Empregados na mesma semana

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Quem vai entender as imprevisíveis combinações do jogo da vida? Pois aconteceu isso conosco: por pura coincidência, a Thaisa e eu encontramos empregos na mesma semana.

Há imigrantes brasileiros que conseguem bons empregos já nos primeiros dias de Canadá, mas são exceções. Principalmente agora que a maior parte das pessoas vem com vistos temporários para fazer college. Em princípio, obter um emprego "na área" não é fácil. Demora mesmo. A procura pode ser penosa e a sucessão de aplicações sem retorno ou de respostas padrão agradecendo e dizendo que não será desta vez é bem longa. Nós que o digamos! Tanto eu como a Thaisa procuramos muito. Como eu fui fazer o programa de Interactive Media Design no Algonquin College, só iniciei minha busca quando chegou a hora de fazer o estágio remunerado (co-op). Ela começou antes, aplicando para trabalhar em lojas relacionadas a cosméticos e maquiagem. É a área dela. Mas com as barreiras linguísticas que ela precisou superar - infinitamente maiores do que as minhas - e a total ausência de experiência canadense, ela ouviu uma enorme quantidade de "nãos" pelo caminho. Houve situações em que quase foi contratada mas havia uma pedra no meio do caminho. Aí ela foi seguindo em busca de experiência. Fez cursos de maquiagem e estética no Algonquin e no Gina's College (uma escola aqui em Ottawa que só atua com estética). Inscreveu-se nos cursos e workshops do World Skills, uma ONG especializada em inserir imigrantes no mercado de trabalho. Por alguns meses, fez um estágio não-remunerado de office administration lá. E quando acabou, foi trabalhar na loja de souvenirs do Cirque du Soleil durante a temporada do espetáculo Volta em Gatineau.

Eu ainda estava em aulas quando ela começou a trabalhar no Cirque, e também por isso - mas sobretudo por não ter security clearance - não pude dar sequência às conversas que tive com a empresa que cuidou do recrutamento para a temporada. Que chegou a me sondar para trabalhar como designer e videografista ali por três meses. No entanto, surgiu a necessidade de contratarem pessoas que falassem francês para algumas funções logo que as aulas acabaram e lá fui eu para a loja de merchandising também. Fiz de tudo por lá: atendi os clientes, fiquei no caixa, repus estoque, varri o chão, limpei as instalações da loja... E aí, você que diz que eu sou "leite com pera"?

Eu gostei muito da experiência de trabalhar numa loja e de trabalhar no Cirque du Soleil. Se você me perguntar se eu faria de novo, faria sim! Conheci ótimas pessoas, me diverti e ainda ganhei um dinheirinho inesperado. Mas a temporada acabou e voltamos para o limbo. Bom, nem tanto. A Thaisa seguiu aplicando para várias lojas e uma delas a chamou para uma entrevista. Ela precisou faltar ao Cirque du Soleil e eu fui cobrir o dia de trabalho dela. Enfim, ela voltou dizendo que tinha sido a melhor entrevista dela. Ela tinha gostado da gerente que a recebeu e parece que a conversa foi boa. Mas daí a receber uma oferta de emprego, o caminho é longo. Mas passados alguns dias, quando já estávamos no limbo de novo, os funcionários da loja começaram a procurá-la com insistência. Deixavam mensagens de voz no celular dela (o que às vezes é desesperador, porque falam rápido demais nessas horas e não entendemos muita coisa). Até o momento em que a mesma gerente que a entrevistou telefonou e fez a oferta de emprego para ela. Se não me engano isso aconteceu numa terça e ela começaria na terça seguinte com alguns dias de treinamento.

Muito bem, então ela ficaria encarregada de trazer dinheiro para casa por um tempo enquanto eu seguiria na minha procura de emprego. Estava aplicando para tudo que via pela frente: desde job postings postadas por ONGs no site Charity Village (lembrando que meu estágio remunerado foi numa ONG e eu fui muito feliz ali, daí nada mais natural que eu procurasse seguir nesse meio) até oportunidades para pessoas que precisavam de alguém para criar um site na Internet e postavam anúncios no site de classificados Kijiji. Tinha feito uma entrevista numa ONG ainda em agosto, não fui chamado. Apliquei mais uma vez para a Apple Store (e fui chamado para uma entrevista, coisa que nunca havia acontecido). Imaginei que poderia ficar uns dois ou três meses procurando trabalho. Ou até mais. Mas pelo menos a Thaisa já estava encaminhada.

Ela começou a trabalhar no dia marcado, aquela terça-feira, e por vários dias saiu quase desesperada à procura de roupas e sapatos para usar na loja. Acabei indo com ela todos os dias, e quando eu estava dentro da própria loja onde ela trabalha na quarta-feira, o telefone tocou. Era uma outra ONG, que tinha postado uma vaga bem interessante e parecida com o trabalho que eu tinha realizado no co-op e aí eu apliquei. Perguntaram se eu poderia ser entrevistado na manhã seguinte. Sim, perfeitamente. Aproveitei que estava na loja para comprar roupas, porque eu não tinha... Para resumir o resto, fui fazer a entrevista e me pareceu que fui bem. Foi uma entrevista longa com as diretoras, e a conversa evoluiu bem. Saí de lá pensando: "seria interessante eu trabalhar aqui e acho que fui bem... será que vai dar?" Mas como sou do tipo de pessoa que já caiu do cavalo muitas vezes por sonhar demais, mantenho meus pés no chão... Aí no mesmo dia me telefonaram de novo: "você pode vir aqui amanhã novamente para discutir os próximos passos?" Sim, posso sim! Mas para que cargas d'água estão me chamando aqui para discutir próximos passos? Tem outra entrevista?

Não, não tem. Fui lá e a diretora executiva dessa vez foi direto ao ponto. Me ofereceu a vaga e perguntou se eu poderia ir trabalhar já na segunda (era sexta). Bom, inicialmente é um contrato de um ano. Eu vim substituir uma funcionária que está saindo em licença-maternidade. Mas a executiva disse que queriam fazer uma experiência e ter um designer trabalhando em tempo integral lá dentro, interagindo com o time. E que dando certo batalharia com a board of directors para me efetivar em prazo indeterminado.

Temos um longo caminho pela frente.

Enfim, é isso! A Thaisa começou a trabalhar numa terça, e eu na segunda seguinte. Menos de uma semana de diferença! Em situações favoráveis para ambos: ela trabalha a três quadras de casa e eu a sete. Podemos os dois ir e voltar a pé mesmo com nevasca forte, algo que eu fazia durante o co-op. O fantasma de "K-a-n-a-t-a" está adormecido na minha vida pelo menos por um ano. Mas não foi fácil e nem é fácil! Falo isso até pelos colegas que estão se formando comigo (ainda não recebi o diploma!). Olho para o LinkedIn deles e tudo continua na mesma: procurando novas oportunidades. Nada de emprego novo para quase ninguém.

Eu mesmo fiz algo como 15 entrevistas de emprego para conseguir minha vaga no estágio remunerado no final do ano passado, lembra-se? Desta vez foi de segunda... 

Enfim: é preciso ter força e perseverança para superar as dificuldades do começo por aqui. Não há outra coisa! Mas para quem dá duro e faz sua parte direitinho e sem jeitinhos, o Canadá pode sorrir logo. Por isso, o negócio é correr atrás. Ir à luta mesmo.





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