O lado negro do trabalho voluntário, ou "Experiência Canadense de terror"...

by 7:47 AM 3 comments
Eu gosto de fazer trabalhos voluntários aqui no Canadá.

Eles representam uma forma de aprender como é a comunidade por aqui, ampliar nossa network, praticar uma atividade de que gostamos e ajudar ao próximo. Com isso, já fui faz-tudo em festival de crianças, escaneei ingressos em festivais de música, montei palcos, amassei batatas e servi comida para pessoas necessitadas no inverno...

E neste ano passei a buscar voluntariados onde eu pudesse exercitar habilidades adquiridas no College, de modo a ampliar a minha "experiência canadense" (sim, a própria). Então, planejei ocupar meus quatro meses de férias de verão deste ano com voluntariados. Fui fotógrafo e cinegrafista no famoso Festival de Tulipas de Ottawa, registrei vários concertos do Music & Beyond Festival, e por aí vai...

E mais recentemente resolvi ajudar uma organização que precisava de fotógrafos e cinegrafistas para atividades diversas. Comecei muito bem fazendo head shots do staff e foi bem gostoso, mas já estranhei a pessoa do staff a quem eu respondia - que tem jeito de workaholic e em boa parte do tempo me tratou como um funcionário subordinado - oferecendo feedback crítico de forma desnecessária: "muitas fotos estão fora de foco" - claro! Ela pegou meus cartões e quis salvar tudo que estava lá sem me dar a chance de eliminar as fotos imprestáveis que sempre podem acontecer! Enfim, essas ondas de feedback parecem algo corriqueiro por aqui, mas no mercado profissional. No caso de um voluntário, convém ter tato e cuidado. Além de compreender que tudo tem limite.

Minha segunda atividade seria a de cinegrafista de um evento. Fui  despreocupado por acreditar que seria uma atividade tranquila e livre.

#sóquenão!

Normalmente, há sessões de orientação para os voluntários antes do evento para que efetivamente saibam o que precisarão fazer. No meu caso, não houve nada. Ninguém me disse o que eu deveria filmar. Ninguém me disse o que seria mais importante. Deixaram que eu adivinhasse tudo com minha poderosa bola de cristal e fizesse mágica, entregando-lhes um vídeo finalizado exatamente como queriam.

No dia do evento, lá fui eu com minha câmera. Às 7:30 da manhã, estava perto do shopping Bayshore. Caminhei 7 quilômetros com as pessoas (o total era de 25 quilômetros) fazendo filmagens, depois peguei um ônibus e as reencontrei na City Hall, para caminhar um pouquinho mais e depois pegar outro ônibus até a sede da instituição onde ocorreria a chegada.

No final, me pediram que montasse um vídeo de agradecimento aos patrocinadores para a semana seguinte. Aí começou meu pesadelo...

Montei uma primeira versão, entregando-a com alguns dias de antecedência para que eles dessem um feedback e pedissem mudanças com tempo para eu fazê-las. Só que os pedidos de mudanças foram de tal forma numerosos e contraditórios, revelando que eles estavam batendo cabeça de verdade, que me vi numa situação em que era obrigado a refazer o vídeo todos os dias. Com isso, estava trabalhando de 6 a 8 horas por dia apenas com isso. Estava indo ao college e tentando fazer meus assignments e aplicações para co-op... resultado? Eu não estava dormindo nada...

Antes que alguém me critique ou me chame de incompetente para fazer vídeos, convém lembrar que:

- eu era apenas um VOLUNTÁRIO esperando fazer vídeos mais simples, e sem que ninguém me avisasse comecei a ser exigido como um profissional contratado ou um funcionário trabalhando em tempo integral... após as filmagens;

- ninguém me avisou sobre o nível esperado para esse trabalho, dando a opção de dizer SIM ou NÃO. Como VOLUNTÁRIO, eu tinha esse direito. Não assinei nenhum contrato. E logicamente, eu diria NÃO para as condições de trabalho a que fui submetido;

- eu não ganharia absolutamente nada além de portfólio por esses vídeos;

- esses vídeos não eram prioritários para mim. Eram apenas um complemento para eu praticar o que aprendi no College.

