... antes de embarcar numa aventura no Canadá, arriscando tudo que você tem. Sinceramente, admiro a coragem de quem faz isso mas é preciso ter um mínimo de ponderação. É isso mesmo que você quer? Você não tem outras alternativas mais fáceis?

Não acredite cegamente na propaganda, incluindo aí os YouTubers que mostram uma vida maravilhosa e repleta de troféus materiais que aparecem nos vídeos. As coisas não são bem assim. Recomeçar no Canadá é muito difícil e a palavra de ordem aqui não é glamour: é ralação.

Porque os tempos em que só pessoas muito bem qualificadas vinham para cá com residência permanente e arranjavam empregos com bom salário por aqui rapidamente passaram... e agora a imensa maioria dos que vêm possui vistos temporários e querem fazer um College com o objetivo de imigrar... o que é temerário. E não garante nada.

É o Canadá mesmo que você quer? Esqueça o Canadá do sonho e venha para a realidade. O que te espera aqui? Um custo de vida alto, uma cultura que pode te endividar bastante se você sair consumindo e consumindo, um mercado de trabalho bastante protecionista e sem conhecimento do potencial dos imigrantes, muito trabalho duro, muita ralação. Tuition fees bem caras sem garantia de ficar. Tensão constante. É isso mesmo?

Você não tem alternativas mais fáceis, como por exemplo uma cidadania europeia? Mesmo que na Europa você encontre ralação, já chegará como cidadão. Terá direito a uma educação bem mais barata do que a do Canadá. Terá benefícios que não estarão ao seu alcance no Canadá. Talvez um clima menos extremo que o do Canadá, e uma infra-estrutura melhor.

Mudar de país é uma decisão muito drástica. Pode ser menos difícil para alguns, mas no geral não é fácil! Você não vai encontrar nenhum emprego te esperando, a não ser que seja um bambambam... O país não vai te sorrir de cara. Vai te desafiar o tempo todo. E para combater, você precisará de uma boa reserva financeira e de um desprendimento que nem todos têm. O padrão de vida cai e você precisa fazer coisas que nunca imaginou fazer nesse momento no Brasil por tudo que já conquistou. Mas aqui não: suas conquistas foram zeradas. Encare isso numa boa e recomece. Mas na base do desespero você já não está partindo bem. Esse momento não é para desesperados. É para pessoas com frieza suficiente para traçar uma estratégia realista e deixar as ilusões e os sonhos na lata de lixo. É para quem consegue viver bem com pouco. Para quem consegue passar longos anos fisicamente longe da família e aguenta as lágrimas toda vez que ocorre uma festa ou um evento... Para quem encara um ônibus lotado, uma madrugada a - 40 graus, roupas de segunda mão, um apartamento minúsculo num prédio nem tão bom, um food bank para ajudar a encher a geladeira... Para quem não se apega a troféus e não tem medo de deixar tudo para trás.

Quanto mais gente vem com visto temporário, quanto mais gente embarca no projeto College (que faz a fortuna de marqueteiros e oportunistas, e você nem imagina), mais gente periga precisar voltar para o Brasil para recomeçar lá sem nada. Após ter gasto todas as suas economias num projeto arriscado porque alguém que não estará se importando lhe vendeu um sonho. E não pode ser assim! O Canadá é um bom lugar, mas você precisa enxergá-lo pelo que ele realmente é. E jamais como uma terra prometida onde seus problemas automaticamente desaparecerão. Não é assim e nunca será! Sonho canadense não existe! É papo de marqueteiro, de vendedor de intercâmbio e college, de consultor de imigração! Repita isso um milhão de vezes e parta para a realidade! Eu torço por você e espero que você encontre uma vida melhor fora do Brasil se é o que realmente deseja e se está preparado ou preparada... mas de repente isso não vai acontecer no Canadá!

Frieza. Planejamento. Isso é necessário. Guarde o sonho na gaveta, porque agora o papo é sério.






Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.


LinkeDinho é um brazuca gente fina que sempre acreditou ter nascido no lugar errado. Por muitos anos, viveu sua vida sonhando com a oportunidade de "se rapar" do Brasil para algum país de primeiro mundo. De preferência onde se fala inglês, saca?

Sua alma estava vazia e nunca descansou na busca pelo paraíso em Terra. Um belo dia, ele encontrou o folheto da Igreja do Sonho Canadense e deixou-se contagiar pela pregação. Converteu-se rapidamente e começou a planejar. Descontente com a carreira onde havia se graduado no Brasil - afinal de contas, carreira no Brasil é coisa de loser - ele viu a luz. Fazer um College no Canadá e dali partir para a residência permanente e depois para a cidadania com enorme sucesso! Aleluia, ô aleluia! Miami e Orlando on ice, patinando e esquiando beleza pura!

A meta estava encontrada. LinkeDinho começou a planejar-se e encontrou sua companheira de aventura: a LinkeDinha! Uniram-se em linda cerimônia abençoada pelos próprios Pastores do Sonho Canadense, o Casal Pretzel, e numa bela e corajosa noite zarparam para as geladas terras do norte. E nosso LinkeDinho iniciou seu curso no Drew Jones College de Toronto. Programação para Dispositivos Móveis! Que nome pomposo! Ele sonhava em ser o maior desenvolvedor de apps do planeta, saca?

E o que fazia nosso herói no College? Bom... é uma pergunta meio difícil de ser respondida, porque ele podia ser considerado o que os estudantes brasileiros chamam de "turista". Raramente aparecia por lá. Algumas indiscretas bocas espalharam o rumor de que Dinho não gostava do estabelecimento e preferia ficar meditando e esperando o Sagrado Conhecimento lhe invadir por osmose e lhe deixar instantaneamente pronto para seduzir qualquer empregador canadense. Ele também teria sido visto numa rodinha de amigos tocando uma música estranha aos ouvidos canadenses... algo como "pahgoddy"... Mas é certo que de vez em quando, Links (como passou a ser conhecido pelos colegas) aparecia para dar um alô aos maninhos do college. Isso não era muito suficiente para que os professores o notassem, exceto nos momentos em que ele os chamava num cantinho para armar a cara de coitadinho, trocar uma ideia e pedir a chance de entregar seus trabalhos atrasado. Mas chegava a ser engraçado para os colegas que sempre iam às aulas: os professores passavam meses sem conseguir se lembrar quem era o LinkeDinho.

Os brasileiros que cruzavam com Dinho pelo caminho nunca perceberam que ele era um dos seus. Afinal de contas, nosso herói padece de uma notória alergia a tudo que é brasileiro ou do Brasil. E aprendeu a ser mudo como as sombras, falando sempre num inglês cujo sotaque lhe fazia passar por "espanhol". Sim, para o mundo Dinho dizia ser espanhol de Barcelona. Que chique!

Com o passar do tempo, Links desenvolveu amizade com Stanley Stanley, Francisco Israel e Johnny Tremblay... três caras tão bons de serviço que mal precisavam ir às aulas para arrebentar. Sabe esses meninos que aprendem a programar com 10 anos e um dia precisam pendurar um diploma na parede para contentar o sistema? Pois é, são eles! Fato é que a vida nunca foi fácil e uma graninha extra era sempre benvinda... Sacando isso com seu PhD em malandragem, LinkeDinho lhes pagava uns lanches no Tim Hortons em troca dos trabalhos feitos ou de umas dicas preciosas... afinal de contas, Dinho sabia que precisava fazer uns 15% dos trabalhos ele mesmo. Para dar seu toque pessoal e implantar sua Malandragem Corporations na coisa, tá ligado? De qualquer forma, os professores não controlavam mesmo quem fazia os trabalhos... bastava clicar no "submit" e era só alegria!

Mas muitos colegas, quando precisavam de Dinho para fazer trabalhos, nem sabiam onde ele estava ou se poderiam contar com ele.

Que mares tranquilos para navegar! As inocentes águas canadenses. Ainda mais quando Dinho ouviu o Professor Richard Shear desabafando: "nós não podemos reprovar aqui... porque a província paga uma parte dos custos de cada aluno canadense, mas só quando ele se forma! E os estudantes internacionais... trazem muita grana! Com isso, ficamos quebrando a cabeça no final do semestre para passar essa moçada!" Ah, então é isso? Formar no College é tão moleza assim? Nem precisa de tanta malandragem? Pois é, o sistema conseguiu chocar o LinkeDinho! Ele até comprou uma berejinha na Beer Store da Dundas para comemorar a moleza.

Ah, não falei na LinkeDinha... Nunca vi um casal tão diferente nesse aspecto. Apesar da fama de "mascarada" que seus colegas de colégio no Brasil espalharam e da qual nunca se livrou, Dinha é esforçada, trabalhadora e boa de serviço. Chegou com inglês na ponta da língua e um bom diploma debaixo do braço. Daí começou bem por baixo, fazendo um trabalho voluntário já na sua área... Tinha visto de trabalho e logo descolou um emprego numa empresa situada bem no centro de Toronto. Com vista para o lago Ontario e tudo mais! Sua ascenção foi relativamente rápida. E enquanto Dinho tramava seus mistérios pelo College, a Dinha trabalhava e chegou a um ponto onde ela mesma estava pronta para aplicar para residência permanente pelo Express Entry. Foi tranquilo. Em pouco tempo lá estavam eles celebrando o sucesso nessa empreitada com uma viagem para a Disney e o landing no retorno.

LinkeDinho, que como boa abelha é fabricante do necessário mel para manter a LinkeDinha sempre em sua colmeia, nunca esteve tão contente. Bastou esse tempinho firulando no College e a "muiezinha" trabalhando duro pra garantir o cartãozinho branco e mandar uma banana geral pro Brazuca? Yeah, dude! Tá bonito e tá gostoso!

