nenhum emprego te esperando, a não ser que seja um bambambam... O país não vai te sorrir de cara. Vai te desafiar o tempo todo. E para combater, você precisará de uma boa reserva financeira e de um desprendimento que nem todos têm. O padrão de vida cai e você precisa fazer coisas que nunca imaginou fazer nesse momento no Brasil por tudo que já conquistou. Mas aqui não: suas conquistas foram zeradas. Encare isso numa boa e recomece. Mas na base do desespero você já não está partindo bem. Esse momento não é para desesperados. É para pessoas com frieza suficiente para traçar uma estratégia realista e deixar as ilusões e os sonhos na lata de lixo. É para quem consegue viver bem com pouco. Para quem consegue passar longos anos fisicamente longe da família e aguenta as lágrimas toda vez que ocorre uma festa ou um evento... Para quem encara um ônibus lotado, uma madrugada a - 40 graus, roupas de segunda mão, um apartamento minúsculo num prédio nem tão bom, um food bank para ajudar a encher a geladeira... Para quem não se apega a troféus e não tem medo de deixar tudo para trás.

Quanto mais gente vem com visto temporário, quanto mais gente embarca no projeto College (que faz a fortuna de marqueteiros e oportunistas, e você nem imagina), mais gente periga precisar voltar para o Brasil para recomeçar lá sem nada. Após ter gasto todas as suas economias num projeto arriscado porque alguém que não estará se importando lhe vendeu um sonho. E não pode ser assim! O Canadá é um bom lugar, mas você precisa enxergá-lo pelo que ele realmente é. E jamais como uma terra prometida onde seus problemas automaticamente desaparecerão. Não é assim e nunca será! Sonho canadense não existe! É papo de marqueteiro, de vendedor de intercâmbio e college, de consultor de imigração! Repita isso um milhão de vezes e parta para a realidade! Eu torço por você e espero que você encontre uma vida melhor fora do Brasil se é o que realmente deseja e se está preparado ou preparada... mas de repente isso não vai acontecer no Canadá!

Frieza. Planejamento. Isso é necessário. Guarde o sonho na gaveta, porque agora o papo é sério.






Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.


LinkeDinho é um brazuca gente fina que sempre acreditou ter nascido no lugar errado. Por muitos anos, viveu sua vida sonhando com a oportunidade de "se rapar" do Brasil para algum país de primeiro mundo. De preferência onde se fala inglês, saca?

Sua alma estava vazia e nunca descansou na busca pelo paraíso em Terra. Um belo dia, ele encontrou o folheto da Igreja do Sonho Canadense e deixou-se contagiar pela pregação. Converteu-se rapidamente e começou a planejar. Descontente com a carreira onde havia se graduado no Brasil - afinal de contas, carreira no Brasil é coisa de loser - ele viu a luz. Fazer um College no Canadá e dali partir para a residência permanente e depois para a cidadania com enorme sucesso! Aleluia, ô aleluia! Miami e Orlando on ice, patinando e esquiando beleza pura!

A meta estava encontrada. LinkeDinho começou a planejar-se e encontrou sua companheira de aventura: a LinkeDinha! Uniram-se em linda cerimônia abençoada pelos próprios Pastores do Sonho Canadense, o Casal Pretzel, e numa bela e corajosa noite zarparam para as geladas terras do norte. E nosso LinkeDinho iniciou seu curso no Drew Jones College de Toronto. Programação para Dispositivos Móveis! Que nome pomposo! Ele sonhava em ser o maior desenvolvedor de apps do planeta, saca?

E o que fazia nosso herói no College? Bom... é uma pergunta meio difícil de ser respondida, porque ele podia ser considerado o que os estudantes brasileiros chamam de "turista". Raramente aparecia por lá. Algumas indiscretas bocas espalharam o rumor de que Dinho não gostava do estabelecimento e preferia ficar meditando e esperando o Sagrado Conhecimento lhe invadir por osmose e lhe deixar instantaneamente pronto para seduzir qualquer empregador canadense. Ele também teria sido visto numa rodinha de amigos tocando uma música estranha aos ouvidos canadenses... algo como "pahgoddy"... Mas é certo que de vez em quando, Links (como passou a ser conhecido pelos colegas) aparecia para dar um alô aos maninhos do college. Isso não era muito suficiente para que os professores o notassem, exceto nos momentos em que ele os chamava num cantinho para armar a cara de coitadinho, trocar uma ideia e pedir a chance de entregar seus trabalhos atrasado. Mas chegava a ser engraçado para os colegas que sempre iam às aulas: os professores passavam meses sem conseguir se lembrar quem era o LinkeDinho.

Os brasileiros que cruzavam com Dinho pelo caminho nunca perceberam que ele era um dos seus. Afinal de contas, nosso herói padece de uma notória alergia a tudo que é brasileiro ou do Brasil. E aprendeu a ser mudo como as sombras, falando sempre num inglês cujo sotaque lhe fazia passar por "espanhol". Sim, para o mundo Dinho dizia ser espanhol de Barcelona. Que chique!

Com o passar do tempo, Links desenvolveu amizade com Stanley Stanley, Francisco Israel e Johnny Tremblay... três caras tão bons de serviço que mal precisavam ir às aulas para arrebentar. Sabe esses meninos que aprendem a programar com 10 anos e um dia precisam pendurar um diploma na parede para contentar o sistema? Pois é, são eles! Fato é que a vida nunca foi fácil e uma graninha extra era sempre benvinda... Sacando isso com seu PhD em malandragem, LinkeDinho lhes pagava uns lanches no Tim Hortons em troca dos trabalhos feitos ou de umas dicas preciosas... afinal de contas, Dinho sabia que precisava fazer uns 15% dos trabalhos ele mesmo. Para dar seu toque pessoal e implantar sua Malandragem Corporations na coisa, tá ligado? De qualquer forma, os professores não controlavam mesmo quem fazia os trabalhos... bastava clicar no "submit" e era só alegria!

