Eu sou contra os subúrbios?

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Mais um post onde eu respondo uma pergunta desagradável que me é feita frequentemente. Mais uma oportunidade para esclarecer uma opinião e deixar tudo registrado.

Em setembro de 2016, eu fui ao subúrbio de Barrhaven pela primeira vez e ali fiz um vídeo para o extinto canal Vida Que Segue - Canadá onde eu falava exatamente sobre os subúrbios. E misturando uma molecagem que sempre quis fazer com a crítica aos "vendedores de sonho", notadamente Diogo Esteves  de Orlando, cheguei a me sentar no meio da rua para fazer aquela analogia: é tão parado que até dá para sentar no meio da rua!

Achei que essa brincadeira passaria despercebida, mas não... Ronda Rouse, a justiceira dos barrhaveiros oprimidos pelas minhas palavras, surgiu montada em seu corcel negro para me dar porrada com a turma do UFC.

Começo fazendo uma pergunta, que acaba sendo desdobrada:

- Paulistanos: vocês morariam na Granja Viana ou em Alphaville?
- Cariocas: vocês morariam nos cafundós da Barra da Tijuca, no Recreio ou em Vargem Grande?
- Belo-horizontinos: vocês morariam nos condomínios fechados de Nova Lima?

Alguns moraria, outros não.

Transportem-se para Ottawa, e os locais que de alguma forma podem ser comparados às regiões que citei são exatamente os subúrbios.

Há três grandes subúrbios na cidade:

- Orléans, o mais antigo, situado na região leste e tradicionalmente francófono;
- Barrhaven, o famoso subúrbio onde me sentei no meio da rua, no sudoeste de Ottawa;
- Kanata, no extremo oeste; provavelmente o mais desejado pelos brasileiros em razão de muitos imigrantes considerados bem-sucedidos viverem lá e da existência de um polo tecnológico outrora descrito como "o Vale do Silício do Norte"... que decaiu na virada do milênio mas continua abrigando muitas grandes empresas de tecnologia.

E há ainda outros subúrbios menores como Findlay Creek (no sul), Manotick (extremo sudoeste), Stittsville e Carp (esses dois ainda pra lá de Kanata)...


Neste mapa você pode ver onde ficam os grandes subúrbios de Ottawa. Na área amarela do centro da imagem, está a parte urbana da cidade. As áreas em verde correspondem ao cinturão verde ou Greenbelt. É importante notar que esse mapa corresponde apenas a uma fração da área da cidade, pois as comunidades rurais não aparecem.

Quando surgiram, esses subúrbios não faziam parte da cidade de Ottawa. Mas em 2001, ocorreu a amalgamação de várias cidades vizinhas no propósito de "formar uma cidade que oferece melhores serviços e custa menos ao contribuinte". O resultado foi uma cidade imensa em área, altamente desfragmentada e uma situação que até hoje é controversa. Isso merece um post especial, mas resumidamente a minha opinião é a de que a amalgamação não deu certo e não deveria ter ocorrido, porque os locais amalgamados têm realidades muito diferentes entre si e seriam melhor administrados em âmbito local.

Ottawa é uma cidade repleta de contrastes e mal planejada. Tudo começou com o Plano Greber, elaborado pelo urbanista francês Jacques Greber nos anos 40 e 50. Esse plano, que não foi totalmente cumprido, criou algumas bizarrices como a remoção da estação ferroviária do centro da cidade em 1966 e a separação das áreas residenciais das áreas industriais e comerciais. Com a construção da highway cortando a cidade, esse plano coincidiu com o apogeu da car culture. E estabeleceu mais uma contradição: enquanto a área central (antiga) é densa e fácil de ser navegada sem um automóvel, as regiões mais novas são carro-dependentes.

O Plano Greber também implantou o Greenbelt ou "cinturão verde", cujo propósito era o de preservar parte dos recursos naturais da região bem como - ironicamente - conter o espalhamento da capital...

Os subúrbios - uma influência clara dos Estados Unidos - foram implantados já do lado de fora do Greenbelt. Originalmente não faziam parte de Ottawa mas uniram-se à cidade com a amalgamação. E tornaram-se regiões desejáveis basicamente pela oferta de casas grandes, adequadas para famílias com crianças, a um preço de compra supostamente mais baixo do que na cidade.

Os imigrantes são muito atraídos pelos subúrbios e tenho a impressão de que entre os imigrantes brasileiros morar em Barrhaven e principalmente em Kanata parece dar algum status. Orléans não costuma ser muito desejado, provavelmente diante da antipatia que seus habitantes francófonos despertam... mais por culpa dos seus colegas do outro lado do rio do que deles mesmos.

