A fábula de LinkeDinho

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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.


LinkeDinho é um brazuca gente fina que sempre acreditou ter nascido no lugar errado. Por muitos anos, viveu sua vida sonhando com a oportunidade de "se rapar" do Brasil para algum país de primeiro mundo. De preferência onde se fala inglês, saca?

Sua alma estava vazia e nunca descansou na busca pelo paraíso em Terra. Um belo dia, ele encontrou o folheto da Igreja do Sonho Canadense e deixou-se contagiar pela pregação. Converteu-se rapidamente e começou a planejar. Descontente com a carreira onde havia se graduado no Brasil - afinal de contas, carreira no Brasil é coisa de loser - ele viu a luz. Fazer um College no Canadá e dali partir para a residência permanente e depois para a cidadania com enorme sucesso! Aleluia, ô aleluia! Miami e Orlando on ice, patinando e esquiando beleza pura!

A meta estava encontrada. LinkeDinho começou a planejar-se e encontrou sua companheira de aventura: a LinkeDinha! Uniram-se em linda cerimônia abençoada pelos próprios Pastores do Sonho Canadense, o Casal Pretzel, e numa bela e corajosa noite zarparam para as geladas terras do norte. E nosso LinkeDinho iniciou seu curso no Drew Jones College de Toronto. Programação para Dispositivos Móveis! Que nome pomposo! Ele sonhava em ser o maior desenvolvedor de apps do planeta, saca?

E o que fazia nosso herói no College? Bom... é uma pergunta meio difícil de ser respondida, porque ele podia ser considerado o que os estudantes brasileiros chamam de "turista". Raramente aparecia por lá. Algumas indiscretas bocas espalharam o rumor de que Dinho não gostava do estabelecimento e preferia ficar meditando e esperando o Sagrado Conhecimento lhe invadir por osmose e lhe deixar instantaneamente pronto para seduzir qualquer empregador canadense. Ele também teria sido visto numa rodinha de amigos tocando uma música estranha aos ouvidos canadenses... algo como "pahgoddy"... Mas é certo que de vez em quando, Links (como passou a ser conhecido pelos colegas) aparecia para dar um alô aos maninhos do college. Isso não era muito suficiente para que os professores o notassem, exceto nos momentos em que ele os chamava num cantinho para armar a cara de coitadinho, trocar uma ideia e pedir a chance de entregar seus trabalhos atrasado. Mas chegava a ser engraçado para os colegas que sempre iam às aulas: os professores passavam meses sem conseguir se lembrar quem era o LinkeDinho.

Os brasileiros que cruzavam com Dinho pelo caminho nunca perceberam que ele era um dos seus. Afinal de contas, nosso herói padece de uma notória alergia a tudo que é brasileiro ou do Brasil. E aprendeu a ser mudo como as sombras, falando sempre num inglês cujo sotaque lhe fazia passar por "espanhol". Sim, para o mundo Dinho dizia ser espanhol de Barcelona. Que chique!

Com o passar do tempo, Links desenvolveu amizade com Stanley Stanley, Francisco Israel e Johnny Tremblay... três caras tão bons de serviço que mal precisavam ir às aulas para arrebentar. Sabe esses meninos que aprendem a programar com 10 anos e um dia precisam pendurar um diploma na parede para contentar o sistema? Pois é, são eles! Fato é que a vida nunca foi fácil e uma graninha extra era sempre benvinda... Sacando isso com seu PhD em malandragem, LinkeDinho lhes pagava uns lanches no Tim Hortons em troca dos trabalhos feitos ou de umas dicas preciosas... afinal de contas, Dinho sabia que precisava fazer uns 15% dos trabalhos ele mesmo. Para dar seu toque pessoal e implantar sua Malandragem Corporations na coisa, tá ligado? De qualquer forma, os professores não controlavam mesmo quem fazia os trabalhos... bastava clicar no "submit" e era só alegria!

Mas muitos colegas, quando precisavam de Dinho para fazer trabalhos, nem sabiam onde ele estava ou se poderiam contar com ele.

Que mares tranquilos para navegar! As inocentes águas canadenses. Ainda mais quando Dinho ouviu o Professor Richard Shear desabafando: "nós não podemos reprovar aqui... porque a província paga uma parte dos custos de cada aluno canadense, mas só quando ele se forma! E os estudantes internacionais... trazem muita grana! Com isso, ficamos quebrando a cabeça no final do semestre para passar essa moçada!" Ah, então é isso? Formar no College é tão moleza assim? Nem precisa de tanta malandragem? Pois é, o sistema conseguiu chocar o LinkeDinho! Ele até comprou uma berejinha na Beer Store da Dundas para comemorar a moleza.