Queriam que eu mudasse a música (que eu crio em todos os meus vídeos), mas não me deram nenhuma referência. Queriam que eu filmasse algumas equipes mais importantes, mas não me disseram que elas existiam antes do evento. Queriam que eu mudasse as cenas de modo a mostrar as emoções dos participantes. Queriam, queriam, queriam, queriam. Mudanças, mudanças, mudanças, mudanças. Um desagradável cenário de scope creep estava montado. E eu dormindo apenas duas horas por noite, completamente desmotivado e louco para parar com aquilo porque tinha muitas outras coisas para fazer.

Quando tentei conversar com eles sobre que cenas desejavam antes de efetivamente montar mais um vídeo e preparei um PDF relacionando todos os clipes, vieram com uma resposta atravessada dizendo que "as screenshots não mostravam as emoções". Percebi então que era hora de parar. Não deu mais. A coisa já estava prejudicando meus estudos e meu bem-estar... Game over!

E aí queriam que eu lhes uploadeasse todas as filmagens - num total de 16 GB - para o mesmo dia porque iam montar o vídeo e ele era prioritário!

Como eu já estava fora, respondi da seguinte forma: vocês terão os clipes e eu enviarei, mas vamos deixar as coisas num nível humano e realista. Não há condições de uploadear 16 GB para hoje. A velocidade da minha internet e o limite de dados que tenho não colaboram nesse ponto. Não posso fazer nada nesse sentido... mas garanto tudo para terça ou quarta-feira.

Muito bem... minhas experiências como voluntário geralmente foram muito boas e construtivas. Mas neste caso, foi um filme de terror! E a culpa foi totalmente da instituição, com sua desorganização e seu despreparo. Por outro lado obtive uma experiência muito rica sobre uma situação negativa que a partir de agora tenho mais condições de evitar. Com isso, o que tenho a dizer é o seguinte:

Diante da pressão que os imigrantes recebem para adquirir "experiência canadense" e com isso melhorar suas chances no mercado de trabalho, é preciso tomar muito cuidado com voluntariados. Lembre-se que o trabalho voluntário é VOLUNTÁRIO... é algo que você escolhe fazer e faz porque quer. 

Nunca aceite nem faça nada se não receber todas as instruções sobre o que precisa fazer antes de efetivamente começar a trabalhar. Não permita que te explorem como um profissional contratado ou um funcionário que ao menos têm contratos com direitos e deveres estabelecidos... Voluntariado não é estágio e tampouco uma relação de trabalho onde o empregador tem o direito de ficar exigindo mais e mais de você. Você só dá o que pode e o que quer. Nada além disso!

E não pense que tudo serão flores por aqui só porque está no Primeiro Mundo. É como eu sempre digo e nem todos os brasileiros ávidos por vida de Disney entendem: sonho canadense não existe!

Algumas referências sobre o tema para vocês:

http://christopherscottblog.com/reasons-volunteer-quit/

http://www.lauraleerose.com/general/how-to-say-notactfully-leave-volunteer-positions/

https://www.linkedin.com/pulse/20140812131822-22599386-confronting-the-ugly-truth-about-scope-creep

Vida Que Segue - Canada

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3 comments:

  1. Alexei, excelente registro seu. Gostei do modo franco e de coração aberto que você descreveu a situação. É bom que as pessoas que estão indo para o Canadá saibam que estas coisas podem acontecer lá também. Tenho te acompanhado e acho que você é um grande profissional e um cara com muitas qualidades também. Estou no Brasil, e por um tempo, estava me preparando para morar aí também mas por fatores diversos, não pude continuar com este desejo. Obrigado!

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  2. Nossa amigo, que coisa. Sinto muito que você tenha passado por isso. Eu atualmente, como estou com a tecla f*-se ligado direto e quando acaba a luz ponho na bateria, teria ido embora no segundo video. E nao daria nenhuma imagem que eu fiz não. Teriam que PAGAR.
    Bom como dizem "Your best teacher is your last mistake". Continue na batalha
    Grande abraço

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