Eu sou contra carro?

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Hoje decidi falar sobre um assunto desagradável para mim, pois já foi motivo de muitos desentendimentos com brasileiros. Inclusive pessoas que eu ajudei no processo de imigração e depois já aqui, de alguma forma ou de outra.

Principalmente na época do YouTube, acho que adquiri uma fama de ser "contra carro"... o personagem que eu criei para mim mesmo por ali de fato parecia ser assim. Como eu tinha naquela época o sonho de monetizar e fazer algum dinheiro com YouTube e o assunto imigração estava bombando, resolvi ir contra a corrente dominante de brasileiros que até apareciam quase sempre fazendo vídeos dentro de carros.

Eu tentava ir por um caminho diferente, e era ali que a minha visualização aumentava. YouTube é um jogo que você joga com estatísticas e eu acabava dando o que meu público ali desejava: o "destruidor de sonho canadense"... sendo que esse "sonho" é sim de consumo e passa também por comprar um carro logo após a chegada por aqui.

E o episódio que serviu como gota d'água para eu parar de fazer vídeos teve como pivô o suposto fato de eu ser "contra carros". Ele não causou minha decisão sozinho, mas contribuiu. O maior problema foi isso ter respingado na Thaisa, que pode ter suas opiniões mas costuma guardar para si. Ela ganhou alguns unfriends no Facebook por parte desses brigões que ficaram de mal de mim.

Pois muito bem, chegou a hora de falar sobre isso pela última vez e ter algo para enviar para quem levantar essa questão: eu sou então contra carro, no sentido de eu ser contra as outras pessoas comprarem carro, já que eu "não compro de jeito maneira"? Será um texto mais longo, então você não precisa ler se não quiser.

A resposta: Não, não sou "contra carro". 

É muito fácil julgar e rotular precipitadamente. Então, é importante que eu explique e deixe registrado!

Posso ter errado algumas vezes, mas sei que não tenho o direito de dizer o que as outras pessoas devem fazer de suas vidas. Dou opiniões sobre situações e fatos, mas veja que é a minha opinião, é a minha vida. Se você dá toda essa importância ao que eu digo a ponto de se indignar ou de se incomodar, ou você está me dando um valor que eu honestamente não mereço, ou você talvez esteja inseguro sobre a própria decisão. O que não deveria estar: é a sua vida, é o seu dinheiro, é o seu carro... aproveite-o então, seja feliz com ele e me deixe aqui na minha! A coisa chegou ao ponto de algumas pessoas que se diziam "minhas amigas" - mas nunca foram - esconderem de mim que estavam adquirindo um carro para que eu não as criticasse. Eu via uma situação de mal-estar nos rostos delas diante de mim.

Mas eu nunca atacaria essas pessoas. Elas me pré-julgaram e erraram com isso. Algumas vezes, o atacado fui eu. Sem ter feito nada além de me sentar no meio de uma rua de Barrhaven e fazer um vídeo dizendo "comprei!" "comprei!", onde estava criticando mesmo era Diogo Esteves, que dizem ser um dos maiores picaretas brasileiros em Orlando e fez vídeos comprando Porsche. E fiz essa crítica a pedido de inscritos no meu canal. Mas Ronda Rousey não quis saber e, montada no seu Corcel Negro, saiu metendo porrada... kkkkk

Porém, tenho todo o direito de viver minha vida do jeito que bem entender e de expressar minhas opiniões sobre o mundo ao meu redor sempre que for pertinente. 

Na maioria absoluta das vezes em que falei sobre o assunto, falei no fundo para mim mesmo, tentando resolver um conflito interno que ainda não resolvi e com o qual na maior parte do tempo, principalmente hoje em dia, tento lidar sozinho e calado.

Esse conflito se resume da seguinte forma: em um dado momento da vida (anos antes de vir para o Canadá), passei a viver sem carro e percebi que tinha me cansado de dirigir, me adaptando muito bem a essa situação. Mas enquanto no Brasil eu possuía carteira de habilitação e podia dirigir a qualquer hora... podia alugar um carro e tudo certo, ou até mesmo quando viajasse para o exterior, como fiz por duas vezes nos Estados Unidos, preciso fazer exames para obter a habilitação de Ontario. Não completei ainda o processo, mas o iniciei.

