Por que decidi encerrar o canal Vida Que Segue - Canadá no YouTube

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Não vou mentir: há alguns meses eu já vinha cogitando a ideia de abandonar o YouTube.

Os motivos foram vários.

Em primeiro lugar, o canal tomou rumos que eu não esperava quando começamos, ainda no Brasil. Ao chegar ao Canadá, percebi que a experiência de imigração não representa necessariamente o mundo encantado cor-de-rosa que diversos YouTubers imigrantes retratam. Ao contrário do que alguns pensam, não enfrentei grandes problemas nem me frustrei pesadamente. Mas acompanhei experiências muito significativas. Ajudei brasileiros recém-chegados em total crise de adaptação. A partir disso, resolvi ir contra a corrente e mostrar a experiência de imigração como ela é: difícil, incerta e com múltiplas possibilidades diante de você. Não é apenas o empregão que te paga 70 mil dólares por ano, a casa enorme, os carrões, os filhos lindos e fofos crescendo com grandes perspectivas no futuro... Essa é apenas uma dentre várias feições do sonho canadense. Há várias outras. O que dizer dos gays que vêm para cá em busca de viver sua própria verdade sem sofrer tantas discriminações? Qual seria o "sonho canadense" dessas pessoas?

Transformei-me num personagem polêmico e meu canal sempre apresentou um retorno inusitado. Nunca tive muitas visualizações, meu número de assinantes não chega a quatro mil, mas aparentemente adquiri um público cativo e muito participativo. No mundo do YouTube, onde o que conta são números e por isso vários criadores adotam a via da polêmica para aumentar as visualizações e monetizar com o canal, eu entrei numa grande sinuca. Dificilmente teria retorno financeiro com meus vídeos. Parceiros e patrocinadores, então, muito menos! Normalmente, quem apoia canais de imigrantes são agências de imigração, escolas de idiomas, consultorias de imigração e outras empresas que de certa forma faturam com o sonho canadense. Meu canal, com poucas visualizações e opiniões polêmicas, não era interessante e eu tinha perdido as ilusões havia algum tempo. Mas com o retorno que eu recebia - veja bem, era comum eu ter 300 visualizações e 30 comentários, o que significava um absurdo índice de 10%! - eu pensava nessas pessoas e seguia adiante, mesmo cansado e frustrado por não compensar fazer vídeos de melhor qualidade.

Com mais assinantes e visualizações, provavelmente teria valido a pena manter o canal. Mas só o esforço para fazer os vídeos e ter no máximo mil, duas mil visualizações, não compensava tanto assim. Eu também não queria ser polêmico o tempo todo e confesso que tentei. Mas os vídeos "não-polêmicos" que fiz não rendiam visualizações.

Meu tempo anda muito curto. Meu curso no College fica mais pesado a cada dia, e desde o primeiro dia resolvi encará-lo com o máximo de seriedade. Tenho 43 anos de idade e estou no meio de pessoas com idade para ser meus filhos. Eles têm todo o tempo do mundo para dar suas cabeçadas. Eu não. No Brasil eu era um doutor. Não tinha perspectivas de emprego e não desejava continuar numa atividade que exige muito, não estimula e remunera muito mal - quando remunera. Aqui, sou apenas mais um imigrante cuja experiência pregressa pouco vale. O que conta aqui é a experiência canadense. Sabendo de tudo isso, estou dando duro para fazer o melhor e adquirir boas condições de empregabilidade. Superando a questão da idade e o fato de ser um imigrante sem experiência canadense. Por isso também, faço trabalhos voluntários que podem ter uma boa visibilidade no meu currículo (trabalhando para grandes eventos e charities de Ottawa). Tudo isso toma muito tempo. Não me sobrava muito para fazer o canal, e eu nem podia utilizar os equipamentos melhores que comprei para trabalhar. Porque isso me demandava tempo e estrutura que eu não tinha.

No momento, estou com uma série de trabalhos voluntários "para ontem", onde a pressão é comparável à de um trabalho remunerado (assunto para outro momento). No college, já estamos começando a realizar projetos para clientes reais. Há a busca do estágio remunerado, ou co-op. Além dos assignments nossos de cada dia. Não sobra muito para manter um canal de YouTube.

Preciso cuidar de mim mesmo e dar atenção à Thaisa também. Engordei 13 quilos desde a minha chegada e quase atingi o maior peso de minha vida graças à vida sedentária, às tensões e à alimentação deficiente. E nisso não há ausência de experiência canadense que me iguale a um jovem: meu corpo tem 43 anos e precisa encarar um ritmo pesado onde, por exemplo, os horários não são estáveis. Tem dia em que saio do college às 8 da noite e preciso estar em sala de aula às 8 da manhã do dia seguinte.

Sou também contra todo tipo de ostentação no YouTube. Estou ciente de que boa parte do público de canais de imigração é composta por pessoas que estão no Brasil e anseiam por um upgrade nas coisas que o dinheiro compra. E acredito que muitos imigrantes YouTubers, mesmo sem querer (ou "sem querer querendo"), acabam ostentando ao fazer vídeos dentro de seus carros ou mostrando coisas que aqui fora não são exatamente um privilégio mas que no Brasil... só estão acessíveis aos muito ricos. Sem falar que certos fatores, esteticamente, estão saturados: quantas pessoas têm por hábito fazer vídeos dentro de carros? Veja bem: eu não estou discutindo aqui o fato de comprar ou ter um carro. Mas sim o de exibi-lo no YouTube. Isso é desnecessário. Por isso, fiz um acordo com Thaisa: jamais iríamos mostrar nossa casa e o que temos por aqui. Não que tenhamos algo a ostentar. O que temos ou deixamos de ter não interessa, frente às mensagens que pretendemos passar. Também não queríamos que as pessoas descobrissem com facilidade onde nós moramos. Por isso, eu quase sempre fiz meus vídeos em locais públicos ou abertos ao público. O que tomava ainda mais tempo.

