Experiências no College... recapitulando quase um semestre...

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Mais uma vez continuamos afastados do blog, não? Peço desculpas, de coração! Não foi intencional. Continuamos fazendo os vídeos do canal no YouTube, mas faz um bom tempo que não faço novas postagens por aqui. Então eu, Alexei, volto agora para falar para vocês sobre minha experiência no Algonquin College, fazendo o curso de Interactive Multimidia Design (diploma em dois anos).

O curso começou no início de setembro, e posso afirmar com certeza que estes últimos meses foram os mais intensos da minha vida e passaram como se fossem um ano. São nove matérias bem mal distribuídas por um calendário semanal maluco que chega a ter um dia com oito horas de aula e apenas um intervalozinho de 30 minutos:

- Multimedia and Design: fundamentos de design e Adobe Illustrator;
- Information Design: mais fundamentos de design, tipografia, layout e aplicações práticas para design gráfico;
- Graphics and Imaging: Photoshop;
- DSLR Photography;
- Video;
- Design and Authoring: o controverso, obsoleto e odiado Flash;
- Soundscapes for Multimedia: a matéria que mais me interessa...;
- Communications I: basicamente um curso que envolve gramática em inglês, redação aplicada a alguns contextos e apresentações (trabalhos, produtos, etc)... que os alunos canadenses detestam mas eu gosto;
- Web Design I: tome código! HTML5 e CSS.

No geral, os professores são bons e interessados. Vem havendo alguns probleminhas, como no curso de fotografia (onde pouco aprendemos) e no de vídeo (onde o professor se perdeu, principalmente ao perceber o desinteresse de muitos alunos). No geral, o curso é difícil e puxado. Muitos estudantes já o abandonaram.

As atividades envolvem muitos trabalhos práticos e algumas provas que, sinceramente, considero inúteis. No contexto do curso não há razão para mantê-las, pois na maior parte do tempo envolvem decoreba e nem sempre são bem formuladas. Por exemplo: num quiz de Soundscapes, o professor afirmou que os softwares de redução de ruídos podem eliminar completamente o ruído numa gravação de áudio. Isso seria falso... mas existe verdade absoluta no áudio? Para mim, não: é possível que em determinadas situações o noise reduction elimine todos os ruídos presentes num áudio gravado... Enfim, não vou discutir com madame. Nunca perdi um dia de aula até hoje e minhas notas têm sido boas.

Sobre os trabalhos, aqui chamados de assignments, os professores parecem esperar que o aluno vá buscar conhecimento e informações por fora e com isso a exigência é grande. Para sobreviver no curso você precisa estudar e praticar bastante! E com tudo isso falta tempo para a vida lá fora... para tudo que faz parte das nossas vidas e não diz respeito ao college.

Além disso, precisei enfrentar uma situação que não esperava. Por obra e graça da coordenação do curso, que assumidamente fez uma divisão de turmas muito deficiente, eu fui parar numa turma onde a maioria dos alunos é muito jovem. Alguns são imigrantes, mas estão aqui há muito tempo e por isso valem como canadenses. O único estudante realmente maduro, e imigrante recém-chegado, sou eu. Com a desistência de cerca de um quarto dos alunos ao longo do semestre, a proporção entre homens e mulheres ficou desigual. Com isso, os choques culturais e os conflitos de geração foram inevitáveis. Muitos dos meus colegas não fazem questão de me cumprimentar quando nos cruzamos e preferem fazer os trabalhos em grupo com os mais "chegados". Isso é até bem natural, mas o fato é que eu venho me sentindo muito diferente e sozinho na sala de aula e a hora dos trabalhos em grupo é difícil e desmotivadora. Os grupos se formam e eu "sobro" para algum grupo que não tem membros. Nem sempre os outros integrantes estão funcionando na mesma sintonia.

Com isso, os trabalhos em grupo têm sido muito difíceis.




Não culpo ninguém por isso (talvez a coordenação do curso seja) e não pretendo me passar por vítima. Venho de uma outra cultura, vim para cá para recomeçar porque o Brasil não me deu perspectivas... enquanto a maioria acabou de vir da high school e não tem condições de dar valor para os dólares gastos por seus pais com as tuition fees. E percebo que os meus colegas não parecem estar preparados para a realidade do mercado de trabalho, onde trabalha-se em equipe sem o direito de escolher com quem se vai trabalhar. Para a empresa e para os chefes, não faz diferença se as pessoas são amigas ou não. O que importa é se trabalham direito e fazem sua parte.

Eles me fazem pensar se realmente um jovem canadense mediano de 16 anos está preparado para a responsabilidade de dirigir um carro pelas ruas e highways...