Mas falando em bonito e gostoso, LinkeDinho gosta de mostrar pra sua seleta plateia que fez o Sonho Canadense do Casal Pretzel com direito a um Pretzel Dourado para os vencedores. Dessa forma, sabendo que um empreguin dos bão dá direito a 2 mil Pretzel Points, ele escolheu seus carros alegóricos para mandar bem na foto! Começou pelo co-op no College. Ah, mas para isso ele aparentemente se esforçou e ficou ligado! Tanto que conseguiu... como 90% dos seus colegas... deixando para trás uns 10% que talvez fossem melhores do que ele, mas que empregador resistiria ao seu mel de malandragem? Bem... esses bonzinhos canadenses que querem dar chance a estudantes não resistem. E aí lá estava o Links na equipe de programadores de um app que agregava cupons de desconto!

Se os empregadores de Links gostaram ou não de seus serviços, isso nunca se saberá. Mas o fato é que ele, de repente, começou a anunciar ao mundo que seu lance era a linguagem X+++, conhecida por sua dificuldade. E por isso mesmo, dizem que tem muito emprego para programadores X+++ no Canadá. Agora... se nosso herói já fez alguma coisa nesse campo na vida ou se é pura goma de mascar, ninguém sabe. Porque portfólio ou referências... bom, ele não tem. Ele está na rede social dos profissionais, mas se eu fosse empregador e visse seu perfil "searching for new challenges", seguiria adiante. Porque não fala nada sobre o que ele fez na vida. Nem sobre suas lendárias malandragens, rá yé yé, já que isso afastaria os recrutadores.

Dinho tem, de fato, o cartão branco de residente permanente obtido graças ao esforço de sua cônjuge. Mas após um college muito mais ou menos (onde desperdiçou a oportunidade de fazer o seu melhor, aprender e estabelecer networking com os professores, colegas e profissionais que estão lá), ele deparou-se com a realidade. O grande funil canadense é o mercado de trabalho. Os bons, tal qual vem ocorrendo com os colegas "raladores" dos quais Links covardemente zombava pelas costas, vão sendo empregados. Mas e ele? Passados alguns meses, ele segue "searching for new challenges" na rede dos profissionais... Se bem que talvez isso não lhe represente grandes coisas, pois aprendeu a plantar sementes nos vasos de casa e colher dinheiro. Sem falar na Dinha!

A moral da fábula de LinkeDinho, personagem fictício cujo espírito pode estar presente em tantos que vêm de todo o mundo em busca do Sonho Canadense, é a seguinte: estamos num país onde a palavra é sagrada até para estudantes. E por isso não há tanto controle. Porém, na malandragem, podemos ter a capacidade de sujar bastante o chão onde pisamos de marrom. Achamos que vamos nos dar bem na base da estratégia, mas a única estratégia que vale aqui de verdade é a da honestidade sem exceções e a do trabalho duro todos os dias. Do contrário, o LinkedIn sempre periga estar ali do mesmo jeito.


Em algum momento (não sei dizer exatamente quando), alguns imigrantes brasileiros começaram a fazer vídeos sobre sua vida e sua experiência fora do Brasil e postá-los no YouTube. As intenções podiam ser diversas: por exemplo, manter um contato mais intenso com seus familiares e amigos que ficaram no Brasil e reduzir um pouco a solidão, mostrando e compartilhando o que viam e viviam.

Mas, encurtando bastante a história, o interesse e a vontade de sair do Brasil cresceu exponencialmente durante os governos Dilma Rousseff porque foi exatamente nesse período que muitos perceberam que o sonho acabou. Ou, no caso de alguém como eu que vivenciou a ditadura militar e o período de hiper-inflação dos anos 80 e início dos 90, tiveram a re-confirmação de que o sonho nunca existiu. Após alguns anos de real valorizado facilitando as viagens para o exterior, nos colocando numa ilha da fantasia que nos levava temporariamente para longe do purgatório.

E acabávamos caindo naqueles vídeos que mostravam a vida que queríamos ter. Um sorriso feliz e vitorioso de quem deixou definitivamente para trás o purgatório chamado Brasil e venceu no primeiro mundo. Os troféus estavam ali na tela: o carro além dos sonhos dos consumidores de carroças que sempre fomos... a casa bonita num local bonito e sobretudo SEGURO, sem o medo e a paranoia que nos cercam... os telefones celulares, computadores, videogames, cosméticos, roupas, calçados que sempre quisemos ter mas nunca podemos em razão das políticas idiotas de reservas de mercado... Esses vídeos acendiam a perigosa fagulha do sonho em nossas vidas. E aquelas pessoas nem precisavam fazer vlogs ou falar de imigração: haviam as meninas que falavam de moda e maquiagem, os rapazes fãs de videogame... Não importa: alimentou-se o sonho.

E num dado momento o YouTube passou a remunerar os criadores de vídeos. Isso mesmo! Com a inserção de anúncios nos vídeos, possibilitou-se a chamada monetização. Quanto mais pessoas assistirem aos seus vídeos, mais dinheiro você recebe. E consequentemente criou-se uma nova profissão: YouTuber.

Rapidamente as YouTubers e os YouTubers entraram na moda e até mesmo ganharam as bem-remuneradas mídias tradicionais. Além da monetização, estabeleceram parcerias com empresas em busca de publicidade... sabe aquele incômodo merchandising que volta e meia aparece nos programas de televisão? Pois é pois é pois é... Eu te dou um presenteenho, um mimo, um agrado, e você fala de mim nos seus vídeos, nas suas redes sociais... uma fotcheenha no Insta... sabe como é...

E o mundo gira. E a vida segue. Até aí tudo bem, exceto por um fato que eu percebo: tal qual costuma ocorrer com o que vemos na mídia tradicional, tendemos a acreditar em tudo que as YouTubers e os YouTubers transmitem. Até mais, porque os enxergamos como "gente como a gente". Mas nem sempre é bem assim.

Para quem pretenda fazer vídeos com alguma qualidade no YouTube e transmitir seu recado de uma forma mais eficiente, o investimento financeiro em equipamentos e o investimento de tempo para filmar e sobretudo editar o conteúdo é alto. Fica muito difícil, quando não impossível, conciliar os vídeos com um emprego que ocupe nossa semana de segunda a sexta, das 9 às 5. E ter uma vida fora do YouTube. Isso só se justifica exatamente quando passa a ser trabalho e garantir o sustento da pessoa, do casal, da família. Do contrário, a pressão para parar e a própria vontade de parar vêm depressa.

E quando você é YouTuber profissional, a liberdade para dizer o que você pensa e transmitir aquilo em que você realmente acredita vai embora. Você se torna escravo do que o seu público quer ver e ouvir, e muitas vezes do que os seus parceiros e investidores pagam para você falar. Muitas vezes, você precisa mostrar coisas que não têm aquela qualidade, ou que você não usaria, ou das quais já está cansado, como se fossem a oitava maravilha do planeta. E mais ainda, você precisa adquirir credibilidade... o que, muitas vezes, se resume à pura e simples ostentação. Uma ostentação que chega a parecer exagerada e irreal em alguns casos... Pois as pessoas querem te ver como um exemplo a ser seguido. Um objetivo que lhes permita ter tudo o que você tem, e ser bem-sucedidas como você... ou como o que você aparenta ser naqueles vídeos. Você e sua vida passam a compor os sonhos de milhares de pessoas.

E quando você é imigrante e passa a fazer vídeos para ganhar dinheiro com essa maravilha chamada YouTube, o que geralmente você precisa fazer? Mostrar um mundo tingido de cor-de-rosa, onde não há problemas nem dificuldades e que de certa forma representa o extremo oposto desse "inferno em vida" chamado Brasil. Se algum dia pretender ajudar quem deseje seguir o mesmo caminho mostrando sua visão da realidade, saiba que a chance de ter visualizações garantindo um retorno financeiro capaz de sustentar sua vida é quase nula. Você até poderá ter um certo número de visualizações sim, e muitas vezes até mesmo adquirir um público fiel. Poderá ter um retorno impressionante de comentários em relação a visualizações, como eu tinha na época do meu canal. Mas dinheiro que é bom para garantir a sobrevivência do canal, não terá. Tempo para viver, também não terá.

Ah, e antes que eu me esqueça! As tais polêmicas e tretas. Eu sou o "rei da polêmica". Por usar meu espaço para expor meus pontos de vista, muitas vezes passei a ser visto como o "destruidor de sonhos". Ou então como o "anti-carro" ou o "anti-subúrbio". Essas leituras apressadas e ralas dos meus pontos de vista fizeram muitas pessoas que "discordavam de mim" brigar comigo, o que sinceramente é muito bizarro. Vem cá: preciso ser como você e pensar como você para ser seu amigo? Sua vida muda se eu penso diferente de você ou vivo minha vida de uma forma diferente de você, e vice-versa? Creio que não, certo? E exatamente por isso não deveríamos brigar. Eu jamais brigaria com você porque comprou um carro, por exemplo. Então por que você briga comigo se eu venho ao meu canal dizer que pode ser interessante construir uma vida onde não haja dependência de carro? Ou então, ainda mais profundo: por que você me dá o poder de destruir os seus sonhos? Não seria porque você no final das contas percebeu que as coisas podem não ser bem assim como você sonhava e agora está com medo de não dar certo? E que os desafios e dificuldades para vencer no Canadá ou em qualquer lugar fora do Brasil são grandes e te obrigam a uma queda de padrão de vida para a qual não estava preparada ou preparado e que te leva para longe daquela fantasia estilo "Disney" que você tanto procurou?