Mas muitos colegas, quando precisavam de Dinho para fazer trabalhos, nem sabiam onde ele estava ou se poderiam contar com ele.

Que mares tranquilos para navegar! As inocentes águas canadenses. Ainda mais quando Dinho ouviu o Professor Richard Shear desabafando: "nós não podemos reprovar aqui... porque a província paga uma parte dos custos de cada aluno canadense, mas só quando ele se forma! E os estudantes internacionais... trazem muita grana! Com isso, ficamos quebrando a cabeça no final do semestre para passar essa moçada!" Ah, então é isso? Formar no College é tão moleza assim? Nem precisa de tanta malandragem? Pois é, o sistema conseguiu chocar o LinkeDinho! Ele até comprou uma berejinha na Beer Store da Dundas para comemorar a moleza.

Ah, não falei na LinkeDinha... Nunca vi um casal tão diferente nesse aspecto. Apesar da fama de "mascarada" que seus colegas de colégio no Brasil espalharam e da qual nunca se livrou, Dinha é esforçada, trabalhadora e boa de serviço. Chegou com inglês na ponta da língua e um bom diploma debaixo do braço. Daí começou bem por baixo, fazendo um trabalho voluntário já na sua área... Tinha visto de trabalho e logo descolou um emprego numa empresa situada bem no centro de Toronto. Com vista para o lago Ontario e tudo mais! Sua ascenção foi relativamente rápida. E enquanto Dinho tramava seus mistérios pelo College, a Dinha trabalhava e chegou a um ponto onde ela mesma estava pronta para aplicar para residência permanente pelo Express Entry. Foi tranquilo. Em pouco tempo lá estavam eles celebrando o sucesso nessa empreitada com uma viagem para a Disney e o landing no retorno.

LinkeDinho, que como boa abelha é fabricante do necessário mel para manter a LinkeDinha sempre em sua colmeia, nunca esteve tão contente. Bastou esse tempinho firulando no College e a "muiezinha" trabalhando duro pra garantir o cartãozinho branco e mandar uma banana geral pro Brazuca? Yeah, dude! Tá bonito e tá gostoso!

Mas falando em bonito e gostoso, LinkeDinho gosta de mostrar pra sua seleta plateia que fez o Sonho Canadense do Casal Pretzel com direito a um Pretzel Dourado para os vencedores. Dessa forma, sabendo que um empreguin dos bão dá direito a 2 mil Pretzel Points, ele escolheu seus carros alegóricos para mandar bem na foto! Começou pelo co-op no College. Ah, mas para isso ele aparentemente se esforçou e ficou ligado! Tanto que conseguiu... como 90% dos seus colegas... deixando para trás uns 10% que talvez fossem melhores do que ele, mas que empregador resistiria ao seu mel de malandragem? Bem... esses bonzinhos canadenses que querem dar chance a estudantes não resistem. E aí lá estava o Links na equipe de programadores de um app que agregava cupons de desconto!

Se os empregadores de Links gostaram ou não de seus serviços, isso nunca se saberá. Mas o fato é que ele, de repente, começou a anunciar ao mundo que seu lance era a linguagem X+++, conhecida por sua dificuldade. E por isso mesmo, dizem que tem muito emprego para programadores X+++ no Canadá. Agora... se nosso herói já fez alguma coisa nesse campo na vida ou se é pura goma de mascar, ninguém sabe. Porque portfólio ou referências... bom, ele não tem. Ele está na rede social dos profissionais, mas se eu fosse empregador e visse seu perfil "searching for new challenges", seguiria adiante. Porque não fala nada sobre o que ele fez na vida. Nem sobre suas lendárias malandragens, rá yé yé, já que isso afastaria os recrutadores.

Dinho tem, de fato, o cartão branco de residente permanente obtido graças ao esforço de sua cônjuge. Mas após um college muito mais ou menos (onde desperdiçou a oportunidade de fazer o seu melhor, aprender e estabelecer networking com os professores, colegas e profissionais que estão lá), ele deparou-se com a realidade. O grande funil canadense é o mercado de trabalho. Os bons, tal qual vem ocorrendo com os colegas "raladores" dos quais Links covardemente zombava pelas costas, vão sendo empregados. Mas e ele? Passados alguns meses, ele segue "searching for new challenges" na rede dos profissionais... Se bem que talvez isso não lhe represente grandes coisas, pois aprendeu a plantar sementes nos vasos de casa e colher dinheiro. Sem falar na Dinha!

A moral da fábula de LinkeDinho, personagem fictício cujo espírito pode estar presente em tantos que vêm de todo o mundo em busca do Sonho Canadense, é a seguinte: estamos num país onde a palavra é sagrada até para estudantes. E por isso não há tanto controle. Porém, na malandragem, podemos ter a capacidade de sujar bastante o chão onde pisamos de marrom. Achamos que vamos nos dar bem na base da estratégia, mas a única estratégia que vale aqui de verdade é a da honestidade sem exceções e a do trabalho duro todos os dias. Do contrário, o LinkedIn sempre periga estar ali do mesmo jeito.


Em algum momento (não sei dizer exatamente quando), alguns imigrantes brasileiros começaram a fazer vídeos sobre sua vida e sua experiência fora do Brasil e postá-los no YouTube. As intenções podiam ser diversas: por exemplo, manter um contato mais intenso com seus familiares e amigos que ficaram no Brasil e reduzir um pouco a solidão, mostrando e compartilhando o que viam e viviam.

Mas, encurtando bastante a história, o interesse e a vontade de sair do Brasil cresceu exponencialmente durante os governos Dilma Rousseff porque foi exatamente nesse período que muitos perceberam que o sonho acabou. Ou, no caso de alguém como eu que vivenciou a ditadura militar e o período de hiper-inflação dos anos 80 e início dos 90, tiveram a re-confirmação de que o sonho nunca existiu. Após alguns anos de real valorizado facilitando as viagens para o exterior, nos colocando numa ilha da fantasia que nos levava temporariamente para longe do purgatório.

