YouTube

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Em algum momento (não sei dizer exatamente quando), alguns imigrantes brasileiros começaram a fazer vídeos sobre sua vida e sua experiência fora do Brasil e postá-los no YouTube. As intenções podiam ser diversas: por exemplo, manter um contato mais intenso com seus familiares e amigos que ficaram no Brasil e reduzir um pouco a solidão, mostrando e compartilhando o que viam e viviam.

Mas, encurtando bastante a história, o interesse e a vontade de sair do Brasil cresceu exponencialmente durante os governos Dilma Rousseff porque foi exatamente nesse período que muitos perceberam que o sonho acabou. Ou, no caso de alguém como eu que vivenciou a ditadura militar e o período de hiper-inflação dos anos 80 e início dos 90, tiveram a re-confirmação de que o sonho nunca existiu. Após alguns anos de real valorizado facilitando as viagens para o exterior, nos colocando numa ilha da fantasia que nos levava temporariamente para longe do purgatório.

E acabávamos caindo naqueles vídeos que mostravam a vida que queríamos ter. Um sorriso feliz e vitorioso de quem deixou definitivamente para trás o purgatório chamado Brasil e venceu no primeiro mundo. Os troféus estavam ali na tela: o carro além dos sonhos dos consumidores de carroças que sempre fomos... a casa bonita num local bonito e sobretudo SEGURO, sem o medo e a paranoia que nos cercam... os telefones celulares, computadores, videogames, cosméticos, roupas, calçados que sempre quisemos ter mas nunca podemos em razão das políticas idiotas de reservas de mercado... Esses vídeos acendiam a perigosa fagulha do sonho em nossas vidas. E aquelas pessoas nem precisavam fazer vlogs ou falar de imigração: haviam as meninas que falavam de moda e maquiagem, os rapazes fãs de videogame... Não importa: alimentou-se o sonho.

E num dado momento o YouTube passou a remunerar os criadores de vídeos. Isso mesmo! Com a inserção de anúncios nos vídeos, possibilitou-se a chamada monetização. Quanto mais pessoas assistirem aos seus vídeos, mais dinheiro você recebe. E consequentemente criou-se uma nova profissão: YouTuber.

Rapidamente as YouTubers e os YouTubers entraram na moda e até mesmo ganharam as bem-remuneradas mídias tradicionais. Além da monetização, estabeleceram parcerias com empresas em busca de publicidade... sabe aquele incômodo merchandising que volta e meia aparece nos programas de televisão? Pois é pois é pois é... Eu te dou um presenteenho, um mimo, um agrado, e você fala de mim nos seus vídeos, nas suas redes sociais... uma fotcheenha no Insta... sabe como é...

E o mundo gira. E a vida segue. Até aí tudo bem, exceto por um fato que eu percebo: tal qual costuma ocorrer com o que vemos na mídia tradicional, tendemos a acreditar em tudo que as YouTubers e os YouTubers transmitem. Até mais, porque os enxergamos como "gente como a gente". Mas nem sempre é bem assim.

Para quem pretenda fazer vídeos com alguma qualidade no YouTube e transmitir seu recado de uma forma mais eficiente, o investimento financeiro em equipamentos e o investimento de tempo para filmar e sobretudo editar o conteúdo é alto. Fica muito difícil, quando não impossível, conciliar os vídeos com um emprego que ocupe nossa semana de segunda a sexta, das 9 às 5. E ter uma vida fora do YouTube. Isso só se justifica exatamente quando passa a ser trabalho e garantir o sustento da pessoa, do casal, da família. Do contrário, a pressão para parar e a própria vontade de parar vêm depressa.

E quando você é YouTuber profissional, a liberdade para dizer o que você pensa e transmitir aquilo em que você realmente acredita vai embora. Você se torna escravo do que o seu público quer ver e ouvir, e muitas vezes do que os seus parceiros e investidores pagam para você falar. Muitas vezes, você precisa mostrar coisas que não têm aquela qualidade, ou que você não usaria, ou das quais já está cansado, como se fossem a oitava maravilha do planeta. E mais ainda, você precisa adquirir credibilidade... o que, muitas vezes, se resume à pura e simples ostentação. Uma ostentação que chega a parecer exagerada e irreal em alguns casos... Pois as pessoas querem te ver como um exemplo a ser seguido. Um objetivo que lhes permita ter tudo o que você tem, e ser bem-sucedidas como você... ou como o que você aparenta ser naqueles vídeos. Você e sua vida passam a compor os sonhos de milhares de pessoas.