Às vezes, as atitudes deles extrapolam o limite da boa educação. Uma vez, uma garota de 18 anos implicou porque eu estava sentado por acaso perto das amigas dela. Ela queria estar no meu lugar, mas não saí de onde eu estava. As outras pessoas, claro, num constrangimento gigante. Foi a gota d'água para mim... Resolvi deixar de guardar os incômodos para mim e procurei o coordenador do curso. Foi quando ele admitiu para mim, chocado com minha história, que errou feio na divisão de turmas. Não levou em consideração critérios como idade e origem. Os estudantes maduros ficaram espalhados pelas turmas... um aqui, outro ali... e os estrangeiros recém-chegados concentraram-se numa turma que não é a minha. E disse que o que vinha acontecendo comigo, aos olhos da instituição, era discriminação e não poderia acontecer de forma alguma (nota: eu em nenhum momento usei essa palavra... isso ficou por conta dele). Perguntou o que poderia fazer por mim naquele momento. Eu adoraria poder mudar de turma, mas tinha me comprometido com alguns trabalhos em grupo e não poderia deixar os outros alunos na mão. Mas ficou acertado que eu mudarei de turma para o próximo semestre. O coordenador me permitiu escolher para onde vou. Já sei que quero ir para a turma onde estão os outros recém-chegados, inclusive um brasileiro, e vou comunicar a decisão no próximo mês.

A ignorância deles chega ao ponto de não perceberem como às vezes agem com preconceito. Simplesmente estranham a presença do diferente e criam uma muralha onde não dizem oi, tratam como estranhos ao cruzar pelos corredores ou no ônibus... e com isso a muralha torna-se recíproca. Enfim, eles têm muito que aprender e aprenderão com dor. Não adianta eu tentar fazer qualquer coisa agora. Não estão preparados.

Alguns dos meus colegas perceberam a situação e vêm tentando ser mais simpáticos, mas não são suficientemente numerosos para resolver o meu problema. Digamos que foi tarde demais para apagar meu desconforto. Há algumas pessoas muito boas ali, mas não é suficiente... Eu tentei fazer minha parte; sempre os tratei bem, independente de quem fosse, e evitei bater de frente mesmo quando faziam alguma coisa comigo. Preferi não falar mais nada e seguir o curso normalmente do jeito que dá. Falta apenas um mês, e então eu vou para outra turma.

Não tem sido fácil. É muito cansativo. Confesso que estou exausto. Queria ter mais vida fora do college. A motivação, principalmente com as dificuldades de relacionamento com os colegas, ficou abalada. Fico esgotado na maior parte dos dias e sempre que estou saindo de casa penso comigo mesmo: "preciso mesmo disso?" A vontade de ficar em casa ou de ir para outro lugar é enorme, mas tenho que me lembrar que preciso concluir esse curso para ter melhores oportunidades no mercado de trabalho. Chego a fazer sacrifícios para frequentar esses cursos. Interrompi o processo de obtenção de carteira de motorista porque a cotação do dólar canadense subiu para 3 reais e eu priorizei o pagamento das fees. Fui para a aula com tornozelo torcido, sentindo dores e com dificuldades para subir e descer escadas. Quando viajei para apresentar um trabalho acadêmico em Philadelphia (como Dr. Alexei), me organizei para não perder sequer uma aula. Saí da aula na quinta à noite, vim dormir em casa e às 7 da manhã do dia seguinte estava indo para o aeroporto.

Entrego todos os meus trabalhos em dia e venho construindo uma reputação de hard worker junto aos professores.

Pensei, sim, em desistir do curso... Mas a perspectiva de ir para outra turma me trouxe a esperança de que no próximo semestre as coisas podem ser melhores com outras pessoas ao redor.

O coordenador esteve na sala falando sobre o assunto há alguns dias. Eu não sabia, mas não estou sozinho. Foram quatro alunos reclamando de situações parecidas... o que me faz concluir que o Canadá não é um mundo perfeito e o canadense, sobretudo o jovem, pode falhar e apresentar uma conduta preconceituosa contra as pessoas que são estranhas a seu mundo. O que é completamente indesejado num país multicultural onde num futuro não muito distante os imigrantes superarão os povos de origem europeia que aqui estão há mais tempo. 

Quero então, com minha experiência, mostrar algumas situações pelas quais você pode passar ao frequentar um college aqui. Se você tem 30, 35 ou mesmo 40 anos e pretende usar esse recurso para obter a residência permanente ou ter melhores alternativas num mercado de trabalho que, SIM, é "protecionista" e às vezes INJUSTO... pois as formações e experiências strangeiras podem ser até melhores do que a canadense e com isso podem desde já CONTRIBUIR... saiba que a pressão pode ser  e grande e o ambiente nem sempre será favorável e acolhedor.  Dessa forma, é muito importante que você saiba o que pode estar te esperando para fazer as melhores escolhas. Certo?

