O que ninguém conta sobre imigrar em casal

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(Disclaimer importante: este post reflete apenas as minhas opiniões pessoais e não foi inspirado em nenhuma história em particular)

Posso estar enganado, mas a maioria absoluta dos imigrantes brasileiros que vêm para o Canadá é composta por casais (ou casais com filhos). Não conheci muitas pessoas que vieram sozinhas para cá.

Dizem que imigrar em casal afasta um pouco a solidão do recomeço num país estranho. Sem dúvida isso é possível. Os blogs e canais de YouTube estão aí mostrando muitos casais bem adaptados e bem integrados ao Canadá. Eles conseguem navegar pelo idioma, estão trabalhando, ganham dinheiro, têm carro... Enfim, de certa forma mostram que estão realizando o sonho canadense. 

Como os brasileiros estão desesperados, sem nenhuma fé ou confiança no Brasil e ávidos por sonhos, muitos acreditam que será assim para qualquer um que vier para cá.

Mas não é.

Quando você desembarca no Canadá e declara aos oficiais de imigração que está fazendo o landing... ou seja, que é um imigrante chegando para ficar, uma mão invisível aperta um botão igualmente invisível no sistema operacional da sua vida...


E você cruza os portões do aeroporto ao encontro de sua vida nova no Canadá muitas vezes sem saber que é tudo novo, e tudo de novo. Suas conquistas pessoais e profissionais ficaram no Brasil. Você não possui "experiência canadense" e salvo raras exceções não encontrará trabalho na sua área e no mesmo estágio profissional de antes. Sua casa própria, grande e aconchegante como os brasileiros tanto prezam, ficou para trás. Você não possui uma carteira de habilitação válida no país e precisará fazer os exames para obtê-la.

E, mais grave... muitas vezes você nem fala a língua. Por isso, as portas do mercado de trabalho podem estar momentaneamente fechadas para você.

Via de regra, o aplicante principal nos processos de imigração para o Canadá deve comprovar conhecimento de inglês ou francês. Mas o cônjuge acompanhante e os filhos não precisam disso. Muitas vezes, chegam para um grande e fundamental desafio: aprender a língua. As crianças têm as escolas, invariavelmente com uma grande estrutura montada para ampará-las. Em pouco tempo começam a falar, além de não chorar ou lamentar a queda de padrão de vida que invariavelmente experimentaram. Criança pode chorar de saudades, mas não sabe muito bem o que é padrão de vida. Isso é invenção de adulto. 

Mas o pai ou a mãe, ou que seja o adulto que vem precisando enfrentar todos esses desafios e percebe que o padrão de vida escorregou para baixo periga sofrer se não for muito forte e não tiver a cabeça muito aberta.

Não é necessariamente fácil abandonar uma carreira profissional bem-sucedida em seu país e mudar-se para um outro onde, por um tempo, não há qualquer chance de retomar essa carreira.

Não é necessariamente fácil estar no meio de pessoas que falam uma língua que você não entende e não falam a sua língua, além de terem outra cultura e outros costumes.

Não é necessariamente fácil passar a viver longe da sua família e dos seus amigos.

Não é necessariamente fácil passar a andar a pé ou de ônibus vindo de uma cultura onde o carro é um inexorável símbolo de sucesso e de status.

Não é necessariamente fácil não ter empregada doméstica, para quem saboreava o "privilégio" de não mais precisar fazer os trabalhos de casa.

Não é necessariamente fácil precisar de dinheiro e ter de aceitar trabalhos que, na cultura de fortes raízes escravocratas do nosso Brasil, não seriam realizados por pessoas acima de um determinado ponto da pirâmide social e econômica. 

Não é necessariamente fácil viver toda uma vida acreditando ser príncipe ou princesa, e de repente cair num outro país e ver que será plebeu.

E não é necessariamente fácil se dar conta de que aqui não há aquele mundo de fantasia genialmente projetado por Walt Disney...

(Que fique claro: EU não penso que a vida de ilusões do Brasil é certa e NÃO acredito que as ocupações de entrada - limpar casas, ser atendente no McDonald's ou no Tim Hortons, etc. - são indignas. Mas vamos concordar que muitos brasileiros vêm para cá e nem pensam em fazer essas coisas, certo?)
Se o imigrante vem com a cabeça muito aberta e com muita consciência de que as coisas aqui não são o conto de fadas que talvez imaginássemos encontrar, tudo fica mais fácil. Mas nem todos vêm prontos para encarar essa realidade. Há quem sofra, há quem não resista à saudade da família, há quem não se adapte ao inverno... Há de tudo. Por isso, é sempre muito importante que ambos os cônjuges estejam muito firmes e certos de que querem encarar essa aventura, independente das dificuldades que surjam no caminho. Que estejam dispostos a batalhar, que tenham paciência de esperar as coisas acontecerem, e que estejam prontos a amparar um ao outro sempre que for preciso. Pode ser que isso não seja suficiente e há casamentos que não resistem à imigração. Mas é importante que cada um faça a sua parte da melhor forma para que, se precisar refazer sua vida também por este lado, o faça de cabeça erguida e com a consciência de que tentou.

Os que vêm sozinhos podem ter a experiência de encontrar um parceiro ou uma parceira canadense, ou mesmo de algum outro país. Pode ser uma experiência interessante, que vai enriquecer sua vida e abrir seus horizontes de uma forma diferente. Não se feche na colônia brasileira... até porque em certos lugares ela é muito pequena e nem pode ser chamada de colônia. Pode haver apenas algumas pessoas aqui e ali, que em comum têm apenas a nacionalidade. Estão fechadas em seus pequenos grupos, ou mais preocupadas com suas famílias... Se tiver a oportunidade de conviver com brasileiros, aproveite. Se não, abra as portas para quem aparecer. E mesmo se vier em casal, abra as portas para amigos canadenses e imigrantes de outras origens também.

De qualquer modo, a todos os que vêm tentar a aventura canadense... sozinhos, em casal ou em família, eu desejo tudo de bom... Que vocês encontrem aqui o que tanto buscam pela vida e não encontram no Brasil, que se integrem a este país e que sejam muito felizes aqui! Se o Canadá está lhes abrindo uma porta, não se fechem para ele!

Vida Que Segue - Canada

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