Por que me cansei de dirigir? Bom, eu morava no Rio de Janeiro e lá a necessidade de carro era bem menor do que em Belo Horizonte (onde eu tinha não apenas um, mas DOIS carros, pois herdei o do meu pai quando ele morreu). Fui para lá repleto de sonhos de ordem material, mas nada do que eu sonhei aconteceu exceto pelo meu doutorado. Comprei um apartamento em Copacabana, vendi um carro e fui obrigado a alugar vaga de estacionamento para o outro pois meu apartamento não dispunha de uma.

O Rio é uma cidade excelente para fazer tudo a pé apesar da violência urbana. Os táxis são baratos, há os ônibus frescões e há o metrô e os trens da Central do Brasil. A cidade ficou pequena demais para tantos carros e não não há estacionamento. Carro então para quê? Para ir dar rolé na Barra da Tijuca nos fins de semana ou para situações bem esporádicas que apareciam. Necessidade de carro, eu não tinha nenhuma. Dessa forma, eu pagava R$ 375 de aluguel de vaga + R$ 80 de seguro + uns R$ 200 de gasolina por mês. Isso praticamente fixo. Para o carro ficar parado. Ainda tinha vistoria e IPVA, não me lembro quanto custava.

Durante o meu doutorado eu ganhava R$ 4100 de bolsa e o resto vinha de administrar minha herança. Cerca de 25% do que eu ganhava era gasto com um carro que praticamente não rodava. Meu pai o comprou quando se aposentou e quando ele morreu, após dez anos com o carro, o hodômetro não registrava nem 15 mil quilômetros rodados! E quando vendi esse carro, ele estava com 30 mil quilômetros rodados.

Você vai se surpreender vendo a foto do carro que eu tinha. O modelo era 1996, e a foto é de 2012. Foi tirada no dia em que anunciei a venda... vendi no mesmo dia... Não foi fácil, pois era o carro amado do meu pai. Imaginei que o conservaria por 30 anos e ele receberia a placa preta. Viraria de vez um carro de fetiche, que na realidade já era. Quantas vezes não me perguntaram se eu queria vender? Mas estava pesado para a minha realidade.


Não gosto de trânsito pesado. No Rio de Janeiro, onde é comum você passar duas horas para ir de um lugar a outro, eu chegava a sentir dores fortes na panturrilha esquerda por causa da embreagem. Dirigia muitas vezes tenso em razão da agressividade do carioca ao volante, e com o tempo fui perdendo o tesão. Era muito ruim ver uma praia maravilhosa do lado e não poder me desligar do mundo como é de minha natureza porque precisava me ligar nas coisas feias da guerra do trânsito.

Quando vendi o carro, minha qualidade de vida deu um salto absurdo. Nunca mais me preocupei com trânsito e minha cabeça ficou bem mais tranquila. Meu corpo agradeceu.

E se você me perguntar quantas vezes eu realmente precisei dirigir de setembro de 2012 até vir para cá em abril de 2015, eu respondo: uma. Para o casamento de um amigo em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto onde não se chega de outra forma. Uma estrada de terra que parece paisagem da Lua. Aluguei um carro e fui.

De resto, nunca houve um momento em que eu efetivamente PRECISASSE dirigir. E quer saber? Eu fui para Los Angeles duas vezes como turista, porque quis. Aluguei carros não porque precisei, mas porque quis. E lá, na capital da car culture, ficava duas horas imóvel com meu Sentra alugado numa highway com sete faixas. Acreditem, acontecia muito. A Thaisa estava lá e pode confirmar.

O Sentra que aluguei em Los Angeles, 2012

Já pilotei SUV. O Santa Fe de Miami, 2012

Aqui no Canadá, os maiores inconvenientes ocorreram quando eu precisei visitar alguém no subúrbio, mas não foi nada que eu não tivesse conseguido contornar com ônibus e Uber. Há quem me questione sobre o contato com a natureza, as viagens... houve uma moça muito boa de argumentos que defendeu apaixonadamente esse aspecto... Só que sair dirigindo no meio de ursos e alces não é muito para mim. Gosto é de caminhar na cidade, de ver gente... e viagem para mim é pegar um trem e ir para Québec, Toronto ou Montréal... ou pegar um avião e ir mais longe. Não gosto de viajar de carro, me sinto claustrofóbico.

