Sobre o Québec - Parte 1

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(Este assunto é complexo, então o que pretendo aqui é passar minha opinião)

Nenhuma província canadense é tão controversa quanto o Québec. E o motivo é simples: o francês. As leis francófonas, que dão a impressão de que a província faz os imigrantes falarem francês à força. E faz mesmo...

Na minha opinião, a cidade de Montréal seria o melhor lugar para se viver no Canadá se não houvesse essas leis francófonas. É uma linda cidade, com uma arquitetura maravilhosa, com muita arte e cultura, talvez a melhor gastronomia do país, uma urbanização compacta e bem adequada às tendências mais modernas... bom transporte coletivo... e é cosmopolita, com muitas comunidades imigrantes... mas o governo provincial e o tal do francês complicam tudo.

É importante dizer que eu falo francês, que sou simpático à população franco-canadense como um todo e que nunca tive problemas sempre que fui ao Québec. Mas não sou defensor da ideia de que obrigar as pessoas a falar uma língua ou obrigar empresas a utilizar traduções em francês para seus nomes por meio de leis protege essa língua. Na verdade, isso pode criar muita antipatia por parte dos imigrantes contra a língua francesa. Que não merece isso. Quem merece é o governo provincial, bem como os separatistas e partidários mais radicais da francofonia. Por tudo isso, o Québec é muito antipatizado e às vezes faz por merecer. 


O Québec de hoje construiu-se em torno de uma ideia meio estranha de "nós e eles"... ou seja, da imposição das aspirações e vontades de um grupo de pessoas - que acabou sendo majoritário, ainda que repleto de diferenças - sobre todos os grupos minoritários. Sim, eu disse "repleto de diferenças" porque é hipocrisia dizer que eles são um grupo puro de descendentes dos primeiros colonizadores que chegaram com Jacques Cartier a partir de... 1534! Como se um bom número deles não possa ter ancestrais britânicos, aborígenes ou sabe-se lá de onde... Até porque os franceses não foram os primeiros a habitar essa terra. Os povos Algonquin, Cree, Iroquis e Inuit já estavam por lá. Portanto, só para começar, essa história de "nós e eles" não cola muito.

O território da província foi irremediavelmente perdido para os ingleses após a Guerra dos Sete Anos, aproximadamente em 1763 (os franceses aparentemente estavam mais interessados em manter colônias mais lucrativas para produção de especiarias) e desde então foi "contaminado" pelo "inimigo" inglês e por sua língua. Porém, a primeira situação inusitada: os ingleses permitiram que o francês se preservasse no Québec!

Depois da independência do Canadá em 1867, foi a mesma coisa... O francês foi preservado entre as populações francófonas. No meu entender, a província tinha na época uma importância econômica e política tal que o governo federal nunca teve interesse em eliminar o francês. Foi um momento de grande "contaminação" para o francês québecois pois os negócios eram conduzidos em inglês, bem como a vida política federal. Na época, Montréal era a cidade mais importante do país. Bem mais importante do que Toronto. E ao que consta, já era uma complexa torre de Babel onde o francês, o inglês e as línguas dos imigrantes que chegavam de toda parte se misturavam.

Montréal em 1930

A população franco-canadense tinha interesses distintos dos anglo-canadenses. Isso se fez sentir com mais força durante as guerras mundiais, quando o Canadá participou sobretudo por lealdade à Inglaterra e houve movimentos de circunscrição obrigatória para o envio de tropas canadenses. Os québecois não queriam lutar pela Inglaterra e tampouco pela França (pois consideram que a França os abandonou) e rebelaram-se mais de uma vez contra a obrigatoriedade do serviço militar em tempo de guerra. Outra questão dizia respeito à economia. A maioria da população da província era composta por pessoas que falavam francês, mas os negócios estavam nas mãos de anglófonos...

Faziam de tudo para os franco-canadenses irem para a guerra...
Bom... logicamente há mais detalhes envolvidos nessa questão, mas temos aí alguns dos fundamentos que motivaram uma sequência de acontecimentos: a Revolução Tranquila dos anos 60, a emergência do Partido Quebecois (Parti Quebecois), a adoção das "leis francófonas" e os dois plebiscitos para separação do Canadá.

Logo, logo eu volto com a segunda parte desta série de posts sobre o Québec!






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