Estou escrevendo este post ainda sob o efeito da tristeza de ler que uma família pela qual torci muito teve sua aplicação de residência permanente recusada na categoria Self-Employed Federal do Canadá.


Isso pode acontecer. Com qualquer um e a qualquer momento. O roteiro é parecido: a pessoa despeja seus sonhos e sua ânsia por uma vida melhor, tudo multiplicado pela situação atual do Brasil. É... não dá mais para varrer aquilo tudo para debaixo do tapete. Acabou...


E o Canadá vem se transformando na terra prometida dessa gente que perdeu a fé no próprio país. Alguns guerreiros vão para a batalha da residência permanente desde já, sem temporadas de estudo por aqui. Mas voltam vencidos em meio a lágrimas de desesperança. O sonho acabou. Mas pelo menos a batalha foi travada em casa. Pior só mesmo se a pessoa investisse o que tinha e o que não tinha, veio para cá fazer um college e por qualquer motivo a residência permanente não foi possível.

Sei que esse momento não é fácil. Mas pode chegar. Na realidade, todos nós passamos por reveses e derrotas nas nossas vidas. E às vezes a vida... e a imigração canadense... podem parecer muito injustas. Como entender quando uma pessoa que fez muito menos do que nós ao longo da vida comemora a residência permanente e nós não conseguimos?


Não que eu queira desmerecer qualquer pessoa que obtém a residência permanente. Na verdade, eu admiro muito quem parte para a aventura do College, com ética e respeito pelo próximo, pela coragem e pela ousadia. Todos são guerreiros e não é nada fácil deixar tudo para trás e investir o que podem ser as economias de uma vida inteira em algo incerto. Algo que eu poderia ter feito na Inglaterra, em 2008, e não tive coragem. Mas por outro lado também sei como é doloroso receber uma negativa após colocarmos uma vida inteira de esforço numa caixinha de documentos. Por alguns momentos é como se o seu mundo caísse.


Mas não deixe que seu mundo caia mesmo.


Nem se deixe levar por essa onda que faz crer que o Canadá é a terra prometida. Porque ele não é. Está na moda vir para cá - perigoso - e muitas pessoas nem sabem direito o que as espera aqui. Não é fácil. Respire e pense que você pode tentar de novo, ou tentar alguma outra coisa. A terra que espera por você pode ser outra. Sua missão pode ser outra.


A propaganda (meio enganosa) fala que o Canadá precisa de profissionais, precisa de gente... e seu coração dói. Mas acredite que há outros lugares precisando de gente boa e talvez com portas abertas para você. Ou então que a sua missão é outra: fazer parte desse grupo de gente tão especial que ficará com a missão de reconstruir esse país que hoje se chama Brasil. Que está no chão, despedaçado, mas precisa muito de gente boa, corajosa, ousada e competente! Por mais que o meu destino fosse ir embora em busca de uma segunda chance fora, não quero acreditar que todos os brasileiros se conformam com a situação e que o buraco é mais fundo.


Então por menos que você pense que pode fazer, saiba que o Brasil precisa de você! OK, o Canadá não deu certo para você. Chore o que precisar, mas levante essa cabeça. Se o que temos para hoje é ficar no Brasil e seguir a vida, vamos encarar a missão tão nobre e importante de levantar um país mesmo que através da soma de pequenos gestos. Quem sabe amanhã as coisas não estarão muito melhores?


Não há nada mais resiliente do que a verdadeira esperança.

Este post também foi publicado na minha coluna no Canadá Agora, mas diante da seriedade da questão quero repostá-lo aqui também.

Na última semana, fiquei sabendo de uma situação ocorrida em um dentre os vários grupos de imigrantes brasileiros no Canadá pelo Facebook. Vou copiar agora um relato resumido escrito por alguém que assistiu à discussão, para sintetizar o que houve:
“Uma pessoa (homem) escreveu um artigo bem misógino e tendendo totalmente para um lado religioso fanático a respeito da pílula abortiva que será distribuída no Québec. As mulheres que ali estavam se sentiram ofendidas, bem como diversos homens. Resultado: 6 criaturas, incluindo o autor, mandaram as mulheres voltarem para o seu habitat natural: cozinha, vender tupperware, etc. Não bastante essa situação de humilhação para as mulheres começaram a expulsar as mulheres do grupo e não os agressores.” 
Posso dizer que a situação me chocou. Sinceramente, não esperava esse tipo de situação ou atitude ocorrendo num grupo de imigrantes brasileiros no Canadá. Como não espero – e fico chocado – isso ocorrendo em qualquer lugar. Mas num país tão zeloso pela igualdade de direitos entre as pessoas independente do gênero, não posso acreditar que continuam mandando as mulheres para a cozinha ou vender tupperware. Na província de onde partiu o caso há uma carta de direitos e liberdades individuais. Lá se diz: toda pessoa tem direito ao pleno e igual reconhecimento de seus direitos humanos e liberdades. Independente de sexo e identidade/expressão de gênero, dentre outros elementos. E que ninguém deve assediar outra pessoa com base nessas condições.
Nessas horas fico pensando o que motiva uma pessoa a sair do Brasil e emigrar para um país como o Canadá. Cada pessoa poderá mencionar dezenas de motivos que talvez possam ser sintetizados na crise de valores que nosso país atravessa. Mas que no meu entender existe desde que o Brasil é Brasil. Só que agora os paliativos de sempre não funcionam mais para tirar o país de um beco sem saída.
Não podemos fechar os olhos para um fato inexorável: o Brasil como instituição deu errado e todos os brasileiros têm um pouco de culpa. Eu tenho um pouco de culpa, você tem um pouco de culpa, e por aí vai. Muitas vezes sem perceber, propagamos valores culturais podres e corruptos. Posso dar milhões de exemplos, mas cito a mãe que desaprova e xinga o político corrupto mas quando o encontra pessoalmente trata de lhe pedir um emprego para o filho. Nossas pequenas atitudes, por mais “inofensivas” que pareçam ser, também podem ser muito reprováveis. Falamos dos nossos agentes públicos mas nos esquecemos de que eles simplesmente têm meios para fazer isso em grande escala. E que muitos de nós, com a mesma oportunidade, faríamos o mesmo!
Precisamos ser coerentes quando tomamos a decisão de deixar nosso pobre país em busca de uma vida melhor. Esse movimento tão drástico deveria nos fazer buscar uma transformação interior profunda. Queremos um país de primeiro mundo? Precisamos aprender a nos portar como cidadãos de um país de primeiro mundo. Queremos uma nação menos corrupta? Devemos parar de praticar ou tolerar a corrupção já. Queremos serviços públicos de qualidade que funcionam? Precisamos fazer nossa parte para que eles funcionem, inclusive cobrando melhorias dos gestores públicos. Queremos menos violência? Temos a obrigação de praticar e plantar a paz em nossos quadradinhos. Queremos benefícios? Que nos façamos dignos deles. Queremos direitos e, mais ainda, direitos respeitados? Precisamos respeitar os direitos do próximo.
Às vezes me pergunto se certos brasileiros – deixando claro que não são todos os imigrantes brasileiros – não estriam atraídos pelo sonho norte-americano de sucesso material e profissional. Ao depararem com uma sociedade fortemente igualitária, passam a falar em “qualidade de vida”. Mas que qualidade de vida é essa? Cada um tem sua opinião, é claro! Mas eu acredito que isso sempre passa por ser aceito, acolhido e respeitado pela sociedade independente de suas condições ou características pessoais.  Não há dinheiro que compre.
É fácil pertencer a um grupo que não experimenta situações de discriminação e desrespeito em seu cotidiano. Mas dizem que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Há pessoas que não vêm para o Canadá acima de tudo em busca de melhores oportunidades do trabalho. Vêm atrás da oportunidade de ser elas mesmas numa sociedade que não irá agredi-las. Não irá humilhá-las nem impedir que alcancem tudo o que desejam mantendo-as sempre numa posição inferior. 
Precisamos também nos lembrar de que sim, somos diferentes uns dos outros! Temos o direito de ser e viver como quisermos ser desde que respeitemos o direito do próximo ser e viver como ele quer ser! Mas diante de tudo que vem sendo visto pelas redes sociais ao longo dos últimos anos, penso que um incômodo número de brasileiros não sabe lidar com a diferença. Enxerga a discordância como uma agressão e muitas vezes tenta a todo custo impor seus valores aos outros. Os canadenses, pelo que tenho visto, não são tão brigões assim. Se for o caso expressarão suas ideias e debaterão com você, mas defenderão seu direito à livre expressão até o fim.
Se desejamos ter um dia a tranquila consciência do sucesso nesse nosso projeto de deixar o Brasil para trás e alcançar uma vida melhor, temos que começar por nós mesmos. Tentar deixar para trás os valores culturais que contribuíram para a situação atual do nosso país e que trazemos dentro de nós. E abrir nosso espírito e nosso coração para tudo o que este país e sua gente podem nos trazer. Para sermos, acima de tudo, pessoas melhores e capazes de contribuir para a construção de um grande país. Que mantenhamos apenas o que o Brasil nos deu de bom e positivo; o Canadá está de braços abertos para isso.

Confesso que fui pego de surpresa com a repercussão da minha postagem anterior a respeito de pessoas com passaporte europeu. Por dois fatores: primeiramente, pelo desconhecimento geral de que a cidadania de um país da União Europeia dá direito ao seu titular de viver em qualquer país membro.


