2016 está chegando ao fim... Parte 2: a saga do co-op

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Ottawa, dezembro de 2016. Final de tarde, temperatura real de -15 graus, sensação térmica de -25. Estou caminhando de volta para casa após aquela que imaginei ser a última entrevista da busca do estágio remunerado, aqui conhecido como co-operative education paid work term ou co-op. Faz umas três horas que a entrevista acabou, mas aproveitei para visitar algumas das minhas lojas favoritas. Spaceman Music na Gladstone Street. Staples na Bank. Depois a loja de computadores usados mais acima e a loja de videogames logo ao lado. Finalmente a Winners na Sparks. E vou em direção ao shopping Rideau Centre.

Os managers disseram que ligariam para informar o resultado e que seria rápido pois não tinham muito tempo para tomar uma decisão. Não me preocupei muito nem fiquei esperando nada. Muitos disseram a mesma coisa e nunca ligaram.

O tempo está se esgotando. Não falta muito para o Natal, a iluminação já está funcionando, mas ainda nem entrei no espírito natalino. As aulas acabaram na segunda-feira. Foi um semestre muito difícil e exaustivo, talvez o mais difícil da minha longa vida de estudante. Vou pensando no e-mail que pretendo enviar para o Algonquin College no início da semana seguinte, comunicando minha desistência do co-op.

Quem não me conhece direito e imagina que sou um imigrante "leite com pera" que veio cheio de dinheiro e arrogância, e ainda por cima "ficava fazendo vídeos desestimulantes dizendo que o sonho canadense não existe e falando mal dos subúrbios e de comprar um carro" não faz a mínima ideia do que passei nos últimos meses.

Foi uma longa e dura caminhada que começou em maio com uma maratona de trabalhos voluntários para melhorar meu currículo e adquirir a controversa "experiência canadense", que tanto incomoda os imigrantes - sim, até para um estágio ela é exigida! Depois, foram mais de 30 candidaturas para vagas. Dentro e fora do sistema do college. Mais de 30 currículos enviados. Mais de 30 cartas de apresentação (cover letters). E perdi a conta das entrevistas. Devem ter sido umas quinze. Dos mais diferentes tipos. Conversei com managers. Contei minha história olhando para o Confederation Park por uma janela no 13o andar enquanto uma câmera oculta registrava tudo e os programadores malucos trabalhavam dentro de tendas improvisadas no chão da empresa a meu redor. Fiz provas escritas em inglês e francês. Só nos últimos dez dias foram seis entrevistas.

Estive desde na pequena empresa que utiliza um escritório colaborativo no fim do mundo até na poderosa Shopify, que recentemente foi considerada a melhor empresa do Canadá para se trabalhar. E fui rejeitado inúmeras vezes, das mais diferentes formas. Algumas vezes, o que veio foi um frio silêncio. Outras vezes, me telefonavam ou enviavam e-mails para me dispensar de uma forma delicada. A funcionária de recursos humanos do Shopify chegou a dizer que minha entrevista havia sido a melhor de todas mas preferiram seguir com alguém que tinha mais experiência do que eu em affiliate marketing. E pediu de forma veemente para eu seguir me candidatando para empregos na empresa após minha formatura. Foi tão simpática e delicada que conseguiu fazer com que ouvir que fui o melhor mas não terei o emprego não me doesse. Tanto que a incluí na minha rede de contatos do LinkedIn.

Conheci também o outro lado da moeda. Outros managers ou me trataram de uma forma entre fria e arrogante, ou simplesmente usaram palavras absolutamente inadequadas para sua posição. Um deles chegou a escrever que meu design não era bom e que acreditava que eu não seria excelente naquele trabalho. Oras, temos aqui alguém com uma bola de cristal... ou seria a Mãe Dinah canadense? Ele poderia me passar todas as boas jogadas no cassino de Lac-Leamy ou o resultado da loteria de Ontario (principalmente quando acumular e o prêmio passar de 1 milhão de dólares). E deu a impressão de estar procurando um Saul Bass ou Jonathan Ive (tecla SAP: dois dos maiores designers da história) dentre um punhado de estudantes. Está certo que eu não tenho a mesma experiência e talvez hoje não seja tão bom quanto minha colega que foi escolhida, que já tinha uma graduação em design, mas poxa... co-op não é para aprender? E meu design vem sendo muito elogiado, inclusive pela colega coreana escolhida para essa vaga.

Não sei se esse sujeito quis realmente dizer que eu nunca daria para o gasto ou acabou sendo muito infeliz com as palavras, mas naquele momento a vontade que tive foi de abandonar esse college mesmo.

Outro manager, ao contrário de sua sócia que fez a entrevista preliminar comigo e foi uma querida, me tratou de uma forma absolutamente ríspida e seca e ainda foi meio atravessado com o fato de eu ter doutorado. Durante a entrevista eu já percebi que a vaga não era minha.