E acabávamos caindo naqueles vídeos que mostravam a vida que queríamos ter. Um sorriso feliz e vitorioso de quem deixou definitivamente para trás o purgatório chamado Brasil e venceu no primeiro mundo. Os troféus estavam ali na tela: o carro além dos sonhos dos consumidores de carroças que sempre fomos... a casa bonita num local bonito e sobretudo SEGURO, sem o medo e a paranoia que nos cercam... os telefones celulares, computadores, videogames, cosméticos, roupas, calçados que sempre quisemos ter mas nunca podemos em razão das políticas idiotas de reservas de mercado... Esses vídeos acendiam a perigosa fagulha do sonho em nossas vidas. E aquelas pessoas nem precisavam fazer vlogs ou falar de imigração: haviam as meninas que falavam de moda e maquiagem, os rapazes fãs de videogame... Não importa: alimentou-se o sonho.

E num dado momento o YouTube passou a remunerar os criadores de vídeos. Isso mesmo! Com a inserção de anúncios nos vídeos, possibilitou-se a chamada monetização. Quanto mais pessoas assistirem aos seus vídeos, mais dinheiro você recebe. E consequentemente criou-se uma nova profissão: YouTuber.

Rapidamente as YouTubers e os YouTubers entraram na moda e até mesmo ganharam as bem-remuneradas mídias tradicionais. Além da monetização, estabeleceram parcerias com empresas em busca de publicidade... sabe aquele incômodo merchandising que volta e meia aparece nos programas de televisão? Pois é pois é pois é... Eu te dou um presenteenho, um mimo, um agrado, e você fala de mim nos seus vídeos, nas suas redes sociais... uma fotcheenha no Insta... sabe como é...

E o mundo gira. E a vida segue. Até aí tudo bem, exceto por um fato que eu percebo: tal qual costuma ocorrer com o que vemos na mídia tradicional, tendemos a acreditar em tudo que as YouTubers e os YouTubers transmitem. Até mais, porque os enxergamos como "gente como a gente". Mas nem sempre é bem assim.

Para quem pretenda fazer vídeos com alguma qualidade no YouTube e transmitir seu recado de uma forma mais eficiente, o investimento financeiro em equipamentos e o investimento de tempo para filmar e sobretudo editar o conteúdo é alto. Fica muito difícil, quando não impossível, conciliar os vídeos com um emprego que ocupe nossa semana de segunda a sexta, das 9 às 5. E ter uma vida fora do YouTube. Isso só se justifica exatamente quando passa a ser trabalho e garantir o sustento da pessoa, do casal, da família. Do contrário, a pressão para parar e a própria vontade de parar vêm depressa.

E quando você é YouTuber profissional, a liberdade para dizer o que você pensa e transmitir aquilo em que você realmente acredita vai embora. Você se torna escravo do que o seu público quer ver e ouvir, e muitas vezes do que os seus parceiros e investidores pagam para você falar. Muitas vezes, você precisa mostrar coisas que não têm aquela qualidade, ou que você não usaria, ou das quais já está cansado, como se fossem a oitava maravilha do planeta. E mais ainda, você precisa adquirir credibilidade... o que, muitas vezes, se resume à pura e simples ostentação. Uma ostentação que chega a parecer exagerada e irreal em alguns casos... Pois as pessoas querem te ver como um exemplo a ser seguido. Um objetivo que lhes permita ter tudo o que você tem, e ser bem-sucedidas como você... ou como o que você aparenta ser naqueles vídeos. Você e sua vida passam a compor os sonhos de milhares de pessoas.

E quando você é imigrante e passa a fazer vídeos para ganhar dinheiro com essa maravilha chamada YouTube, o que geralmente você precisa fazer? Mostrar um mundo tingido de cor-de-rosa, onde não há problemas nem dificuldades e que de certa forma representa o extremo oposto desse "inferno em vida" chamado Brasil. Se algum dia pretender ajudar quem deseje seguir o mesmo caminho mostrando sua visão da realidade, saiba que a chance de ter visualizações garantindo um retorno financeiro capaz de sustentar sua vida é quase nula. Você até poderá ter um certo número de visualizações sim, e muitas vezes até mesmo adquirir um público fiel. Poderá ter um retorno impressionante de comentários em relação a visualizações, como eu tinha na época do meu canal. Mas dinheiro que é bom para garantir a sobrevivência do canal, não terá. Tempo para viver, também não terá.

Ah, e antes que eu me esqueça! As tais polêmicas e tretas. Eu sou o "rei da polêmica". Por usar meu espaço para expor meus pontos de vista, muitas vezes passei a ser visto como o "destruidor de sonhos". Ou então como o "anti-carro" ou o "anti-subúrbio". Essas leituras apressadas e ralas dos meus pontos de vista fizeram muitas pessoas que "discordavam de mim" brigar comigo, o que sinceramente é muito bizarro. Vem cá: preciso ser como você e pensar como você para ser seu amigo? Sua vida muda se eu penso diferente de você ou vivo minha vida de uma forma diferente de você, e vice-versa? Creio que não, certo? E exatamente por isso não deveríamos brigar. Eu jamais brigaria com você porque comprou um carro, por exemplo. Então por que você briga comigo se eu venho ao meu canal dizer que pode ser interessante construir uma vida onde não haja dependência de carro? Ou então, ainda mais profundo: por que você me dá o poder de destruir os seus sonhos? Não seria porque você no final das contas percebeu que as coisas podem não ser bem assim como você sonhava e agora está com medo de não dar certo? E que os desafios e dificuldades para vencer no Canadá ou em qualquer lugar fora do Brasil são grandes e te obrigam a uma queda de padrão de vida para a qual não estava preparada ou preparado e que te leva para longe daquela fantasia estilo "Disney" que você tanto procurou?