Sinceramente, quem está tranquila ou tranquilo com suas escolhas de vida não perde tempo sentindo raiva do que outras pessoas dizem em contrário. Reconhece que outras pessoas têm o direito de pensar diferente e viver suas vidas da forma como bem entenderem. E, se for o caso, não deixam de ser amigas de ninguém por conta de um ou outro ponto de vista diferente.

Bom, ok... as minhas polêmicas vinham a partir de pontos de vista que eu realmente tenho e procuro defender. Mas há, no YouTube brasileiro, uma tendência a criar polêmicas, inventar tretas e atacar outras pessoas com o único objetivo de angariar visualizações e monetizar. Não existe muita sinceridade nisso. É puro jogo de marketing, é pura historinha para fazer boi dormir e receber mais dinheiro de monetização. Enquanto no meu caso havia, sim, sinceridade. Até mesmo no desejo de ajudar outras pessoas passando a minha visão desta experiência. Mas não deixei de me transformar num personagem. E a única coisa que ganhei foi um sono tranquilo, embora tenha pago um preço bem alto. Muitos seguidores do meu canal queriam meu lado polêmico e me pediam isso.

Nunca tive tanta paz por aqui como a partir do momento em que encerrei o canal. Isso não tem dinheiro que compre.

A partir da minha própria experiência, o que posso dizer a você é:

- Não acredite em tudo que YouTubers mostram ou dizem. Pode não ser verdade. No vídeo, podem ser personagens... São pessoas tentando ganhar dinheiro, e é em cima de VOCÊ... Pensam no hoje e nem sempre assumem responsabilidade sobre o que seus seguidores podem fazer inspirados na vida que exibem nos vídeos. Às vezes se cansam, como no notório caso de Essena O'Neill. Mas a maioria permanece na roda viva;

- Muito cuidado com os sonhos ou a falta de sonhos. Muitas vezes, mudar-se de país não vai resolver seus problemas. Vai, sim, criar outros. A imigração não é necessariamente um infalível caminho para a felicidade. Talvez o melhor para você seja seguir o que uma velha canção infantil diz:

"Fique na sua cidade,
que a felicidade reside no interior
do teu coração
A fauna e a flora pintando o verão
Pegue o arado, espalhe a semana
que a chuva trará alimento
pra população
Formando a corrente, apertando as mãos"

Ela diz tudo... o caminho mais certo para vencer, pelo menos na minha opinião, é o trabalho duro e a colaboração entre todos buscando o bem-estar comum. É o que não ocorre no Brasil... é o que está levando nosso país e nossos valores ao colapso mas, tristemente, pode ser trazido na bagagem de cada brasileiro ou brasileira que venha para o exterior buscando uma vida melhor... mas, infelizmente, não consegue transformar a si mesmo com essa experiência. Pelo contrário, contribui para contaminar outros povos e culturas com o pior do nosso povo. Muitas vezes sem perceber.

- Pô, Alexei, me ajuda aí. Eu quero tocar no Canadá! Por favor, me ajuda a tocar no Canadá!

Como eu sou músico, de vez em quando escuto ou leio isso por parte de colegas brasileiros residentes no Brasil. Pessoas que pelos mais diversos motivos não têm condições de sair do país e que seguem bravamente enfrentando as dificuldades para (sobre)viver de música numa economia que já não ajudava... mas agora ajuda ainda menos, pois está em crise.

Querem divulgar sua obra no Canadá. Ou querem vir para o Canadá, fazer shows aqui e voltar para o Brasil com alguns benvindos dólares...

E agora que eu estou voltando para o rádio - fiz 7 anos de rádio no Brasil e agora estou começando na rádio comunitária da University of Ottawa -, é possível que alguns vejam em mim uma esperança para começar a divulgar seu trabalho por aqui.

Isso pode acontecer, sim. Mas é muito importante que você saiba que não é fácil. E que será bem restrito!

- "Mas por quê?"

Porque o mercado de artes e música no Canadá protege muito o produto e o artista canadense. E mais ainda o produto e o artista local. O que isso significa? Que as oportunidades para quem é cidadão ou residente no Canadá são muito maiores.

Conto de fadas: artista brasileiro estourar a partir do Canadá? Muito difícil.

- "Mas por que, Alexei?"

Simples: porque a mídia canadense é muito regulada e há leis e regras que impõem um mínimo de conteúdo canadense nas rádios (e também na televisão). Os festivais de música têm espaço para artistas estrangeiros sim, mas o custo e a logística de trazer artistas do Brasil, o que é mais difícil do que trazê-los dos Estados Unidos acaba inviabilizando muita coisa. Pequenos festivais raramente apresentam conteúdo trazido de longe, a não ser que as circunstâncias favoreçam (por exemplo, o apoio de uma embaixada... por sinal, com a crise a embaixada do Brasil não faz grandes coisas). Ou que o artista possa aplicar o "esquema Sepultura"... ou seja, que tenha contatos no festival e consiga bancar suas despesas de viagem e alimentação por alguma forma que não envolva os organizadores.

No rádio, as portas dos meus programas estarão abertas para conteúdo brasileiro e será exatamente esse o propósito: tocar música brasileira e divulgá-la para os canadenses, que não a conhecem. Mas muito provavelmente isso será restrito aos meus espaços... entrar no Top 30 da rádio, por exemplo, é mais fácil para o conteúdo canadense. Além disso, conteúdo canadense e sobretudo conteúdo local (Ottawa e Gatineau) têm menos chances de serem deletados da programação da rádio após três meses.

O conteúdo canadense costuma ser muito bom, em razão da qualidade dos artistas locais. Fica mais difícil para um estrangeiro conseguir atenção por aqui.

Por outro lado, se você mora aqui... o que acontece?

A fada madrinha agita a varinha de condão e... plllllimmm! Sua produção passa a ser reconhecida como conteúdo canadense!

E aí você terá as portas das rádios abertas para seu trabalho. Inclusive as da CBC/Radio Canada, que é obrigada a tocar 50% de conteúdo canadense.

Poderá fazer jus a algum apoio financeiro como o do Canada Council for the Arts. E poderá contar com uma simpatia maior por parte dos organizadores de festivais, que sempre apoiam conteúdo canadense e artistas locais. 

Não será uma caminhada fácil, porque música sempre envolve os mesmos probleminhas de carreira, trabalho e remuneração em todo o planeta, mas pode ser mais compensador do que no Brasil.

"Mas como? Eu me mudar para o Canadá?"

Muito bem... se você é músico com uma carreira sólida, boa experiência - não vale tocar no barzinho da sua tia aos sábados - e a possibilidade de contribuir para o Canadá com seu trabalho, há a possibilidade de solicitar residência permanente através da categoria Federal Self-Employed. Eu vim através dela. 

Pelo que estou vendo, as coisas hoje em dia estão mais difíceis do que quando apliquei. Até porque há mais pessoas que integram a cinzenta zona de fronteira entre artes e profissões técnicas aplicando. Mas para músicos com uma certa experiência, tempo de labuta e formação - volto a dizer, não pode ser alguém que dá uma canjinha no barzinho da tia tocando uns Bob Marley e Gilberto Gil na viola e faturando uns troquinhos para a cervejinha e a pypokinha - as coisas não parecem ter mudado tanto assim. Vale a pena considerar a ideia de ser residente permanente do Canadá!

No mais, é isso... vamos tentando contribuir da forma possível para a divulgação da arte e cultura brasileira para os canadenses!

Como diz um amigo de BH, agitador cultural e amante das artes... YEAH YEAH YEAH, vamo que vamo!





Já vi por aqui umas pessoas que vieram para cá fazer College, buscando uma nova carreira onde não tinham nenhuma experiência. Mas, motivadas por algum interesse pessoal e principalmente por relatos de imigrantes que atuam nessa carreira e foram bem-sucedidos por aqui, vieram.

Um exemplo? Tecnologia da Informação. O famoso TI. Escuto todos os dias que "chovem vagas". Que "é fácil arranjar emprego".

Mas não acho que seja bem assim. É preciso colocar as coisas em perspectiva e contextualizar tudo direitinho.

Até 2014, boa parte das pessoas que obtinha residência permanente e imigrava para o Canadá vinha por meio de uma categoria chamada Federal Skilled Worker. Onde havia um número limitado de vagas e profissões contempladas. O nível de exigência era alto e a competição por uma vaguinha no Canadá era feroz. Dessa forma, vinha apenas uma elite de profissionais. E praticamente só eles, pois não estava na moda vir para cá. Como sempre havia vagas abertas em TI, um número significativo de profissionais brasileiros dessa área imigrou para o Canadá nesse período.

Mas quer saber quem eram essas pessoas? Muito provavelmente eram aqueles que "comiam computador" desde muito novinhos... Que fizeram graduações e pós-graduações na área com honras. Talvez no exterior e, se no Brasil, pode acreditar que foi numa USP, UNICAMP, UFMG...  É verdade... talvez aquele pessoal que não era muito popular na escola e na faculdade lá pelos anos 90 e 2000... que em vez de ficar jogando futebol ou caindo nas baladas estava programando... riu por último. Veio para o Canadá. E como era bom de serviço, não ficou muito tempo sem emprego.

Aí quando vir para o Canadá tornou-se moda, coincidindo com o "fim do sonho brasileiro", quem eram as referências? Eles! Que talvez fizessem blogs e vídeos apenas para manter algum contato com familiares e amigos ou ajudar um punhado de pessoas, e de repente começaram a receber gente estranha (e talvez aflita e desesperada) buscando informações sobre o Canadá...

Quando o "sonho canadense" dos marqueteiros (que passava por fazer um College por aqui... lembrando que os Colleges pagam comissão a esses marqueteiros de imigração) popularizou-se, o que muitos fizeram? Correram para os cursos de programação, redes ou qualquer outra coisa relacionada a TI. Que experiência tinham nessa área? Pouca ou nenhuma. Que interesse prévio haviam manifestado por isso? Pouco ou nenhum. Então por que engradados de água estavam fazendo aqueles cursos?

