2016 está chegando ao fim... Parte 3: o próximo capítulo

by 11:31 PM 0 comments

"Por tudo isso, eu estava pensando seriamente na vida quando passei diante do War Memorial Monument naquela tarde escura de sexta-feira. Já não estava de mãos totalmente vazias e por isso tinha soltado meu destino para o Universo. Estava estranhamente tranquilo... o desespero e a ansiedade das primeiras entrevistas fora embora. Mas ali no cruzamento da Elgin Street com a Wellington, eu podia ver o fim da linha no horizonte. Tinha sido a minha última entrevista. O cenário estava bonito para uma foto e teríamos uma boa postagem no Instagram.

Mas a foto não saiu. Um número diferente tinha me ligado umas duas vezes e, quando peguei o telefone para tirar a foto, chamou de novo. Atendi."

Podia ser tanto a organização quanto a oficina onde meu computador desktop está sendo consertado. Na hora, eu não fazia a menor ideia.

- Alô?

Uma voz de homem responde:

- Alexei?

- Sim, sou eu!

- Olá, aqui é o Dave da Organização X. Você pode falar agora?

- Posso sim! Me desculpe, vi que vocês telefonaram duas vezes mas não pude atender. Ainda estou na rua! Então vocês realmente telefonaram antes de eu chegar em casa! *risos*

- *Risos* Pois é, nós precisávamos tomar uma decisão rápida porque o semestre de vocês está acabando e vamos fechar o escritório para o fim do ano. Mas eu gostaria de te dizer que nós gostamos muito de você e queremos lhe oferecer a vaga! Ficamos impressionados com sua maturidade e esperamos que você se junte a nós nos próximos meses!

Eu sinceramente esperava mais uma rejeição, apesar da enorme simpatia de Dave. Estava vestido com a armadura de Jorge para enfrentar mais uma, além do que eu não estava exatamente de mãos vazias naquele momento... espere só um minutinho para saber por que. Então fiquei realmente surpreso nessa hora: 

- Wow, Dave... muito obrigado pelas palavras e realmente estou muito feliz! Eu aceito a oferta e é uma honra para mim ter essa experiência com a Organização X!

A partir daí, ele me passou algumas informações preliminares e instruções. Começo em janeiro e sigo com eles até o final de abril. E enquanto minha mão congelava e doía (porque nessas temperaturas uso uma luva pesada de esquiador para suportar o frio - as mãos são meu ponto fraco nesse clima - que tirei para mexer com o telefone e logo que o manager desligou a Thaisa já estava me chamando no FaceTime). Graças a Deus cheguei ao Rideau Centre e corri para o banheiro em busca de um pouco de água quente. Precisava sentir minha mão direita outra vez.

Fiquei pensando no "problema" que terei para administrar agora que o co-op saiu. Vocês repararam que por umas duas vezes eu disse que não estava de mãos vazias? Pois é! O que aconteceu foi o seguinte: me decepcionei muito com a atuação do co-op office, principalmente após ter sido apontado pela funcionária como o aluno responsável pela perda de vagas na frente de alguns colegas, e comecei a procurar oportunidades fora do sistema do college. LinkedIn, Indeed, Monster, e até mesmo o Kijiji (uma espécie de "Balcão" canadense para quem está no Brasil).

Como os nossos gastos foram um pouquinho superiores ao que eu imaginava, eu até teria condições de segurar mais um ano sem trabalhar. Mas entraria numa perigosa zona vermelha, principalmente em razão de uma importante pendência financeira que tenho no Brasil. Precisei investir bastante em equipamentos neste ano: mais uma câmera fotográfica, uma câmera de vídeo, um computador desktop que comprei refurbished mas mesmo assim é dinheiro, equipamentos para fotografia e vídeo, uma interface de áudio (porque a minha queimou a fonte, me parece), microfones... e foi dinheiro. Por isso, saí procurando por todo lado. Me candidatei até para vagas temporárias de vendedor em livrarias e lojas de eletrônicos, e fui rejeitado em todas...

Também apliquei para um estágio no Shopify (onde vocês já sabem que fui rejeitado de uma forma extremamente simpática, com um pedido veemente da moça dos recursos humanos para que eu voltasse a procurá-los quando me formasse), e para um emprego em tempo parcial numa empresa desenvolvedora de software para a indústria gráfica.

Essa empresa me chamou para a entrevista lá fui eu para uma área industrial na região sul de Ottawa. O diretor, na língua da Thaisa, é "do meu povo"... ou seja, é de origem russa. Canadense filho de pais russos, tal qual meu pai. Muito simpático. Ele pareceu ter gostado de mim. Mas dias depois veio a resposta por e-mail:

"Alexei, eu gostaria de dizer que infelizmente não seguiremos com sua candidatura para o emprego. Sua entrevista foi excelente, mas surgiram dois candidatos que realmente se destacaram com experiências extras. Foi realmente uma dura competição...