Sinceramente, quem está tranquila ou tranquilo com suas escolhas de vida não perde tempo sentindo raiva do que outras pessoas dizem em contrário. Reconhece que outras pessoas têm o direito de pensar diferente e viver suas vidas da forma como bem entenderem. E, se for o caso, não deixam de ser amigas de ninguém por conta de um ou outro ponto de vista diferente.

Bom, ok... as minhas polêmicas vinham a partir de pontos de vista que eu realmente tenho e procuro defender. Mas há, no YouTube brasileiro, uma tendência a criar polêmicas, inventar tretas e atacar outras pessoas com o único objetivo de angariar visualizações e monetizar. Não existe muita sinceridade nisso. É puro jogo de marketing, é pura historinha para fazer boi dormir e receber mais dinheiro de monetização. Enquanto no meu caso havia, sim, sinceridade. Até mesmo no desejo de ajudar outras pessoas passando a minha visão desta experiência. Mas não deixei de me transformar num personagem. E a única coisa que ganhei foi um sono tranquilo, embora tenha pago um preço bem alto. Muitos seguidores do meu canal queriam meu lado polêmico e me pediam isso.

Nunca tive tanta paz por aqui como a partir do momento em que encerrei o canal. Isso não tem dinheiro que compre.

A partir da minha própria experiência, o que posso dizer a você é:

- Não acredite em tudo que YouTubers mostram ou dizem. Pode não ser verdade. No vídeo, podem ser personagens... São pessoas tentando ganhar dinheiro, e é em cima de VOCÊ... Pensam no hoje e nem sempre assumem responsabilidade sobre o que seus seguidores podem fazer inspirados na vida que exibem nos vídeos. Às vezes se cansam, como no notório caso de Essena O'Neill. Mas a maioria permanece na roda viva;

- Muito cuidado com os sonhos ou a falta de sonhos. Muitas vezes, mudar-se de país não vai resolver seus problemas. Vai, sim, criar outros. A imigração não é necessariamente um infalível caminho para a felicidade. Talvez o melhor para você seja seguir o que uma velha canção infantil diz:

"Fique na sua cidade,
que a felicidade reside no interior
do teu coração
A fauna e a flora pintando o verão
Pegue o arado, espalhe a semana
que a chuva trará alimento
pra população
Formando a corrente, apertando as mãos"

Ela diz tudo... o caminho mais certo para vencer, pelo menos na minha opinião, é o trabalho duro e a colaboração entre todos buscando o bem-estar comum. É o que não ocorre no Brasil... é o que está levando nosso país e nossos valores ao colapso mas, tristemente, pode ser trazido na bagagem de cada brasileiro ou brasileira que venha para o exterior buscando uma vida melhor... mas, infelizmente, não consegue transformar a si mesmo com essa experiência. Pelo contrário, contribui para contaminar outros povos e culturas com o pior do nosso povo. Muitas vezes sem perceber.

- Pô, Alexei, me ajuda aí. Eu quero tocar no Canadá! Por favor, me ajuda a tocar no Canadá!

Como eu sou músico, de vez em quando escuto ou leio isso por parte de colegas brasileiros residentes no Brasil. Pessoas que pelos mais diversos motivos não têm condições de sair do país e que seguem bravamente enfrentando as dificuldades para (sobre)viver de música numa economia que já não ajudava... mas agora ajuda ainda menos, pois está em crise.

Querem divulgar sua obra no Canadá. Ou querem vir para o Canadá, fazer shows aqui e voltar para o Brasil com alguns benvindos dólares...

E agora que eu estou voltando para o rádio - fiz 7 anos de rádio no Brasil e agora estou começando na rádio comunitária da University of Ottawa -, é possível que alguns vejam em mim uma esperança para começar a divulgar seu trabalho por aqui.

Isso pode acontecer, sim. Mas é muito importante que você saiba que não é fácil. E que será bem restrito!

- "Mas por quê?"

Porque o mercado de artes e música no Canadá protege muito o produto e o artista canadense. E mais ainda o produto e o artista local. O que isso significa? Que as oportunidades para quem é cidadão ou residente no Canadá são muito maiores.

Conto de fadas: artista brasileiro estourar a partir do Canadá? Muito difícil.

- "Mas por que, Alexei?"

Simples: porque a mídia canadense é muito regulada e há leis e regras que impõem um mínimo de conteúdo canadense nas rádios (e também na televisão). Os festivais de música têm espaço para artistas estrangeiros sim, mas o custo e a logística de trazer artistas do Brasil, o que é mais difícil do que trazê-los dos Estados Unidos acaba inviabilizando muita coisa. Pequenos festivais raramente apresentam conteúdo trazido de longe, a não ser que as circunstâncias favoreçam (por exemplo, o apoio de uma embaixada... por sinal, com a crise a embaixada do Brasil não faz grandes coisas). Ou que o artista possa aplicar o "esquema Sepultura"... ou seja, que tenha contatos no festival e consiga bancar suas despesas de viagem e alimentação por alguma forma que não envolva os organizadores.

No rádio, as portas dos meus programas estarão abertas para conteúdo brasileiro e será exatamente esse o propósito: tocar música brasileira e divulgá-la para os canadenses, que não a conhecem. Mas muito provavelmente isso será restrito aos meus espaços... entrar no Top 30 da rádio, por exemplo, é mais fácil para o conteúdo canadense. Além disso, conteúdo canadense e sobretudo conteúdo local (Ottawa e Gatineau) têm menos chances de serem deletados da programação da rádio após três meses.

O conteúdo canadense costuma ser muito bom, em razão da qualidade dos artistas locais. Fica mais difícil para um estrangeiro conseguir atenção por aqui.

Por outro lado, se você mora aqui... o que acontece?

A fada madrinha agita a varinha de condão e... plllllimmm! Sua produção passa a ser reconhecida como conteúdo canadense!

E aí você terá as portas das rádios abertas para seu trabalho. Inclusive as da CBC/Radio Canada, que é obrigada a tocar 50% de conteúdo canadense.