Além disso, a questão dos ataques e brigas decorrentes de pontos de vista discordantes chegou a um ponto insuportável. Normalmente, isso envolve apenas dois aspectos: os subúrbios e o carro... Sinceramente, é ridículo brigar por causa do local onde se escolhe morar e por causa de pontos de vista diferentes sobre o meio de transporte! Sem falar que esses fatores são colocados acima da gratidão por qualquer ajuda que eu tenha dado à pessoa. Investindo o meu tempo e às vezes o meu dinheiro. Eu particularmente não ligo para isso, mas a partir do momento em que os ataques vieram para a vida real e atingiram também a Thaisa, não deu mais.

O fato de eu ter escolhido viver sem carro por várias razões particulares - eu vivo sem carro desde 2012 e tanto no Rio como em Ottawa nunca senti a real necessidade de comprar um - e no meu canal tentar mostrar que isso é viável sobretudo para o recém-chegado (por razões financeiras além de sim, estar sintonizado com essas tendências modernas que vêm questionando a relação das pessoas com o carro e resultando por exemplo neste livro e no próprio Transportation Master Plan elaborado pela Prefeitura de Ottawa) e criticar a sanha das pessoas por um carro quando muitas vezes elas não precisam dele e podem investir o dinheiro investido sem falta em coisas mais rentáveis e ainda dar uma força para o meio ambiente te incomoda tanto a ponto de você colocar esse fato acima de qualquer gratidão por alguma ajuda que eu te dei?

O fato de eu criticar os subúrbios de Ottawa por fatores sobretudo urbanísticos, que são muito questionados e criticados por parte da população local (vide isto, isto, isto e isto) e até mesmo nas artes canadenses... vamos dar uma pausa para um vídeo?




... enfim, isso te incomoda tanto a ponto de você colocar esse fato acima de qualquer coisa boa que fiz por você?

Então eu acredito que você deve refletir sobre suas próprias escolhas, pois elas são suas e VOCÊ é quem tem que estar satisfeito com elas. Se está, opiniões contrárias não lhe afetarão. 

Não precisamos concordar em 100% dos pontos de vista para ter uma boa convivência. Entendo que por trás de tudo isso pode estar o medo de não ser bem sucedido na imigração, o que para algumas pessoas significa não obter a residência permanente, mas calma lá! Nunca me neguei a escutar quem questionasse minhas opiniões ou se sentisse incomodado com elas e inclusive sempre pedi desculpas quando isso ocorreu, mas há hora, lugar e meios para isso.

Fico me perguntando a razão de continuarem perdendo seu tempo com meus vídeos, escritos e afins se tudo isso lhes era tão incômodo. Ninguém é obrigado a ver meus vídeos ou ler minhas postagens. Muitas vezes fiz meus vídeos inspirados em situações que presenciei, mas elas nunca apareceram uma vez só na minha frente. Portanto, eu nunca falo exclusivamente de uma história em particular. Se as minhas opiniões te afetam tanto, você precisa realmente refletir sobre as suas escolhas e a sua vida!

Deixo esta frase para reflexão: amigos são aqueles que estão com você independente das diferenças de pontos de vista e que defendem até o fim o nosso direito de ter opiniões e expressá-las livremente!

Os outros não são amigos, ponto. São colegas de imigração.

Perdi o tesão em ajudar brasileiros. Percebi que estava ganhando dores de cabeça demais com isso. A partir de agora, não vou ficar dizendo "nunca" mas não tenho mais tempo e nem disposição para ajudar qualquer pessoa que venha do Brasil e queira ajuda. Não quero mais me expor para qualquer um. O lance agora é ser seletivo, mesmo! Preciso cuidar de mim!

Enfim, acredito que com um blog ou com um podcast posso dar melhor meu recado sem me preocupar tanto com tempo e com as limitações do YouTube e sem expor tanto minha imagem. Domino melhor a linguagem escrita e posso revisar as postagens após publicá-las. Vídeo dá muito trabalho e acho que já existem YouTubers demais falando sobre imigração para o Canadá... Quero agora retomar este formato que pode ser muito frutífero... A Gabriela Ghisi do blog Gaby no Canadá, por exemplo, não está no YouTube e mesmo assim não deixou de tornar-se uma boa referência. Outra, ainda mais importante, é Renato Silveiro do blog Um Brasileiro na Terra do Tio Sam. Ele se recusa a ter um canal no YouTube e acho que faz muito bem! Enfim, há vida além do YouTube e é essa vida que eu quero ter!!!

Pouco a pouco, modificarei o layout deste blog e implantarei upgrades para torná-lo a cada dia melhor! Vamos ver com que frequência conseguirei atualizá-lo. Mas estamos aqui! Também quero experimentar no futuro um podcast, onde posso falar com vocês mas minha imagem não aparece.

Vida que segue.

A propósito, todas as nossas redes sociais continuam ativas. Em algumas delas não há polêmica alguma, por sinal! Já nos visitou no Facebook, Snapchat (alexei-ottawa) ou no Instagram? Tentarei ser frequente no Twitter também.

Vida Que Segue - Canada

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