Há pessoas tão obcecadas por viver no Canadá que simplesmente desconsideram outras possibilidades. Preferem vir na precária condição de estudante, pagando o que pode ser as economias de uma vida inteira, a ir para países onde já seriam acolhidas como cidadãos plenos e poderiam dispor de uma qualidade de vida semelhante à do Canadá. A matemática é simples: se você tem cidadania portuguesa, pode viver na Áustria, na Holanda, na Suécia... Não precisa viver necessariamente no país do qual é cidadão. Por mais que se fale negativamente da Europa, saiba que ela ainda apresenta boas opções para viver. O Canadá não é a única saída viável e se o seu desejo é sair do Brasil e buscar uma vida melhor em outro país, veja qual é a melhor alternativa para você. Eu no seu lugar não gastaria um dinheirão com tuition fees de college se o objetivo fosse apenas imigrar e eu tivesse a oportunidade de ser um cidadão europeu. Partiu Amsterdam! Mas o Canadá foi a saída que pude ter e graças a Deus deu certo. Vim como residente permanente. Jamais abriria mão da segurança de saber que posso ficar aqui o quanto quiser e ter vários benefícios que me são bem úteis. Muitos não têm essa opção e precisam vir de algum jeito, e é aí que entra o "plano college". Mas para quem tem a cidadania europeia, há outras possibilidades! Que bom!


A segunda surpresa, bem desagradável, foi ter recebido uma mensagem inbox no Facebook cujo remetente parece ser canadense. Não conheço essa pessoa e não faço ideia de como encontrou minha postagem. Mas tratou de aproveitar a oportunidade para destilar seu ódio e fazer algo que no mínimo é lamentável...


"Vá para a Europa... que tal ficar fora do Canadá? Por favor saia do Canadá"


Não sei se trata-se de um perfil falso de brasileiro, e não me surpreenderia se fosse. Mas pode ser um canadense nato também. Que percebeu que sou um imigrante e tratou de "me expulsar" do país.

Mas é importante que eu diga, mais uma vez, que não fiz nenhuma crítica ao Canadá. Critico apenas o sonho canadense padrão dos brasileiros que pensam que aqui é o paraíso em terra... e daqueles que faturam dinheiro com isso. Ozmano, certo? E companhia.


O Canadá é um ótimo país, mas não é perfeito. Tem manchas em sua história, tem um passado de preconceito e discriminação, enfrenta conflitos entre seus próprios cidadãos em razão de língua (e origem étnica), possui uma província separatista, possui rednecks conservadores... e a qualquer momento pode surgir alguma demonstração de ódio como esse pequeno exemplo demonstra. Por isso mesmo, não me entenda mal: há muita coisa boa no Canadá e há muitos blogueiros e youtubers falando disso. Eu optei pelo lado realista e crítico sobretudo porque não há monetização que pague me deitar com a consciência tranquila de passar para você uma noção exata do que é o Canadá e do que são os habitantes do país.


Não pretendo ir embora daqui, então não perca seu tempo me mandando de volta para o Brasil. Apenas quero ajudar você a sair do nosso país ciente de todas as opções e do que te espera por aqui se realmente fizer a escolha pelo Canadá. O mundo não é cor-de-rosa. Haverá dias de sol, dias de chuva, dias de nevasca, dias de frio intenso. Cabe a você se preparar, se proteger quando preciso e enfrentar as intempéries. (Espero que você tenha entendido a metáfora...)


E sim, denunciei esse Richard para o Facebook. Não sei o que vai acontecer nem vou ficar para ver. Aprendi a deletar e bloquear rápido. E vida que segue.


Tem cidadania portuguesa? Italiana? Espanhola? Francesa? Ou ainda não tem isso mas é neto(a) de português? Tem um bisavô italiano? Um ancestral polonês?

Está cogitando vir para o Canadá... simplesmente porque quer sair do Brasil?

Não faça isso! Não venha para o Canadá! Vá para a Europa!



Quase ninguém sabe, mas o Canadá não foi nossa primeira opção. No início queríamos ir para a Inglaterra, mas não tínhamos qualquer garantia de residência permanente por lá. Eu sou descendente direto de russos por parte de pai, o que não ajuda em nada a não ser que eu resolvesse viver na Rússia, e por parte de mãe as descendências europeias eram muito remotas. Minha família materna é quatrocentona no Brasil. A Thaisa, por sua vez, tem descendência portuguesa e italiana mais próxima. Mas nenhuma delas era suficiente para lhe dar uma cidadania. É tataraneta de portugueses por um lado, e a cidadania originária só atinge os netos e talvez os bisnetos. E por outro lado é tataraneta de italianos, mas numa linha completamente materna. Tataravó, bisavó, avó e mãe. As mulheres só conquistaram o direito de transmitir a cidadania italiana em 1948.



Precisamos então recorrer ao Canadá, que teria uma porta aberta para nós. Mas, repito, nunca pensaríamos no Canadá se tivéssemos uma oportunidade real na Europa.

Então se você é uma dessas pessoas afortunadas que têm uma cidadania europeia ou o direito a uma cidadania europeia, não caia nesse papo de vir para o Canadá. A não ser que seu objetivo seja realmente o de viver no país, e não simplesmente o de sair do Brasil e viver num "país de primeiro mundo". "Oh Canadá, we stand on guard for thee... é onde eu quero viver!" Então venha para cá! De resto, veja que outras possibilidades você pode ter!



"Mas se eu sou cidadão português, não seria obrigado a viver em Portugal? Portugal não me interessa tanto assim."

Portugal é um belo país, mas se você é cidadão português você NÃO precisa viver em Portugal! Pode residir e trabalhar em qualquer país membro da União Europeia! Se está buscando uma qualidade de vida "realmente de primeiro mundo", que tal a Holanda? A Bélgica? A Áustria? A Alemanha? A Dinamarca? Luxemburgo? A Suécia? A Finlândia?



"Meu Deus, mas você só está falando de países com línguas dificílimas!!! Holandês???? Alemão???? Sueco???? Eu quero língua inglesa!!!" Pois é, está rolando um tal de Brexit e a Inglaterra (outrora nosso objetivo e minha recomendação) está para sair da União Europeia. Mas que tal a Irlanda? Ou a Holanda, onde muita gente fala inglês e diversas vagas de emprego são postadas nessa língua? 

De qualquer forma, faça um esforço e aprenda a língua. Pode valer muito a pena. 



"Mas a União Europeia não está em crise, com empregos faltando?" Sim, apenas em alguns países que eu não mencionei... embora a França, por exemplo, possa ser uma boa opção. Numa considerável parte da União Europeia a situação está bem favorável. Principalmente quanto à qualidade de vida!

Esqueça o sonho americano e o sonho canadense. Isso é papo de comerciante (de intercâmbio e college). Esses países citados talvez possam te dar uma qualidade de vida melhor do que o Canadá. O Canadá, na verdade, precisa esquecer algumas lições que os americanos ensinaram e aprender muito com os europeus se quiser continuar entre os melhores países do mundo para se viver. Exemplos? Urbanismo sem dependência de carro, utilização de energia limpa em vez de petróleo, um sistema público de saúde melhor... 

O custo de vida em alguns desses países pode ser inferior ao de uma cidade grande canadense. 

E principalmente: com um passaporte da União Europeia, você chega a esses países com plenos direitos de cidadão. Pode residir ali o quanto quiser e pode trabalhar à vontade. A palavra "ilegal" não existirá no seu dicionário. Nada de projetos complexos e caros de imigração envolvendo estudar nesses países e depois depender de um emprego para pontuar em algo como o Express Entry! E provavelmente não haverá uma barreira discriminatória meio invisível de experiência local, como a famigerada "experiência canadense".


"Qualquer nacional de um país da UE é, automaticamente, cidadão europeu. Enquanto cidadão europeu, tem o direito de viver e viajar na UE sem ser objeto de discriminação com base na nacionalidade. Pode residir em qualquer país da UE, desde que satisfaça determinadas condições consoante alí pretenda trabalhar, estudar, etc..."

Vamos pôr tudo na balança então: se você tem a possibilidade de ter uma cidadania europeia desde já e ir para algum desses países já com a tranquilidade de saber que poderá ficar ali o quanto quiser, trabalhar e usufruir de todos os benefícios sociais concedidos aos cidadãos, para que Canadá? Principalmente se você não pode receber pelo menos a residência permanente ainda no Brasil sem precisar fazer college andando na corda bamba? Vamos para a Europa! O "sonho canadense" (que não existe, lembre-se) fica para os desafortunados como eu, que não têm como viver um lindo sonho europeu nos canais de Amsterdam.



Confesso que nunca tive a intenção de ser polêmico ou brigar com alguém. Mas acabo sendo.

É uma situação interessante, mas nem sempre confortável. Alguém pode sempre surgir do nada e te agredir. Quem parecia amigo se torna inimigo. Nas redes sociais, então... as discussões acaloradas surgem bem como os unfriends e bloqueios.

E o mais bizarro é saber que os motivos de tanta controvérsia, sinceramente, não merecem tanto ibope na minha opinião. Ter ou não ter carro? Ora ora, isso deveria ser uma opção e não uma questão de vida ou morte. Morar em subúrbio? A mesma coisa. Mas estamos vivendo num país que pode ter feito opções equivocadas há 60 anos e periga pagar o preço a qualquer momento. E numa cidade que, embora tenha sido novamente número 1 em qualidade de vida no Canadá, precisa tratar de resolver questões de urbanização e trânsito. Fazendo isso (e mais outras coisinhas), aí poderá olhar para as melhores cidades europeias de igual para igual.

É impossível melhorar? Não! Nada é impossível quando se deseja. Este livro mostra como Amsterdam deixou de ser uma cidade dependente de carros para transformar-se na capital mundial da bicicleta e desenvolver um estilo de vida próprio e, no meu entender (sobretudo após minha visita recente), maravilhoso.