Houve ainda um outro momento especialmente duro. Quando eu ainda estava às voltas com a terrível experiência de trabalho voluntário que tive com a Ottawa Regional Cancer Foundation (relatada aqui), fui chamado para uma entrevista. Mas naqueles dias estava à beira de um ataque sério de nervos e absolutamente exausto, e não olhei meus e-mails. Alguém fez o favor de confirmar a entrevista sem que eu soubesse... se fui eu mesmo não consigo me lembrar de ter confirmado, para vocês terem uma ideia da minha exaustão mental naqueles dias! Consequentemente, dei uma de Tim Maia sem querer e não compareci à entrevista. Ela foi remarcada em razão das dúvidas sobre eu ter confirmado ou não, mas não foi boa. A empresa me rejeitou e ainda fez o favor de cancelar todas as vagas de co-op que tinha disponibilizado para o Algonquin College. E a funcionária do co-op office ainda fez questão de me apontar como "o aluno que tinha faltado à entrevista e feito a empresa desistir do Algonquin College" na frente de outros quatro alunos. Fiquei muito triste e chateado, porque jamais seria negligente com uma entrevista de emprego e não gostaria que meus colegas pensassem que perderam oportunidades por minha causa! Aconteceram coisas além do meu controle e foi uma infelicidade.

É claro que reclamei desse episódio para o chefe do escritório, que me pediu desculpas. Não sei se por isso, nunca mais vi a moça pessoalmente. Quando precisei, fui atendido por outros funcionários.

Cheguei a pensar que pelo menos nesse caso a história de que "não há discriminação por idade no Canadá" era pura balela. Não tenho a menor pretensão de desmerecer meus colegas mais jovens, pois muitos deles são excelentes... mas não haveria um lugarzinho para mim? Será que o mundo realmente é dos jovens e ter 43 anos é um pecado mortal?

Toda a minha vida passou diante dos meus olhos diversas vezes nesse período. Pensei e repensei sobre os últimos 20 anos e tantos erros que cometi. Ter empurrado meus estudos com a barriga desde o colégio, sem me debruçar sobre os livros e me esforçar principalmente nas matérias de exatas e biológicas que não eram a minha praia. Entrar na faculdade de Direito aos 17 anos. Ir até o fim nesse curso mesmo sabendo que não era o que eu queria para minha vida. Não ter enfrentado meus pais e feito valer minha vontade. Não ter feito um estágio que talvez me abriria as portas do mercado de trabalho. Ter atuado como advogado por 10 anos para ver se no final eu acabava gostando disso... o que, lógico, não deu certo. O mestrado e o doutorado, que fiz com muita vontade e dedicação mas que percebi que não me levariam muito longe porque a carreira acadêmica não compensa mais no Brasil. Eu iria perder anos muito preciosos recebendo menos do que um estagiário de 20 anos recebe aqui e enfrentando condições duras de trabalho até que uma banca de professores sêniores decidisse que eu deveria ter uma vaga em algum concurso público. Sem falar que eu poderia cair num Amapá ou Piauí por falta de opções. O pós-doutorado que até hoje me incomoda, com a agência exigindo artigos publicados para não prejudicar meu coordenador...

Pensei em como vim para cá disposto a recomeçar e aproveitar esta segunda oportunidade que a vida me deu para fazer o que não fiz aos 20 anos, com muito mais experiência de vida. E finalmente ter uma chance de colocar meus talentos e habilidades em prática para algo útil e ser remunerado dignamente por isso.

E mais do que tudo, preciso ter condições de manter uma vida digna. Muita coisa aqui é mais barata do que no Brasil mas nem tudo... experimente ir ao dentista!

Apostei neste país, este país me escolheu e é aqui que pretendo ficar e crescer. Mas não sou mais um jovem despreocupado que pode contar com amparo da família. Trouxemos uma boa reserva financeira do Brasil e isso tem me ajudado muito a manter um padrão de vida bom mas sem luxos. Porém, esse dinheiro pode acabar um dia. O pagamento do co-op me ajudaria muito e estava nos meus planos quando entrei para o college.

Eu olhava para Ottawa e pensava se não era hora de me mudar para Montréal ou Toronto, cidades onde talvez eu tivesse mais oportunidades, em vez de insistir nessa "cidade de servidores do governo federal" que prioriza cidadãos canadenses para boa parte de suas vagas de emprego. Oh, Ottawa... why do you have to be so tough... porquoi tu es tellement difficile?

Por tudo isso, eu estava pensando seriamente na vida quando passei diante do War Memorial Monument naquela tarde escura de sexta-feira. Já não estava de mãos totalmente vazias e por isso tinha soltado meu destino para o Universo. Estava estranhamente tranquilo... o desespero e a ansiedade das primeiras entrevistas fora embora. Mas ali no cruzamento da Elgin Street com a Wellington, eu podia ver o fim da linha no horizonte. Tinha sido a minha última entrevista. O cenário estava bonito para uma foto e teríamos uma boa postagem no Instagram.

Mas a foto não saiu. Um número diferente tinha me ligado umas duas vezes e, quando peguei o telefone para tirar a foto, chamou de novo. Atendi.

Agora, entram as cenas dos próximos capítulos! Não percam! 😉

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