Encruzilhadas, entre os desânimos e as perspectivas. Parte 1

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Se alguém vier me dizer que pretende vir para o Canadá e tornar-se designer, tanto gráfico como web, principalmente num esquema de mudança de carreira e acreditando que o emprego virá fácil, eu juro que respondo na lata:

- Não faça isso!

Infelizmente a profissão de designer chegou a um ponto crítico, pelo menos em Ottawa, onde você esbarra em designers — com diferentes graus de competência, mas uma boa parte bem fraca — oferecendo serviços a cada esquina. O trabalho está a cada dia mais aviltado, com as pessoas contentando-se em cobrar muito barato para pegar o trabalho. E trabalhar duro por longas horas para receber migalhas e incluir mais um item no portfólio que talvez vá lhe ajudar a conseguir um emprego de verdade no futuro.

Clientes e contratantes adoram. Nunca pareceu tão fácil encontrar alguém para criar um site para você por quase nada. 100 dólares e você pode ter um trabalho de ótima qualidade, feito por alguém bem qualificado que não viu outra alternativa senão submeter-se a essa cruel regra do mercado e equiparar-se aos aventureiros e incompetentes. Sem falar que o conhecimento técnico desses contratantes muitas vezes é zero, mas elas se dão ao direito de não gostar de algo e pedir mudanças o tempo todo, bem como destruir trabalhos e demitir pessoas sem qualquer esforço — ou capacidade — para que aquela pessoa cresça, desenvolva seus talentos e produza no seu melhor.

Principalmente o web design, que é complexo por natureza e ainda depende de código e linguagens de programação bem como um cenário favorável pelo lado do servidor onde seu site ficará hospedado, é complicado. O cliente, não raro leigo e desinformado, quer te pagar 100 dólares para que você faça milagres num ambiente francamente desfavorável. E tem gente que aceita.

Para piorar, há estudantes internacionais extremamente bem qualificados que oferecem seus serviços a preços irrisórios, porque não têm visto de trabalho. É possível que realizem esses trabalhos de forma ilegal, muito além das horas que lhes são permitidas. Mas muitos pequenos empregadores os contratam porque é mão-de-obra de excelência oferecida por quase nada. Deixo claro aqui que não condeno esses estudantes: eles precisam sobreviver e pagar contas num país de custo de vida alto, sobretudo para moradia. A culpa é de quem os contrata.

Não vou mentir a vocês: desde que pedi demissão do meu emprego há alguns meses, por motivos não muito diferentes, esse é o cenário que venho encontrando por aqui. Estou fazendo vários trabalhos. Mas a cada dia me encontro mais desanimado com o design, e sem muitas razões para pensar positivo quanto a essa carreira ou ver boas possibilidades.

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Por outro lado, todos sabem que tenho uma longa experiência na música e nos empreendimentos culturais, e foi isso que me permitiu receber a residência permanente ainda no Brasil e vir para o Canadá. Mas poucos sabem de tudo o que eu passei e de toda a perseverança e superação que precisei ter para conseguir meu doutorado, o conhecimento que tenho e o que consegui (que para quem conta moedas não é grandes coisas). Não foi nem um pouco fácil. Quase todos ao meu redor vieram com o tradicional papo de que música é hobby, não é trabalho. Que eu deveria ter outra profissão, um trabalho de verdade. Nesses momentos, pessoas que eu amava me deixaram completamente só e desamparado.

A lei do karma muitas vezes é implacável para quem faz mal, mas não são essas pessoas que sentem as dores primeiro. Paguei um preço muito alto por todos os momentos de bullying, de abusos, de feridas, de violência psicológica e de ofensas que passei simplesmente porque fui escolhido por uma arte. Muitos estragos foram feitos em mim e venho tentando, quieto no meu quadrado, entendê-los e consertá-los.

Ouvi de um analista: "o problema não era você, o errado não era você, o errado era o mundo ao seu redor que te julgou diferente e não te aceitou". Pode ser, mas quem sente os efeitos dos estragos sou eu. O maior deles talvez seja eu acreditar, no fim das contas, que não sou bom o suficiente para ser bem remunerado. E que música não é trabalho. É hobby. E não basta ser bom: é preciso ser bem relacionado.

Mudei de país, mas confesso que preciso mudar de pensamento para acreditar mais em mim. É meu grande desafio agora.

Aqui é o Canadá, oras!

Desde que cheguei, fiz alguns pequenos concertos de piano logo no primeiro ano e fiz gravações remuneradas em Quebec City com um amigo produtor de discos para um trabalho ainda inédito, mas o empenho para fazer o College e melhorar minha empregabilidade não me permitiu ir muito além, além da minha própria falta de coragem e do eterno medo de não dar certo. De ninguém querer me ver tocar. De ninguém me dar valor. De não conseguir locais para tocar. De levar portadas na cara. Porque não conheço ninguém do meio aqui. Porque a cidade é conhecida como "a cidade que a diversão esqueceu".

A universidade? Quando eu quis abandonar o College em 2016 e fui até lá em busca de oportunidades, me sugeriram fazer um segundo doutorado pois, simplesmente em razão da nacionalidade brasileira de minha formação, eu não seria competitivo por aqui. Fazer um segundo doutorado, pagar tuition fees e ser um eterno estudante? Não, chega de escola.

Mas terminado o curso e no período entre o fim das aulas e o momento em que consegui um emprego, procurei uma emissora de rádio. Para quem não sabe, tive um programa de rádio no Brasil por sete anos. Eu gostava muito de fazê-lo, mas a rádio não era ouvida porque, por conta de burocracias, a potência mal ia além do campus da universidade e ninguém a ouvia. Mas a experiência existe, e a qualidade da minha programação também.

No Canadá, histórias onde a pessoa não tem estudos específicos em rádio — o tal do College — mas obtém empregos remunerados parecem ser raras. E meu Deus, como o rádio comercial é chato por aqui! Confesso que não escuto rádio comercial aqui. Além disso, eu estava em busca de algum lugar que me permitisse ser livre para tocar o que bem quisesse. E divulgasse a música e a cultura do Brasil para os canadenses sem me curvar a grandes interesses, podendo ajudar artistas amigos e pessoas em quem realmente acredito e que merecem essa oportunidade. Por isso passei a tratar a rádio como se fosse o meu playground, onde eu poderia descer para aquele porãozinho e simplesmente ser feliz. Me esquecendo de que existe dinheiro, jabaculê e outras forças ocultas lá fora. Isso é o que o trabalho voluntário na CHUO (sigla para CH University of Ottawa), a college radio da University of Ottawa, vem me proporcionando.

Bom... já escrevi bastante e o resto da história vai ficar para um próximo capítulo, certo? Prometo que vem já e que talvez muitos que encontrarem este post já poderão encontrar o seguinte. Não percam então!



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