Procurando por um novo banco no Canadá: Introdução

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(Peço desculpas pelo texto longo. Mas acredito que minha experiência será importante para você que está vindo! Então começarei uma pequena série por aqui!)

Fazemos parte de um grupo de imigrantes brasileiros que ainda se beneficiou das facilidades oferecidas pelo Banco HSBC, que era o único que operava nos dois países. Com isso, um cliente brasileiro do segmento mais "privilegiado" ($$$, vulgo Premier) conseguia abrir uma conta com (relativa) facilidade no Canadá - clique aqui se tiver curiosidade de saber como isso acontecia e, mais interessante, para saber como foi a verdadeira novela que enfrentamos para abrir essa conta) e podia fazer transferências financeiras entre os dois países sem pagar tarifas através de um sistema chamado Global Transfer.

Mas tudo isso caiu por terra quando a instituição resolveu retirar-se do mercado brasileiro e foi vendida para o Bradesco. Um banco brasileiro por excelência, fortíssimo no Brasil, mas sem nenhuma presença ou interesse no mercado canadense. As facilidades para transferir dinheiro entre os dois países sem tarifas passaram a não mais existir, inviabilizando essa opção para imigrantes brasileiros.

Mas essa venda do HSBC para o Bradesco no Brasil foi ainda mais prejudicial para os imigrantes brasileiros, e de uma forma que não é muito fácil de enxergar para quem não está acostumado com o sistema bancários canadense e sobretudo com a forma como se encara o crédito pessoal por aqui. Explico.

Boa parte dos imigrantes brasileiros que vinha para cá até 2015 era composta por pessoas muito bem qualificadas, que já tinham um histórico de conquistas pessoais e profissionais. Essas pessoas vendiam o que tinham no Brasil e não raro conseguiam acumular o montante necessário para adquirir status de cliente Premier no HSBC brasileiro. Esse status era estendido ao Canadá, resultando em uma situação privilegiada: cartões de crédito com altos limites.

O histórico de crédito canadense é bem diferente do brasileiro, que é puramente negativo (não cumpriu com seus compromissos financeiros, entra para o cadastro do SPC e da SERASA). Aqui, o sistema é positivo e sua reputação é construída pouco a pouco com uma pontuação que vai crescendo. Salvo em situações excepcionais como essa que o HSBC proporcionava, o histórico que você traz de seu país não vale nada por aqui. 

Sistema complicado, regras básicas: pague seus compromissos em dia, evite financiamentos e dívidas, tome muito cuidado se quiser "ter fonfon" (como cantava o Simonal), e não saia comprando tudo que vê pela frente para depois rolar a dívida do cartão de crédito. Com isso, seu histórico de crédito cresce. Não brinque com isso, principalmente se não estiver empregado ainda. Ah, e lembre-se que as instituições não querem nem saber se no Brasil você era gente boa, gente fina, "elite". Se sua renda não comportar um cartão de crédito com limite de 2 mil dolarezinhos, eles não vão lhe dar esse limite de crédito. Ponto. Isso quando a instituição lhe der um cartão de crédito. 

(Logo que cheguei aqui, uma simpática vendedora da Hudson's Bay me ofereceu um cartão sem me dizer com todas as letras que era de crédito. Pensei que era algo interno da empresa como naqueles velhos crediários de loja brasileira, fiquei interessado e fiz a aplicação. Ali mesmo no caixa, eu soube a resposta: negado! Porque eu não tinha histórico de crédito por aqui)

E assim é a vida dos novos imigrantes. Ainda mais agora que conseguir um bom emprego "na área" está bem mais difícil em razão das crisezinhas que pipocam aqui e ali e da competição a cada dia mais forte. No caso dos brasileiros, antes a maioria deles vinha como residentes permanentes através da saudosa categoria Federal Skilled Worked e era bem qualificada em áreas com boa empregabilidade aqui (isso rima com "tê-í"). Mas hoje parece que a maioria dos brazucas preza a aventura de fazer um college na esperança de ficar, e periga viver por um bom tempo na corda bamba onde o Brasil está lá embaixo te esperando. Mas teimosamente diz: "não, daqui não caio"... Então, se essa é a sua escolha, saiba que tudo vai acontecer mais devagar e com emoções muito mais fortes do que está escrito naqueles blogs de 2010... 