E a vida segue. Espero não deixar este blog tão abandonado por tanto tempo! Mas se eu demorar um pouco, espero que entendam e perdoem!



Vida Que Segue - Canada

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4 comments:

  1. Rapaz... Cabeça erguida, sempre! Respire fundo e siga em frente. :)

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  2. Gosto da forma sincera que aborda os assuntos aí do Canadá. Acompanho seu canal no youtube e vejo que você não tenta transformar o Canadá no país das maravilhas, apesar de reconhecer suas vantagens em relação ao Brasil. Tenho 38 anos e penso em imigrar, mas tento não fantasiar muito pra não me decepcionar. Obrigado e boa sorte Alexei!

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  3. Olá, Alexei.
    Meu nome é Marcos, sou baiano, estou com 41 anos, sou casado e tenho um único filho, o qual está com um ano e nove meses de idade. Possuo uma Licenciatura em História e trabalho há cinco anos em um cargo de nível médio em uma Empresa Pública de renome no Brasil, onde ingressei por meio de concurso público depois de ter passado 10 anos e oito meses nas Forças Armadas (Aeronáutica e Exército), sendo que meu ingresso nessas instituições também se deu por meio de concurso público.
    Pois bem. Após 23 anos trabalhando, tendo exercido cargos de nível intermediário nas instituições pelas quais passei (e não entrarei aqui no mérito quanto aos motivos de eu não ter alcançado posições de maior destaque) e ainda hoje ter um cargo nessa mesma linha mediana – a despeito de ter sido “alçado” ao cargo de supervisor há um ano aqui na companhia –, no final de 2015 um fato peculiar me fez perceber que o patrimônio por mim amealhado após 23 anos de trabalho duro e honesto estava muito, mas muito aquém daquilo que eu considero que merecia possuir.
    Somando-se a isso a insatisfação de toda uma vida para com as mazelas de nosso país, como a falta crônica de infraestrutura – sendo a coleta e o tratamento de esgoto os exemplos mais marcantes, principalmente no nordeste, minha região de origem e onde vivo atualmente – a ausência de estradas minimamente decentes, a banalização da violência (estamos vivendo uma guerra civil não declarada), a naturalidade com a qual se descarta lixo em qualquer lugar na maioria das cidades do nosso país e a corrupção endêmica, tudo isso me fez pensar: o que preciso para dar um basta nisso tudo e promover eu a mudança necessária? Sendo essa algo que passa pelo meu deslocamento, junto com minha esposa e filho, para um país onde ao menos os problemas que aqui enfrentamos já tenham em grande parte sido solucionados ou mesmo não se constituam em um ponto de preocupação.
    Passando da insatisfação à ação, comecei a buscar no YouTube os depoimentos daqueles que foram em busca de uma vida nova em terras alheias. Assisti a inúmeros vídeos, procurei por pontos de vista os mais variados e sempre busquei não me deixar levar pelos “otimistas extremos” ou pelos “pessimistas radicais”, tendo a consciência de que cada ser carrega dentro de si medos, anseios, desejos e impressões os quais contribuem em grande medida para o sucesso ou mesmo o fracasso das jornadas as quais se propõem a enfrentar.
    No dia de ontem, 13 de março de 2016, cheguei ao seu canal nesse meu processo de “garimpagem”. Vi nos seus relatos os mais claros testemunhos em quase cinco meses de construção do meu “sonho canadense”. Dada a sua idade – a qual creio que se situa na mesma faixa da minha –, formação acadêmica (situada em um nível muito além daquela que vejo nos demais youtubers) e nível de assertividade no que diz respeito aos tópicos abordados em seus vídeos, vi que ali estava alguém com um nível de isenção, longe de “paixonites”, que me auxiliariam muito na formatação do meu plano de mudança de país.
    Te confesso, Alexei, que ontem você plantou em minha uma dúvida: será que estou mesmo preparado para enfrentar tudo isso?
    Encarei esse questionamento como algo extremamente positivo, parte indispensável dessa construção que venho fazendo e que só fará sentido no final, independente do resultado que venha a ter, se eu tiver a consciência de que foi dado o necessário espaço para todas as variantes possíveis.
    Dito isso, nobre companheiro, gostaria agradecer a você pelas suas abordagens inteligentes e sinceras. Você trata daquilo que realmente importa, sem filtros desnecessários ou interesses mesquinhos.
    Peço a ti que te mantenhas nesse caminho.
    Saudações fraternais.
    Marcos P. S. Almeida

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