Amsterdam, com seus ciclistas, com tantas pessoas andando pelas ruas, com os barcos nos canais, é uma cidade linda. Enquanto Ottawa também é uma linda cidade, mas que vem sendo castigada pelos carros em suas ruas e highways a cada dia mais engarrafadas, pelos estacionamentos ao ar livre em meio aos prédios do centro e sim, pelos subúrbios plastificados carro-dependentes.


Ninguém aqui está pretendendo abolir o automóvel. Mas sim essa doencinha urbana chamada dependência de carro. Uma cidade deve ser o retrato da pluralidade de seus habitantes e oferecer iguais opções para todos. Para os que podem dirigir e para os que não podem. Para os que querem dirigir e para os que não querem. Se isso significa restringir um pouco os carros, paciência! Ninguém morre se não tiver como dirigir, se a cidade estiver preparada!

Muito bem, eu acredito que toda essa polêmica resulta muitas vezes da dificuldade que muitas pessoas têm de aceitar uma mudança cultural atingindo algo que era tão simbólico de status e sucesso. Mas, para o Canadá, talvez seja o momento de aceitar que o mundo mudou. Repensar e transformar valores com humildade e objetividade. Tudo tem começo, meio e fim e nada se transforma sem resistência. É fato. Mas precisamos parar de brigar e encarar a vida como ela é. Perceber que somos diferentes e cada um tem o direito de viver sua vida e expor suas opiniões, dentro do seu espaço.

E viva a diferença! E vida que segue!


Acabo de retornar da Europa, onde fui apresentar um trabalho acadêmico relativo a um projeto de pesquisa desenvolvido para a UFMG entre 2014 e 2015.

Nos últimos tempos, tenho vivido uma situação complicada com a agência brasileira de fomento à pesquisa que financiou meu pós-doutorado. Ela não aprovou meu relatório final e exigiu produção acadêmica, colocando-me numa situação desconfortável na qual eu precisaria me virar com meu dinheiro para apresentar trabalhos e publicar artigos (o maior interesse da agência... não importa se é relevante. PUBLIQUE OU MORRA). Com isso, fui obrigado a viajar no meio de um semestre no college, em meio ao verão europeu (calor e alta temporada). Pagando todas as despesas.

A mudança para o Canadá prejudicou essa produção? Mais ou menos. Na área de Musicologia há poucos congressos, poucos periódicos e tudo acontece muito devagar. Alguns congressos são bianuais, os periódicos levam muitos meses para apreciar um artigo submetido... Eu simplesmente resolvi não apresentar ou publicar nada no Brasil porque meu trabalho seria melhor apreciado e criticado fora. Mas a agência exige, exige, e ameaça punir meu coordenador com a inabilitação para receber novos apoios financeiros... Ele que não tem culpa alguma da minha decisão de ir embora do Brasil. Que me punissem, então...

Mas durante a apresentação do meu trabalho no congresso da International Association for the Study of Popular Music na linda cidade de Kassel, na Alemanha, me bateu muita saudade da vida acadêmica. E muita tristeza e raiva da barreira da experiência canadense, que me atrapalha muito aqui nesse ponto.

Sempre fiz um bom trabalho e dei duro para que minhas pesquisas tivessem relevância internacional. Apresentei trabalhos e publiquei artigos na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e também aqui. Mas vir com a formação completa, ou seja, com doutorado, não me ajuda. Porque embora meu título seja reconhecido aqui, o fato de ele ser brasileiro não me torna competitivo para as oportunidades de trabalho. Barreira da experiência canadense!

Entrei no College em busca de empregabilidade rápida, mãos à obra e qualificação em áreas de meu interesse. Mas em janeiro de 2016, por motivos que já comentei, eu quis abandonar o curso e retomar a carreira acadêmica na Carleton University. Fui procurá-los e eles tinham as portas abertas pra mim.

Só que... vieram com a conversa de eu fazer um segundo doutorado porque as oportunidades são limitadas e seria melhor eu ter um doutorado canadense para ser mais competitivo... Ahã... sei, viu! Isso é pura barreira da experiência canadense somada à $. Porque fazendo doutorado, mesmo que receba dinheiro, eu tenho que pagar tuition fees.

E vamos pensar aqui com muito realismo: fazer outro doutorado e perder anos que eu já não tenho? Terminar tudo aos 50 anos sem grandes chances em razão da idade que já não me ajuda no resto? Sem chances. Além do que PRECISO GANHAR DINHEIRO E NÃO DÁ MAIS PARA FICAR PAGANDO TUITION FEES. Chega!

Por esse motivo fiquei no College.

Mas sinto falta da carreira acadêmica e fico triste por tanto esforço e investimento serem
jogados fora na prática porque o país onde estou não valoriza minha formação. Ruim para ele também, pois essa idiotice muitas vezes causa desperdício de talentos. Por mais que eu veja aspectos positivos na barreira da experiência canadense, vejo muitos outros negativos e muitos exageros que impedem mais e melhores contribuições para este país.

Eu poderia buscar outras oportunidades fora de Ottawa, mas aí esbarramos em algumas questões pessoais. Por ser casado preciso considerar os interesses da Thaisa, que não quer sair da cidade (eu sairia se precisasse).

Voltar para o Brasil ou trabalhar para o Brasil? Não, obrigado! Suzana Herculano-Houzel me representa!

A Thaisa gosta de positividade e diz para eu não pensar que Kassel foi meu canto de cisne na carreira acadêmica, que eu ainda posso ter chances no Canadá... Mas para qualquer um que diga... vamos parar de sonhar. Vamos manter os pés no chão e ser realistas. Aos 44 anos, não sou mais um jovem e a idade começa a pesar. Preciso ganhar dinheiro. O passo para trás na carreira acadêmica não compensa e por melhor que seja meu trabalho ele peca, aos olhos do Canadá, pela minha formação não-canadense. Outro doutorado, e ainda pago, não dá.

Por isso, ao terminar minha apresentação, senti uma dolorosa ponta de tristeza. Por saber que ao buscar segurança e qualidade de vida, preciso abrir mão de algo que me dá prazer e alegria, e que faz uma enorme parte de mim.

Mais um post onde eu respondo uma pergunta desagradável que me é feita frequentemente. Mais uma oportunidade para esclarecer uma opinião e deixar tudo registrado.

Em setembro de 2016, eu fui ao subúrbio de Barrhaven pela primeira vez e ali fiz um vídeo para o extinto canal Vida Que Segue - Canadá onde eu falava exatamente sobre os subúrbios. E misturando uma molecagem que sempre quis fazer com a crítica aos "vendedores de sonho", notadamente Diogo Esteves  de Orlando, cheguei a me sentar no meio da rua para fazer aquela analogia: é tão parado que até dá para sentar no meio da rua!

Achei que essa brincadeira passaria despercebida, mas não... Ronda Rouse, a justiceira dos barrhaveiros oprimidos pelas minhas palavras, surgiu montada em seu corcel negro para me dar porrada com a turma do UFC.

Começo fazendo uma pergunta, que acaba sendo desdobrada:

- Paulistanos: vocês morariam na Granja Viana ou em Alphaville?
- Cariocas: vocês morariam nos cafundós da Barra da Tijuca, no Recreio ou em Vargem Grande?
- Belo-horizontinos: vocês morariam nos condomínios fechados de Nova Lima?

Alguns moraria, outros não.

Transportem-se para Ottawa, e os locais que de alguma forma podem ser comparados às regiões que citei são exatamente os subúrbios.

Há três grandes subúrbios na cidade:

- Orléans, o mais antigo, situado na região leste e tradicionalmente francófono;
- Barrhaven, o famoso subúrbio onde me sentei no meio da rua, no sudoeste de Ottawa;
- Kanata, no extremo oeste; provavelmente o mais desejado pelos brasileiros em razão de muitos imigrantes considerados bem-sucedidos viverem lá e da existência de um polo tecnológico outrora descrito como "o Vale do Silício do Norte"... que decaiu na virada do milênio mas continua abrigando muitas grandes empresas de tecnologia.

E há ainda outros subúrbios menores como Findlay Creek (no sul), Manotick (extremo sudoeste), Stittsville e Carp (esses dois ainda pra lá de Kanata)...


Neste mapa você pode ver onde ficam os grandes subúrbios de Ottawa. Na área amarela do centro da imagem, está a parte urbana da cidade. As áreas em verde correspondem ao cinturão verde ou Greenbelt. É importante notar que esse mapa corresponde apenas a uma fração da área da cidade, pois as comunidades rurais não aparecem.

Quando surgiram, esses subúrbios não faziam parte da cidade de Ottawa. Mas em 2001, ocorreu a amalgamação de várias cidades vizinhas no propósito de "formar uma cidade que oferece melhores serviços e custa menos ao contribuinte". O resultado foi uma cidade imensa em área, altamente desfragmentada e uma situação que até hoje é controversa. Isso merece um post especial, mas resumidamente a minha opinião é a de que a amalgamação não deu certo e não deveria ter ocorrido, porque os locais amalgamados têm realidades muito diferentes entre si e seriam melhor administrados em âmbito local.

Ottawa é uma cidade repleta de contrastes e mal planejada. Tudo começou com o Plano Greber, elaborado pelo urbanista francês Jacques Greber nos anos 40 e 50. Esse plano, que não foi totalmente cumprido, criou algumas bizarrices como a remoção da estação ferroviária do centro da cidade em 1966 e a separação das áreas residenciais das áreas industriais e comerciais. Com a construção da highway cortando a cidade, esse plano coincidiu com o apogeu da car culture. E estabeleceu mais uma contradição: enquanto a área central (antiga) é densa e fácil de ser navegada sem um automóvel, as regiões mais novas são carro-dependentes.

