É bom tirar o pior do Brasil de dentro de nós... se saímos do Brasil em busca de uma vida melhor.

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Este post também foi publicado na minha coluna no Canadá Agora, mas diante da seriedade da questão quero repostá-lo aqui também.

Na última semana, fiquei sabendo de uma situação ocorrida em um dentre os vários grupos de imigrantes brasileiros no Canadá pelo Facebook. Vou copiar agora um relato resumido escrito por alguém que assistiu à discussão, para sintetizar o que houve:
“Uma pessoa (homem) escreveu um artigo bem misógino e tendendo totalmente para um lado religioso fanático a respeito da pílula abortiva que será distribuída no Québec. As mulheres que ali estavam se sentiram ofendidas, bem como diversos homens. Resultado: 6 criaturas, incluindo o autor, mandaram as mulheres voltarem para o seu habitat natural: cozinha, vender tupperware, etc. Não bastante essa situação de humilhação para as mulheres começaram a expulsar as mulheres do grupo e não os agressores.” 
Posso dizer que a situação me chocou. Sinceramente, não esperava esse tipo de situação ou atitude ocorrendo num grupo de imigrantes brasileiros no Canadá. Como não espero – e fico chocado – isso ocorrendo em qualquer lugar. Mas num país tão zeloso pela igualdade de direitos entre as pessoas independente do gênero, não posso acreditar que continuam mandando as mulheres para a cozinha ou vender tupperware. Na província de onde partiu o caso há uma carta de direitos e liberdades individuais. Lá se diz: toda pessoa tem direito ao pleno e igual reconhecimento de seus direitos humanos e liberdades. Independente de sexo e identidade/expressão de gênero, dentre outros elementos. E que ninguém deve assediar outra pessoa com base nessas condições.
Nessas horas fico pensando o que motiva uma pessoa a sair do Brasil e emigrar para um país como o Canadá. Cada pessoa poderá mencionar dezenas de motivos que talvez possam ser sintetizados na crise de valores que nosso país atravessa. Mas que no meu entender existe desde que o Brasil é Brasil. Só que agora os paliativos de sempre não funcionam mais para tirar o país de um beco sem saída.
Não podemos fechar os olhos para um fato inexorável: o Brasil como instituição deu errado e todos os brasileiros têm um pouco de culpa. Eu tenho um pouco de culpa, você tem um pouco de culpa, e por aí vai. Muitas vezes sem perceber, propagamos valores culturais podres e corruptos. Posso dar milhões de exemplos, mas cito a mãe que desaprova e xinga o político corrupto mas quando o encontra pessoalmente trata de lhe pedir um emprego para o filho. Nossas pequenas atitudes, por mais “inofensivas” que pareçam ser, também podem ser muito reprováveis. Falamos dos nossos agentes públicos mas nos esquecemos de que eles simplesmente têm meios para fazer isso em grande escala. E que muitos de nós, com a mesma oportunidade, faríamos o mesmo!
Precisamos ser coerentes quando tomamos a decisão de deixar nosso pobre país em busca de uma vida melhor. Esse movimento tão drástico deveria nos fazer buscar uma transformação interior profunda. Queremos um país de primeiro mundo? Precisamos aprender a nos portar como cidadãos de um país de primeiro mundo. Queremos uma nação menos corrupta? Devemos parar de praticar ou tolerar a corrupção já. Queremos serviços públicos de qualidade que funcionam? Precisamos fazer nossa parte para que eles funcionem, inclusive cobrando melhorias dos gestores públicos. Queremos menos violência? Temos a obrigação de praticar e plantar a paz em nossos quadradinhos. Queremos benefícios? Que nos façamos dignos deles. Queremos direitos e, mais ainda, direitos respeitados? Precisamos respeitar os direitos do próximo.
Às vezes me pergunto se certos brasileiros – deixando claro que não são todos os imigrantes brasileiros – não estriam atraídos pelo sonho norte-americano de sucesso material e profissional. Ao depararem com uma sociedade fortemente igualitária, passam a falar em “qualidade de vida”. Mas que qualidade de vida é essa? Cada um tem sua opinião, é claro! Mas eu acredito que isso sempre passa por ser aceito, acolhido e respeitado pela sociedade independente de suas condições ou características pessoais.  Não há dinheiro que compre.
É fácil pertencer a um grupo que não experimenta situações de discriminação e desrespeito em seu cotidiano. Mas dizem que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Há pessoas que não vêm para o Canadá acima de tudo em busca de melhores oportunidades do trabalho. Vêm atrás da oportunidade de ser elas mesmas numa sociedade que não irá agredi-las. Não irá humilhá-las nem impedir que alcancem tudo o que desejam mantendo-as sempre numa posição inferior. 
Precisamos também nos lembrar de que sim, somos diferentes uns dos outros! Temos o direito de ser e viver como quisermos ser desde que respeitemos o direito do próximo ser e viver como ele quer ser! Mas diante de tudo que vem sendo visto pelas redes sociais ao longo dos últimos anos, penso que um incômodo número de brasileiros não sabe lidar com a diferença. Enxerga a discordância como uma agressão e muitas vezes tenta a todo custo impor seus valores aos outros. Os canadenses, pelo que tenho visto, não são tão brigões assim. Se for o caso expressarão suas ideias e debaterão com você, mas defenderão seu direito à livre expressão até o fim.
Se desejamos ter um dia a tranquila consciência do sucesso nesse nosso projeto de deixar o Brasil para trás e alcançar uma vida melhor, temos que começar por nós mesmos. Tentar deixar para trás os valores culturais que contribuíram para a situação atual do nosso país e que trazemos dentro de nós. E abrir nosso espírito e nosso coração para tudo o que este país e sua gente podem nos trazer. Para sermos, acima de tudo, pessoas melhores e capazes de contribuir para a construção de um grande país. Que mantenhamos apenas o que o Brasil nos deu de bom e positivo; o Canadá está de braços abertos para isso.

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