Porque tinham a ilusão do emprego fácil e rápido, com alta remuneração e residência permanente fácil.

E é aí que seu planejamento mostrou-se completamente equivocado. Aqueles pioneiros tinham planejado tudo certinho. Mas você não faz ideia do que precisaram fazer ao longo da vida para chegar até aqui. Enquanto você simplesmente quer comprar uma passagem, fazer as trouxas e vir para cá acreditando que é para sempre... Saiba que o sucesso dessas pessoas foi construído aos poucos e com muito suor!

Pode até haver uma grande quantidade de empregos em certas áreas por aqui. Mas há também muita competição envolvendo profissionais de excelente nível, que já têm familiaridade com a carreira há um bom tempo. Por isso, a não ser que você tenha um interesse sincero e legítimo naquela determinada carreira e tenha visto na vinda para cá uma oportunidade para abraçá-la - o que envolve muito trabalho duro e estudo, pode acreditar! - deixe essa ideia pra lá. Mesmo que sua carreira original pareça não ter tantas vagas e perspectivas de boa remuneração, é com ela que você vai. 

É esse o caminho. Que a cada dia que passa promete ser mais árduo porque a competição está mais dura. Vem fazer College? Saiba que vai ser difícil, caro e arriscado.

"Espera aí, Alexei. Mas você não é músico? Agora formou-se em Interactive Media Design e já arrumou emprego nessa área antes mesmo de receber seu diploma!"

Então... eu procurei IMD porque essa carreira tinha alguma coisinha a ver com meu trabalho como músico e produtor de áudio e música. E com atividades que eu fazia por hobby e para complementar minhas atividades como músico. Eu gostava de desenhar capas de discos, fazer websites para mim mesmo, editar fotos e mexer com vídeo. Não tinha técnica nenhuma e ia na intuição. Fiz isso um bocado. Então fui me qualificar nessa área porque sabia que teria uma melhor empregabilidade por ali e não estava começando do zero absoluto.

Sem falar que já cheguei como residente permanente, e por isso paguei tuition fees de estudante canadense. Até o coordenador do meu curso se confundia e pensava que eu era estudante internacional. Mas nunca fui!

Eu dei sorte, também. Quem me contratou levou em conta meu currículo passado e se dispôs a investir em mim. Posso ter cara e jeito de "leite com pera", para o que (admito) contribuí um pouco até por ingenuidade... mas saiba que eu ralei bastante e ainda dou muita cabeçada por aí!!! Mas até no momento mais difícil por que passei, a busca pelo estágio remunerado, dei sorte. Demorei mas fui chamado aos 46 minutos do segundo tempo por uma ONG onde fui muito feliz e onde fui apresentado a esse segmento onde há muitas vagas em Ottawa...

Mas não foi fácil não, certo? E não é fácil!

Por tudo isso, reflita bem antes de tomar a decisão de vir para cá. Jogue no lixo a ideia de um país de sonho onde tudo é fácil. Pelo contrário, prepare-se para uma competição das mais árduas, contra gente bem preparada. Muitas vezes cuja formação é toda daqui e que conhece muito bem a cultura e a língua locais. Uma competição inclusive contra si mesmo... contra os seus valores culturais, contra o seu ritmo de vida e trabalho... No meu caso, preciso lutar até mesmo contra o peso da minha idade. Aos 44 anos, eu estava competindo com gente de 22, 24... Sem falar nas dificuldades que precisei passar no College, onde muitas vezes não consegui me fazer entender e onde muitos não me entenderam sem que eu precisasse fazer nada...

Se pareço ser "destruidor de sonhos" e tenho um nariz meio torcido para a ideia de imigrar em definitivo através do College, é exatamente porque me preocupo com você que está sonhando - muitas vezes insuflado por marqueteiros inescrupulosos - e se desconectando da realidade! Saiba que eu quero sim que você venha e que fique por aqui, mas que venha passo a passo sempre com os pés no chão! 







Quem vai entender as imprevisíveis combinações do jogo da vida? Pois aconteceu isso conosco: por pura coincidência, a Thaisa e eu encontramos empregos na mesma semana.

Há imigrantes brasileiros que conseguem bons empregos já nos primeiros dias de Canadá, mas são exceções. Principalmente agora que a maior parte das pessoas vem com vistos temporários para fazer college. Em princípio, obter um emprego "na área" não é fácil. Demora mesmo. A procura pode ser penosa e a sucessão de aplicações sem retorno ou de respostas padrão agradecendo e dizendo que não será desta vez é bem longa. Nós que o digamos! Tanto eu como a Thaisa procuramos muito. Como eu fui fazer o programa de Interactive Media Design no Algonquin College, só iniciei minha busca quando chegou a hora de fazer o estágio remunerado (co-op). Ela começou antes, aplicando para trabalhar em lojas relacionadas a cosméticos e maquiagem. É a área dela. Mas com as barreiras linguísticas que ela precisou superar - infinitamente maiores do que as minhas - e a total ausência de experiência canadense, ela ouviu uma enorme quantidade de "nãos" pelo caminho. Houve situações em que quase foi contratada mas havia uma pedra no meio do caminho. Aí ela foi seguindo em busca de experiência. Fez cursos de maquiagem e estética no Algonquin e no Gina's College (uma escola aqui em Ottawa que só atua com estética). Inscreveu-se nos cursos e workshops do World Skills, uma ONG especializada em inserir imigrantes no mercado de trabalho. Por alguns meses, fez um estágio não-remunerado de office administration lá. E quando acabou, foi trabalhar na loja de souvenirs do Cirque du Soleil durante a temporada do espetáculo Volta em Gatineau.

Eu ainda estava em aulas quando ela começou a trabalhar no Cirque, e também por isso - mas sobretudo por não ter security clearance - não pude dar sequência às conversas que tive com a empresa que cuidou do recrutamento para a temporada. Que chegou a me sondar para trabalhar como designer e videografista ali por três meses. No entanto, surgiu a necessidade de contratarem pessoas que falassem francês para algumas funções logo que as aulas acabaram e lá fui eu para a loja de merchandising também. Fiz de tudo por lá: atendi os clientes, fiquei no caixa, repus estoque, varri o chão, limpei as instalações da loja... E aí, você que diz que eu sou "leite com pera"?

Eu gostei muito da experiência de trabalhar numa loja e de trabalhar no Cirque du Soleil. Se você me perguntar se eu faria de novo, faria sim! Conheci ótimas pessoas, me diverti e ainda ganhei um dinheirinho inesperado. Mas a temporada acabou e voltamos para o limbo. Bom, nem tanto. A Thaisa seguiu aplicando para várias lojas e uma delas a chamou para uma entrevista. Ela precisou faltar ao Cirque du Soleil e eu fui cobrir o dia de trabalho dela. Enfim, ela voltou dizendo que tinha sido a melhor entrevista dela. Ela tinha gostado da gerente que a recebeu e parece que a conversa foi boa. Mas daí a receber uma oferta de emprego, o caminho é longo. Mas passados alguns dias, quando já estávamos no limbo de novo, os funcionários da loja começaram a procurá-la com insistência. Deixavam mensagens de voz no celular dela (o que às vezes é desesperador, porque falam rápido demais nessas horas e não entendemos muita coisa). Até o momento em que a mesma gerente que a entrevistou telefonou e fez a oferta de emprego para ela. Se não me engano isso aconteceu numa terça e ela começaria na terça seguinte com alguns dias de treinamento.

Muito bem, então ela ficaria encarregada de trazer dinheiro para casa por um tempo enquanto eu seguiria na minha procura de emprego. Estava aplicando para tudo que via pela frente: desde job postings postadas por ONGs no site Charity Village (lembrando que meu estágio remunerado foi numa ONG e eu fui muito feliz ali, daí nada mais natural que eu procurasse seguir nesse meio) até oportunidades para pessoas que precisavam de alguém para criar um site na Internet e postavam anúncios no site de classificados Kijiji. Tinha feito uma entrevista numa ONG ainda em agosto, não fui chamado. Apliquei mais uma vez para a Apple Store (e fui chamado para uma entrevista, coisa que nunca havia acontecido). Imaginei que poderia ficar uns dois ou três meses procurando trabalho. Ou até mais. Mas pelo menos a Thaisa já estava encaminhada.

Ela começou a trabalhar no dia marcado, aquela terça-feira, e por vários dias saiu quase desesperada à procura de roupas e sapatos para usar na loja. Acabei indo com ela todos os dias, e quando eu estava dentro da própria loja onde ela trabalha na quarta-feira, o telefone tocou. Era uma outra ONG, que tinha postado uma vaga bem interessante e parecida com o trabalho que eu tinha realizado no co-op e aí eu apliquei. Perguntaram se eu poderia ser entrevistado na manhã seguinte. Sim, perfeitamente. Aproveitei que estava na loja para comprar roupas, porque eu não tinha... Para resumir o resto, fui fazer a entrevista e me pareceu que fui bem. Foi uma entrevista longa com as diretoras, e a conversa evoluiu bem. Saí de lá pensando: "seria interessante eu trabalhar aqui e acho que fui bem... será que vai dar?" Mas como sou do tipo de pessoa que já caiu do cavalo muitas vezes por sonhar demais, mantenho meus pés no chão... Aí no mesmo dia me telefonaram de novo: "você pode vir aqui amanhã novamente para discutir os próximos passos?" Sim, posso sim! Mas para que cargas d'água estão me chamando aqui para discutir próximos passos? Tem outra entrevista?