O Plano Greber também implantou o Greenbelt ou "cinturão verde", cujo propósito era o de preservar parte dos recursos naturais da região bem como - ironicamente - conter o espalhamento da capital...

Os subúrbios - uma influência clara dos Estados Unidos - foram implantados já do lado de fora do Greenbelt. Originalmente não faziam parte de Ottawa mas uniram-se à cidade com a amalgamação. E tornaram-se regiões desejáveis basicamente pela oferta de casas grandes, adequadas para famílias com crianças, a um preço de compra supostamente mais baixo do que na cidade.

Os imigrantes são muito atraídos pelos subúrbios e tenho a impressão de que entre os imigrantes brasileiros morar em Barrhaven e principalmente em Kanata parece dar algum status. Orléans não costuma ser muito desejado, provavelmente diante da antipatia que seus habitantes francófonos despertam... mais por culpa dos seus colegas do outro lado do rio do que deles mesmos.

Entretanto, o conceito dos subúrbios é coisa dos anos 40, quando a população das cidades (e do mundo) era bem menor e o automóvel não era tão massificado quanto hoje. Mas algo saiu fora do controle - para vocês entenderem, Jacques Greber imaginava que Ottawa teria uns 400 mil habitantes no ano 2000 - e os subúrbios começaram a transformar-se num problema urbanístico por toda parte. Em Ottawa, pelas condições particulares da cidade, isso tem se intensificado bastante porque:

- a cidade tem invernos muito longos e com muita neve, gelo e freezing rain, o que causa congestionamentos até nas highways e torna os deslocamentos de carro muito perigosos. Sem falar que os carros atolam nas nevascas e você pode levar horas protagonizando cenas de comédia pastelão para conseguir sair com eles. Isso dificulta muito a vida de quem precisa se deslocar por longos quilômetros até o trabalho. E como muitas áreas de subúrbios não são consideradas prioritárias para remoção de neve, pode ser difícil até sair de casa em alguns dias;

- os congestionamentos nas highways e ruas de Ottawa são frequentes mesmo fora do inverno (o trânsito aqui no geral é muito ruinzinho);

- os subúrbios têm crescido a um ritmo muito alto e descontrolado, alcançando densidades demográficas de centro de cidade mas sem as mesmas conveniências. E salvo Kanata, são cidades-dormitório e não geram muitos empregos. Por falar em Kanata, é um tanto quanto absurda a localização de várias empresas importantes num dos extremos da cidade. Imagine uma pessoa residindo em Orléans e precisando se deslocar 50 quilômetros para ir e 50 quilômetros para voltar do trabalho? Pode ser bem estressante e cansativo.
(muitas pessoas moram em Kanata porque precisam, não porque querem)

- os subúrbios não costumam gerar muita vida cultural e entretenimento se comparados ao centro, o que contribui para a fama de "cidade chata". Mas há o Canadian Tire Centre, arena dos Ottawa Senators, em Kanata. O maior elefante branco da cidade: a arena do principal time esportivo da cidade situada a 25 quilômetros do centro e a cerca de 50 quilômetros de algumas partes da cidade? Mesmo com o time nas semifinais da NHL, muitos assentos permaneceram vazios. A distância da arena é considerada um dos fatores para uma parcela da população da cidade não torcer para os Sens (mas para os Montréal Canadiens ou os Toronto Maple Leafs).  Aparentemente, o time vai se mudar para uma nova arena em Lebreton Flats - centro - num futuro próximo, o que certamente será positivo;

- os subúrbios podem dar uma falsa sensação de segurança. Não há mendigos nas ruas e a possibilidade de assaltos é praticamente nula. Porém, há sempre a possibilidade de abusos sexuais, acidentes de trânsito, roubos a residências, etc;

- as crianças que vivem toda uma vida no subúrbio e de repente vão para a faculdade aos 17 ou 18 anos podem experimentar dificuldades em áreas mais densas se os pais não as expuserem a esse tipo de lugar consistentemente. No college tive colegas de 22 anos, nascidos e crescidos aqui, que não sabiam navegar no centro e "apanharam" quando precisamos fazer trabalhos de fotografia perto do Parlamento. O distanciamento maior entre as pessoas pode gerar crianças e jovens com maiores dificuldades de relacionamento e mais propensão a viver online, sem grandes interações com a vida real, quase o tempo todo;

- nos subúrbios não se vê tanta gente andando nas ruas (muitas vezes nem há calçadas) e algumas pessoas acostumadas com mais agito perigam flertar com a depressão;

- os subúrbios resultam da sanha das construtoras por dinheiro e destroem importantes áreas verdes e regiões rurais que contribuem para o abastecimento da cidade, influindo também no clima e na vida animal;

- o custo mais baixo da moradia nos subúrbios pode ser neutralizado pelos custos obrigatórios com um carro ou com mais de um carro, o que não é raro para famílias;

os subúrbios são feitos para praticamente obrigar seus residentes a dirigir. Totalmente errado, pois existem pessoas que não querem ou não podem fazer isso! 
E as pessoas portadoras de alguma necessidade especial que não lhes permita dirigir? Ficam totalmente dependentes se moram nos subúrbios. 
Uma cidade jamais pode estar condicionada a um meio de transporte apenas. Deve oferecer alternativas igualmente eficazes para todos, sem excluir. E permitir que dirigir seja uma opção e não uma necessidade. Os subúrbios, portanto, representam uma urbanização excludente e isso é "unacceptable".

Confesso que quando estava para decidir a cidade onde moraria tive resistências com Ottawa, por causa de empregabilidade - tema para outro post - e da tendência a viver em subúrbios por aqui, que gera dependência de carro. Os subúrbios não são para mim. Nunca morei em casa, e sempre morei em regiões agitadas e repletas de conveniências. Esse tipo de lugar me causa um pouco de tédio e não quero (e nem po$$o!) ter um carro aqui! Acabei vindo para o centro.

Defendo a vida no centro para o recém-chegado, exatamente para evitar dependência de carro e os custos decorrentes (que são altos), pelo menos antes de se estabilizar financeiramente. E muitos brasileiros não entenderam que eu nunca disse "você não deve ter carro", mas sim "você não deve ser dependente de carro". Aí Ronda Rousey surgiu para descer porrada em mim, e pelas costas, kkkk (sobrevivi). Por isso é importante que eu diga que não sou contra quem mora no subúrbio, mas sim contra o fenômeno urbanístico de sprawl. Então sim, sou contra os subúrbios tal qual estão hoje em dia, mas não sou contra você que mora no subúrbio.

Acho válido questionar sim a preferência pelos subúrbios porque você pode encontrar tudo o que busca neles em outras regiões que te darão uma melhor conveniência e poderão ser melhores a médio e longo prazo... pois os subúrbios podem se tornar inviáveis com o crescimento da população de pessoas e carros na cidade em alguns anos... Muitos argumentos utilizados pelas pessoas que vão morar no subúrbio são passíveis de discussão. Por exemplo:

- No subúrbio eu encontro imóveis grandes, com espaço para minha família, a preços mais acessíveis... bom, você já pesquisou bairros que não são subúrbios e têm o mesmo tipo de moradia, a preços mais ou menos semelhantes? Vamos ao Realtor:


Tudo bem, eu sei que neste exemplo a casa de Barrhaven ($329 K) está algumas dezenas de milhares de dólares mais barata do que as outras duas ($379 K e $399 K), que não ficam em subúrbio. Mas vocês podem perceber que a diferença de preço não é gritante. E é possível encontrar imóveis até mais baratos do que os de subúrbio fora do subúrbio. Basta querer e pesquisar.


- Nos subúrbios estão as melhores escolas da cidade. Estou pensando nos meus filhos. De fato há ótimas escolas em Barrhaven e em Kanata, mas nem todas as melhores escolas elementares da região estão por lá.  E no caso das escolas secundárias, o páreo é ainda mais duro. Você estará bem servido de escolas para seus filhos se não optar pelos subúrbios.
Para as crianças que moram na área central (acredite, elas existem... moro num prédio de condos pequenos e só no meu andar moram três crianças), as opções culturais estão "in a walking distance", por sinal.

- Segurança, inclusive para minha família. A chance de morrer ou se ferir num acidente de trânsito em Ottawa é muito maior do que sofrer um crime realmente violento. Em 2015, houve 15.076 colisões de trânsito, com 3.789 feridos e 22 mortos.  
 O número de feridos no trânsito não é muito inferior ao total de crimes contra a pessoa ocorridos no mesmo ano na cidade. Ainda em 2015 houve sete homicídios.
Há ainda a questão da violência sexual, que pode estar em toda parte.
É interessante pontuar que a maior parte dos cruzamentos campeões de colisões não fica no centro (mas um fica em Orléans, subúrbio), e que a geografia dos homicídios em Ottawa é um tanto quanto difusa. A realidade daqui é diferente da de uma cidade grande brasileira e é preciso pensar com a cabeça daqui, sem comparações. Seus filhos podem estar a salvo dos mendigos e drogados da George Street se você mora num subúrbio, mas eles não estão a salvo de outros problemas como acidentes de trânsito e violência sexual.

- Subúrbio dá status. Só mesmo entre imigrantes movidos pelo sonho canadense... na verdade pelo sonho americano aplicado ao Canadá. O crescimento populacional do centro, após anos de números próximos ou abaixo de zero, está hoje em dia equiparado ao dos subúrbios. E entre os canadenses as regiões "it" da cidade, que realmente dão status, estão (e sempre estiveram) no downtown core: Westboro, Glebe, Golden Triangle, New Edinburgh, Rockcliffe Park, Old Ottawa South, Beechwood e Sandy Hill. Ah, e certos canadenses muitas vezes enxergam "livrar-se da dependência do carro" como uma bênção. Mais uma vez isso não quer dizer necessariamente "não ter carro", mas "não depender de carro para tudo". Veja aqui, aqui, aqui...


