Sofrendo bullying nesta altura da vida?

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Podia ser qualquer dia de aula. Mais um entre tantos. Semestre de verão, a turma de Interactive Media Design já estava bem reduzida porque ali estavam apenas os alunos que fizeram estágio remunerado durante o inverno. Os outros já tinham se formado ao final do mesmo semestre.


Podia acontecer por qualquer motivo. Muito frequentemente, eu estava fazendo uma pergunta para o professor ou falando com qualquer pessoa. Mas a voz de Nina (o nome foi alterado), com um inglês difícil de entender porque ela fala muito rápido e embolado, se fazia sentir:


- Alexei $#$%$%^$%^$#@@$#@$#...


Eu não entendia, até porque não prestava atenção nela e ela nunca fazia parte da conversa. Eu não estava falando com ela. Ela simplesmente estava por perto. Mas fazia questão de intervir. Não me deixava falar e eu podia perceber que a tônica da coisa era negativa.


Nina, no frescor de seus 21 anos recém-completos. Uma garota aparentemente inclinada a ser uma queen bee a todo custo dentro daquele mundinho estranho do IMD. E que parecia se sentir muito incomodada com a presença de um homem tão mais velho ali na sala de aula. Quando todos os alunos estavam por ali, passava apagada. Estava longe de ser uma garota popular e ficava quieta no seu cantinho. Mas com a turma menor, ela talvez tenha sentido uma oportunidade de transformar-se na dona do pedaço. Logicamente, ela não compreende as sutilezas de seu país natal. Mesmo sendo filha de imigrantes do Oriente Médio, desconhece a "barreira da experiência canadense". Devo admitir que é uma garota talentosa e boa aluna. Foi a primeira a conseguir uma vaga de co-op. Mas aparentemente não sabe conviver com equipes muito bem. Tanto que não gostou da experiência. O que ela parece conhecer muito bem é o mimo. Não sei como é sua vida familiar, mas não me parece que ali há coisa boa. Nina me parece bem infantil para sua idade. Gosta, por exemplo, de ficar imitando vozes de personagens de desenhos animados ou conversando no que eu chamo de duck language ("mi! mé! muu!") com seus amigos. Está habilitada para dirigir, mas sinceramente não acredito que estaria suficientemente madura para ter a responsabilidade sobre vidas alheias em suas mãos.


As semanas foram passando e as "participações especiais" de Nina na minha vida não pararam. Por muito tempo tentei ignorá-la. Mas era difícil, porque fomos designados para o mesmo time na disciplina Applied Projects. Teríamos que executar um projeto juntos. Éramos quatro no início. Eu, Nina, John (o líder) e Emma (a segunda líder). Mas, muito estranhamente, Emma desapareceu no início de junho. Aparentemente decidiu correr atrás do sonho de ser comediante e abandonou o college a poucos meses de se formar. Nina, então, literalmente "tomou de assalto" a posição de segunda líder e passou a se comportar como se fosse minha chefe.


Teria sido bem mais fácil se não fôssemos do mesmo time. Eu a evitaria (o que já estava fazendo), ficaria longe dela e pronto. Mas estávamos trabalhando juntos e era um inferno. Nas reuniões de time, ela não me permitia falar. Eu estava explicando algo relativo às minhas atividades para o professor ou para o facilitador, ela já vinha me cortando.


Alguém aí conseguiria manter a paciência e a frieza após a trigésima vez? Pois bem. Minha paciência se esgotou quando, no início de julho, tivemos um problema sério com um professor que (bem brasileiramente) se ausentou do college no dia em que precisaríamos fazer o trabalho de meio de semestre e tentou mandar um esquema para "estar em dois locais ao mesmo tempo" e receber por dois trabalhos realizados na mesma data e hora... Para encurtar a história, a decana da escola de Mídia e Design se envolveu e foi à nossa sala trocar uma ideia. Quando eu pedi a palavra e estava falando para ela como me sentia com o caso do professor - o que era meu pleno direito - Nina tentou me cortar mais uma vez. E eu reagi:


- Nina, pare! Me deixe falar! Pare, Nina! Você já fez o suficiente!


Ela parou. Mas não foi fácil: tentou continuar falando, eu mandei parar... E uma hora ela parou. Essa cena ocorreu diante de todos os outros alunos, da decana e do professor.