Não, não tem. Fui lá e a diretora executiva dessa vez foi direto ao ponto. Me ofereceu a vaga e perguntou se eu poderia ir trabalhar já na segunda (era sexta). Bom, inicialmente é um contrato de um ano. Eu vim substituir uma funcionária que está saindo em licença-maternidade. Mas a executiva disse que queriam fazer uma experiência e ter um designer trabalhando em tempo integral lá dentro, interagindo com o time. E que dando certo batalharia com a board of directors para me efetivar em prazo indeterminado.

Temos um longo caminho pela frente.

Enfim, é isso! A Thaisa começou a trabalhar numa terça, e eu na segunda seguinte. Menos de uma semana de diferença! Em situações favoráveis para ambos: ela trabalha a três quadras de casa e eu a sete. Podemos os dois ir e voltar a pé mesmo com nevasca forte, algo que eu fazia durante o co-op. O fantasma de "K-a-n-a-t-a" está adormecido na minha vida pelo menos por um ano. Mas não foi fácil e nem é fácil! Falo isso até pelos colegas que estão se formando comigo (ainda não recebi o diploma!). Olho para o LinkedIn deles e tudo continua na mesma: procurando novas oportunidades. Nada de emprego novo para quase ninguém.

Eu mesmo fiz algo como 15 entrevistas de emprego para conseguir minha vaga no estágio remunerado no final do ano passado, lembra-se? Desta vez foi de segunda... 

Enfim: é preciso ter força e perseverança para superar as dificuldades do começo por aqui. Não há outra coisa! Mas para quem dá duro e faz sua parte direitinho e sem jeitinhos, o Canadá pode sorrir logo. Por isso, o negócio é correr atrás. Ir à luta mesmo.






Como vocês sabem, eu completei meu curso no college após dois anos. E, após essa experiência, fico pensando em tantas pessoas que vêm estudar aqui ou pretendem fazer isso. Qual será a expectativa dessas pessoas quanto ao curso? Como está a disposição delas para isso?
Porque o lance é o seguinte: se você pretende levar seu curso a sério - o que é fundamental, pois a maioria absoluta das pessoas que vêm fazer college aqui quer ficar de vez e depende de um bom trabalho nessa etapa para isso - saiba que muitos programas não são nem um pouco fáceis e não dá para achar que a vida vai ser tranquila.
Ainda mais se você estiver disposto(a) a aplicar a Regra de Ouro do Alexei, que resumidamente significa dar o seu melhor em 101% do tempo e fazer de tudo para ser o melhor que puder ser durante o curso, saiba que a vida periga não ser exatamente tranquila. Muitas vezes não existe essa de "tenho experiência, só estou aqui para me qualificar e obter a experiência canadense e o networking que tanto contam por aqui e daqui é partir pro abraço, pro emprego, pra residência permanente..."
A minha vida durante os períodos de aulas não foi nem um pouco tranquila. Além dos desafios extras que precisei superar, meu curso de Interactive Media Design foi insano. E por quê?

  • A carga horária é puxada. Dias com seis horas ininterruptas de aula, ou com uma jornada de oito ou nove horas de aulas e alguns intervalos, eram comuns no meu curso;
  • Os horários de aula não são regulares como frequentemente acontece no Brasil. A grade de horários depende da disponibilidade de professores que podem ter empregos regulares das 9 às 5 e por isso só dão aulas à noite. Muitas vezes eu saía do Algonquin College às 8 da noite para estar lá novamente às 8 da manhã. Em alguns dias eu chegava em casa às 11 da noite, em outros dias saía de casa às 6 da manhã (no inverno!)... Isso era bem sacrificante para mim, pois eu não tinha horários certos para nada. Nem para comer (e eu comia muito mal), nem para dormir... Meu corpo não gostava disso;
  • Além das longas horas em sala de aula, há os assignments. O que são esses ditos cujos? São trabalhos que você faz em casa para as disciplinas. No meu curso, praticamente não havia provas mas os trabalhos estavam sempre ali à espera. Os pequenos trabalhos e os grandes: há os de meio de semestre, chamados de midterm, e os finals. É dos trabalhos que vem o aproveitamento no curso. Quer saber? Não cheguei a virar noites sem dormir mas já fiquei várias vezes por 12, 14 horas ininterruptas fazendo assignments nos finais de semana;
  • Por conta dessa carga horária, que pode ser adequada à disponibilidade e ao nível de energia de jovens de 20 anos mas não exatamente a alguém com 35 ou 40 anos, é meio difícil trabalhar durante o curso. Normalmente, o máximo que vai dar para fazer é arranjar um emprego dentro do próprio campus;
  • Está levando a família, filhos, etc., e vai fazer college? Não haverá muito tempo para a família e você terá de se desdobrar heroicamente. A rotina de um college é muito adequada para jovens solteiros, sem maiores compromissos além do estudo. Não é fácil para casais com filhos onde um estuda e o outro trabalha. As crianças não podem ficar sozinhas em casa por aqui;
  • Os colleges tentam simular ambientes super-acelerados de trabalho para preparar os alunos para o trabalho. O que você experimenta num emprego de 9 às 5 é multiplicado durante o curso.
Há quem não leve muito a sério as aulas, pouco apareça e faça o suficiente para ser aprovado no fim do semestre. Na base da estratégia, saca? Porque na realidade, simplesmente passar nas matérias não é nada difícil. No meu curso, só não passava quem não queria. Mas passar com notas realmente boas não é para muitos. Como aqui a GPA (média numérica de aproveitamento de um curso) costuma ir para o currículo, nota boa conta sim! Uma GPA superior a 3.9 (em 4) salta aos olhos dos empregadores. E tem outra coisa: aqui no Canadá a reputação de uma pessoa é levada bastante a sério. Quando você vai procurar um emprego, é comum que o seu entrevistador telefone para as suas referências pedindo informações a seu respeito. E sabe quem serão as suas primeiras referências? Seus professores. Eles estão no mercado e rapidamente percebem os alunos mais interessantes.  Podem abrir portas. Não desperdice esses contatos!
Por essas e outras, ser medíocre aqui não rola. College não é brinquedo. Ainda mais se você está investindo as economias da sua vida e contando com isso para obter a sonhada residência permanente. No meu curso, a anuidade para alunos internacionais era de cerca de 15 mil dólares. Algo em torno de 40 mil reais, só em tuition fees.
Não se preocupe em ser o melhor aluno da turma. Por mais que o mundo seja competitivo, mantenha o foco em você e procure dar o seu melhor independente dos outros. O esforço honesto e sincero aqui conta muito.
Com tudo isso você ainda vai brincar e ficar levando o college na flauta? Bom, quem avisa amigo é. Essa é a batalha da sua vida! Faça as coisas direito, com seriedade, buscando dar o seu melhor em todo o tempo. E será recompensado.


Volta e meia aparece alguém me fazendo perguntas inoportunas sobre imigração. Não estão nem aí se estou trabalhando, se estou fazendo algo importante... disparam perguntas, perguntas, perguntas... E o pior de tudo é que se respondo "não", ficam com raiva.
A pessoa quer fazer mestrado no Canadá com bolsa (provavelmente concedida pelo Canadá). É possível? Creio que sim, mas não deve ser muito fácil. Não sei quase nada sobre questões acadêmicas aqui.
Além disso, a pessoa queria que eu a pusesse em contato com alguém que foi YouTuber mas desativou seu canal há tempos. Eu o conheci pessoalmente mas não falo com ele há dois anos. E sei o quanto ele preza sua privacidade.
Então eu tive que dizer "não" e Brazukis Pergunttis se alterou.
Vem cá... Não é que eu não queira ajudar pessoas, mas...
  1. Não tenho condições de ajudar qualquer pessoa da forma como ela quer. Não sou consultor de imigração e nem consultor educacional. E principalmente, sei muito bem que meus AMIGOS brasileiros são bem poucos por aqui - na maioria são "colegas de imigração" - e que o número relativamente grande de pessoas que me segue em redes sociais não corresponde a AMIGOS.
  2. Por mais que exista ajuda de outras pessoas, cada pessoa faz seu caminho porque os outros não têm obrigação de saber tudo o que ela precisa. Vocês acham que eu tive ajuda de brasileiros? Tive alguma ajuda sim, mas a maior parte da minha caminhada foi solitária. Fui atrás, pesquisei... E por um tempo me dispus a ajudar quem pudesse aplicar para imigração na categoria self-employed porque não havia informações na rede. Mas mesmo assim tive muitas dores de cabeça. Percebi que gratidão pode ser mais rara do que ouro e que basta uma divergência de pensamento sobre algo pequeno - ter carro ou não ter carro... oi??? - para a briga feia aparecer. Thoo Propósito, Ronda Rauzy, Guinho e outras personalidades do UFC estão prontos para atacar!
  3. Eu só ajudo quando eu quero e quando eu posso. E como eu posso. Não sou ONG para ajudar brasileiros!

A pessoa ficou dizendo algo como "ninguém ajuda" e dando a entender que nem eu nem ninguém lhe ajudaria... Não é verdade: há muitas pessoas, profissionais e amadoras, que disponibilizam informações. E podem ajudar muito mais do que eu! Já ouviu falar de Google? De Scholarships Canada? De Estudar Fora? Mas escute bem: ninguém vai te carregar no colo e te dar todo o caminho das pedras, de graça, para chegar aqui.
E ninguém morre por causa disso. Na verdade o que não mata, fortalece! Se eu consegui chegar até aqui da forma como cheguei, você também pode!
Então peço encarecidamente: respeite minhas limitações de tempo, disposição e estrutura para ajudar e não venha me inundando com perguntas. Não abuse da minha boa vontade, pois assim corremos o perigo de ela acabar. Nem fique com raiva se eu precisar te responder "não". Porque muitas vezes vou precisar, e vou fazer isso!



