Sobre o Québec - Parte 2

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Por volta dos anos 60, várias transformações ocorreram no Québec. A população francófona havia crescido exponencialmente, com uma taxa de natalidade que podia a chegar aos 20 filhos por mulher (sem exagero!), e ocorreu a chamada "revolução tranquila" (revolution tranquille ou quiet revolution). Que nem sempre foi tranquila. Durante os governos dos primeiro-ministros Jean Lesage e Robert Bourassa, o governo provincial retirou da Igreja Católica o controle sobre os setores de educação e saúde. Estatizou várias companhias que exploravam a energia elétrica na província e transformou-as na grande Hydro-Québec. E promoveu transformações de cunho trabalhista, favorecendo a sindicalização e promulgando tanto um novo código trabalhista como um novo código civil, sendo que este último consagrava a igualdade entre os cônjuges (que até então não existia).



Nessa época, o nacionalismo québecois, que antes era uma simples ideia na cabeça de algumas pessoas, ganhou força. Com as reformas econômicas iniciou-se uma política denominada mâitres chez nous ("os chefes dentre os nossos"), pela qual os cargos de gerência das novas empresas estatizadas deveriam pertencer à população francófona e não à minoria anglófona que até então dominava a economia. Ao mesmo tempo, grupos mais radicais começavam a pregar a separação do Québec do resto do Canadá. Destacavam-se:

- o Parti Québecois (Partido Quebecois), formado por iniciativa de René Levesque, um deputado provincial até então vinculado ao Partido Liberal;

- a Front de Libération du Québec (Frente de Libertação do Québec), marxista e terrorista. Esse grupo foi responsável pelos sequestros de um diplomata inglês e do ministro do trabalho (que foi assassinado pelo grupo) e pelos atentados a bomba em diversas partes de Montréal entre 1970 e 1971.

Antes disso, ocorreu a Exposição Mundial de 1967 em Montréal. Ela representou o apogeu de um Québec cosmopolita, bilingue e moderno... e trouxe grandes transformações para a cidade (como o metrô!) mas Charles de Gaulle, o presidente da França, causou furor ao bradar: "Viva o Québec livre!"


Nos anos 70, a influência do Parti Québecois cresceu ao mesmo tempo em que as primeiras leis francófonas foram promulgadas. Em 1974, ainda em tempo de governo do Partido Liberal na província, foi promulgada a Lei 22. Ela declarou o francês como único idioma oficial do Québec. E assim sendo, ele deveria ser predominante nos serviços, na sinalização comercial, nas relações de trabalho de todas as empresas que tivessem negócios com o governo provincial, nos Poderes Legislativo e Judiciário e nas escolas. Só receberiam educação (pública) em inglês as crianças que demonstrassem ter conhecimento suficiente dessa língua.

Finalmente, no fatídico ano de 1976, o Parti Québecois obteve a maioria no Parlamento provincial pela primeira vez. E imediatamente promulgou a famosa Lei 101, ou Charte de la langue française. O documento legal que instituiu, dentre outras bizarrices:

- que somente as crianças filhas de pelo menos um cidadão canadense que tivesse recebido sua instrução em inglês no Canadá poderiam ser matriculadas nas escolas públicas anglófonas;
- que toda a sinalização comercial, inclusive os nomes das empresas, deve ser predominantemente francês;
- o controverso Office Québecois de La Langue Française, também conhecido como "polícia linguística"... um órgão capaz de punir e multar quem não estivesse cumprindo a lei.

E em 1980, deu-se o primeiro referendo para separar a província do Canadá. Ele foi derrotado com 60% dos votos para o "não".

Tentaram de novo em 1995. Quase deu. O "não" venceu por margem mínima.

Aí, já nos anos 2010, uma senhora chamada Pauline Marois tornou-se líder do Parti Québecois... Graças a algumas trapalhadas do Partido Liberal do Québec, sobretudo ao aumentar as semestralidades do ensino superior na província, o Parti Québecois tornou-se situação mas numa condição minoritária. E o que fizeram? Quando sentiram uma pequena possibilidade de obter a maioria do Parlamento e promover o terceiro referendo, Pauline Marois convocou eleições provinciais.

Nessa mesma época, o Parti Québecois queria banir os símbolos religiosos no serviço público provincial. Um absurdo que provocou, com razão, a ira das comunidades muçulmana, hindu e judaica.



Os membros do partido devem se arrepender de tudo isso dia e noite, porque o partido sofreu uma histórica derrota e ela mesma, Madame Marois, foi derrotada em sua circunscrição e perdeu sua "humilde" cadeira de deputada provincial.

O povo do Québec estava cansado do separatismo e decepcionado com os principais líderes do partido... por motivos que vou expor mais adiante.



E quais foram os efeitos de todo esse movimento? Por exemplo:

1. a debandada dos québecois anglófonos. É importante lembrar que a população francófona jamais esteve sozinha no Québec. Há uma significativa minoria anglófona que não podia ser inteiramente responsabilizada culpada pela opressão histórica dos francófonos e que tinha raízes antigas e bem consolidadas na província. A partir de 1976, eles começaram a migrar para outras províncias;

2. como as empresas privadas que tivessem qualquer relação comercial com o governo da província deveriam ser gerenciadas apenas por pessoas cuja primeira língua fosse o francês - não bastava falar francês -, muitos anglófonos foram obrigados a migrar para não perder seus empregos!

3. grandes empresas fundadas e sediadas em Montréal transferiram suas principais sedes para Toronto. O Banco de Montréal é um exemplo. Toronto, que não era a principal cidade do Canadá, agradeceu e prosperou com o separatismo québecois. 

4. a decadência econômica do Québec, e uma crescente dependência do resto do Canadá.

5. uma enorme perda de cérebros e talentos para outras províncias do Canadá e outros países.

Muito bem... e o que eu penso disso tudo? No próximo post!!!


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