Adeus à carreira acadêmica? Os exageros da barreira da experiência canadense

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Acabo de retornar da Europa, onde fui apresentar um trabalho acadêmico relativo a um projeto de pesquisa desenvolvido para a UFMG entre 2014 e 2015.

Nos últimos tempos, tenho vivido uma situação complicada com a agência brasileira de fomento à pesquisa que financiou meu pós-doutorado. Ela não aprovou meu relatório final e exigiu produção acadêmica, colocando-me numa situação desconfortável na qual eu precisaria me virar com meu dinheiro para apresentar trabalhos e publicar artigos (o maior interesse da agência... não importa se é relevante. PUBLIQUE OU MORRA). Com isso, fui obrigado a viajar no meio de um semestre no college, em meio ao verão europeu (calor e alta temporada). Pagando todas as despesas.

A mudança para o Canadá prejudicou essa produção? Mais ou menos. Na área de Musicologia há poucos congressos, poucos periódicos e tudo acontece muito devagar. Alguns congressos são bianuais, os periódicos levam muitos meses para apreciar um artigo submetido... Eu simplesmente resolvi não apresentar ou publicar nada no Brasil porque meu trabalho seria melhor apreciado e criticado fora. Mas a agência exige, exige, e ameaça punir meu coordenador com a inabilitação para receber novos apoios financeiros... Ele que não tem culpa alguma da minha decisão de ir embora do Brasil. Que me punissem, então...

Mas durante a apresentação do meu trabalho no congresso da International Association for the Study of Popular Music na linda cidade de Kassel, na Alemanha, me bateu muita saudade da vida acadêmica. E muita tristeza e raiva da barreira da experiência canadense, que me atrapalha muito aqui nesse ponto.

Sempre fiz um bom trabalho e dei duro para que minhas pesquisas tivessem relevância internacional. Apresentei trabalhos e publiquei artigos na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e também aqui. Mas vir com a formação completa, ou seja, com doutorado, não me ajuda. Porque embora meu título seja reconhecido aqui, o fato de ele ser brasileiro não me torna competitivo para as oportunidades de trabalho. Barreira da experiência canadense!

Entrei no College em busca de empregabilidade rápida, mãos à obra e qualificação em áreas de meu interesse. Mas em janeiro de 2016, por motivos que já comentei, eu quis abandonar o curso e retomar a carreira acadêmica na Carleton University. Fui procurá-los e eles tinham as portas abertas pra mim.

Só que... vieram com a conversa de eu fazer um segundo doutorado porque as oportunidades são limitadas e seria melhor eu ter um doutorado canadense para ser mais competitivo... Ahã... sei, viu! Isso é pura barreira da experiência canadense somada à $. Porque fazendo doutorado, mesmo que receba dinheiro, eu tenho que pagar tuition fees.

E vamos pensar aqui com muito realismo: fazer outro doutorado e perder anos que eu já não tenho? Terminar tudo aos 50 anos sem grandes chances em razão da idade que já não me ajuda no resto? Sem chances. Além do que PRECISO GANHAR DINHEIRO E NÃO DÁ MAIS PARA FICAR PAGANDO TUITION FEES. Chega!

Por esse motivo fiquei no College.

Mas sinto falta da carreira acadêmica e fico triste por tanto esforço e investimento serem
jogados fora na prática porque o país onde estou não valoriza minha formação. Ruim para ele também, pois essa idiotice muitas vezes causa desperdício de talentos. Por mais que eu veja aspectos positivos na barreira da experiência canadense, vejo muitos outros negativos e muitos exageros que impedem mais e melhores contribuições para este país.

Eu poderia buscar outras oportunidades fora de Ottawa, mas aí esbarramos em algumas questões pessoais. Por ser casado preciso considerar os interesses da Thaisa, que não quer sair da cidade (eu sairia se precisasse).

Voltar para o Brasil ou trabalhar para o Brasil? Não, obrigado! Suzana Herculano-Houzel me representa!

A Thaisa gosta de positividade e diz para eu não pensar que Kassel foi meu canto de cisne na carreira acadêmica, que eu ainda posso ter chances no Canadá... Mas para qualquer um que diga... vamos parar de sonhar. Vamos manter os pés no chão e ser realistas. Aos 44 anos, não sou mais um jovem e a idade começa a pesar. Preciso ganhar dinheiro. O passo para trás na carreira acadêmica não compensa e por melhor que seja meu trabalho ele peca, aos olhos do Canadá, pela minha formação não-canadense. Outro doutorado, e ainda pago, não dá.

Por isso, ao terminar minha apresentação, senti uma dolorosa ponta de tristeza. Por saber que ao buscar segurança e qualidade de vida, preciso abrir mão de algo que me dá prazer e alegria, e que faz uma enorme parte de mim.

Vida Que Segue - Canada

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