Se você decide morar num subúrbio porque gosta de viver nesse tipo de lugar e quer morar lá, não há problema algum. Be my guest! Se é mais conveniente para seu trabalho, vá correndo (me lembro do Rio de Janeiro: se você trabalha na Barra, viva na Barra!).

Que fique claro que eu não estou aqui para dizer a você onde morar, mas sim para fazer sua escolha considerando todos os fatores e adequando-os à sua situação. E não ir para um determinado lugar porque grande parte dos imigrantes com cara de bem-sucedidos que você vê pela Internet e adota como exemplo mora lá. Pode haver outras alternativas; considere-as. Faça do tempo e da paciência seus mestres na hora de fazer seus planos!

E o que eu vejo de bom num subúrbio? Basicamente eles são bonitos, geralmente tranquilos e silenciosos (um pouco demais para mim, mas...), têm muitos parques, muitas instalações esportivas, muitas escolas boas, e para quem gosta de encontrar bichinhos e de um maior contato com a natureza são um prato feito!

Enfim... Fiz este tratado para deixar registradas as minhas opiniões pois assim sempre que alguma Ronda Rouse vier me dar porrada por conta desse tema, está tudo aqui! Certo? Assunto fechado!

Nunca tive tanta paz vivendo no Canadá como agora. O tempo passa e as pessoas estão se esquecendo do meu canal no YouTube (que está inativo há nove meses) e do projeto Canadá Self-Employed. Não me fazem mais perguntas sobre imigração, graças a Deus! Não me mandam mais tantos e-mails. Não me reconhecem na rua.

Não é que eu não gostasse quando isso acontecia, mas o outro lado da moeda - brigas - nunca me fez bem. Como os brasileiros brigam e batem de frente!!! Pensei nisso um dia desses quando um canadense chegou no Facebook dizendo que precisava se mudar e pedindo sugestões. Eu sugeri o bairro onde moro, que ele conhece muito bem, e ele respondeu muito educadamente. De repente até não gosta da região e jamais pensaria em morar aqui, mas nunca sairia dizendo isso na minha cara. Muitos brasileiros fazem isso.

Tenho acompanhado de longe o fim de canais interessantes no YouTube. Mandy e Mais acabou. Mais ao Norte acabou. E por quê? Porque não há um retorno que valha a pena o esforço para fazer vídeos e o tempo investido. O sonho da monetização e das parcerias ficou para trás. Os que ainda continuam geralmente estão há mais tempo no negócio, e por isso já tinham parcerias e já monetizavam quando o YouTube se tornou um oba-oba repleto de "mais do mesmo".

Fico imaginando a quantidade de e-mails, mensagens inbox e perguntas em geral que essas pessoas recebiam. E o tempo que poderia lhes ser tomado se respondessem. Sem falar que ali ninguém era consultor de imigração, ao contrário das meninas de moda e maquiagem que se profissionalizam na indústria da moda com muito mais facilidade.

Outra coisa que me fez bem foi ter saído de quase todos os grupos e comunidades de imigrantes brasileiros onde estava no Facebook. Algumas pessoas ficaram um pouco chateadas quando falei abertamente dessa decisão, mas entenderam quando expliquei. Estou cansado de brigas e ataques, principalmente quando venho tentar ajudar e expor minhas opiniões e soluções pessoais. E aprendi que com brasileiros, não adianta muito querer ajudar e dar opiniões. As pessoas, salvo umas poucas exceções, virão de cabeça feita e farão o que quiserem fazer. Se você disser o que elas querem ouvir ficarão felizes, mas se disser o que elas não querem ouvir poderão ficar com raiva e brigar com você. Melhor então deixá-las ter suas experiências, resolver seus problemas sozinhas e seguir a vida. 

Depois que entendi isso, estou tentando cuidar mais da minha própria vida em silêncio. E quer saber? Melhor assim. Sei que ajudei muitas pessoas e é sempre bom receber alguma demonstração de gratidão. Vou continuar, mas não ostensivamente. E o blog não vai acabar, até porque ele me protege e preserva bem mais do que o canal. E não toma tanto meu tempo. Enfim, estou muito seletivo e agora ajudo quem eu quiser, da forma como puder. A grande missão está mais do que cumprida.
Hoje decidi falar sobre um assunto desagradável para mim, pois já foi motivo de muitos desentendimentos com brasileiros. Inclusive pessoas que eu ajudei no processo de imigração e depois já aqui, de alguma forma ou de outra.

Principalmente na época do YouTube, acho que adquiri uma fama de ser "contra carro"... o personagem que eu criei para mim mesmo por ali de fato parecia ser assim. Como eu tinha naquela época o sonho de monetizar e fazer algum dinheiro com YouTube e o assunto imigração estava bombando, resolvi ir contra a corrente dominante de brasileiros que até apareciam quase sempre fazendo vídeos dentro de carros.

Eu tentava ir por um caminho diferente, e era ali que a minha visualização aumentava. YouTube é um jogo que você joga com estatísticas e eu acabava dando o que meu público ali desejava: o "destruidor de sonho canadense"... sendo que esse "sonho" é sim de consumo e passa também por comprar um carro logo após a chegada por aqui.

E o episódio que serviu como gota d'água para eu parar de fazer vídeos teve como pivô o suposto fato de eu ser "contra carros". Ele não causou minha decisão sozinho, mas contribuiu. O maior problema foi isso ter respingado na Thaisa, que pode ter suas opiniões mas costuma guardar para si. Ela ganhou alguns unfriends no Facebook por parte desses brigões que ficaram de mal de mim.

Pois muito bem, chegou a hora de falar sobre isso pela última vez e ter algo para enviar para quem levantar essa questão: eu sou então contra carro, no sentido de eu ser contra as outras pessoas comprarem carro, já que eu "não compro de jeito maneira"? Será um texto mais longo, então você não precisa ler se não quiser.

A resposta: Não, não sou "contra carro". 

É muito fácil julgar e rotular precipitadamente. Então, é importante que eu explique e deixe registrado!

Posso ter errado algumas vezes, mas sei que não tenho o direito de dizer o que as outras pessoas devem fazer de suas vidas. Dou opiniões sobre situações e fatos, mas veja que é a minha opinião, é a minha vida. Se você dá toda essa importância ao que eu digo a ponto de se indignar ou de se incomodar, ou você está me dando um valor que eu honestamente não mereço, ou você talvez esteja inseguro sobre a própria decisão. O que não deveria estar: é a sua vida, é o seu dinheiro, é o seu carro... aproveite-o então, seja feliz com ele e me deixe aqui na minha! A coisa chegou ao ponto de algumas pessoas que se diziam "minhas amigas" - mas nunca foram - esconderem de mim que estavam adquirindo um carro para que eu não as criticasse. Eu via uma situação de mal-estar nos rostos delas diante de mim.

Mas eu nunca atacaria essas pessoas. Elas me pré-julgaram e erraram com isso. Algumas vezes, o atacado fui eu. Sem ter feito nada além de me sentar no meio de uma rua de Barrhaven e fazer um vídeo dizendo "comprei!" "comprei!", onde estava criticando mesmo era Diogo Esteves, que dizem ser um dos maiores picaretas brasileiros em Orlando e fez vídeos comprando Porsche. E fiz essa crítica a pedido de inscritos no meu canal. Mas Ronda Rousey não quis saber e, montada no seu Corcel Negro, saiu metendo porrada... kkkkk

Porém, tenho todo o direito de viver minha vida do jeito que bem entender e de expressar minhas opiniões sobre o mundo ao meu redor sempre que for pertinente. 

Na maioria absoluta das vezes em que falei sobre o assunto, falei no fundo para mim mesmo, tentando resolver um conflito interno que ainda não resolvi e com o qual na maior parte do tempo, principalmente hoje em dia, tento lidar sozinho e calado.

Esse conflito se resume da seguinte forma: em um dado momento da vida (anos antes de vir para o Canadá), passei a viver sem carro e percebi que tinha me cansado de dirigir, me adaptando muito bem a essa situação. Mas enquanto no Brasil eu possuía carteira de habilitação e podia dirigir a qualquer hora... podia alugar um carro e tudo certo, ou até mesmo quando viajasse para o exterior, como fiz por duas vezes nos Estados Unidos, preciso fazer exames para obter a habilitação de Ontario. Não completei ainda o processo, mas o iniciei.

Por que me cansei de dirigir? Bom, eu morava no Rio de Janeiro e lá a necessidade de carro era bem menor do que em Belo Horizonte (onde eu tinha não apenas um, mas DOIS carros, pois herdei o do meu pai quando ele morreu). Fui para lá repleto de sonhos de ordem material, mas nada do que eu sonhei aconteceu exceto pelo meu doutorado. Comprei um apartamento em Copacabana, vendi um carro e fui obrigado a alugar vaga de estacionamento para o outro pois meu apartamento não dispunha de uma.

O Rio é uma cidade excelente para fazer tudo a pé apesar da violência urbana. Os táxis são baratos, há os ônibus frescões e há o metrô e os trens da Central do Brasil. A cidade ficou pequena demais para tantos carros e não não há estacionamento. Carro então para quê? Para ir dar rolé na Barra da Tijuca nos fins de semana ou para situações bem esporádicas que apareciam. Necessidade de carro, eu não tinha nenhuma. Dessa forma, eu pagava R$ 375 de aluguel de vaga + R$ 80 de seguro + uns R$ 200 de gasolina por mês. Isso praticamente fixo. Para o carro ficar parado. Ainda tinha vistoria e IPVA, não me lembro quanto custava.