Vocês vão me perguntar por que nunca chamei a Nina para conversar num canto e abri o jogo com ela. As razões são várias:


- O que ela fazia era o cúmulo da falta de educação. Repito: me cortava quando eu estava falando com outras pessoas. Ela não estava participando da conversa e nada que eu dizia interessava diretamente a ela;

- Ela nunca me pareceu disposta a escutar. Seria perda de tempo;

- Em várias situações ficou muito claro que eu não estava gostando nem um pouco do que ela fazia. Foram vários avisos. Eu sempre imaginava que ela agora iria parar e pronto. Mas ela não percebia os sinais, ou percebia e os ignorava. E não parava. Não tinha jeito;

- Não havia qualquer possibilidade de ela estar fazendo tudo aquilo sobretudo por imaturidade ou infantilidade. Não. Ela não cortava outras pessoas. Ela não gostava de mim e resolveu pegar no meu pé. Bullying.


Voltando um pouco no tempo, ficou mais do que claro que ela não gostava de mim quando tivemos o tal problema com o professor. Ele ofendeu um outro colega nosso chamado Damon. A aula acabou ali mesmo, Damon saiu da sala e eu fui atrás para lhe prestar solidariedade e ajudá-lo a carregar o equipamento de vídeo. Nina não perdoou:


- O que você está fazendo aqui? Estamos indo fazer um vídeo!

- Estou aqui para ajudar Damon com o equipamento. Ele não vai levá-lo para a video room?

- Não! Vamos fazer um vídeo agora!


Eu fui embora. Nesse instante percebi que ela realmente não me queria por perto. Não reagi naquele instante mas prometi a mim mesmo que isso ia acabar. Eu iria reagir das próximas vezes. E assim foi quando a decana apareceu por lá. Ninguém iria me tirar o direito de me expressar e de falar com outras pessoas sempre que precisasse e quisesse.


Faltava pouco tempo para o fim do curso e eu provavelmente nunca mais veria Nina na vida. Cortei qualquer contato com ela fora do ambiente do time e, mesmo ali, eu só falava com ela o necessário. Evitava fazer contato visual com ela e não ficava junto do grupo nos momentos mais do que tediosos em que ficávamos esperando o horário de nossas reuniões. Nas atividades obrigatórias, a vida era essa: eu tinha que falar alguma coisa, Nina tentava me cortar na frente dos professores e da cliente, eu a mandava parar, ela parava. Avisei os professores responsáveis, que concordaram comigo que naquela altura não havia o que fazer, e também falei com John (o team lead).


A apresentação final do projeto foi difícil. Isso porque já estava claro para qualquer um que eu não suportava mais a convivência com Nina. Ela já sabia. A turma inteira sabia. John tinha falado com ela. Os professores também falaram. Sua expressão jururu, evitando chegar perto de mim, mostrou isso. Em seu afã para mandar, o fato de eu ter reagido e estar me insurgindo contra ela parecia incomodá-la profundamente. Fizemos nossa parte com profissionalismo e eu fui embora. Decidido a não voltar para o evento de demonstração e networking que ocorreria na semana seguinte. Não valeria nota e, diante de todos os acontecimentos, não seria positivo para ninguém. A missão estava cumprida. Nosso trabalho era bom - graças aos talentos individuais, porque nunca fomos um time de fato - e a cliente estava feliz. Mas estava longe de ser o melhor para ganhar o prêmio. O clima estava muito ruim e eu não queria me expor para outras pessoas numa situação em que eu não me sentiria feliz, livre e no meu melhor. Passar horas num mesmo stand na companhia desagradável de Nina? Não mesmo!


Avisei a todos que não queria ir ao ARI Day. E não fui. Acabou. Adeus, Nina!


Terminar esse curso, no final das contas, me exigiu uma força que nunca precisei ter no Brasil. Teria sido bem mais fácil se não tivéssemos que trabalhar em equipe em vários momentos do curso. Não sou perfeito e cometi meus erros por lá, mas em algumas situações (como no "caso Nina") eu não fiz absolutamente nada de mais. Estava tentando ser amigo de Nina ou me entrosar com ela? NÃO. No máximo, estava tentando conviver bem com ela e com qualquer outra pessoa num ambiente profissional. Fora isso era uma colega como qualquer outra. Mas alguns daqueles jovens ainda não estão preocupados com isso. Querem outro tipo de relacionamento, querem amigos para sociabilizar e se divertir. Terão tempo para se adequar às relações de trabalho e aprender - muitas vezes com dor. Fato é que o bullying pode ocorrer nos colleges e quando você é diferente pode ser que ele aconteça. Espero sinceramente que não ocorra com você. Mas se acontecer, não fique parado! O college periga ser importante demais para deixar levando e cada dia pode ser um degrau a mais para baixo. Procure ajuda. Fale com os profissionais responsáveis dentro da instituição. Se puder, converse com as pessoas que estejam lhe causando esses problemas (pode ser por imaturidade). Mas não fique parado. Bullying infelizmente é uma realidade que deve ser combatida.

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