Poderá fazer jus a algum apoio financeiro como o do Canada Council for the Arts. E poderá contar com uma simpatia maior por parte dos organizadores de festivais, que sempre apoiam conteúdo canadense e artistas locais. 

Não será uma caminhada fácil, porque música sempre envolve os mesmos probleminhas de carreira, trabalho e remuneração em todo o planeta, mas pode ser mais compensador do que no Brasil.

"Mas como? Eu me mudar para o Canadá?"

Muito bem... se você é músico com uma carreira sólida, boa experiência - não vale tocar no barzinho da sua tia aos sábados - e a possibilidade de contribuir para o Canadá com seu trabalho, há a possibilidade de solicitar residência permanente através da categoria Federal Self-Employed. Eu vim através dela. 

Pelo que estou vendo, as coisas hoje em dia estão mais difíceis do que quando apliquei. Até porque há mais pessoas que integram a cinzenta zona de fronteira entre artes e profissões técnicas aplicando. Mas para músicos com uma certa experiência, tempo de labuta e formação - volto a dizer, não pode ser alguém que dá uma canjinha no barzinho da tia tocando uns Bob Marley e Gilberto Gil na viola e faturando uns troquinhos para a cervejinha e a pypokinha - as coisas não parecem ter mudado tanto assim. Vale a pena considerar a ideia de ser residente permanente do Canadá!

No mais, é isso... vamos tentando contribuir da forma possível para a divulgação da arte e cultura brasileira para os canadenses!

Como diz um amigo de BH, agitador cultural e amante das artes... YEAH YEAH YEAH, vamo que vamo!





Já vi por aqui umas pessoas que vieram para cá fazer College, buscando uma nova carreira onde não tinham nenhuma experiência. Mas, motivadas por algum interesse pessoal e principalmente por relatos de imigrantes que atuam nessa carreira e foram bem-sucedidos por aqui, vieram.

Um exemplo? Tecnologia da Informação. O famoso TI. Escuto todos os dias que "chovem vagas". Que "é fácil arranjar emprego".

Mas não acho que seja bem assim. É preciso colocar as coisas em perspectiva e contextualizar tudo direitinho.

Até 2014, boa parte das pessoas que obtinha residência permanente e imigrava para o Canadá vinha por meio de uma categoria chamada Federal Skilled Worker. Onde havia um número limitado de vagas e profissões contempladas. O nível de exigência era alto e a competição por uma vaguinha no Canadá era feroz. Dessa forma, vinha apenas uma elite de profissionais. E praticamente só eles, pois não estava na moda vir para cá. Como sempre havia vagas abertas em TI, um número significativo de profissionais brasileiros dessa área imigrou para o Canadá nesse período.

Mas quer saber quem eram essas pessoas? Muito provavelmente eram aqueles que "comiam computador" desde muito novinhos... Que fizeram graduações e pós-graduações na área com honras. Talvez no exterior e, se no Brasil, pode acreditar que foi numa USP, UNICAMP, UFMG...  É verdade... talvez aquele pessoal que não era muito popular na escola e na faculdade lá pelos anos 90 e 2000... que em vez de ficar jogando futebol ou caindo nas baladas estava programando... riu por último. Veio para o Canadá. E como era bom de serviço, não ficou muito tempo sem emprego.

Aí quando vir para o Canadá tornou-se moda, coincidindo com o "fim do sonho brasileiro", quem eram as referências? Eles! Que talvez fizessem blogs e vídeos apenas para manter algum contato com familiares e amigos ou ajudar um punhado de pessoas, e de repente começaram a receber gente estranha (e talvez aflita e desesperada) buscando informações sobre o Canadá...

Quando o "sonho canadense" dos marqueteiros (que passava por fazer um College por aqui... lembrando que os Colleges pagam comissão a esses marqueteiros de imigração) popularizou-se, o que muitos fizeram? Correram para os cursos de programação, redes ou qualquer outra coisa relacionada a TI. Que experiência tinham nessa área? Pouca ou nenhuma. Que interesse prévio haviam manifestado por isso? Pouco ou nenhum. Então por que engradados de água estavam fazendo aqueles cursos?

Porque tinham a ilusão do emprego fácil e rápido, com alta remuneração e residência permanente fácil.

E é aí que seu planejamento mostrou-se completamente equivocado. Aqueles pioneiros tinham planejado tudo certinho. Mas você não faz ideia do que precisaram fazer ao longo da vida para chegar até aqui. Enquanto você simplesmente quer comprar uma passagem, fazer as trouxas e vir para cá acreditando que é para sempre... Saiba que o sucesso dessas pessoas foi construído aos poucos e com muito suor!

Pode até haver uma grande quantidade de empregos em certas áreas por aqui. Mas há também muita competição envolvendo profissionais de excelente nível, que já têm familiaridade com a carreira há um bom tempo. Por isso, a não ser que você tenha um interesse sincero e legítimo naquela determinada carreira e tenha visto na vinda para cá uma oportunidade para abraçá-la - o que envolve muito trabalho duro e estudo, pode acreditar! - deixe essa ideia pra lá. Mesmo que sua carreira original pareça não ter tantas vagas e perspectivas de boa remuneração, é com ela que você vai. 

É esse o caminho. Que a cada dia que passa promete ser mais árduo porque a competição está mais dura. Vem fazer College? Saiba que vai ser difícil, caro e arriscado.

"Espera aí, Alexei. Mas você não é músico? Agora formou-se em Interactive Media Design e já arrumou emprego nessa área antes mesmo de receber seu diploma!"

Então... eu procurei IMD porque essa carreira tinha alguma coisinha a ver com meu trabalho como músico e produtor de áudio e música. E com atividades que eu fazia por hobby e para complementar minhas atividades como músico. Eu gostava de desenhar capas de discos, fazer websites para mim mesmo, editar fotos e mexer com vídeo. Não tinha técnica nenhuma e ia na intuição. Fiz isso um bocado. Então fui me qualificar nessa área porque sabia que teria uma melhor empregabilidade por ali e não estava começando do zero absoluto.