Outros brasileiros até vêm com a residência permanente, mas a crise profunda que se instalou no Brasil pode atrapalhar bastante a venda ou a locação dos seus imóveis, ou mesmo a venda de seus carros.

Para resumir: o seu padrão de vida vai baixar e pode baixar com força no começo. O que não significa que você não terá uma vida decente e acesso a algumas que no Brasil poderiam estar fora do alcance das massas. Sim, você até poderá ter um Playstation 4 ou um notebook da Apple... mas a Disney de consumo que se instalou no imaginário de tantos brasileiros que se acostumaram a viajar para fazer compras não existe para newcomers no Canadá. A não ser que venham com uma ótima reserva financeira ou alguma fonte de renda do Brasil. Mas mesmo assim os bancos daqui não vão te dar mole, agora que a opção HSBC não mais existe.

Alguns bancos (não o HSBC) te darão algumas opções de programas para newcomers, com isenção de tarifas por um tempo e quem sabe até um cartãozinho de crédito. Mas o limite será baixinho. Mal vai dar para as contas - aqui muitas contas de utilities são pagas no cartão de crédito; eu pago celular e internet dessa forma - e compras de supermercado do mês.

Nunca tive ilusões sobre a empregabilidade que eu trazia do Brasil. Músico (artista em geral) não é afetado pela folclórica barreira da experiência canadense. Mas é afetado pela inexistência de empregos regulares com salário, pelo fato de que ninguém o conhece por aqui, e pelas ingerências do mercado. Paga-se muito bem por hora... mas trabalha-se muito poucas horas pagas! Enfim, a melhor opção seria buscar uma segunda carreira que tivesse empregabilidade e interseções com o que eu já sabia fazer e foi por isso que fui para o college. Nesse período, a renda do imóvel que tenho alugado no Rio pagaria o nosso aluguel daqui (ou quase, já que o câmbio deu uma piorada ao longo de 2015). E para todo o restante... reserva financeira.

Somos duas pessoas dependendo dessa reserva e o início por aqui é uma fase de cabeçadas e gastos. Com isso, cheguei ao HSBC canadense com "x" dólares canadenses e hoje estou com "x-20" dólares canadenses. O ataque à reserva financeira será amenizado por alguns meses graças ao meu co-op, mas o banco ainda não ficou sabendo disso. Então aconteceram dois episódios:

1. Meu gerente no HSBC, diante das reservas que trouxe do Brasil em busca de segurança cambial, me fez aplicar esse dinheiro num fundo em dezembro de 2015. Porém, os gastos foram maiores do que o previsto, e precisei "atacar o investimento" antes do momento em que imaginava conseguir um emprego. Eu fazia retiradas mensais por telefone e o banco insistia em me aplicar um "questionário de investidor". Agora em dezembro, com as festas de final de ano e a neve comendo lá fora, tive tempo e resolvi responder o tal questionário. Num dado momento o atendente, que estranhava o fato de eu ter investimento mas fazer retiradas, veio com a pergunta:
- "Você tem um fundo de emergência disponível na sua conta corrente?"
- "Não. Esse é o meu fundo e já estou usando. Sou um newcomer."
- "Se você não tem um fundo de emergência, então esse investimento não é para você." => na lata, "eh"?
- "OK, então façamos assim: vamos sacar todo esse investimento e colocá-lo na conta corrente."

2. Nesse momento, a decisão de sair do HSBC já havia sido tomada. Havia algum tempo eu recebera uma cartinha do banco dizendo que meu status de Premier, adquirido graças ao meu relacionamento com o HSBC Brasil, seria mantido por mais alguns meses. Após esse período, se eu não rivesse "y" dólares canadenses aplicados no banco, eu passaria a pagar 28 dólares por mês ao banco. Uma tarifa me punindo por ser mais "pobre" que o necessário... Eu ainda poderia ser rebaixado ao segmento Advance, onde talvez as vantagens não fossem assim tão interessantes.
O HSBC parece ser um bom banco para ricos que têm dinheiro em várias partes do mundo, mas nem tanto para as tarefas do dia-a-dia no Canadá. É fraco para fazer pagamentos online, o que me obriga a pagar as tuition fees do Algonquin College pessoalmente no Registrar's Office. Não possui Apple Pay. E só tem uma agência em Ottawa, o que pode atrapalhar muito na hora de tirar dinheiro em caixa eletrônicos. 

Por tudo isso, chegou a hora de dizer adeus ao HSBC...

Vida Que Segue - Canada

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