Encruzilhadas, entre os desânimos e as perspectivas. Parte 2

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Quando procurei a CHUO, eu já havia percebido que não se tocava música brasileira em nenhuma emissora da região de Ottawa e que os canadenses desconheciam a produção fonográfica do nosso país por mais que o Roberto Carlos tenha vendido discos pela vida. A maior referência de artista latino para eles, acreditem, é o Julio Iglesias! Por isso, seria uma experiência muito interessante tocar música brasileira para canadenses e ver como eles reagiriam sem os mesmos pré-julgamentos dos brasileiros. Minha intenção seria fazer algo em que a comunidade brasileira seria benvinda, mas o programa seria para todos.

Eu também sabia que, para o artista brasileiro, ter seu trabalho divulgado até mesmo numa pequena rádio universitária do Canadá é motivo de muita alegria. Isso é muito bom, mas tem um lado triste e reflete muito o imenso complexo de vira-latas que o músico brasileiro tem. Pode ser uma pequena rádio universitária; pode ser um programa que não é muito ouvido. Mas é no exterior! É no primeiro mundo! Mas eu sempre soube disso e procurei usar esse elemento a meu favor. Eu desejava que esses artistas se tornassem meus parceiros, comemorando as execuções de suas músicas nas suas redes sociais. Isso faria com que a rádio fosse conhecida no Brasil e o retorno surpreendesse os diretores da rádio.

Sem falar que, aqui, artistas desconhecidos têm as mesmas chances — ou até mais chances — do que os grandes medalhões da MPB. Que muitas vezes só aparecem para que os ouvintes brasileiros não reclamem que "faltam músicas conhecidas"... kkkkkk

E o retorno de tudo isso tem sido muito bom. Pena que o trabalho é voluntário...

Porém, eu não me incomodo tanto com isso porque:

- a rádio me proporciona muitas oportunidades de networking e possíveis indicações para trabalhos artísticos remunerados;
- a rádio pode facilitar, até indiretamente, oportunidades para que eu empreenda no campo cultural e musical.

Hoje mesmo, daqui a pouco, já vou participar de uma conferência cuja admissão custa $175. Mas como sou da CHUO e vêm artistas brasileiros, eu consegui um passe de imprensa e não pagarei nada. ;-)

E neste começo de ano começaram a surgir oportunidades para tocar, para fazer pequenos shows. Isso porque comecei a buscá-las de fato.

Os canadenses de Ottawa têm uma característica bem semelhante à dos mineiros de BH: parecem meio difíceis de sair de casa, principalmente por coisas que eles não conhecem. E priorizam atividades onde toda a família, incluindo as crianças, podem participar. Esse é o meu grande desafio inicial: me fazer conhecer por eles. As comunidades de artistas aqui parecem ser muito "panelinhas", difíceis de transpor. Você sabe que eles existem mas não os vê. Ficam lá no guetinho, tocando em pequenos eventos em inferninhos ou escondidos em seus porõezinhos mostrando seus equipamentos no Facebook...

Mas já comecei a fazer meus shows. Participei da premiere de um projeto de sintetizadores e no mesmo dia o dono do bar me convidou para voltar duas semanas depois. Ou seja, na semana que vem... kkkkk

Por enquanto, a etapa é: me fazer conhecer e formatar meu trabalho. Passo a passo!

Estou agora meio apavorado, divulgando o evento para que pelo menos algumas pessoas compareçam para me ver... e aí voltam aqueles velhos medos e fantasmas...

"Você não é bom o suficiente para ter público..."
"Você mora na City that Fun Forgot..."
"Cidade de governo onde as pessoas se trancam nas suas bolhas e não saem de casa para se divertir..."
"Inverno, ninguém sai de casa..."
"Música não é trabalho, é hobby!"
"Você vai morrer na sarjeta, pobre e miserável!"
"Quem vai te respeitar sendo que você é um MÚSICO... Um MÚSICO!"
"Demos tudo para você, a melhor educação, para você jogar no lixo sendo MÚSICO!"

É difícil pensar positivo quando todo o mundo ao seu redor parece te jogar para baixo com velhos clichês e chavões tão brasileiros. Mas eu vim embora exatamente para mudar minha história. E deixar para trás todos os momentos de tristeza e humilhação por que passei no Brasil. As pessoas que me desrespeitaram, que me deixaram sozinho, que não acreditaram em mim. Preciso exorcizar esses fantasmas. É preciso enfrentar tudo isso e seguir em frente buscando, talvez, alguma coisa melhor que talvez possa me remunerar dignamente. Afinal de contas, mudei de país. Fui aceito em razão de tudo que construí como artista e músico e preciso tentar aproveitar as oportunidades que este país oferece. Ir atrás das grants e apoios do governo, seguir em busca de networking enfrentando a resistência dos canadenses a tudo aquilo que não conhecem... participar de eventos... etc.

Talvez assim eu possa um dia deixar o design e a web para aquilo em que eu pensava quando me inscrevi no College: algo que me permita promover e divulgar minhas atividades artísticas mais e melhor. Aí eu poderei deixar para trás todos os elementos prostituídos dessa área e a insana competição que joga a remuneração lá para baixo.

E ah! Se você está em Ottawa e quer ver o meu próximo show, será muito benvindo! Anota aí! Vai ser na sexta, dia 16 de fevereiro, a partir das 9 horas da noite, no Avant-Garde Bar. Com muita música brasileira! 135 1/2 Besserer Street, bem pertinho do Rideau Centre. E melhor ainda: você paga o que puder. O flyer está aí em cima do post!

Vida Que Segue - Canada

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Gratidão por sua visita! aqui você sempre será muito benvindo(a)!

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