Sem falar que já cheguei como residente permanente, e por isso paguei tuition fees de estudante canadense. Até o coordenador do meu curso se confundia e pensava que eu era estudante internacional. Mas nunca fui!

Eu dei sorte, também. Quem me contratou levou em conta meu currículo passado e se dispôs a investir em mim. Posso ter cara e jeito de "leite com pera", para o que (admito) contribuí um pouco até por ingenuidade... mas saiba que eu ralei bastante e ainda dou muita cabeçada por aí!!! Mas até no momento mais difícil por que passei, a busca pelo estágio remunerado, dei sorte. Demorei mas fui chamado aos 46 minutos do segundo tempo por uma ONG onde fui muito feliz e onde fui apresentado a esse segmento onde há muitas vagas em Ottawa...

Mas não foi fácil não, certo? E não é fácil!

Por tudo isso, reflita bem antes de tomar a decisão de vir para cá. Jogue no lixo a ideia de um país de sonho onde tudo é fácil. Pelo contrário, prepare-se para uma competição das mais árduas, contra gente bem preparada. Muitas vezes cuja formação é toda daqui e que conhece muito bem a cultura e a língua locais. Uma competição inclusive contra si mesmo... contra os seus valores culturais, contra o seu ritmo de vida e trabalho... No meu caso, preciso lutar até mesmo contra o peso da minha idade. Aos 44 anos, eu estava competindo com gente de 22, 24... Sem falar nas dificuldades que precisei passar no College, onde muitas vezes não consegui me fazer entender e onde muitos não me entenderam sem que eu precisasse fazer nada...

Se pareço ser "destruidor de sonhos" e tenho um nariz meio torcido para a ideia de imigrar em definitivo através do College, é exatamente porque me preocupo com você que está sonhando - muitas vezes insuflado por marqueteiros inescrupulosos - e se desconectando da realidade! Saiba que eu quero sim que você venha e que fique por aqui, mas que venha passo a passo sempre com os pés no chão! 







Quem vai entender as imprevisíveis combinações do jogo da vida? Pois aconteceu isso conosco: por pura coincidência, a Thaisa e eu encontramos empregos na mesma semana.

Há imigrantes brasileiros que conseguem bons empregos já nos primeiros dias de Canadá, mas são exceções. Principalmente agora que a maior parte das pessoas vem com vistos temporários para fazer college. Em princípio, obter um emprego "na área" não é fácil. Demora mesmo. A procura pode ser penosa e a sucessão de aplicações sem retorno ou de respostas padrão agradecendo e dizendo que não será desta vez é bem longa. Nós que o digamos! Tanto eu como a Thaisa procuramos muito. Como eu fui fazer o programa de Interactive Media Design no Algonquin College, só iniciei minha busca quando chegou a hora de fazer o estágio remunerado (co-op). Ela começou antes, aplicando para trabalhar em lojas relacionadas a cosméticos e maquiagem. É a área dela. Mas com as barreiras linguísticas que ela precisou superar - infinitamente maiores do que as minhas - e a total ausência de experiência canadense, ela ouviu uma enorme quantidade de "nãos" pelo caminho. Houve situações em que quase foi contratada mas havia uma pedra no meio do caminho. Aí ela foi seguindo em busca de experiência. Fez cursos de maquiagem e estética no Algonquin e no Gina's College (uma escola aqui em Ottawa que só atua com estética). Inscreveu-se nos cursos e workshops do World Skills, uma ONG especializada em inserir imigrantes no mercado de trabalho. Por alguns meses, fez um estágio não-remunerado de office administration lá. E quando acabou, foi trabalhar na loja de souvenirs do Cirque du Soleil durante a temporada do espetáculo Volta em Gatineau.

Eu ainda estava em aulas quando ela começou a trabalhar no Cirque, e também por isso - mas sobretudo por não ter security clearance - não pude dar sequência às conversas que tive com a empresa que cuidou do recrutamento para a temporada. Que chegou a me sondar para trabalhar como designer e videografista ali por três meses. No entanto, surgiu a necessidade de contratarem pessoas que falassem francês para algumas funções logo que as aulas acabaram e lá fui eu para a loja de merchandising também. Fiz de tudo por lá: atendi os clientes, fiquei no caixa, repus estoque, varri o chão, limpei as instalações da loja... E aí, você que diz que eu sou "leite com pera"?

Eu gostei muito da experiência de trabalhar numa loja e de trabalhar no Cirque du Soleil. Se você me perguntar se eu faria de novo, faria sim! Conheci ótimas pessoas, me diverti e ainda ganhei um dinheirinho inesperado. Mas a temporada acabou e voltamos para o limbo. Bom, nem tanto. A Thaisa seguiu aplicando para várias lojas e uma delas a chamou para uma entrevista. Ela precisou faltar ao Cirque du Soleil e eu fui cobrir o dia de trabalho dela. Enfim, ela voltou dizendo que tinha sido a melhor entrevista dela. Ela tinha gostado da gerente que a recebeu e parece que a conversa foi boa. Mas daí a receber uma oferta de emprego, o caminho é longo. Mas passados alguns dias, quando já estávamos no limbo de novo, os funcionários da loja começaram a procurá-la com insistência. Deixavam mensagens de voz no celular dela (o que às vezes é desesperador, porque falam rápido demais nessas horas e não entendemos muita coisa). Até o momento em que a mesma gerente que a entrevistou telefonou e fez a oferta de emprego para ela. Se não me engano isso aconteceu numa terça e ela começaria na terça seguinte com alguns dias de treinamento.