Ah, não falei na LinkeDinha... Nunca vi um casal tão diferente nesse aspecto. Apesar da fama de "mascarada" que seus colegas de colégio no Brasil espalharam e da qual nunca se livrou, Dinha é esforçada, trabalhadora e boa de serviço. Chegou com inglês na ponta da língua e um bom diploma debaixo do braço. Daí começou bem por baixo, fazendo um trabalho voluntário já na sua área... Tinha visto de trabalho e logo descolou um emprego numa empresa situada bem no centro de Toronto. Com vista para o lago Ontario e tudo mais! Sua ascenção foi relativamente rápida. E enquanto Dinho tramava seus mistérios pelo College, a Dinha trabalhava e chegou a um ponto onde ela mesma estava pronta para aplicar para residência permanente pelo Express Entry. Foi tranquilo. Em pouco tempo lá estavam eles celebrando o sucesso nessa empreitada com uma viagem para a Disney e o landing no retorno.

LinkeDinho, que como boa abelha é fabricante do necessário mel para manter a LinkeDinha sempre em sua colmeia, nunca esteve tão contente. Bastou esse tempinho firulando no College e a "muiezinha" trabalhando duro pra garantir o cartãozinho branco e mandar uma banana geral pro Brazuca? Yeah, dude! Tá bonito e tá gostoso!

Mas falando em bonito e gostoso, LinkeDinho gosta de mostrar pra sua seleta plateia que fez o Sonho Canadense do Casal Pretzel com direito a um Pretzel Dourado para os vencedores. Dessa forma, sabendo que um empreguin dos bão dá direito a 2 mil Pretzel Points, ele escolheu seus carros alegóricos para mandar bem na foto! Começou pelo co-op no College. Ah, mas para isso ele aparentemente se esforçou e ficou ligado! Tanto que conseguiu... como 90% dos seus colegas... deixando para trás uns 10% que talvez fossem melhores do que ele, mas que empregador resistiria ao seu mel de malandragem? Bem... esses bonzinhos canadenses que querem dar chance a estudantes não resistem. E aí lá estava o Links na equipe de programadores de um app que agregava cupons de desconto!

Se os empregadores de Links gostaram ou não de seus serviços, isso nunca se saberá. Mas o fato é que ele, de repente, começou a anunciar ao mundo que seu lance era a linguagem X+++, conhecida por sua dificuldade. E por isso mesmo, dizem que tem muito emprego para programadores X+++ no Canadá. Agora... se nosso herói já fez alguma coisa nesse campo na vida ou se é pura goma de mascar, ninguém sabe. Porque portfólio ou referências... bom, ele não tem. Ele está na rede social dos profissionais, mas se eu fosse empregador e visse seu perfil "searching for new challenges", seguiria adiante. Porque não fala nada sobre o que ele fez na vida. Nem sobre suas lendárias malandragens, rá yé yé, já que isso afastaria os recrutadores.

Dinho tem, de fato, o cartão branco de residente permanente obtido graças ao esforço de sua cônjuge. Mas após um college muito mais ou menos (onde desperdiçou a oportunidade de fazer o seu melhor, aprender e estabelecer networking com os professores, colegas e profissionais que estão lá), ele deparou-se com a realidade. O grande funil canadense é o mercado de trabalho. Os bons, tal qual vem ocorrendo com os colegas "raladores" dos quais Links covardemente zombava pelas costas, vão sendo empregados. Mas e ele? Passados alguns meses, ele segue "searching for new challenges" na rede dos profissionais... Se bem que talvez isso não lhe represente grandes coisas, pois aprendeu a plantar sementes nos vasos de casa e colher dinheiro. Sem falar na Dinha!

A moral da fábula de LinkeDinho, personagem fictício cujo espírito pode estar presente em tantos que vêm de todo o mundo em busca do Sonho Canadense, é a seguinte: estamos num país onde a palavra é sagrada até para estudantes. E por isso não há tanto controle. Porém, na malandragem, podemos ter a capacidade de sujar bastante o chão onde pisamos de marrom. Achamos que vamos nos dar bem na base da estratégia, mas a única estratégia que vale aqui de verdade é a da honestidade sem exceções e a do trabalho duro todos os dias. Do contrário, o LinkedIn sempre periga estar ali do mesmo jeito.

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