E quando você é imigrante e passa a fazer vídeos para ganhar dinheiro com essa maravilha chamada YouTube, o que geralmente você precisa fazer? Mostrar um mundo tingido de cor-de-rosa, onde não há problemas nem dificuldades e que de certa forma representa o extremo oposto desse "inferno em vida" chamado Brasil. Se algum dia pretender ajudar quem deseje seguir o mesmo caminho mostrando sua visão da realidade, saiba que a chance de ter visualizações garantindo um retorno financeiro capaz de sustentar sua vida é quase nula. Você até poderá ter um certo número de visualizações sim, e muitas vezes até mesmo adquirir um público fiel. Poderá ter um retorno impressionante de comentários em relação a visualizações, como eu tinha na época do meu canal. Mas dinheiro que é bom para garantir a sobrevivência do canal, não terá. Tempo para viver, também não terá.

Ah, e antes que eu me esqueça! As tais polêmicas e tretas. Eu sou o "rei da polêmica". Por usar meu espaço para expor meus pontos de vista, muitas vezes passei a ser visto como o "destruidor de sonhos". Ou então como o "anti-carro" ou o "anti-subúrbio". Essas leituras apressadas e ralas dos meus pontos de vista fizeram muitas pessoas que "discordavam de mim" brigar comigo, o que sinceramente é muito bizarro. Vem cá: preciso ser como você e pensar como você para ser seu amigo? Sua vida muda se eu penso diferente de você ou vivo minha vida de uma forma diferente de você, e vice-versa? Creio que não, certo? E exatamente por isso não deveríamos brigar. Eu jamais brigaria com você porque comprou um carro, por exemplo. Então por que você briga comigo se eu venho ao meu canal dizer que pode ser interessante construir uma vida onde não haja dependência de carro? Ou então, ainda mais profundo: por que você me dá o poder de destruir os seus sonhos? Não seria porque você no final das contas percebeu que as coisas podem não ser bem assim como você sonhava e agora está com medo de não dar certo? E que os desafios e dificuldades para vencer no Canadá ou em qualquer lugar fora do Brasil são grandes e te obrigam a uma queda de padrão de vida para a qual não estava preparada ou preparado e que te leva para longe daquela fantasia estilo "Disney" que você tanto procurou?

Sinceramente, quem está tranquila ou tranquilo com suas escolhas de vida não perde tempo sentindo raiva do que outras pessoas dizem em contrário. Reconhece que outras pessoas têm o direito de pensar diferente e viver suas vidas da forma como bem entenderem. E, se for o caso, não deixam de ser amigas de ninguém por conta de um ou outro ponto de vista diferente.

Bom, ok... as minhas polêmicas vinham a partir de pontos de vista que eu realmente tenho e procuro defender. Mas há, no YouTube brasileiro, uma tendência a criar polêmicas, inventar tretas e atacar outras pessoas com o único objetivo de angariar visualizações e monetizar. Não existe muita sinceridade nisso. É puro jogo de marketing, é pura historinha para fazer boi dormir e receber mais dinheiro de monetização. Enquanto no meu caso havia, sim, sinceridade. Até mesmo no desejo de ajudar outras pessoas passando a minha visão desta experiência. Mas não deixei de me transformar num personagem. E a única coisa que ganhei foi um sono tranquilo, embora tenha pago um preço bem alto. Muitos seguidores do meu canal queriam meu lado polêmico e me pediam isso.

Nunca tive tanta paz por aqui como a partir do momento em que encerrei o canal. Isso não tem dinheiro que compre.

A partir da minha própria experiência, o que posso dizer a você é:

- Não acredite em tudo que YouTubers mostram ou dizem. Pode não ser verdade. No vídeo, podem ser personagens... São pessoas tentando ganhar dinheiro, e é em cima de VOCÊ... Pensam no hoje e nem sempre assumem responsabilidade sobre o que seus seguidores podem fazer inspirados na vida que exibem nos vídeos. Às vezes se cansam, como no notório caso de Essena O'Neill. Mas a maioria permanece na roda viva;

- Muito cuidado com os sonhos ou a falta de sonhos. Muitas vezes, mudar-se de país não vai resolver seus problemas. Vai, sim, criar outros. A imigração não é necessariamente um infalível caminho para a felicidade. Talvez o melhor para você seja seguir o que uma velha canção infantil diz:

"Fique na sua cidade,
que a felicidade reside no interior
do teu coração
A fauna e a flora pintando o verão
Pegue o arado, espalhe a semana
que a chuva trará alimento
pra população
Formando a corrente, apertando as mãos"

Ela diz tudo... o caminho mais certo para vencer, pelo menos na minha opinião, é o trabalho duro e a colaboração entre todos buscando o bem-estar comum. É o que não ocorre no Brasil... é o que está levando nosso país e nossos valores ao colapso mas, tristemente, pode ser trazido na bagagem de cada brasileiro ou brasileira que venha para o exterior buscando uma vida melhor... mas, infelizmente, não consegue transformar a si mesmo com essa experiência. Pelo contrário, contribui para contaminar outros povos e culturas com o pior do nosso povo. Muitas vezes sem perceber.

Vida Que Segue - Canada

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