Mas, ficou evidente para mim que você é uma pessoa com um enorme talento criativo e não pude deixar de imaginar como você poderia nos ajudar fazendo vídeos para nós e colaborando com a pós-produção de conteúdo que nosso staff já está desenvolvendo. Eu gostaria então de saber se você aceitaria trabalhar conosco como autônomo, por projeto. Dessa forma você pode trabalhar majoritariamente de casa e ainda ir ao college para terminar seu curso. Você se interessa?"

(obs: eu tinha dito a ele que seria bem interessante ter um trabalho em tempo parcial que me permitisse ganhar algum dinheiro e terminar o college o mais rápido possível; tive a impressão que ele queria me contratar, mas acabou percebendo que de certa forma ele achou que eu funcionaria melhor dessa forma e deu um jeito de me engajar e dar uma chance a outro candidato também)

Sim! Eu me interesso, fico muito gratificado e honrado e farei o melhor que puder por vocês!

Aí vocês diriam: mas como assim? Aceitou o contract e continuou aberto para um co-op?

Ah sim... Pelo seguinte:

1. sou brasileiro e estou mais do que acostumado a pessoas me prometendo e propondo coisas da boca para fora e depois roendo a corda. Mesmo que eu esteja no Canadá e que a cultura aqui seja diferente, saibam que há gente assim por aqui. E em toda parte. O enrolês não é muito falado por aqui, mas é falado. 
Uma das pessoas que me procurou, dizendo que me queria trabalhando em sua empresa como freelancer e dizendo que tinha um grande número de clientes e tal, marcou um encontro comigo depois trocou para outro dia e aí sumiu. Fui ver o site e não havia um portfólio, item básico para quem é do ramo. E se você colocar o nome do cara no Google, vem um resquício de anúncio do Kijiji alertando que o dito cujo "era a maior fraude"... Precisava de mais? O cara sumiu sem maiores explicações. Para o manager da empresa chegar e dizer que infelizmente tinha mudado de ideia ou que não poderia cumprir com a oferta por qualquer motivo, não custava nada. Nada pessoal, é só coisa de brasileiro mesmo: prudência é necessária e eu precisava ver as coisas indo além de uma primeira proposta. O avanço veio no mesmo dia em que recebi a oferta de co-op;

2. os contracts seriam para trabalhar de forma complementar ao college. Não seria full time. Pensei comigo mesmo: é bem melhor fazer esses trabalhos numa situação em que não trago nada de trabalho para casa do que com aquele caminhão sangrento de assignments para fazer;

3. o co-op vai me proporcionar um aprendizado do qual a empresa dos contracts vai se beneficiar também. Eu quero aprender em primeiro lugar. E ser pago para aprender é maravilhoso;

4. uma renda fixa vai me fazer muito bem!

Por isso, continuei fazendo entrevistas mais pela experiência e por apostar sem expectativas mesmo. Já tinha garantido algo que podia ser um coringa nessa história. Agora tenho que cuidar das cartas que recebi e do coringa também! kkk! Vamos lá!

Não foi uma caminhada fácil... muito pelo contrário! Tive momentos de muito desânimo. Me senti humilhado em um ou outro momento. Fiquei pensando por que... por que tinha de ser tão penoso? Quis desistir nessa caminhada e precisei encontrar uma força que eu não sabia ter para tentar de tudo. Afinal de contas, vim para este país em busca de um recomeço que precisava muito ter. No Brasil, as portas estavam se fechando para mim e eu tenho plena consciência disso. Cheguei aqui com humildade e consciência de que preciso superar muitas barreiras. Todos os dias. Todos os momentos.

Sei que muitas pessoas passam e passarão por essa jornada, construindo dia após dia a sua história aqui no Canadá. Dizem que não sou positivo, mas não é nada disso! Sou realista e quase sempre o Vida Que Segue foi uma forma de eu dizer coisas para mim mesmo e registrar o momento. Mas quero também que minha experiência sirva de referência e apoio para as muitas pessoas que virão para cá. 

Sonho canadense não existe. O que existe é uma realidade de desilusões e também de muitas vitórias construídas na base da luta, do suor e das lágrimas. Mas não desista. Faça a sua parte. Eu só penso nisso quando vou exausto para o college... quando fico lá frustrado por mais uma aula decepcionante de PHP... Mas nunca falto às aulas, faço tudo que os professores pedem, tento me esforçar para dar o meu melhor sempre... só pensei nisso quando enfrentei essa insana maratona de entrevistas e candidaturas para o co-op. No final, meu lugar estava me esperando. Mas eu precisava ir buscá-lo. Ele não cairia do céu!

Acredite em você mesmo, tenha força para encarar da melhor forma os momentos mais difíceis que inevitavelmente poderão vir. Tenha paciência e planeje seus passos. A cada dia um passo. Tudo no seu devido momento. Estratégia! Dessa forma, você estará construindo sua vitória de uma forma muito sólida e ela virá! Enquanto isso, vá se aprimorando e aproveitando a vida aqui no Canadá. Há muito a ser aproveitado sem gastar muito dinheiro. E com a nossa criatividade e capacidade de improvisação, nós brasileiros somos campeões!

Vida Que Segue - Canada

Developer

Gratidão por sua visita! aqui você sempre será muito benvindo(a)!

0 comments:

Post a Comment