Durante o meu doutorado eu ganhava R$ 4100 de bolsa e o resto vinha de administrar minha herança. Cerca de 25% do que eu ganhava era gasto com um carro que praticamente não rodava. Meu pai o comprou quando se aposentou e quando ele morreu, após dez anos com o carro, o hodômetro não registrava nem 15 mil quilômetros rodados! E quando vendi esse carro, ele estava com 30 mil quilômetros rodados.

Você vai se surpreender vendo a foto do carro que eu tinha. O modelo era 1996, e a foto é de 2012. Foi tirada no dia em que anunciei a venda... vendi no mesmo dia... Não foi fácil, pois era o carro amado do meu pai. Imaginei que o conservaria por 30 anos e ele receberia a placa preta. Viraria de vez um carro de fetiche, que na realidade já era. Quantas vezes não me perguntaram se eu queria vender? Mas estava pesado para a minha realidade.


Não gosto de trânsito pesado. No Rio de Janeiro, onde é comum você passar duas horas para ir de um lugar a outro, eu chegava a sentir dores fortes na panturrilha esquerda por causa da embreagem. Dirigia muitas vezes tenso em razão da agressividade do carioca ao volante, e com o tempo fui perdendo o tesão. Era muito ruim ver uma praia maravilhosa do lado e não poder me desligar do mundo como é de minha natureza porque precisava me ligar nas coisas feias da guerra do trânsito.

Quando vendi o carro, minha qualidade de vida deu um salto absurdo. Nunca mais me preocupei com trânsito e minha cabeça ficou bem mais tranquila. Meu corpo agradeceu.

E se você me perguntar quantas vezes eu realmente precisei dirigir de setembro de 2012 até vir para cá em abril de 2015, eu respondo: uma. Para o casamento de um amigo em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto onde não se chega de outra forma. Uma estrada de terra que parece paisagem da Lua. Aluguei um carro e fui.

De resto, nunca houve um momento em que eu efetivamente PRECISASSE dirigir. E quer saber? Eu fui para Los Angeles duas vezes como turista, porque quis. Aluguei carros não porque precisei, mas porque quis. E lá, na capital da car culture, ficava duas horas imóvel com meu Sentra alugado numa highway com sete faixas. Acreditem, acontecia muito. A Thaisa estava lá e pode confirmar.

O Sentra que aluguei em Los Angeles, 2012

Já pilotei SUV. O Santa Fe de Miami, 2012

Aqui no Canadá, os maiores inconvenientes ocorreram quando eu precisei visitar alguém no subúrbio, mas não foi nada que eu não tivesse conseguido contornar com ônibus e Uber. Há quem me questione sobre o contato com a natureza, as viagens... houve uma moça muito boa de argumentos que defendeu apaixonadamente esse aspecto... Só que sair dirigindo no meio de ursos e alces não é muito para mim. Gosto é de caminhar na cidade, de ver gente... e viagem para mim é pegar um trem e ir para Québec, Toronto ou Montréal... ou pegar um avião e ir mais longe. Não gosto de viajar de carro, me sinto claustrofóbico.

Me desloco de ônibus - que eu não pago pois faço college e o passe estava embutido nas tuition fees - e a pé na maior parte do tempo. Nunca pego táxi e raramente pego Uber. Os ônibus não me incomodam e moro numa área bem servida. Caminhar aqui me faz bem, pois não sou mais um garoto e preciso de exercício para manter minha saúde em dia. Tive problemas com a alimentação canadense e cheguei a pesar 105 kg, igualando o maior peso que tive na vida, sendo que cheguei aqui com 94 (tenho 1.90 de altura). Hoje peso 98. Se dirigisse para toda parte, como muitos fazem, estaria bem pior. E caminhar me faz bem porque tenho esse ritmo mais lento e gosto de contemplar a arquitetura, os parques e os personagens de Ottawa. Por experiência própria, afirmo que a vida sobre quatro rodas nesta cidade é bem feia e desinteressante.

Não gosto muito que me dêem carona, embora as aceite de bom grado, pois não quero dar trabalho a ninguém.

Hoje em dia o fator financeiro pesa. Como músico, eu muito provavelmente teria oportunidades mas não teria a consistência necessária para pagar as contas do mês. A carreira acadêmica estava fora de questão, pois eu precisaria fazer outro doutorado já que não tinha "experiência canadense". Por isso, resolvi encarar o plano B e seguir para o college... uma opção que não é nada fácil em diversos momentos mas que surgiu como a melhor opção para recomeçar. Precisei fazer uma opção: morar num local extremamente conveniente e pagar o preço para isso retirando do que talvez pagasse por confortos que me trariam dívidas, tais como um carro. Lembrando também que a Thaisa não dirige e precisava de um lugar que conseguisse navegar com facilidade mesmo com pouco domínio da língua.

Porém, o radical que dizem haver em mim não existe... Era no máximo um personagem de YouTube. Sei que posso precisar dirigir em algum momento. Não gosto mais, me cansei, mas posso precisar. As crianças. Ainda não tenho filhos, a Thaisa ainda tem tempo e na verdade não alcançamos ainda uma estabilidade financeira que nos permita tê-los. Mas eles podem vir e aí talvez eu precise de carro. Talvez, pois vejo muitas pessoas aqui adotando alternativas sustentáveis mesmo com crianças.

E, antes de ter filhos, posso precisar de carro para o trabalho...

O problema é que preciso tirar a carta full G e fazer um exame de rua. Quero tirar essa carta, embora ela não seja prioritária. Quero ficar livre disso, mas preciso fazer as coisas direito porque não quero ser mais um "Ottawa Bad Driver".

Na minha vida, o assunto "carta de motorista" envolve questões da minha juventude que foram tangenciadas - tanto que tenho carta de motorista brasileira - mas nunca completamente superadas. Demorei muito a compreender tudo isso e por isso até desperdicei os anos de terapia que fiz para superar os abusos, até porque eu não sabia de muita coisa e não compreendia o que se passava comigo. Mas isso é íntimo e prefiro não expor por aqui. O máximo que posso dizer: tive uma juventude muito solitária e muitas vezes a ideia de ter um carro me foi apresentada como solução para suprir o que eu não tinha. E tirar a carta de motorista não foi fácil, e a razão não foi eu ser "ruim de roda". Só que isso, prefiro manter como "my own business".

Quando jovem eu era fanático por carros, e até hoje adoro corridas. Pode acreditar.

Com os anos longe do volante e a falta de prática - eu me preocupava com isso sabendo que precisava vir para o Canadá e inclusive ia às concessionárias para fazer test drives escondido da Thaisa, que não queria que eu gastasse dinheiro alugando carros, simplesmente para praticar -, "desaprendi" um pouco a dirigir. Sou distraído e preciso "domar" isso de novo. E como eu não conhecia as regras de trânsito de Ontario, eis a razão para minha demora em tirar a full G. Ainda não me sinto 100% seguro para o exame e principalmente para o que vem depois dele, embora faça aulas silenciosamente com um respeitado instrutor de Ottawa, canadense (québecois anglófono) que acabou se tornando meu amigo. Não é constante como eu gostaria: a agenda cheia desse profissional, alguns problemas eventuais (muitas vezes de saúde dele) que o fazem desmarcar aulas e fatores como o inverno com suas nevascas e freezing rains prejudicaram minhas práticas em diversas ocasiões. E quando o dólar disparou frente ao real em novembro de 2015, precisei parar por seis meses.

Brasileiros às vezes questionam:
- Esse instrutor está querendo arrancar seu dinheiro, hein?

Não, não está. Ele faz o que pode para me ajudar, de bom grado, e não vou entrar em maiores detalhes sobre essa questão. É uma pessoa que tenho como amigo. E até hoje foi a única pessoa que me ofereceu ajuda nesse campo. As decisões tomadas foram sempre minhas, sabendo o que estava fazendo.

Ainda não chegou minha hora, mas ela virá e estou buscando... mesmo que eu siga não querendo, não podendo, ou achando melhor não ter carro por qualquer razão. E é isso.

E sobre os outros, o que eu penso?

Penso que cada um tem o direito de comprar o que quiser, fazer o que quiser e ter o que quiser. Não tenho nada a ver com isso. Porém, carro é uma coisa complicada porque muitos o usam para ostentar e acreditam que estão num plano superior aos outros apenas pelo que têm. Há também os que enxergam apenas as coisas boas que o carro traz e ignoram os problemas... que não são poucos.

Mas se eu estou respirando um ar poluído e prejudicando minha saúde, enfrentando problemas climáticos que podem sim decorrer do excesso de carros nas ruas ou tendo minha segurança como pedestre ameaçada pelos jeitinhos ou pelo desrespeito de um motorista - e não pensem que o trânsito é bom em Ottawa - aí o problema passa a ser meu também. Se grande parte da cidade toma bomba em user experience em razão das dificuldades que impõe a alguém que não pode ou não quer dirigir um carro, o problema passa a ser meu também. Sim, eu me ligo nos problemas ambientais, urbanos e de segurança trazidos pelo carro e quero discutir alternativas e soluções... Mas aí a raiz não está em você que quer ter ou tem um carro. Você, como eu, pode ser uma vítima de forças maiores e o questionamento deve ser feito com elas. Não com você. Eu pago impostos...