Muito bem, então ela ficaria encarregada de trazer dinheiro para casa por um tempo enquanto eu seguiria na minha procura de emprego. Estava aplicando para tudo que via pela frente: desde job postings postadas por ONGs no site Charity Village (lembrando que meu estágio remunerado foi numa ONG e eu fui muito feliz ali, daí nada mais natural que eu procurasse seguir nesse meio) até oportunidades para pessoas que precisavam de alguém para criar um site na Internet e postavam anúncios no site de classificados Kijiji. Tinha feito uma entrevista numa ONG ainda em agosto, não fui chamado. Apliquei mais uma vez para a Apple Store (e fui chamado para uma entrevista, coisa que nunca havia acontecido). Imaginei que poderia ficar uns dois ou três meses procurando trabalho. Ou até mais. Mas pelo menos a Thaisa já estava encaminhada.

Ela começou a trabalhar no dia marcado, aquela terça-feira, e por vários dias saiu quase desesperada à procura de roupas e sapatos para usar na loja. Acabei indo com ela todos os dias, e quando eu estava dentro da própria loja onde ela trabalha na quarta-feira, o telefone tocou. Era uma outra ONG, que tinha postado uma vaga bem interessante e parecida com o trabalho que eu tinha realizado no co-op e aí eu apliquei. Perguntaram se eu poderia ser entrevistado na manhã seguinte. Sim, perfeitamente. Aproveitei que estava na loja para comprar roupas, porque eu não tinha... Para resumir o resto, fui fazer a entrevista e me pareceu que fui bem. Foi uma entrevista longa com as diretoras, e a conversa evoluiu bem. Saí de lá pensando: "seria interessante eu trabalhar aqui e acho que fui bem... será que vai dar?" Mas como sou do tipo de pessoa que já caiu do cavalo muitas vezes por sonhar demais, mantenho meus pés no chão... Aí no mesmo dia me telefonaram de novo: "você pode vir aqui amanhã novamente para discutir os próximos passos?" Sim, posso sim! Mas para que cargas d'água estão me chamando aqui para discutir próximos passos? Tem outra entrevista?

Não, não tem. Fui lá e a diretora executiva dessa vez foi direto ao ponto. Me ofereceu a vaga e perguntou se eu poderia ir trabalhar já na segunda (era sexta). Bom, inicialmente é um contrato de um ano. Eu vim substituir uma funcionária que está saindo em licença-maternidade. Mas a executiva disse que queriam fazer uma experiência e ter um designer trabalhando em tempo integral lá dentro, interagindo com o time. E que dando certo batalharia com a board of directors para me efetivar em prazo indeterminado.

Temos um longo caminho pela frente.

Enfim, é isso! A Thaisa começou a trabalhar numa terça, e eu na segunda seguinte. Menos de uma semana de diferença! Em situações favoráveis para ambos: ela trabalha a três quadras de casa e eu a sete. Podemos os dois ir e voltar a pé mesmo com nevasca forte, algo que eu fazia durante o co-op. O fantasma de "K-a-n-a-t-a" está adormecido na minha vida pelo menos por um ano. Mas não foi fácil e nem é fácil! Falo isso até pelos colegas que estão se formando comigo (ainda não recebi o diploma!). Olho para o LinkedIn deles e tudo continua na mesma: procurando novas oportunidades. Nada de emprego novo para quase ninguém.

Eu mesmo fiz algo como 15 entrevistas de emprego para conseguir minha vaga no estágio remunerado no final do ano passado, lembra-se? Desta vez foi de segunda... 

Enfim: é preciso ter força e perseverança para superar as dificuldades do começo por aqui. Não há outra coisa! Mas para quem dá duro e faz sua parte direitinho e sem jeitinhos, o Canadá pode sorrir logo. Por isso, o negócio é correr atrás. Ir à luta mesmo.






Como vocês sabem, eu completei meu curso no college após dois anos. E, após essa experiência, fico pensando em tantas pessoas que vêm estudar aqui ou pretendem fazer isso. Qual será a expectativa dessas pessoas quanto ao curso? Como está a disposição delas para isso?
Porque o lance é o seguinte: se você pretende levar seu curso a sério - o que é fundamental, pois a maioria absoluta das pessoas que vêm fazer college aqui quer ficar de vez e depende de um bom trabalho nessa etapa para isso - saiba que muitos programas não são nem um pouco fáceis e não dá para achar que a vida vai ser tranquila.
Ainda mais se você estiver disposto(a) a aplicar a Regra de Ouro do Alexei, que resumidamente significa dar o seu melhor em 101% do tempo e fazer de tudo para ser o melhor que puder ser durante o curso, saiba que a vida periga não ser exatamente tranquila. Muitas vezes não existe essa de "tenho experiência, só estou aqui para me qualificar e obter a experiência canadense e o networking que tanto contam por aqui e daqui é partir pro abraço, pro emprego, pra residência permanente..."
A minha vida durante os períodos de aulas não foi nem um pouco tranquila. Além dos desafios extras que precisei superar, meu curso de Interactive Media Design foi insano. E por quê?