Me desloco de ônibus - que eu não pago pois faço college e o passe estava embutido nas tuition fees - e a pé na maior parte do tempo. Nunca pego táxi e raramente pego Uber. Os ônibus não me incomodam e moro numa área bem servida. Caminhar aqui me faz bem, pois não sou mais um garoto e preciso de exercício para manter minha saúde em dia. Tive problemas com a alimentação canadense e cheguei a pesar 105 kg, igualando o maior peso que tive na vida, sendo que cheguei aqui com 94 (tenho 1.90 de altura). Hoje peso 98. Se dirigisse para toda parte, como muitos fazem, estaria bem pior. E caminhar me faz bem porque tenho esse ritmo mais lento e gosto de contemplar a arquitetura, os parques e os personagens de Ottawa. Por experiência própria, afirmo que a vida sobre quatro rodas nesta cidade é bem feia e desinteressante.

Não gosto muito que me dêem carona, embora as aceite de bom grado, pois não quero dar trabalho a ninguém.

Hoje em dia o fator financeiro pesa. Como músico, eu muito provavelmente teria oportunidades mas não teria a consistência necessária para pagar as contas do mês. A carreira acadêmica estava fora de questão, pois eu precisaria fazer outro doutorado já que não tinha "experiência canadense". Por isso, resolvi encarar o plano B e seguir para o college... uma opção que não é nada fácil em diversos momentos mas que surgiu como a melhor opção para recomeçar. Precisei fazer uma opção: morar num local extremamente conveniente e pagar o preço para isso retirando do que talvez pagasse por confortos que me trariam dívidas, tais como um carro. Lembrando também que a Thaisa não dirige e precisava de um lugar que conseguisse navegar com facilidade mesmo com pouco domínio da língua.

Porém, o radical que dizem haver em mim não existe... Era no máximo um personagem de YouTube. Sei que posso precisar dirigir em algum momento. Não gosto mais, me cansei, mas posso precisar. As crianças. Ainda não tenho filhos, a Thaisa ainda tem tempo e na verdade não alcançamos ainda uma estabilidade financeira que nos permita tê-los. Mas eles podem vir e aí talvez eu precise de carro. Talvez, pois vejo muitas pessoas aqui adotando alternativas sustentáveis mesmo com crianças.

E, antes de ter filhos, posso precisar de carro para o trabalho...

O problema é que preciso tirar a carta full G e fazer um exame de rua. Quero tirar essa carta, embora ela não seja prioritária. Quero ficar livre disso, mas preciso fazer as coisas direito porque não quero ser mais um "Ottawa Bad Driver".

Na minha vida, o assunto "carta de motorista" envolve questões da minha juventude que foram tangenciadas - tanto que tenho carta de motorista brasileira - mas nunca completamente superadas. Demorei muito a compreender tudo isso e por isso até desperdicei os anos de terapia que fiz para superar os abusos, até porque eu não sabia de muita coisa e não compreendia o que se passava comigo. Mas isso é íntimo e prefiro não expor por aqui. O máximo que posso dizer: tive uma juventude muito solitária e muitas vezes a ideia de ter um carro me foi apresentada como solução para suprir o que eu não tinha. E tirar a carta de motorista não foi fácil, e a razão não foi eu ser "ruim de roda". Só que isso, prefiro manter como "my own business".

Quando jovem eu era fanático por carros, e até hoje adoro corridas. Pode acreditar.

Com os anos longe do volante e a falta de prática - eu me preocupava com isso sabendo que precisava vir para o Canadá e inclusive ia às concessionárias para fazer test drives escondido da Thaisa, que não queria que eu gastasse dinheiro alugando carros, simplesmente para praticar -, "desaprendi" um pouco a dirigir. Sou distraído e preciso "domar" isso de novo. E como eu não conhecia as regras de trânsito de Ontario, eis a razão para minha demora em tirar a full G. Ainda não me sinto 100% seguro para o exame e principalmente para o que vem depois dele, embora faça aulas silenciosamente com um respeitado instrutor de Ottawa, canadense (québecois anglófono) que acabou se tornando meu amigo. Não é constante como eu gostaria: a agenda cheia desse profissional, alguns problemas eventuais (muitas vezes de saúde dele) que o fazem desmarcar aulas e fatores como o inverno com suas nevascas e freezing rains prejudicaram minhas práticas em diversas ocasiões. E quando o dólar disparou frente ao real em novembro de 2015, precisei parar por seis meses.

Brasileiros às vezes questionam:
- Esse instrutor está querendo arrancar seu dinheiro, hein?

Não, não está. Ele faz o que pode para me ajudar, de bom grado, e não vou entrar em maiores detalhes sobre essa questão. É uma pessoa que tenho como amigo. E até hoje foi a única pessoa que me ofereceu ajuda nesse campo. As decisões tomadas foram sempre minhas, sabendo o que estava fazendo.