Com todas as experiências que vivi desde que vendi o último carro, revi profundamente meus conceitos de liberdade. É liberdade você ficar 20 minutos procurando estacionamento e só encontrar uma vaga a 800 metros de seu destino final? É liberdade você ficar mais de uma hora ensanduichado no meio de uma highway ou da West Wellington Street sem conseguir se mover, como ocorre às vezes em Ottawa? É liberdade você ficar três horas tentando desatolar seu carro após uma nevasca e proporcionando cenas de pastelão para a vizinhança? É liberdade você correr o risco de ter seu carro rebocado a qualquer momento ou multado por questões de estacionamento? Carro, para mim, traz muitas vantagens e muitas desvantagens. Cada pessoa encara isso a seu modo e vive sua vida. Para alguns carro é sim liberdade. Para outros é fardo, é prisão. E tudo bem.

Da mesma forma, você não é melhor do que eu somente porque tem um carro e eu, não. Não venha me atacar por eu dar minhas opiniões, principalmente se eu não estiver falando com você. Por essas e outras, deixei de participar de comunidades de imigrantes brasileiros em redes sociais... do tipo "Brasileiros em Ottawa" ou "Brasileiros no Canadá". Como eu disse, se você não concorda comigo não há problema nenhum. Minha vida não muda, nem a sua. Não temos por que brigar, ainda mais por causa de um carro. Não é?

E também não acho legal você ficar usando o YouTube para mostrar o que você comprou, sobretudo se for um Porsche ou coisa parecida. O problema não é você comprar um carro. É comprá-lo diante das câmeras para ostentar.

Quando eu recomendo a um recém-chegado que procure viver num local conveniente onde não seja preciso ter carro, a razão é puramente financeira: um carro próprio aqui em Ontario significa uma pesada despesa mensal fixa que pode atingir até os quatro dígitos se você se empolgar e resolver financiar de cara aquele SUV zero quilômetro. A compra muitas vezes envolve uma dívida e você precisa refletir se vale a pena assumir esse compromisso (eu pessoalmente começaria com um usadinho comprado à vista). Nesses locais que eu recomendo, se a situação favorecer, você pode viver sem carro. Pesa menos no bolso e pode te proporcionar um estilo de vida diferente que te faça ver o mundo de outra forma. Mas nada te impede de ter um carro se você quer ou precisa.

Enfim, as brigas às vezes são tantas que hoje em dia eu até faço pouca questão que certas pessoas morem perto de mim. E prefiro ficar na minha, falando pouco e sem deixar qualquer um entrar na minha intimidade. Infelizmente, muitos brasileiros não sabem discutir nem discordar. Nunca tive qualquer problema pa com canadenses.

Espero que chegue o dia em que um carro não seja motivo de tanta discórdia, talvez pelo que ele hoje pode simbolizar na vida de muitas pessoas. Num mundo ideal, dirigir deveria ser uma opção e não uma obrigação para mostrar ao mundo que se "é alguém".

Enfim... Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas como a questão do título deste post me é feita com frequência eu resolvi me abrir um pouco mais nesse assunto, apenas por hoje.



Em primeiro lugar, me perdoem pelo sumiço de mais de um mês.

Muita coisa aconteceu... o estágio remunerado acabou e precisei voltar ao college para o último semestre (e confesso que não faço isso muito animado) e após passar quatro meses sem trazer nada para casa após encerrar o expediente os assignments voltaram.

Estudar na primavera e no verão em Ottawa não é algo muito estimulante, porque a estação convida a estar na rua curtindo a cidade e muita coisa acontece. Eu costumo realizar trabalhos voluntários em festivais, já na área de mídia, para adquirir experiência e networking e principalmente para praticar técnicas sem pressão.

E foi numa dessas ocasiões que vi algo que me deixou boquiaberto. Estava eu cobrindo como fotógrafo o Canadian Tulip Festival, o grande festival canadense de tulipas que toma conta de Ottawa a cada mês de maio. Aberdeen Pavillion do Lansdowne Park... nada muito estimulante. Mas havia um palquinho instalado do lado de fora do pavilhão com uma programação de jovens artistas.

No sábado houve três shows, e no domingo aconteceria apenas um. Hannah Elle. Nome de mulher, provavelmente mais uma jovem talentosa que como tantas cantaria algo como Ariana Grande, Selena Gomez ou alguma dessas meninas que vêm e vão...

Ela subiu ao palco bem quietinha e tímida, acompanhada de um homem com seus quarenta anos que foi para o piano... Cara de menina mesmo, não aparentava ter mais do que dezesseis anos. Depois soube que tinha dezoito. De cara percebi que era muito, muito, muito fotogênica. E saí clicando. Fiz a festa.



A jovem Hannah Elle pela minha lente. Para quem gosta de fotografar não há nada melhor do que descobrir os caminhos da fotogenia, ainda mais de forma cândida, espontânea... Como artistas no palco quase nunca posam, é sempre um grande desafio! OBS: ela é canadense, filha de pai egípcio e mãe canadense.

E aí ela começou a cantar. Vou deixar as imagens falarem por mim.


Sensação de choque. Essa menina... uma menina mesmo, provavelmente fazendo um de seus primeiros shows (era o primeiro como profissional)... cantando isso? Estava fazendo scat singing. Aparentemente improvisou. Brincou com a voz. Fraseado impecável. Não deixou a peteca cair quando o pianista quebrou o ritmo.

Ela cantou até Billie Holliday!

Eu via uma menina e ouvia uma profissional das boas. Ainda mais para quem é músico ou produtor, testemunhar esses momentos onde o talento bruto - evidenciado pela timidez misturada a um pouco de nervosismo, e por ainda não saber como preencher o palco relativamente grande onde estava, embora quisesse fazê-lo - salta à sua frente sempre resulta em puro êxtase. Mas de onde surgiu essa garota? Como ela foi parar ali?

Não foi a primeira vez que vi jovens bem talentosos se apresentando por aqui. Na verdade, o nível artístico geral é muito alto. Digamos que um artista de bar em Ottawa pode ter o mesmo nível de um profissional consagrado no Brasil. Mas como, cooomo, coooooomoooooo?

As respostas estão na educação e em alguns outros fatores sociais presentes na vida cotidiana do Canadá! Vamos lá:

- Hannah Elle estuda na Colonel By Secondary School, considerada a segunda melhor escola secundária da província, onde há um conhecido projeto de educação musical. E também um grupo vocal de meninas, as C-Flats... que até prêmio em Nova York já recebeu. O pianista que foi acompanhá-la é Greg Crossett, professor de música da escola que tem trabalhado com as C-Flats.

- Muitas escolas primárias e secundárias canadenses, em vez de padronizar seus currículos e transformar seus alunos em cavalos de corrida prontos para competir insanamente em testes de admissão para a universidade, detectam, valorizam e buscam desenvolver as potencialidades de cada indivíduo.

- Como a educação aqui é tratada de uma forma muuuuito séria, as comunidades e famílias integram-se às escolas. Os pais, portanto, acompanham muito de perto o desenvolvimento e os desafios encontrados por suas crianças e recebem apoio especializado sempre que necessário.

- A sociedade canadense é igualitária e tenta priorizar o bem-estar coletivo. Por isso, é mais difícil uma família desestimular um jovem talentoso a seguir uma carreira "que dá dinheiro" e abandonar seus talentos e sonhos (bom, se for em alguma pequena cidade do Québec ou de Saskatchewan as coisas sempre serão mais difíceis). Artes, ciência, esportes, computação... tudo isso é tratado como patrimônio da coletividade e estimulado da melhor forma possível.

Da mesma forma, as oportunidades estão abertas para os alunos que não desejam fazer essas atividades profissionalmente. Levarão consigo uma bagagem cultural importante e habilidades suficientes para surpreender alguém como eu que vem do Brasil... onde tudo é diferente.

O caminho das artes profissionais aqui, como em qualquer lugar, não é dos mais fáceis porque embora se pague bem por hora trabalha-se poucas horas por mês. Por isso muitos precisam dedicar-se ao ensino, trabalhar em igrejas ou fazer carreira acadêmica. Continua sendo um caminho difícil, mas a pessoa vai mais preparada e é mais amparada do que no Brasil.

Vendo tudo isso, penso que nasci mesmo no lugar errado. Passei minha juventude buscando o sonho da música e sabendo que tinha potencial... mas esbarrando em obstáculos. Para começar, meus pais me estimularam até certo ponto. Não queriam que eu fosse profissional porque "música não dá dinheiro". Não estavam preparados para isso e a escola onde eu estudei não me ofereceu nada para desenvolver minhas potencialidades lá dentro. Seu objetivo era passar o maior número de alunos possível no vestibular, fazer propaganda e receber novos alunos. Escola privada... afinal de contas é Brasil. Comércio de conhecimento. No Brasil só vejo esse estímulo dentro das igrejas evangélicas, onde se busca ser o melhor para cumprir adequadamente o objetivo maior de louvar e dignificar a Deus. Mas fora dos círculos religiosos, as coisas são muito muito muito mais difíceis no Brasil.

Que pena, pois talento e potencial não nos faltam. Estamos exportando excelência em corrupção e criminalidade.








Não escondo de ninguém que o Canadá para mim representa uma segunda chance.

Eu não tinha boas perspectivas de vida no Brasil, por causa da situação do país mas também por escolhas que fiz. Primeiro, mofei por cinco anos na faculdade de Direito sem vontade de estar lá. Meu coração estava na música e passei anos muito importantes da minha vida tentando me encontrar e buscar meu caminho. Um belo dia, encontrei tudo isso com a Red Bull Music Academy em Roma, os festivais que organizei, as gravações que fiz e finalmente com a carreira acadêmica. Mas em 2012 o sinal estava claro: a chance de eu me tornar um doutor desempregado e infeliz eram muito grandes.

