O imigrante brasileiro e a saudade da família

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A maioria absoluta dos imigrantes brasileiros, quando questionada a partir dos piores aspectos de ir embora do Brasil, responde que o mais doloroso de todos eles é a distância da família e a saudade.

No nosso país, a instituição família é muito forte e com isso é natural que a partida para longe dos pais, irmãos, avós, tios, primos, sobrinhos, agregados, etc., seja dolorosa. Mesmo que represente a possibilidade de buscar uma vida melhor longe do Brasil, num país de primeiro mundo onde muitos dos nossos problemas habituais não existem.

Há quem não aguente. No final de 2014, soube-se de um casal que não conseguiu ficar mais do que 21 dias em Toronto. Uma das várias razões citadas por eles foi a falta da família. No texto deles, o rapaz dizia:

"Eu me achava vacinado contra saudade da família.
Quando pequeno passava 2 meses sem ver meus pais, fiquei anos sem vê-los, meses sem falar, e tava tudo bem. Não por briga ou coisa parecida, pq a saudade nunca esteve presente. Acho que coisa de homem, ser mais frio, desligado, não sei. Minha mãe nunca me ligou pra saber se eu estava bem, se precisava de algo, e nunca achei isso ruim, eu sabia que ela confiava em mim, que eu me daria bem e estaria bem.
Antes de embarcar passei 3 dias com minha família, e foi o suficiente para me derrubar emocionalmente.
As vezes o desespero bate forte por não conseguir imaginar quando vou poder ver minha família....a saudade hoje é absurdamente difícil.
Então, se vc acha forte o suficiente para ficar longe de sua família, vindo para o Canadá, pense 2, 3, 4 vezes antes de vir, curta sua família, pq quando vier vc sentirá a falta de todos, e a todo momento."


E voltaram para o Brasil. Passaram o Réveillon no avião. Como tantas pessoas, fui muito crítico quanto a esse casal. Até porque nunca fui uma pessoa "família". Em primeiro lugar, sempre percebi uma tendência ao distanciamento na minha própria família e sempre fiquei no meu canto. Sou filho único e por ter nascido com meus pais já na casa dos 40 anos, o que era incomum nos anos 70, meu núcleo mais próximo não havia ninguém com a minha idade. Cresci solitário e fui me acostumando com isso. E quando meus pais se foram, a sensação foi a de estar efetivamente só no mundo. 

Chegando ao Canadá e fazendo contato com outras pessoas que também embarcaram nessa aventura e vieram para várias cidades, pude ver pessoas sofrendo por saudade da família, da vida que tinham no Brasil, do emprego que deixaram para trás, e com medo da aventura que tinham diante de si. Li relatos, vi lágrimas nos olhos de pessoas e ouvi histórias. Tudo isso me fez refletir muito e pensar bastante. Tratei então de abandonar ou amenizar as críticas que fizera ao casal dos 21 dias, e também a Márcio Leibovitch, o homem aparentemente bem-sucedido que fez alarde com sua volta para o Brasil, citando a saudade da família como um dos motivos.

Hoje admiro a coragem dessas pessoas. Nadaram contra a corrente e expuseram-se. Teria sido melhor preservar a privacidade, voltar e seguir a vida. Se já evitamos nos expor antes de vir, o que dizer de uma situação em que vamos voltar? 

Para alguém que para todos os efeitos não tem mais família original, não deixou um emprego e um bom salário no Brasil ou qualquer traço de vida satisfatória, vir para o Canadá não fez diferença para pior. Pelo contrário: representou o reacender de oportunidades que no Brasil já estavam perdidas em razão da minha idade. Passei seis anos e meio numa espécie de limbo no Rio de Janeiro onde, mesmo que a carreira acadêmica continuasse seguindo em frente, eu sabia que tinha hora para acabar pela inexistência de vagas para professor condizentes com meu perfil. E onde, apesar do meu esforço para conseguir trabalho como artista, simplesmente não consegui nada nesse campo. Um dia, simplesmente desisti de continuar procurando. Preferi resetar e transformar minha vida para dar algum sentido a ela e fazer com que minha passagem pela Terra não fosse em vão. Optei, como um patinho feio, por procurar um lugar onde eu fosse mais acolhido pelo que sou e pelo que tenho a oferecer. Por isso mesmo, o que estou escrevendo aqui não diz respeito a mim e eu quero ficar aqui no Canadá, certo?

Mas a experiência da imigração não é fácil para quase ninguém e, não raro, obriga você a abrir mão de alguma coisa. Como a proximidade física de seus familiares.

Aí resta a pergunta: você está preparado para se distanciar da sua família?

Essa reflexão precisa ser feita e levada muito a sério. Antes de fazer um investimento de tempo, esforço e dinheiro para se mudar para o exterior e sofrer dia após dia, é melhor não vir. Se você está satisfeito ou satisfeita com sua vida no Brasil e por isso mesmo não vê motivos para deixar tudo para trás e recomeçar dando muitos passos para trás ou mesmo do zero, fique onde está. Se a companhia de sua família já serve para amenizar ou neutralizar os problemas e males do Brasil, então fique no Brasil! 

Você vem ter uma melhor "qualidade de vida", como todos nós dizemos (porque a ausência de "experiência canadense" já leva embora as ilusões de podermos triunfar depressa na nossa área de formação, salvo em uma ou outra área que estão sofrendo com o gargalo apertado pelo Express Entry?) e o que tem é sofrimento e depressão por estar aqui? Vai prejudicar até mesmo a sua saúde? 

E olha que talvez o primeiro inverno nem tenha chegado...

Não dê atenção para o que os outros disserem. A vida é sua e você é livre para tomar suas decisões. Elas só devem dizer respeito a você e ao seu coração. Ao que você acha que é melhor para você. Você decide e assume as consequências, e ninguém deve se meter na sua vida. Fique no Brasil, ou volte para o Brasil. E, da forma como puder, tente melhorar o país para que pessoas como eu e você não precisem mais ir embora em busca de uma felicidade que, SIM, passa pela economia pujante e pelo trabalho que dignifica o homem com uma boa e justa remuneração, e na área de conhecimento e atuação escolhida com amor.

Conheço uma pessoa que foi imigrante um dia e, em questão de pouco tempo, não suportou a saudade da família e dos amigos. E voltou para o Brasil. Ali, seu destino lhe aguardava e algo que ela trouxe na bagagem abriu caminho para um enorme sucesso que certamente está lhe trazendo um bom retorno financeiro. Tudo é possível. 


Vida Que Segue - Canada

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1 comment:

  1. Vc escreve muito bem, conseguiu descrever o dilema de forma inequívoca. E olha que é algo difícil de tornar claro até numa conversa, imagine, então, num texto?! Com certeza é de muita valia p potenciais migrantes ! Parabéns,

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