Ainda não chegou minha hora, mas ela virá e estou buscando... mesmo que eu siga não querendo, não podendo, ou achando melhor não ter carro por qualquer razão. E é isso.

E sobre os outros, o que eu penso?

Penso que cada um tem o direito de comprar o que quiser, fazer o que quiser e ter o que quiser. Não tenho nada a ver com isso. Porém, carro é uma coisa complicada porque muitos o usam para ostentar e acreditam que estão num plano superior aos outros apenas pelo que têm. Há também os que enxergam apenas as coisas boas que o carro traz e ignoram os problemas... que não são poucos.

Mas se eu estou respirando um ar poluído e prejudicando minha saúde, enfrentando problemas climáticos que podem sim decorrer do excesso de carros nas ruas ou tendo minha segurança como pedestre ameaçada pelos jeitinhos ou pelo desrespeito de um motorista - e não pensem que o trânsito é bom em Ottawa - aí o problema passa a ser meu também. Se grande parte da cidade toma bomba em user experience em razão das dificuldades que impõe a alguém que não pode ou não quer dirigir um carro, o problema passa a ser meu também. Sim, eu me ligo nos problemas ambientais, urbanos e de segurança trazidos pelo carro e quero discutir alternativas e soluções... Mas aí a raiz não está em você que quer ter ou tem um carro. Você, como eu, pode ser uma vítima de forças maiores e o questionamento deve ser feito com elas. Não com você. Eu pago impostos...

Com todas as experiências que vivi desde que vendi o último carro, revi profundamente meus conceitos de liberdade. É liberdade você ficar 20 minutos procurando estacionamento e só encontrar uma vaga a 800 metros de seu destino final? É liberdade você ficar mais de uma hora ensanduichado no meio de uma highway ou da West Wellington Street sem conseguir se mover, como ocorre às vezes em Ottawa? É liberdade você ficar três horas tentando desatolar seu carro após uma nevasca e proporcionando cenas de pastelão para a vizinhança? É liberdade você correr o risco de ter seu carro rebocado a qualquer momento ou multado por questões de estacionamento? Carro, para mim, traz muitas vantagens e muitas desvantagens. Cada pessoa encara isso a seu modo e vive sua vida. Para alguns carro é sim liberdade. Para outros é fardo, é prisão. E tudo bem.

Da mesma forma, você não é melhor do que eu somente porque tem um carro e eu, não. Não venha me atacar por eu dar minhas opiniões, principalmente se eu não estiver falando com você. Por essas e outras, deixei de participar de comunidades de imigrantes brasileiros em redes sociais... do tipo "Brasileiros em Ottawa" ou "Brasileiros no Canadá". Como eu disse, se você não concorda comigo não há problema nenhum. Minha vida não muda, nem a sua. Não temos por que brigar, ainda mais por causa de um carro. Não é?

E também não acho legal você ficar usando o YouTube para mostrar o que você comprou, sobretudo se for um Porsche ou coisa parecida. O problema não é você comprar um carro. É comprá-lo diante das câmeras para ostentar.

Quando eu recomendo a um recém-chegado que procure viver num local conveniente onde não seja preciso ter carro, a razão é puramente financeira: um carro próprio aqui em Ontario significa uma pesada despesa mensal fixa que pode atingir até os quatro dígitos se você se empolgar e resolver financiar de cara aquele SUV zero quilômetro. A compra muitas vezes envolve uma dívida e você precisa refletir se vale a pena assumir esse compromisso (eu pessoalmente começaria com um usadinho comprado à vista). Nesses locais que eu recomendo, se a situação favorecer, você pode viver sem carro. Pesa menos no bolso e pode te proporcionar um estilo de vida diferente que te faça ver o mundo de outra forma. Mas nada te impede de ter um carro se você quer ou precisa.

Enfim, as brigas às vezes são tantas que hoje em dia eu até faço pouca questão que certas pessoas morem perto de mim. E prefiro ficar na minha, falando pouco e sem deixar qualquer um entrar na minha intimidade. Infelizmente, muitos brasileiros não sabem discutir nem discordar. Nunca tive qualquer problema pa com canadenses.

Espero que chegue o dia em que um carro não seja motivo de tanta discórdia, talvez pelo que ele hoje pode simbolizar na vida de muitas pessoas. Num mundo ideal, dirigir deveria ser uma opção e não uma obrigação para mostrar ao mundo que se "é alguém".

Enfim... Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas como a questão do título deste post me é feita com frequência eu resolvi me abrir um pouco mais nesse assunto, apenas por hoje.



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