Entretanto, o conceito dos subúrbios é coisa dos anos 40, quando a população das cidades (e do mundo) era bem menor e o automóvel não era tão massificado quanto hoje. Mas algo saiu fora do controle - para vocês entenderem, Jacques Greber imaginava que Ottawa teria uns 400 mil habitantes no ano 2000 - e os subúrbios começaram a transformar-se num problema urbanístico por toda parte. Em Ottawa, pelas condições particulares da cidade, isso tem se intensificado bastante porque:

- a cidade tem invernos muito longos e com muita neve, gelo e freezing rain, o que causa congestionamentos até nas highways e torna os deslocamentos de carro muito perigosos. Sem falar que os carros atolam nas nevascas e você pode levar horas protagonizando cenas de comédia pastelão para conseguir sair com eles. Isso dificulta muito a vida de quem precisa se deslocar por longos quilômetros até o trabalho. E como muitas áreas de subúrbios não são consideradas prioritárias para remoção de neve, pode ser difícil até sair de casa em alguns dias;

- os congestionamentos nas highways e ruas de Ottawa são frequentes mesmo fora do inverno (o trânsito aqui no geral é muito ruinzinho);

- os subúrbios têm crescido a um ritmo muito alto e descontrolado, alcançando densidades demográficas de centro de cidade mas sem as mesmas conveniências. E salvo Kanata, são cidades-dormitório e não geram muitos empregos. Por falar em Kanata, é um tanto quanto absurda a localização de várias empresas importantes num dos extremos da cidade. Imagine uma pessoa residindo em Orléans e precisando se deslocar 50 quilômetros para ir e 50 quilômetros para voltar do trabalho? Pode ser bem estressante e cansativo.
(muitas pessoas moram em Kanata porque precisam, não porque querem)

- os subúrbios não costumam gerar muita vida cultural e entretenimento se comparados ao centro, o que contribui para a fama de "cidade chata". Mas há o Canadian Tire Centre, arena dos Ottawa Senators, em Kanata. O maior elefante branco da cidade: a arena do principal time esportivo da cidade situada a 25 quilômetros do centro e a cerca de 50 quilômetros de algumas partes da cidade? Mesmo com o time nas semifinais da NHL, muitos assentos permaneceram vazios. A distância da arena é considerada um dos fatores para uma parcela da população da cidade não torcer para os Sens (mas para os Montréal Canadiens ou os Toronto Maple Leafs).  Aparentemente, o time vai se mudar para uma nova arena em Lebreton Flats - centro - num futuro próximo, o que certamente será positivo;

- os subúrbios podem dar uma falsa sensação de segurança. Não há mendigos nas ruas e a possibilidade de assaltos é praticamente nula. Porém, há sempre a possibilidade de abusos sexuais, acidentes de trânsito, roubos a residências, etc;

- as crianças que vivem toda uma vida no subúrbio e de repente vão para a faculdade aos 17 ou 18 anos podem experimentar dificuldades em áreas mais densas se os pais não as expuserem a esse tipo de lugar consistentemente. No college tive colegas de 22 anos, nascidos e crescidos aqui, que não sabiam navegar no centro e "apanharam" quando precisamos fazer trabalhos de fotografia perto do Parlamento. O distanciamento maior entre as pessoas pode gerar crianças e jovens com maiores dificuldades de relacionamento e mais propensão a viver online, sem grandes interações com a vida real, quase o tempo todo;

- nos subúrbios não se vê tanta gente andando nas ruas (muitas vezes nem há calçadas) e algumas pessoas acostumadas com mais agito perigam flertar com a depressão;

- os subúrbios resultam da sanha das construtoras por dinheiro e destroem importantes áreas verdes e regiões rurais que contribuem para o abastecimento da cidade, influindo também no clima e na vida animal;

- o custo mais baixo da moradia nos subúrbios pode ser neutralizado pelos custos obrigatórios com um carro ou com mais de um carro, o que não é raro para famílias;

os subúrbios são feitos para praticamente obrigar seus residentes a dirigir. Totalmente errado, pois existem pessoas que não querem ou não podem fazer isso! 
E as pessoas portadoras de alguma necessidade especial que não lhes permita dirigir? Ficam totalmente dependentes se moram nos subúrbios. 
Uma cidade jamais pode estar condicionada a um meio de transporte apenas. Deve oferecer alternativas igualmente eficazes para todos, sem excluir. E permitir que dirigir seja uma opção e não uma necessidade. Os subúrbios, portanto, representam uma urbanização excludente e isso é "unacceptable".

Confesso que quando estava para decidir a cidade onde moraria tive resistências com Ottawa, por causa de empregabilidade - tema para outro post - e da tendência a viver em subúrbios por aqui, que gera dependência de carro. Os subúrbios não são para mim. Nunca morei em casa, e sempre morei em regiões agitadas e repletas de conveniências. Esse tipo de lugar me causa um pouco de tédio e não quero (e nem po$$o!) ter um carro aqui! Acabei vindo para o centro.

Defendo a vida no centro para o recém-chegado, exatamente para evitar dependência de carro e os custos decorrentes (que são altos), pelo menos antes de se estabilizar financeiramente. E muitos brasileiros não entenderam que eu nunca disse "você não deve ter carro", mas sim "você não deve ser dependente de carro". Aí Ronda Rousey surgiu para descer porrada em mim, e pelas costas, kkkk (sobrevivi). Por isso é importante que eu diga que não sou contra quem mora no subúrbio, mas sim contra o fenômeno urbanístico de sprawl. Então sim, sou contra os subúrbios tal qual estão hoje em dia, mas não sou contra você que mora no subúrbio.