E antes de pagar para ver se seria assim ou não, eu fiz minha trouxinha e vim para o Canadá. Onde pouca coisa que eu trazia na bagagem valia para alguma coisa... Nem meu doutorado me tornaria competitivo por aqui.

Não é fácil recomeçar por aqui, mas é possível. O sonho canadense não existe, mas a realidade pode sorrir para quem mantém os pés no chão.

Voltei para a escola aos 42 anos para buscar uma segunda carreira onde eu pudesse aplicar conhecimentos que já tinha e ter melhores opções... agora estou terminando o estágio remunerado com 43 anos. A organização gostou do meu trabalho, me avaliou da melhor forma possível e vamos ver o que virá!

O que vale dizer aqui é que desta vez estou adotando uma postura bem diferente da que adotei no passado. Estou indo à luta, trabalhando duro e buscando o meu melhor todo o tempo. Os canadenses gostam disso e na medida em que vêem vão abrindo as portas. A famosa barreira da experiência canadense é, no final das contas, apenas uma barreira que pode ser superada.

Aprendi por aqui a viver sem me agarrar tanto a ilusões padrão Disney (o que não quer dizer que eu não sonhe... só não acredito no sonho canadense padrão dos brasileiros, que tem bases fortes no lado material) e aproveitando bastante as pequenas coisas boas e bonitas que me aparecem pelo caminho. A neve, a arquitetura do centro de Ottawa, o pôr-do-sol de primavera... cada dia é um dia e o tempo é de plantio.

Enfim, tenho visto muito baixo astral por aí. Brasil, Itália, Grécia, Portugal... é, a turma do euro não anda muito bem. Pessoas desmotivadas, decepcionadas, aguardando mudanças que talvez nunca virão... enfim, me entristeço. E espero que de alguma forma essas pessoas se mexam, saiam de suas zonas de conforto seja lá quais são e reinventem o que não está bom em seus pequenos mundos...

Nunca se pode dizer que acabou. Sempre pode existir uma saída, mesmo que seja a do aeroporto. O que não podemos fazer é ficar parados esperando as coisas acontecerem num passe de mágica. A vida é dinâmica e precisamos nos manter em movimento em busca do melhor, enquanto podemos!

Deixo essa música, que tem tudo a ver:

Aprendi muito cedo sobre as complexidades do que é ser imigrante, principalmente com as inevitáveis escolhas, perdas e nostalgias... Afinal de contas sou filho de um imigrante que nunca conseguiu resolver essas questões, pois era criança, e foi obrigado a separar-se da mãe seguindo para uma vida inteira no Brasil desconhecido.

Mas os meus amigos italianos, com quem convivi na adolescência, também me ensinaram muita coisa. Principalmente sobre as dores e dilemas para se adaptar a um país onde se acaba de chegar.

Era 1987 e o saudoso Promove Serra, onde eu estudava, alugou um espaço vago para a Fundação Torino, escola criada para os filhos dos funcionários da FIAT ou de outras empresas italianas que transferiam-se para trabalhar na cidade trazendo suas famílias. Eram contratos temporários, o que complicava ainda mais a situação. Esses meninos e meninas precisavam despedir-se da sua terra, dos seus familiares e dos seus amigos e alguns anos depois, já adaptando-se ao Brasil, precisavam fazer tudo de novo e enfrentar a síndrome do retorno na Itália.

Eu tentei aproveitar a situação para fazer amigos e aprender uma língua e uma cultura. Foi uma grande experiência... Não foi fácil, até porque minha adolescência foi difícil e eu era muito tímido a ponto de parecer bobo, ou "scemo" como eles diziam. Mas além de aprender a falar italiano com muita fluência sem nunca ter frequentado um curso de línguas fui apresentado a uma cultura que amo muito. Como sempre fui um menino de lugar nenhum, nunca foi difícil para mim assimilar elementos vindos dos mais distintos lugares e ser um cidadão do mundo. Acredito que para eles foi bem mais difícil encarar o "intruso" em sua comunidade do que para mim. Não eram de se misturar... o horário do recreio dos brasileiros e dos italianos era sempre o mesmo mas eles ficavam isolados num canto. Não faziam questão de se misturar aos brasileiros.

Alguns daqueles jovens, ainda, deixavam-se levar pela importância da FIAT na economia de Minas Gerais e pela excelente vida que a empresa lhes proporcionava. Talvez bem melhor do que a que tinham na Itália, onde eram apenas anônimos na multidão. Em Belo Horizonte viviam em excelentes imóveis, frequentavam o melhor clube da cidade, tinham acesso a carros zero quilômetro cedidos pela FIAT... enfim, parecia ser uma vida muito boa no sentido material. Enquanto nós usávamos uniforme, eles desfilavam roupas de marca.

Alguns desses jovens italianos marcaram muito a minha vida. Eram pessoas de quem eu simplesmente gostava. Na verdade, não era muito difícil gostar deles. Mas traziam consigo uma tristeza e uma nostalgia que eu não conseguia racionalizar na época. A estranheza de não se sentir parte do lugar onde se está. A saudade do seu país, da sua cultura, dos seus amigos... uma saudade profunda e difícil de curar. E que posteriormente se transformava nos mesmos sentimentos, só que aplicados a Belo Horizonte e ao Brasil.

Esses sentimentos ajudaram a fazer um deles... que foi muito amigo meu... a decidir ir embora deste mundo muito cedo, aos 22 anos...

Alguns daqueles italianos estão entre as pessoas a quem devotei mais amizade e carinho ao longo de toda a minha vida. Eles me ensinaram muito. O contato com eles, dentre várias coisas, me ajudou a alcançar a Red Bull Music Academy de 2004, em Roma.

Olha eu aí durante a RBMA de 2004 em Roma!

Algumas dessas lições eu só pude assimilar inteiramente depois que me tornei eu mesmo um imigrante. Com eles aprendi como é bom ter apenas uma casa... o Planeta Terra, isso se não for possível ser habitante de todo o Universo. Como respeitar diferenças e como ser grato à terra que nos abriga agora e às pessoas que aqui estão por tudo que fazem para nos acolher... que seja um despretensioso sorriso na rua. Como valorizar muito mais o ser do que o ter, que pode não durar para sempre. Como ter certeza de que todos nós podemos deixar marcas profundas por onde passamos, ainda que pareçam insignificantes. Como abrir nossas próprias fronteiras para línguas, sabores, sons, letras, roupas, luzes e todo o resto que vem de outros lugares. Como aproveitar o dia de hoje da forma mais intensa possível. Como compreender que despedidas nunca são eternas.

E como encontrar poesia nos pequenos gestos. Os italianos podem ser grandes poetas em suas vidas.

Perdi contato com esses amigos italianos por muitos anos, mas nunca perdi a esperança de reencontrá-los. Procurei-os por muito tempo e a Internet - que não existia naquele início de anos 90 - me ajudou a localizá-los. Um dia, ainda hei de revê-los pessoalmente. Porque não restaram fotografias, vídeos, selfies... nada. Restaram apenas as lembranças, que estão impressas na minha mente como se tudo tivesse ocorrido ainda ontem. E restaram músicas. Uma delas, que compus ao longo dos anos 90 e gravei em 2004, fala da rua onde nos encontrávamos - pois nela ficava a escola - e de todas essas lembranças e saudades.

Para quem quiser ouvir, está aqui. Atenção a todos os detalhes... os sons e a forma do fonograma contribuem para o sentido da música... Foi uma experiência da qual tenho muito orgulho e que também ajudou para que o Canadá me aceitasse... lembrando que recebi a residência permanente numa classe de imigração para artistas...

Foi feita para dois desses amigos italianos... um está em Turim e o outro é o que decidiu nos deixar...


A letra em italiano, com tradução:

Quella vecchia strada, dove camminavamo insieme
Aquela velha rua, onde caminhávamos juntos

Non ti vede più, ma ti ricorda per sempre
Não te vê mais, mas se lembra para sempre de você

Tutto è già cambiato, ma c'è qualcosa che non mi va
Tudo já mudou, mas há algo que me incomoda

Ci penso a quell'amico ch'è partito e non tornerà
Penso naquele amigo que foi embora e não voltará

Quella stessa strada... palazzi, macchine, faccia
Aquela mesma rua... prédios, carros e rostos

Ma quando guardo i marciapiedi, sento ancora le tue traccia
Mas quando olho para as calçadas, sinto ainda suas pegadas

Tutto è già cambiato, ma una cosa non cambia mai
Tudo já mudou, mas uma coisa não muda nunca

Non ci riesco a cancellare i ricordi che lasciai
Não consigo apagar as lembranças que você deixou

La scuola non esiste più
A escola não existe mais

Ma invece c'è ancora il club
Mas por outro lado ainda existe o clube

Mi fermo là e guardo su
Paro por lá e olho para o alto

E mi guardi tu dal blue? Dal blue...
E você me olha do azul? Do azul...

Quella veccha strada, quel vecchio asfalto
Aquela velha rua, aquele velho asfalto

Gli anni, la mia vita, il pensiero vola in alto
Os anos, a minha vida, o pensamento voa lá no alto

Tutto è già cambiato, ma una cosa non si può cambiare
Tudo já mudou, mas uma coisa não se pode mudar

I piedi son per terra, l'Uomo non può volare
Os pés ficam na Terra, o homem não pode voar

Quella stessa strada... negozi, l'autobus
Aquela mesma rua... lojas, o ônibus

Fumo, calore e la nostra gioventù
Fumaça, calor e a nossa juventude

Quella vecchia strada, dove camminavamo insieme
Aquela velha rua, onde caminhávamos juntos

Non ti vede più ma ti ricorda per sempre
Não te vê mais, mas se lembra para sempre de você