  • A carga horária é puxada. Dias com seis horas ininterruptas de aula, ou com uma jornada de oito ou nove horas de aulas e alguns intervalos, eram comuns no meu curso;
  • Os horários de aula não são regulares como frequentemente acontece no Brasil. A grade de horários depende da disponibilidade de professores que podem ter empregos regulares das 9 às 5 e por isso só dão aulas à noite. Muitas vezes eu saía do Algonquin College às 8 da noite para estar lá novamente às 8 da manhã. Em alguns dias eu chegava em casa às 11 da noite, em outros dias saía de casa às 6 da manhã (no inverno!)... Isso era bem sacrificante para mim, pois eu não tinha horários certos para nada. Nem para comer (e eu comia muito mal), nem para dormir... Meu corpo não gostava disso;
  • Além das longas horas em sala de aula, há os assignments. O que são esses ditos cujos? São trabalhos que você faz em casa para as disciplinas. No meu curso, praticamente não havia provas mas os trabalhos estavam sempre ali à espera. Os pequenos trabalhos e os grandes: há os de meio de semestre, chamados de midterm, e os finals. É dos trabalhos que vem o aproveitamento no curso. Quer saber? Não cheguei a virar noites sem dormir mas já fiquei várias vezes por 12, 14 horas ininterruptas fazendo assignments nos finais de semana;
  • Por conta dessa carga horária, que pode ser adequada à disponibilidade e ao nível de energia de jovens de 20 anos mas não exatamente a alguém com 35 ou 40 anos, é meio difícil trabalhar durante o curso. Normalmente, o máximo que vai dar para fazer é arranjar um emprego dentro do próprio campus;
  • Está levando a família, filhos, etc., e vai fazer college? Não haverá muito tempo para a família e você terá de se desdobrar heroicamente. A rotina de um college é muito adequada para jovens solteiros, sem maiores compromissos além do estudo. Não é fácil para casais com filhos onde um estuda e o outro trabalha. As crianças não podem ficar sozinhas em casa por aqui;
  • Os colleges tentam simular ambientes super-acelerados de trabalho para preparar os alunos para o trabalho. O que você experimenta num emprego de 9 às 5 é multiplicado durante o curso.
Há quem não leve muito a sério as aulas, pouco apareça e faça o suficiente para ser aprovado no fim do semestre. Na base da estratégia, saca? Porque na realidade, simplesmente passar nas matérias não é nada difícil. No meu curso, só não passava quem não queria. Mas passar com notas realmente boas não é para muitos. Como aqui a GPA (média numérica de aproveitamento de um curso) costuma ir para o currículo, nota boa conta sim! Uma GPA superior a 3.9 (em 4) salta aos olhos dos empregadores. E tem outra coisa: aqui no Canadá a reputação de uma pessoa é levada bastante a sério. Quando você vai procurar um emprego, é comum que o seu entrevistador telefone para as suas referências pedindo informações a seu respeito. E sabe quem serão as suas primeiras referências? Seus professores. Eles estão no mercado e rapidamente percebem os alunos mais interessantes.  Podem abrir portas. Não desperdice esses contatos!
Por essas e outras, ser medíocre aqui não rola. College não é brinquedo. Ainda mais se você está investindo as economias da sua vida e contando com isso para obter a sonhada residência permanente. No meu curso, a anuidade para alunos internacionais era de cerca de 15 mil dólares. Algo em torno de 40 mil reais, só em tuition fees.
Não se preocupe em ser o melhor aluno da turma. Por mais que o mundo seja competitivo, mantenha o foco em você e procure dar o seu melhor independente dos outros. O esforço honesto e sincero aqui conta muito.
Com tudo isso você ainda vai brincar e ficar levando o college na flauta? Bom, quem avisa amigo é. Essa é a batalha da sua vida! Faça as coisas direito, com seriedade, buscando dar o seu melhor em todo o tempo. E será recompensado.


Volta e meia aparece alguém me fazendo perguntas inoportunas sobre imigração. Não estão nem aí se estou trabalhando, se estou fazendo algo importante... disparam perguntas, perguntas, perguntas... E o pior de tudo é que se respondo "não", ficam com raiva.
A pessoa quer fazer mestrado no Canadá com bolsa (provavelmente concedida pelo Canadá). É possível? Creio que sim, mas não deve ser muito fácil. Não sei quase nada sobre questões acadêmicas aqui.
Além disso, a pessoa queria que eu a pusesse em contato com alguém que foi YouTuber mas desativou seu canal há tempos. Eu o conheci pessoalmente mas não falo com ele há dois anos. E sei o quanto ele preza sua privacidade.
Então eu tive que dizer "não" e Brazukis Pergunttis se alterou.
Vem cá... Não é que eu não queira ajudar pessoas, mas...
  1. Não tenho condições de ajudar qualquer pessoa da forma como ela quer. Não sou consultor de imigração e nem consultor educacional. E principalmente, sei muito bem que meus AMIGOS brasileiros são bem poucos por aqui - na maioria são "colegas de imigração" - e que o número relativamente grande de pessoas que me segue em redes sociais não corresponde a AMIGOS.
  2. Por mais que exista ajuda de outras pessoas, cada pessoa faz seu caminho porque os outros não têm obrigação de saber tudo o que ela precisa. Vocês acham que eu tive ajuda de brasileiros? Tive alguma ajuda sim, mas a maior parte da minha caminhada foi solitária. Fui atrás, pesquisei... E por um tempo me dispus a ajudar quem pudesse aplicar para imigração na categoria self-employed porque não havia informações na rede. Mas mesmo assim tive muitas dores de cabeça. Percebi que gratidão pode ser mais rara do que ouro e que basta uma divergência de pensamento sobre algo pequeno - ter carro ou não ter carro... oi??? - para a briga feia aparecer. Thoo Propósito, Ronda Rauzy, Guinho e outras personalidades do UFC estão prontos para atacar!
  3. Eu só ajudo quando eu quero e quando eu posso. E como eu posso. Não sou ONG para ajudar brasileiros!

A pessoa ficou dizendo algo como "ninguém ajuda" e dando a entender que nem eu nem ninguém lhe ajudaria... Não é verdade: há muitas pessoas, profissionais e amadoras, que disponibilizam informações. E podem ajudar muito mais do que eu! Já ouviu falar de Google? De Scholarships Canada? De Estudar Fora? Mas escute bem: ninguém vai te carregar no colo e te dar todo o caminho das pedras, de graça, para chegar aqui.
E ninguém morre por causa disso. Na verdade o que não mata, fortalece! Se eu consegui chegar até aqui da forma como cheguei, você também pode!
Então peço encarecidamente: respeite minhas limitações de tempo, disposição e estrutura para ajudar e não venha me inundando com perguntas. Não abuse da minha boa vontade, pois assim corremos o perigo de ela acabar. Nem fique com raiva se eu precisar te responder "não". Porque muitas vezes vou precisar, e vou fazer isso!