A vlogger Kitty Avelino, do canal Kitty no Canadá, fez uma viagem pela costa leste do país em busca de uma nova cidade para morar. Aparentemente ela não gostou de Vancouver e resolveu explorar Toronto, Ottawa e Montréal. E, dentre todas essas cidades, acabou preferindo Ottawa.

Todavia, a descrição da cidade feita por ela em seu vídeo mistura impressões típicas de quem vem e passa poucos dias com clichês a respeito da cidade que podem estar desatualizados ou simplesmente não corresponderem à verdade. Por isso mesmo, segue aqui um relato feito por alguém que mora na cidade há 2 anos e meio e pode trazer uma visão um pouco diferente não só para a Kitty mas para qualquer um que deseje viver em Ottawa.

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- Ottawa é uma cidade de área enorme porque houve uma amalgamação em 2001. Com isso, as pequenas cidades que ficavam ao redor da cidade - que tem até um enorme cinturão verde planejado - foram integradas a ela e transformaram-se em subúrbios e áreas rurais. E o que era uma pequena capital de 300 mil habitantes se transformou numa cidade grande com cerca de 1 milhão e repleta de contradições. Era a cidade com o maior walk score da América do Norte mas perdeu muitas posições em razão da integração dos subúrbios carro-dependentes. Particularmente, sempre fui contrário a essa amalgamação porque ela colocou o destino das pequenas comunidades nas mãos de pessoas que talvez nunca tenham ido até lá. E consequentemente impediu que cada uma delas adotasse soluções próprias, dependendo do poder central da City Hall de Ottawa. Essa é uma reclamação constante;

- Além disso, Ottawa é apenas parte da National Capital Region, salomonicamente dividida entre Ontario e Québec desde os tempos da Rainha Vitória da Inglaterra. A divisão prática entre Gatineau e Ottawa é inexistente e dá para ir a pé de uma cidade a outra. Vou da minha casa a várias partes de Gatineau muito mais depressa do que a muitas partes de Ottawa;

- A urbanização de Ottawa é bizarra. O centro antigo com cara de Inglaterra e Holanda é a melhor parte da cidade, mas os padrões estabelecidos ali não foram seguidos nas partes mais novas da cidade, que são totalmente influenciadas por um modelo norte-americano sem charme e sem alma;

- O transporte público de Ottawa é um assunto complexo e confuso. Ottawa está saindo de uma situação de dependência total do automóvel para uma situação onde o automóvel terá que dividir espaço e não será muito benvindo em certas áreas. Afinal, o centro da cidade é velho e não tem estrutura para tantos carros!
Há um Master Plan elaborado pela prefeitura para 2031, que pretende "build a livable Ottawa". E o objetivo é reduzir o percentual de viagens feitas de carro e aumentar o uso de transporte público, bem como as caminhadas e o uso de bicicleta.
Quanto aos ônibus, o que existe hoje é um sistema de BRT integrado com linhas que fazem as rotas estações - bairros. As rotas do BRT, chamadas de Transitway, são basicamente duas. Leste-oeste e norte-sul, ou seja, um T, e se encontram na atual estação Mackenzie King (situada no shopping Rideau Centre, perto do Parlamento). A Transitway foi desenvolvida principalmente para atender aos servidores do governo federal, mas quem mora perto dela, principalmente na área central, fica muito bem servido e consegue ir até a maioria da cidade com um ônibus só. Esses ônibus funcionam bem inclusive no inverno, porque a Transitway é prioridade absoluta para remoção de neve. Reclama-se muito da OC Transpo, mas quem faz isso precisa se lembrar que a maior culpa pelos problemas dos ônibus na cidade é da própria população. Muitas pessoas aqui estão mais preocupadas com seus carros e não fazem nada para reivindicar melhorias nos ônibus;

- O maior problema de Ottawa é o trânsito. Confuso, saturado, mal regulado e ainda por cima os motoristas são muito mal-educados;
- O segredo então para se viver bem em Ottawa com o transporte público é escolher bem onde você vai morar. Há algumas partes da cidade que são estratégicas e onde se vive muito bem sem carro. Você pode até fazer a maioria dos seus deslocamentos a pé - inclusive nos dias mais frios do inverno - se morar nessas regiões e tiver a sorte de trabalhar no centro. Infelizmente, muitas empresas de tecnologia estão situadas em Kanata, subúrbio situado a 25 km do centro. De qualquer forma, existe uma área na cidade que representa um verdadeiro oásis, porque as opções de transporte coletivo são fartas (com a Transitway do lado) e a facilidade para fazer coisas a pé é muito grande. Se você quiser saber qual é essa área, me pergunte! ;-) Fato é que eu vivo aqui há dois anos e meio, sem carro, e nunca me vi em uma situação em que lamentei não ter carro. Pelo contrário, gosto muito de caminhar pela cidade, ver pessoas e descobrir novos locais e novas perspectivas a cada quarteirão; - Ottawa já tem um LRT que funciona há alguns anos - o O-Train - mas hoje em dia ele vai do Nada para o Lugar Nenhum passando pela Carleton University. A celebrada expansão que será inaugurada no ano que vem e estendida em 2023 vai substituir a Transitway de hoje (ou seja, de BRT passaremos a LRT, com uma parte de subsolo no centro que representará nosso "pedacinho de metrô"). Mas as integrações com ônibus e a pouca frequência em áreas de menor densidade continuarão. E ah! Dos subúrbios, somente Orléans - o "subúrbio francófono" que não atrai muito os brasileiros - tem perspectivas de receber o O-Train e apenas em 2023; - Esse papo de que Ottawa é uma cidade parada e não tem muita vida noturna não procede. A cidade tem uma vida noturna bastante agitada e vibrante. Às vezes até demais! kkkkk! Só que tudo está localizado em pequenas regiões do centro... o Byward Market, o "baixo" Elgin Street, o "baixo" Somerset Street... Mas se você procurar há de tudo para todas as tribos: gays, lésbicas, hipsters, geeks, nerds, alternativos, headbangers, punks, motociclistas, hip-hoppers, fãs de música eletrônica, milionários ostentadores, fãs de música country, vegans, torcedores de hockey, estudantes sem muito dinheiro, fãs de artes mais refinadas... E Ottawa tem dezenas de festivais muito bons! A questão é que não existe muita divulgação nem muito hype em âmbito nacional e é preciso explorar um pouco a cidade até encontrar o que você procura. E sim, muitas vezes você encontrará as mesmas pessoas nos mesmos locais, sempre! Mas isso não é ruim: você terá a chance de fazer novos amigos! Mais uma vez, a culpa dessa caracterização de Ottawa como "a cidade que a diversão esqueceu" é dos próprios moradores da cidade. Mas pergunte a eles se querem fazer de Ottawa uma nova Montréal ou Toronto... E ah! Os subúrbios definitivamente não têm boas opções de cultura e diversão (exceto Orléans, que possui o Shenkman Centre);

- Os subúrbios de Kanata e Barrhaven são muito populares entre os brasileiros por diversas razões: tranquilidade, imóveis grandes e mais baratos, boa estrutura para famílias. Mas tudo que se encontra nesses subúrbios pode ser encontrado em outras partes da cidade da mesma forma e com os mesmos preços. Convém explorar bem para definir qual é o melhor lugar para você, a partir da sua própria perspectiva e não das opiniões de outras pessoas; - Muitas vezes as pessoas venderão a imagem de Ottawa como uma boa cidade para famílias. Sim, é! Mas é também uma boa cidade para jovens, estudantes, solteiros, pessoas idosas, casais sem filhos, malucos de todo tipo de vida alternativa e extraterrestres; - O mercado de trabalho em Ottawa tem suas peculiaridades e dificuldades e embora algumas pessoas consigam emprego com facilidade por aqui, não será fácil para todos. Não há tantas vagas como em Montréal ou Toronto e a competição com canadenses nativos que dominam os dois idiomas - francês é muito importante no mercado de trabalho daqui, inclusive para empregos de entrada! - e têm experiência local é acirrada.

Acabaram de sair as notas. Tudo certo. Cumpri com todas as obrigações escolares e agora posso me considerar graduado em Interactive Media Design no Algonquin College. Pronto, já tenho direito a um diploma canadense!

Foram dois anos de muito esforço e muito trabalho duro para fazer o melhor. Acho que fiz um bom trabalho. Em todo o meu currículo acadêmico há uma nota A- (80-85 em 100) e de resto há alguns A (85-90) e a maioria das notas é A+ (90-100). Isso me garante uma média muito boa e a permanência na Dean's List.

(importante: na figura aqui em cima só estão algumas das notas).

Não fui ao college para fazer amigos. Fui para obter uma certificação profissional canadense em uma área de certa forma compatível com minha formação anterior e onde há uma melhor empregabilidade do que a naturalmente instável carreira musical. Mas conheci ótimas pessoas das quais sempre me lembrarei com carinho e que sempre contarão com minha torcida. E também conheci pessoas que minha memória ficará grata em apagar, mas que espero que sejam felizes em sua caminhada.

Foram dois anos de dificuldades e superação.

Aprendi que boa parte dos meus colegas mais jovens ainda não compreende as barreiras que seu país impõe aos imigrantes, incluindo aqueles que já possuem uma formação acadêmica completa como eu. E a contradição existente entre essas barreiras e as portas abertas para imigração legal. Por mais que se questione, a barreira da experiência canadense é uma realidade por aqui. Muitas vezes silenciosa, como tantos preconceitos e errinhos humanos indesejáveis pelas cartas de direitos e leis mas ainda existentes pelas ruas. 

Alguns não me entenderam. Enxergaram arrogância onde havia o medo e a incerteza de estar ali e poder fazer um bom trabalho. 

