Venha de cabeça aberta

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Uma das grandes críticas e preocupações que tenho com os imigrantes que encontro pelo meu caminho, independente da nacionalidade, é o fato de chegarem aqui e tentarem retomar o padrão de vida que tinham em seus países. Mesmo que estejam recomeçando do zero e não disponham mais do salário e do amparo financeiro para mantê-lo.

Eu sei que não é fácil! Mas a regra do jogo é clara: a não ser que você represente uma feliz e afortunada exceção, terá que recomeçar aqui no Canadá. Há a difícil barreira da experiência canadense para superar. O custo de vida não permite as mesmas extravagâncias... mas mesmo assim você tenta. É difícil para o ego, sabe? Num dia você tinha muitas conquistas materiais e se orgulhava disso... mas agora você está aqui e muita coisa ficou para trás.

Já passei por isso e nem precisei sair do Brasil. Você sabe como era a minha vida quando vivia em Belo Horizonte? Pois bem... eu morava num apartamento próprio de cobertura com 250 metros quadrados. E com herança envolvida, tinha dois carros só para mim. Frequentava restaurantes caros, comprava roupas caras... Aí inventei de me mudar para o Rio de Janeiro. Lá fui parar num apartamento de 150 metros quadrados. Ainda grande... Mas que não tinha, por exemplo, uma vaga de garagem. Fui obrigado a alugar uma por alguns anos, mas um dia vendi o carro - eu tinha vendido um dos dois ao sair de BH e fiquei só com um - para aliviar os gastos.

No Rio passei a fazer muitas coisas a pé e a usar o transporte coletivo. Deixei de frequentar os mesmos restaurantes e comprar as mesmas coisas, porque minha renda subitamente diminuiu e meus gastos com condomínio, água e plano de saúde cresceram muito. E sobrevivi. Não sinto falta do que deixei para trás.

E isso me ajudou muito a encarar o começo de vida aqui no Canadá. Vim com uma prioridade só: morar razoavelmente bem, num local conveniente. O que nem sempre é fácil por aqui.

Pois muito bem... Vejo muitos imigrantes citando os mais diversos motivos para decidir vir para cá, mas ao mesmo tempo poucos aproveitam a oportunidade para buscar uma transformação real em suas vidas... para experimentar coisas novas... Não falo dos que realmente precisam manter certas coisas até por razões profissionais, mas dos que podem escolher e não escolhem. Nada contra, eu não julgo... mas ao mesmo tempo, quieto no meu cantinho, lamento.

O Canadá não é, nem nunca será, uma versão melhorada do Brasil. Não terá necessariamente as mesmas coisas boas que há por aí, ainda melhores. É um outro país, é uma outra cultura, e você levará muito tempo para compreendê-la e assimilá-la. Mesmo assim, você só conseguirá fazer isso se tentar desde o começo.

Alguns dos exemplos mais comuns que vejo ao meu redor são:



- Comida: talvez você não faça ideia de como a comida no Brasil é farta e saborosa. Sem falar que sempre há um restaurante a quilo que te salvará em caso de necessidade. Aqui, há uma variedade bem grande de cozinhas... mas não há muita coisa parecida com a saudosa comidinha caseira do Brasil. E numa cidade como Ottawa, você não vai encontrar um restaurante brasileiro. No máximo, uns três brasileiros que vendem marmita. Não é qualquer um que se adapta facilmente às gororobas sem sabor que estão por aqui. Então, o que fazer? Meu amigo e minha amiga... só há uma opção: aprender a gostar das iguarias anglo-canadenses (menos saborosas do que o que há no Québec) e das muitas opções étnicas: comida chinesa, comida indiana, comida árabe... etc...
E ah! Não pense que Ontario tem todos aqueles restaurantes e todas aquelas opções dos Estados Unidos. Não, não tem Outback. Nem Applebee's. Nem Olive Garden.
(E como esse povo se entope de carboidratos e calorias sem engordar?)



- Transporte: pois bem, há quem chegue aqui sem nunca ter usado o transporte coletivo na vida (a não ser naquelas viagens inesquecíveis a Nova York, onde andar de metrô é glamouroso). E ao chegar aqui, continua não usando... mesmo que não tenha qualquer necessidade real de explorar o outro lado. Mesmo que, em alguns casos, repita máximas como "país rico é aquele em que os ricos usam transporte coletivo"...



- Tolerância religiosa: sim, aqui há pessoas que praticam as mais diversas religiões e que devem ser respeitadas e tratadas sem preconceito! Você já parou para imaginar que aquela moça muçulmana que está usando véu pode ter tido a liberdade de abandoná-lo mas simplesmente não quis? Pois bem! Pode ter acontecido. 



- Moradia: talvez você precise, pelo menos no começo, morar num "apertamento" bem pequenininho. E com crianças... Impossível? Bom, não é o que o meu vizinho de porta pensa. Ele é canadense, tem duas meninas na faixa dos 3 a 5 anos e mora num condo de 70 metros quadrados.
Além disso, pode ser que você tenha que usar lavanderias compartilhadas. Seu vizinho indiano que cheira a curry e seu vizinho canadense que toma banho a cada 15 dias podem ter acabado de lavar a roupa na mesma máquina, logo antes de você. Tá com nojo, minha amiga?
(Quando usei lavanderia coletiva pela primeira vez, num hotel dos Estados Unidos, uma americana estava retirando minhas cuecas da máquina sem a menor cerimônia e sem qualquer permissão minha. Deu raiva!)


- O clima: OK, você não gosta de frio e se arrepia com a possibilidade de passar semanas sem ver sol e céu azul. Tem certeza de que quer vir para cá? Mesmo?

- O sistema público de saúde...

E há outros fatores, claro!

Muito bem... só para deixar bem claro, eu não pretendo criticar ou atacar o seu modo de vida e as suas escolhas por aqui. Você tem todo o direito de viver da forma como bem entender. 

Mas entendo que vindo de cabeça aberta e sendo receptivo às situações novas que poderá encontrar por aqui, sem descartá-las de cara, é fundamental para que você tenha uma verdadeira experiência canadense e aproveite ao máximo o que este país te oferece. Haverá situações em que você não terá escolha: precisará encarar situações novas. Para o imigrante, vir de cabeça aberta facilita muito o processo de adaptação e ensina bastante. Esse aprendizado será o o maior patrimônio da sua vida!

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