Acho válido questionar sim a preferência pelos subúrbios porque você pode encontrar tudo o que busca neles em outras regiões que te darão uma melhor conveniência e poderão ser melhores a médio e longo prazo... pois os subúrbios podem se tornar inviáveis com o crescimento da população de pessoas e carros na cidade em alguns anos... Muitos argumentos utilizados pelas pessoas que vão morar no subúrbio são passíveis de discussão. Por exemplo:

- No subúrbio eu encontro imóveis grandes, com espaço para minha família, a preços mais acessíveis... bom, você já pesquisou bairros que não são subúrbios e têm o mesmo tipo de moradia, a preços mais ou menos semelhantes? Vamos ao Realtor:


Tudo bem, eu sei que neste exemplo a casa de Barrhaven ($329 K) está algumas dezenas de milhares de dólares mais barata do que as outras duas ($379 K e $399 K), que não ficam em subúrbio. Mas vocês podem perceber que a diferença de preço não é gritante. E é possível encontrar imóveis até mais baratos do que os de subúrbio fora do subúrbio. Basta querer e pesquisar.


- Nos subúrbios estão as melhores escolas da cidade. Estou pensando nos meus filhos. De fato há ótimas escolas em Barrhaven e em Kanata, mas nem todas as melhores escolas elementares da região estão por lá.  E no caso das escolas secundárias, o páreo é ainda mais duro. Você estará bem servido de escolas para seus filhos se não optar pelos subúrbios.
Para as crianças que moram na área central (acredite, elas existem... moro num prédio de condos pequenos e só no meu andar moram três crianças), as opções culturais estão "in a walking distance", por sinal.

- Segurança, inclusive para minha família. A chance de morrer ou se ferir num acidente de trânsito em Ottawa é muito maior do que sofrer um crime realmente violento. Em 2015, houve 15.076 colisões de trânsito, com 3.789 feridos e 22 mortos.  
 O número de feridos no trânsito não é muito inferior ao total de crimes contra a pessoa ocorridos no mesmo ano na cidade. Ainda em 2015 houve sete homicídios.
Há ainda a questão da violência sexual, que pode estar em toda parte.
É interessante pontuar que a maior parte dos cruzamentos campeões de colisões não fica no centro (mas um fica em Orléans, subúrbio), e que a geografia dos homicídios em Ottawa é um tanto quanto difusa. A realidade daqui é diferente da de uma cidade grande brasileira e é preciso pensar com a cabeça daqui, sem comparações. Seus filhos podem estar a salvo dos mendigos e drogados da George Street se você mora num subúrbio, mas eles não estão a salvo de outros problemas como acidentes de trânsito e violência sexual.

- Subúrbio dá status. Só mesmo entre imigrantes movidos pelo sonho canadense... na verdade pelo sonho americano aplicado ao Canadá. O crescimento populacional do centro, após anos de números próximos ou abaixo de zero, está hoje em dia equiparado ao dos subúrbios. E entre os canadenses as regiões "it" da cidade, que realmente dão status, estão (e sempre estiveram) no downtown core: Westboro, Glebe, Golden Triangle, New Edinburgh, Rockcliffe Park, Old Ottawa South, Beechwood e Sandy Hill. Ah, e certos canadenses muitas vezes enxergam "livrar-se da dependência do carro" como uma bênção. Mais uma vez isso não quer dizer necessariamente "não ter carro", mas "não depender de carro para tudo". Veja aqui, aqui, aqui...


Se você decide morar num subúrbio porque gosta de viver nesse tipo de lugar e quer morar lá, não há problema algum. Be my guest! Se é mais conveniente para seu trabalho, vá correndo (me lembro do Rio de Janeiro: se você trabalha na Barra, viva na Barra!).

Que fique claro que eu não estou aqui para dizer a você onde morar, mas sim para fazer sua escolha considerando todos os fatores e adequando-os à sua situação. E não ir para um determinado lugar porque grande parte dos imigrantes com cara de bem-sucedidos que você vê pela Internet e adota como exemplo mora lá. Pode haver outras alternativas; considere-as. Faça do tempo e da paciência seus mestres na hora de fazer seus planos!

E o que eu vejo de bom num subúrbio? Basicamente eles são bonitos, geralmente tranquilos e silenciosos (um pouco demais para mim, mas...), têm muitos parques, muitas instalações esportivas, muitas escolas boas, e para quem gosta de encontrar bichinhos e de um maior contato com a natureza são um prato feito!

Enfim... Fiz este tratado para deixar registradas as minhas opiniões pois assim sempre que alguma Ronda Rouse vier me dar porrada por conta desse tema, está tudo aqui! Certo? Assunto fechado!

Vida Que Segue - Canada

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