Conheci a solidão em muitos momentos. E aprendi que a solidariedade não virá simplesmente porque as pessoas têm a mesma nacionalidade; pelo contrário, quem fala a sua língua e possui um passaporte igual ao seu pode ser seu pior inimigo e estar pronto para lhe esfaquear pelas costas.

Mas agora chegou o momento de seguir em frente e, agora com uma qualificação canadense e com experiência profissional canadense adquirida no meu semestre de estágio remunerado - realizado numa ONG onde passei os melhores momentos do meu curso e da qual definitivamente sinto muitas saudades -, é hora de procurar trabalho para pagar as contas. Chegou a hora de enfrentar as feras por aqui... E como muitas coisas que surgem na caminhada de um imigrante neste país, haverá novos desafios e novas dificuldades. 

Não há muito tempo para pensar. É enfrentar o que precisa ser enfrentado. Não há muita escolha; essa é a vida. De qualquer forma, já posso olhar para trás e ver uma etapa cumprida nessa caminhada. E cumprida da melhor maneira que eu poderia cumprir. Com seriedade e sobretudo com integridade em todas as instâncias. Pois tudo que consegui veio do meu próprio esforço.

É isso, então. Adeus, Algonquin College! Ou até algum dia desses. 




Podia ser qualquer dia de aula. Mais um entre tantos. Semestre de verão, a turma de Interactive Media Design já estava bem reduzida porque ali estavam apenas os alunos que fizeram estágio remunerado durante o inverno. Os outros já tinham se formado ao final do mesmo semestre.


Podia acontecer por qualquer motivo. Muito frequentemente, eu estava fazendo uma pergunta para o professor ou falando com qualquer pessoa. Mas a voz de Nina (o nome foi alterado), com um inglês difícil de entender porque ela fala muito rápido e embolado, se fazia sentir:


- Alexei $#$%$%^$%^$#@@$#@$#...


Eu não entendia, até porque não prestava atenção nela e ela nunca fazia parte da conversa. Eu não estava falando com ela. Ela simplesmente estava por perto. Mas fazia questão de intervir. Não me deixava falar e eu podia perceber que a tônica da coisa era negativa.


Nina, no frescor de seus 21 anos recém-completos. Uma garota aparentemente inclinada a ser uma queen bee a todo custo dentro daquele mundinho estranho do IMD. E que parecia se sentir muito incomodada com a presença de um homem tão mais velho ali na sala de aula. Quando todos os alunos estavam por ali, passava apagada. Estava longe de ser uma garota popular e ficava quieta no seu cantinho. Mas com a turma menor, ela talvez tenha sentido uma oportunidade de transformar-se na dona do pedaço. Logicamente, ela não compreende as sutilezas de seu país natal. Mesmo sendo filha de imigrantes do Oriente Médio, desconhece a "barreira da experiência canadense". Devo admitir que é uma garota talentosa e boa aluna. Foi a primeira a conseguir uma vaga de co-op. Mas aparentemente não sabe conviver com equipes muito bem. Tanto que não gostou da experiência. O que ela parece conhecer muito bem é o mimo. Não sei como é sua vida familiar, mas não me parece que ali há coisa boa. Nina me parece bem infantil para sua idade. Gosta, por exemplo, de ficar imitando vozes de personagens de desenhos animados ou conversando no que eu chamo de duck language ("mi! mé! muu!") com seus amigos. Está habilitada para dirigir, mas sinceramente não acredito que estaria suficientemente madura para ter a responsabilidade sobre vidas alheias em suas mãos.


As semanas foram passando e as "participações especiais" de Nina na minha vida não pararam. Por muito tempo tentei ignorá-la. Mas era difícil, porque fomos designados para o mesmo time na disciplina Applied Projects. Teríamos que executar um projeto juntos. Éramos quatro no início. Eu, Nina, John (o líder) e Emma (a segunda líder). Mas, muito estranhamente, Emma desapareceu no início de junho. Aparentemente decidiu correr atrás do sonho de ser comediante e abandonou o college a poucos meses de se formar. Nina, então, literalmente "tomou de assalto" a posição de segunda líder e passou a se comportar como se fosse minha chefe.


Teria sido bem mais fácil se não fôssemos do mesmo time. Eu a evitaria (o que já estava fazendo), ficaria longe dela e pronto. Mas estávamos trabalhando juntos e era um inferno. Nas reuniões de time, ela não me permitia falar. Eu estava explicando algo relativo às minhas atividades para o professor ou para o facilitador, ela já vinha me cortando.


Alguém aí conseguiria manter a paciência e a frieza após a trigésima vez? Pois bem. Minha paciência se esgotou quando, no início de julho, tivemos um problema sério com um professor que (bem brasileiramente) se ausentou do college no dia em que precisaríamos fazer o trabalho de meio de semestre e tentou mandar um esquema para "estar em dois locais ao mesmo tempo" e receber por dois trabalhos realizados na mesma data e hora... Para encurtar a história, a decana da escola de Mídia e Design se envolveu e foi à nossa sala trocar uma ideia. Quando eu pedi a palavra e estava falando para ela como me sentia com o caso do professor - o que era meu pleno direito - Nina tentou me cortar mais uma vez. E eu reagi:


- Nina, pare! Me deixe falar! Pare, Nina! Você já fez o suficiente!


Ela parou. Mas não foi fácil: tentou continuar falando, eu mandei parar... E uma hora ela parou. Essa cena ocorreu diante de todos os outros alunos, da decana e do professor.


Vocês vão me perguntar por que nunca chamei a Nina para conversar num canto e abri o jogo com ela. As razões são várias:


- O que ela fazia era o cúmulo da falta de educação. Repito: me cortava quando eu estava falando com outras pessoas. Ela não estava participando da conversa e nada que eu dizia interessava diretamente a ela;

- Ela nunca me pareceu disposta a escutar. Seria perda de tempo;

- Em várias situações ficou muito claro que eu não estava gostando nem um pouco do que ela fazia. Foram vários avisos. Eu sempre imaginava que ela agora iria parar e pronto. Mas ela não percebia os sinais, ou percebia e os ignorava. E não parava. Não tinha jeito;

- Não havia qualquer possibilidade de ela estar fazendo tudo aquilo sobretudo por imaturidade ou infantilidade. Não. Ela não cortava outras pessoas. Ela não gostava de mim e resolveu pegar no meu pé. Bullying.


Voltando um pouco no tempo, ficou mais do que claro que ela não gostava de mim quando tivemos o tal problema com o professor. Ele ofendeu um outro colega nosso chamado Damon. A aula acabou ali mesmo, Damon saiu da sala e eu fui atrás para lhe prestar solidariedade e ajudá-lo a carregar o equipamento de vídeo. Nina não perdoou:


- O que você está fazendo aqui? Estamos indo fazer um vídeo!

- Estou aqui para ajudar Damon com o equipamento. Ele não vai levá-lo para a video room?

- Não! Vamos fazer um vídeo agora!


Eu fui embora. Nesse instante percebi que ela realmente não me queria por perto. Não reagi naquele instante mas prometi a mim mesmo que isso ia acabar. Eu iria reagir das próximas vezes. E assim foi quando a decana apareceu por lá. Ninguém iria me tirar o direito de me expressar e de falar com outras pessoas sempre que precisasse e quisesse.


Faltava pouco tempo para o fim do curso e eu provavelmente nunca mais veria Nina na vida. Cortei qualquer contato com ela fora do ambiente do time e, mesmo ali, eu só falava com ela o necessário. Evitava fazer contato visual com ela e não ficava junto do grupo nos momentos mais do que tediosos em que ficávamos esperando o horário de nossas reuniões. Nas atividades obrigatórias, a vida era essa: eu tinha que falar alguma coisa, Nina tentava me cortar na frente dos professores e da cliente, eu a mandava parar, ela parava. Avisei os professores responsáveis, que concordaram comigo que naquela altura não havia o que fazer, e também falei com John (o team lead).


A apresentação final do projeto foi difícil. Isso porque já estava claro para qualquer um que eu não suportava mais a convivência com Nina. Ela já sabia. A turma inteira sabia. John tinha falado com ela. Os professores também falaram. Sua expressão jururu, evitando chegar perto de mim, mostrou isso. Em seu afã para mandar, o fato de eu ter reagido e estar me insurgindo contra ela parecia incomodá-la profundamente. Fizemos nossa parte com profissionalismo e eu fui embora. Decidido a não voltar para o evento de demonstração e networking que ocorreria na semana seguinte. Não valeria nota e, diante de todos os acontecimentos, não seria positivo para ninguém. A missão estava cumprida. Nosso trabalho era bom - graças aos talentos individuais, porque nunca fomos um time de fato - e a cliente estava feliz. Mas estava longe de ser o melhor para ganhar o prêmio. O clima estava muito ruim e eu não queria me expor para outras pessoas numa situação em que eu não me sentiria feliz, livre e no meu melhor. Passar horas num mesmo stand na companhia desagradável de Nina? Não mesmo!


Avisei a todos que não queria ir ao ARI Day. E não fui. Acabou. Adeus, Nina!


Terminar esse curso, no final das contas, me exigiu uma força que nunca precisei ter no Brasil. Teria sido bem mais fácil se não tivéssemos que trabalhar em equipe em vários momentos do curso. Não sou perfeito e cometi meus erros por lá, mas em algumas situações (como no "caso Nina") eu não fiz absolutamente nada de mais. Estava tentando ser amigo de Nina ou me entrosar com ela? NÃO. No máximo, estava tentando conviver bem com ela e com qualquer outra pessoa num ambiente profissional. Fora isso era uma colega como qualquer outra. Mas alguns daqueles jovens ainda não estão preocupados com isso. Querem outro tipo de relacionamento, querem amigos para sociabilizar e se divertir. Terão tempo para se adequar às relações de trabalho e aprender - muitas vezes com dor. Fato é que o bullying pode ocorrer nos colleges e quando você é diferente pode ser que ele aconteça. Espero sinceramente que não ocorra com você. Mas se acontecer, não fique parado! O college periga ser importante demais para deixar levando e cada dia pode ser um degrau a mais para baixo. Procure ajuda. Fale com os profissionais responsáveis dentro da instituição. Se puder, converse com as pessoas que estejam lhe causando esses problemas (pode ser por imaturidade). Mas não fique parado. Bullying infelizmente é uma realidade que deve ser combatida.



