O que aprendi com meus amigos italianos da Fundação Torino

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Aprendi muito cedo sobre as complexidades do que é ser imigrante, principalmente com as inevitáveis escolhas, perdas e nostalgias... Afinal de contas sou filho de um imigrante que nunca conseguiu resolver essas questões, pois era criança, e foi obrigado a separar-se da mãe seguindo para uma vida inteira no Brasil desconhecido.

Mas os meus amigos italianos, com quem convivi na adolescência, também me ensinaram muita coisa. Principalmente sobre as dores e dilemas para se adaptar a um país onde se acaba de chegar.

Era 1987 e o saudoso Promove Serra, onde eu estudava, alugou um espaço vago para a Fundação Torino, escola criada para os filhos dos funcionários da FIAT ou de outras empresas italianas que transferiam-se para trabalhar na cidade trazendo suas famílias. Eram contratos temporários, o que complicava ainda mais a situação. Esses meninos e meninas precisavam despedir-se da sua terra, dos seus familiares e dos seus amigos e alguns anos depois, já adaptando-se ao Brasil, precisavam fazer tudo de novo e enfrentar a síndrome do retorno na Itália.

Eu tentei aproveitar a situação para fazer amigos e aprender uma língua e uma cultura. Foi uma grande experiência... Não foi fácil, até porque minha adolescência foi difícil e eu era muito tímido a ponto de parecer bobo, ou "scemo" como eles diziam. Mas além de aprender a falar italiano com muita fluência sem nunca ter frequentado um curso de línguas fui apresentado a uma cultura que amo muito. Como sempre fui um menino de lugar nenhum, nunca foi difícil para mim assimilar elementos vindos dos mais distintos lugares e ser um cidadão do mundo. Acredito que para eles foi bem mais difícil encarar o "intruso" em sua comunidade do que para mim. Não eram de se misturar... o horário do recreio dos brasileiros e dos italianos era sempre o mesmo mas eles ficavam isolados num canto. Não faziam questão de se misturar aos brasileiros.

Alguns daqueles jovens, ainda, deixavam-se levar pela importância da FIAT na economia de Minas Gerais e pela excelente vida que a empresa lhes proporcionava. Talvez bem melhor do que a que tinham na Itália, onde eram apenas anônimos na multidão. Em Belo Horizonte viviam em excelentes imóveis, frequentavam o melhor clube da cidade, tinham acesso a carros zero quilômetro cedidos pela FIAT... enfim, parecia ser uma vida muito boa no sentido material. Enquanto nós usávamos uniforme, eles desfilavam roupas de marca.

Alguns desses jovens italianos marcaram muito a minha vida. Eram pessoas de quem eu simplesmente gostava. Na verdade, não era muito difícil gostar deles. Mas traziam consigo uma tristeza e uma nostalgia que eu não conseguia racionalizar na época. A estranheza de não se sentir parte do lugar onde se está. A saudade do seu país, da sua cultura, dos seus amigos... uma saudade profunda e difícil de curar. E que posteriormente se transformava nos mesmos sentimentos, só que aplicados a Belo Horizonte e ao Brasil.

Esses sentimentos ajudaram a fazer um deles... que foi muito amigo meu... a decidir ir embora deste mundo muito cedo, aos 22 anos...

Alguns daqueles italianos estão entre as pessoas a quem devotei mais amizade e carinho ao longo de toda a minha vida. Eles me ensinaram muito. O contato com eles, dentre várias coisas, me ajudou a alcançar a Red Bull Music Academy de 2004, em Roma.

Olha eu aí durante a RBMA de 2004 em Roma!

Algumas dessas lições eu só pude assimilar inteiramente depois que me tornei eu mesmo um imigrante. Com eles aprendi como é bom ter apenas uma casa... o Planeta Terra, isso se não for possível ser habitante de todo o Universo. Como respeitar diferenças e como ser grato à terra que nos abriga agora e às pessoas que aqui estão por tudo que fazem para nos acolher... que seja um despretensioso sorriso na rua. Como valorizar muito mais o ser do que o ter, que pode não durar para sempre. Como ter certeza de que todos nós podemos deixar marcas profundas por onde passamos, ainda que pareçam insignificantes. Como abrir nossas próprias fronteiras para línguas, sabores, sons, letras, roupas, luzes e todo o resto que vem de outros lugares. Como aproveitar o dia de hoje da forma mais intensa possível. Como compreender que despedidas nunca são eternas.

E como encontrar poesia nos pequenos gestos. Os italianos podem ser grandes poetas em suas vidas.

Perdi contato com esses amigos italianos por muitos anos, mas nunca perdi a esperança de reencontrá-los. Procurei-os por muito tempo e a Internet - que não existia naquele início de anos 90 - me ajudou a localizá-los. Um dia, ainda hei de revê-los pessoalmente. Porque não restaram fotografias, vídeos, selfies... nada. Restaram apenas as lembranças, que estão impressas na minha mente como se tudo tivesse ocorrido ainda ontem. E restaram músicas. Uma delas, que compus ao longo dos anos 90 e gravei em 2004, fala da rua onde nos encontrávamos - pois nela ficava a escola - e de todas essas lembranças e saudades.

Para quem quiser ouvir, está aqui. Atenção a todos os detalhes... os sons e a forma do fonograma contribuem para o sentido da música... Foi uma experiência da qual tenho muito orgulho e que também ajudou para que o Canadá me aceitasse... lembrando que recebi a residência permanente numa classe de imigração para artistas...

Foi feita para dois desses amigos italianos... um está em Turim e o outro é o que decidiu nos deixar...


A letra em italiano, com tradução:

Quella vecchia strada, dove camminavamo insieme
Aquela velha rua, onde caminhávamos juntos

Non ti vede più, ma ti ricorda per sempre
Não te vê mais, mas se lembra para sempre de você

Tutto è già cambiato, ma c'è qualcosa che non mi va
Tudo já mudou, mas há algo que me incomoda

Ci penso a quell'amico ch'è partito e non tornerà
Penso naquele amigo que foi embora e não voltará

Quella stessa strada... palazzi, macchine, faccia
Aquela mesma rua... prédios, carros e rostos

Ma quando guardo i marciapiedi, sento ancora le tue traccia
Mas quando olho para as calçadas, sinto ainda suas pegadas

Tutto è già cambiato, ma una cosa non cambia mai
Tudo já mudou, mas uma coisa não muda nunca

Non ci riesco a cancellare i ricordi che lasciai
Não consigo apagar as lembranças que você deixou

La scuola non esiste più
A escola não existe mais

Ma invece c'è ancora il club
Mas por outro lado ainda existe o clube

Mi fermo là e guardo su
Paro por lá e olho para o alto

E mi guardi tu dal blue? Dal blue...
E você me olha do azul? Do azul...

Quella veccha strada, quel vecchio asfalto
Aquela velha rua, aquele velho asfalto

Gli anni, la mia vita, il pensiero vola in alto
Os anos, a minha vida, o pensamento voa lá no alto

Tutto è già cambiato, ma una cosa non si può cambiare
Tudo já mudou, mas uma coisa não se pode mudar

I piedi son per terra, l'Uomo non può volare
Os pés ficam na Terra, o homem não pode voar

Quella stessa strada... negozi, l'autobus
Aquela mesma rua... lojas, o ônibus

Fumo, calore e la nostra gioventù
Fumaça, calor e a nossa juventude

Quella vecchia strada, dove camminavamo insieme
Aquela velha rua, onde caminhávamos juntos

Non ti vede più ma ti ricorda per sempre
Não te vê mais, mas se lembra para sempre de você

Vida Que Segue - Canada

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