Shawarma, a comida típica de Ottawa. Ou: aprendendo com o empreendedorismo árabe

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Quem não conhece Ottawa periga ficar espantado ao ouvir que a comida típica da cidade é a Shawarma.

Hein? Shawarma? Isso soa árabe, não?



É isso mesmo. Shawarma, estranhamente aportuguesada como "xauarma". O prato originário do Oriente Médio (ali da região conhecida como "Levante", onde estão a Síria, o Líbano, Israel, a Jordânia, a Palestina...), composto por carne de vaca ou de frango assada num espeto vertical e servida tanto no pão sírio como no prato. Geralmente ela é acompanhada por uma salada onde destacam-se a cebola, o alface, o tomate e os picles e por batatas fritas, mas pode ser servida com arroz no prato, ou ainda com uma salada low-carb. Tudo muito temperado com alho, húmus e o delicioso molho tahini.

A shawarma está presente tanto na culinária dos árabes como na dos judeus.

Para vocês terem uma ideia da realidade das ruas de Ottawa, vejam as fotos a seguir. Elas foram tiradas por mim durante uma breve caminhada de quatro ou cinco quarteirões, numa mesma rua e em suas adjacências. Não me afastei por mais de um quarteirão e meio da rua principal. E o que eu encontrei?


Encontrei todos estes restaurantes de Shawarma em quatro ou cinco quarteirões!!! É isso mesmo, não tem exagero aqui não!!! Para comprovar, vamos consultar o Google Maps e ver quantas shawarmarias existem numa pequena área de Ottawa?


E o mapa ainda por cima está desatualizado. Já abriram mais algumas, recentemente. E de shawarmaria em shawarmaria, Ottawa tinha pelo menos 186 estabelecimentos em 2014. Esse número seguramente cresceu um bocado desde então. Já devem ser mais de 200!

Ottawa tem uma verdadeira shawarma culture, e os moradores da cidade se divertem com ela. Há personagens folclóricos como Adel Azzi, o Garlic King (rei do alho). Ele é dono de uma grande shawarmaria no subúrbio de Orléans. Vejam só a figura dando seu recado:



Mas como as coisas chegaram a esse ponto? Para entender esse verdadeiro fenômeno que é a Shawarma em Ottawa, precisamos levar em conta o seguinte: há uma forte comunidade árabe na cidade. Em 2011, havia 32.340 pessoas de origem árabe vivendo na cidade (3.7% da população; esse número deve ter crescido bastante, pois em 2006 eram 24.105 pessoas, e os refugiados sírios estão chegando). Naquele momento os árabes eram menos numerosos do que os indianos e os chineses, mas não duvido que já os tenham ultrapassado porque o crescimento da comunidade foi bem maior entre 2006 e 2011. Os libaneses foram os primeiros a chegar mas hoje há egípcios, palestinos, jordanianos, sauditas, iraquianos, sírios...

Os imigrantes árabes se diferenciam dos demais exatamente pelo empreendedorismo. Enquanto muitos chineses, indianos e até os membros da minúscula comunidade brasileira valem-se de suas qualificações e vão atrás de empregos, eles chegam sonhando com negócios próprios. E de estabelecimento em estabelecimento, tornaram-se os reis do pequeno empreendimento na cidade. Para explicar o que acontece, copio a preciosa explicação que Mário Schuster (um ex-imigrante brasileiro na Alemanha) deu no Facebook:

Como eles conseguem?

Esse é um assunto que sempre me interessou. Conversei com muitos deles e também pesquisei bastante sobre esse assunto. Muitos deles imigram com a venda de todos os seus bens em seus países de origem.

Não todos, mas grande parte deles recebe financiamentos das mais variadas origens. De familiares ricos, de amigos, de investidores da mesma nacionalidade deles e até de sheikhs milionários com seus petrodólares.
Algumas comunidades de imigrantes também mantém sociedades do tipo "caixa de assistência de auxílio mútuo" para novos imigrantes, onde os mais antigos financiam a vinda de familiares e a abertura dos negócios dos imigrantes mais novos, que precisam então restituir o empréstimo para financiar os próximos. 

O povo de toda a região do oriente médio, diferentemente de nós brasileiros, tem "sangue" e vocação de comerciantes natos, de empreendedores, tipicamente de estabelecimentos familiares, de pequeno porte. Conversando com eles, a maioria que ainda não teve a chance de abrir o seu próprio negócio, sonha em um dia abrir o seu. E eles correm atrás, porque sabem que os seus patrícios farão tudo o que estiver ao alcance para estender a mão naquilo que for necessário. Eles são muito mais unidos e solidários com o trabalho de seus conterrâneos do que nós. Uma lição de vida e de solidariedade.

E muitos dos negócios árabes aqui oferecem produtos típicos de sua cultura. Além do grande know-how, eles têm muito amor às suas raízes culturais. Oferecem produtos árabes para árabes. Além da comida pronta, há um grande número de pequenos mercados árabes por aqui onde a comunidade encontra tudo o que precisa para sentir-se em casa. Mas no negócio das shawarmarias, a grande sacada dos árabes foi disponibilizar pratos bem fartos e saborosos a precinhos bem camaradas. Fazem promoções, dão descontos de 10% para estudantes... e com isso é possível encontrar uma farta refeição por 6 dólares em alguns locais. Consequentemente, os canadenses vieram. Eles adoram uma boa Shawarma. Veja este documentário para ver e entender:



E como a Shawarma é gostosa! Eu a conheci ainda no Rio de Janeiro, quando fui explorar o Pittas (fast-food judaico em Copacabana, infelizmente vitimado pela crise). Tornei-me fã da comida e, ao aqui chegar, foi questão de tempo até começar a explorar as shawarmarias. Sou tão frequente em algumas que os donos e funcionários acabam me reconhecendo e me fazem muitos agrados. 

Os árabes conseguiram! Transformaram um prato típico de sua cultura no prato típico da capital do Canadá! Por isso, quando vejo muita gente reclamando da comida por aqui e sentindo saudades da comidinha brazuca, me pergunto: por que não se investe em comida brasileira por aqui? Há algumas honrosas exceções, mas são investimentos bem pequenininhos e geralmente só alcançam a comunidade. Mas por que ninguém se arrisca em abrir churrascarias, restaurantes brasileiros, lanchonetes brasileiras, oferecendo os produtos para os canadenses e tentando incorporá-los à cultura daqui? Será que nosso povo só quer saber de trabalhar para os outros por aqui?

Se eles conseguem, por que nós não conseguiríamos?

Fato é: enquanto você chora as saudades da comidinha brasileira, os árabes abrem mais uma shawarmaria!




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