Estou escrevendo este post ainda sob o efeito da tristeza de ler que uma família pela qual torci muito teve sua aplicação de residência permanente recusada na categoria Self-Employed Federal do Canadá.


Isso pode acontecer. Com qualquer um e a qualquer momento. O roteiro é parecido: a pessoa despeja seus sonhos e sua ânsia por uma vida melhor, tudo multiplicado pela situação atual do Brasil. É... não dá mais para varrer aquilo tudo para debaixo do tapete. Acabou...


E o Canadá vem se transformando na terra prometida dessa gente que perdeu a fé no próprio país. Alguns guerreiros vão para a batalha da residência permanente desde já, sem temporadas de estudo por aqui. Mas voltam vencidos em meio a lágrimas de desesperança. O sonho acabou. Mas pelo menos a batalha foi travada em casa. Pior só mesmo se a pessoa investisse o que tinha e o que não tinha, veio para cá fazer um college e por qualquer motivo a residência permanente não foi possível.

Sei que esse momento não é fácil. Mas pode chegar. Na realidade, todos nós passamos por reveses e derrotas nas nossas vidas. E às vezes a vida... e a imigração canadense... podem parecer muito injustas. Como entender quando uma pessoa que fez muito menos do que nós ao longo da vida comemora a residência permanente e nós não conseguimos?


Não que eu queira desmerecer qualquer pessoa que obtém a residência permanente. Na verdade, eu admiro muito quem parte para a aventura do College, com ética e respeito pelo próximo, pela coragem e pela ousadia. Todos são guerreiros e não é nada fácil deixar tudo para trás e investir o que podem ser as economias de uma vida inteira em algo incerto. Algo que eu poderia ter feito na Inglaterra, em 2008, e não tive coragem. Mas por outro lado também sei como é doloroso receber uma negativa após colocarmos uma vida inteira de esforço numa caixinha de documentos. Por alguns momentos é como se o seu mundo caísse.


Mas não deixe que seu mundo caia mesmo.


Nem se deixe levar por essa onda que faz crer que o Canadá é a terra prometida. Porque ele não é. Está na moda vir para cá - perigoso - e muitas pessoas nem sabem direito o que as espera aqui. Não é fácil. Respire e pense que você pode tentar de novo, ou tentar alguma outra coisa. A terra que espera por você pode ser outra. Sua missão pode ser outra.


A propaganda (meio enganosa) fala que o Canadá precisa de profissionais, precisa de gente... e seu coração dói. Mas acredite que há outros lugares precisando de gente boa e talvez com portas abertas para você. Ou então que a sua missão é outra: fazer parte desse grupo de gente tão especial que ficará com a missão de reconstruir esse país que hoje se chama Brasil. Que está no chão, despedaçado, mas precisa muito de gente boa, corajosa, ousada e competente! Por mais que o meu destino fosse ir embora em busca de uma segunda chance fora, não quero acreditar que todos os brasileiros se conformam com a situação e que o buraco é mais fundo.


Então por menos que você pense que pode fazer, saiba que o Brasil precisa de você! OK, o Canadá não deu certo para você. Chore o que precisar, mas levante essa cabeça. Se o que temos para hoje é ficar no Brasil e seguir a vida, vamos encarar a missão tão nobre e importante de levantar um país mesmo que através da soma de pequenos gestos. Quem sabe amanhã as coisas não estarão muito melhores?


Não há nada mais resiliente do que a verdadeira esperança.

Este post também foi publicado na minha coluna no Canadá Agora, mas diante da seriedade da questão quero repostá-lo aqui também.

Na última semana, fiquei sabendo de uma situação ocorrida em um dentre os vários grupos de imigrantes brasileiros no Canadá pelo Facebook. Vou copiar agora um relato resumido escrito por alguém que assistiu à discussão, para sintetizar o que houve:
“Uma pessoa (homem) escreveu um artigo bem misógino e tendendo totalmente para um lado religioso fanático a respeito da pílula abortiva que será distribuída no Québec. As mulheres que ali estavam se sentiram ofendidas, bem como diversos homens. Resultado: 6 criaturas, incluindo o autor, mandaram as mulheres voltarem para o seu habitat natural: cozinha, vender tupperware, etc. Não bastante essa situação de humilhação para as mulheres começaram a expulsar as mulheres do grupo e não os agressores.” 
Posso dizer que a situação me chocou. Sinceramente, não esperava esse tipo de situação ou atitude ocorrendo num grupo de imigrantes brasileiros no Canadá. Como não espero – e fico chocado – isso ocorrendo em qualquer lugar. Mas num país tão zeloso pela igualdade de direitos entre as pessoas independente do gênero, não posso acreditar que continuam mandando as mulheres para a cozinha ou vender tupperware. Na província de onde partiu o caso há uma carta de direitos e liberdades individuais. Lá se diz: toda pessoa tem direito ao pleno e igual reconhecimento de seus direitos humanos e liberdades. Independente de sexo e identidade/expressão de gênero, dentre outros elementos. E que ninguém deve assediar outra pessoa com base nessas condições.
Nessas horas fico pensando o que motiva uma pessoa a sair do Brasil e emigrar para um país como o Canadá. Cada pessoa poderá mencionar dezenas de motivos que talvez possam ser sintetizados na crise de valores que nosso país atravessa. Mas que no meu entender existe desde que o Brasil é Brasil. Só que agora os paliativos de sempre não funcionam mais para tirar o país de um beco sem saída.
Não podemos fechar os olhos para um fato inexorável: o Brasil como instituição deu errado e todos os brasileiros têm um pouco de culpa. Eu tenho um pouco de culpa, você tem um pouco de culpa, e por aí vai. Muitas vezes sem perceber, propagamos valores culturais podres e corruptos. Posso dar milhões de exemplos, mas cito a mãe que desaprova e xinga o político corrupto mas quando o encontra pessoalmente trata de lhe pedir um emprego para o filho. Nossas pequenas atitudes, por mais “inofensivas” que pareçam ser, também podem ser muito reprováveis. Falamos dos nossos agentes públicos mas nos esquecemos de que eles simplesmente têm meios para fazer isso em grande escala. E que muitos de nós, com a mesma oportunidade, faríamos o mesmo!
Precisamos ser coerentes quando tomamos a decisão de deixar nosso pobre país em busca de uma vida melhor. Esse movimento tão drástico deveria nos fazer buscar uma transformação interior profunda. Queremos um país de primeiro mundo? Precisamos aprender a nos portar como cidadãos de um país de primeiro mundo. Queremos uma nação menos corrupta? Devemos parar de praticar ou tolerar a corrupção já. Queremos serviços públicos de qualidade que funcionam? Precisamos fazer nossa parte para que eles funcionem, inclusive cobrando melhorias dos gestores públicos. Queremos menos violência? Temos a obrigação de praticar e plantar a paz em nossos quadradinhos. Queremos benefícios? Que nos façamos dignos deles. Queremos direitos e, mais ainda, direitos respeitados? Precisamos respeitar os direitos do próximo.
Às vezes me pergunto se certos brasileiros – deixando claro que não são todos os imigrantes brasileiros – não estriam atraídos pelo sonho norte-americano de sucesso material e profissional. Ao depararem com uma sociedade fortemente igualitária, passam a falar em “qualidade de vida”. Mas que qualidade de vida é essa? Cada um tem sua opinião, é claro! Mas eu acredito que isso sempre passa por ser aceito, acolhido e respeitado pela sociedade independente de suas condições ou características pessoais.  Não há dinheiro que compre.
É fácil pertencer a um grupo que não experimenta situações de discriminação e desrespeito em seu cotidiano. Mas dizem que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Há pessoas que não vêm para o Canadá acima de tudo em busca de melhores oportunidades do trabalho. Vêm atrás da oportunidade de ser elas mesmas numa sociedade que não irá agredi-las. Não irá humilhá-las nem impedir que alcancem tudo o que desejam mantendo-as sempre numa posição inferior. 
Precisamos também nos lembrar de que sim, somos diferentes uns dos outros! Temos o direito de ser e viver como quisermos ser desde que respeitemos o direito do próximo ser e viver como ele quer ser! Mas diante de tudo que vem sendo visto pelas redes sociais ao longo dos últimos anos, penso que um incômodo número de brasileiros não sabe lidar com a diferença. Enxerga a discordância como uma agressão e muitas vezes tenta a todo custo impor seus valores aos outros. Os canadenses, pelo que tenho visto, não são tão brigões assim. Se for o caso expressarão suas ideias e debaterão com você, mas defenderão seu direito à livre expressão até o fim.
Se desejamos ter um dia a tranquila consciência do sucesso nesse nosso projeto de deixar o Brasil para trás e alcançar uma vida melhor, temos que começar por nós mesmos. Tentar deixar para trás os valores culturais que contribuíram para a situação atual do nosso país e que trazemos dentro de nós. E abrir nosso espírito e nosso coração para tudo o que este país e sua gente podem nos trazer. Para sermos, acima de tudo, pessoas melhores e capazes de contribuir para a construção de um grande país. Que mantenhamos apenas o que o Brasil nos deu de bom e positivo; o Canadá está de braços abertos para isso.