Os brasileiros e sua cultura

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Recapitulando rapidamente: eu sou músico e vim para o Canadá com residência permanente graças a uma categoria de imigração voltada majoritariamente para artistas e profissionais da área criativa, a Federal Self-Employed Persons, onde meu currículo e minha formação como artista foram determinantes para a aprovação.

OK, mas cheguei... quase 3 anos de vida em Ottawa na data de hoje (16 de abril de 2018)... e aí vem a pergunta: o que vou fazer por aqui? Vim como artista. Devo buscar oportunidades na arte ou deixá-la de lado para fazer qualquer outro trabalho?

A resposta que aprendi com dor, após ter feito college por 2 anos em busca de uma maior empregabilidade e percebendo que talvez "não seja bem assim": sim, devo buscar oportunidades na arte! É um outro país, ora bolas!

Mas o trabalho como músico, ainda que não seja atingido pela lendária e infame "barreira da experiência canadense", envolve dificuldades particulares. Não há muitos empregos formais. O trabalho na maior parte das vezes é autônomo e não há salário regular. É preciso ir à luta por oportunidades, o tempo todo.

Logo nos meus primeiros dias por aqui, ouvi de um canadense uma frase que até hoje ecoa na minha cabeça:

- Você é brasileiro e cresceu em uma cultura musical diferente. E aqui em Ottawa, praticamente ninguém toca música brasileira. A competição é muito menor!

Fiquei pensando nisso por um bom tempo. E dei razão ao canadense. Posso tocar rock 'n' roll, blues, jazz estilo norte-americano, essas coisas... mas se eu fizer isso não terei nada para me diferenciar de tantos outros músicos trabalhando por aqui e me colocarei numa competição mais selvagem, onde sim, faz-se a música que as pessoas conhecem por aqui... mas eles possivelmente farão melhor do que eu, pela vivência bem mais intensa com esse tipo de música.

Por outro lado, eu faço música brasileira muito melhor do que eles.

E Ottawa, com relação à inserção dos valores culturais de uma comunidade brasileira que só vem crescendo nos últimos anos num caldeirão multicultural muito receptivo aos valores dos imigrantes, praticamente não tem nada. O que isso significa? Oportunidades! É um trabalho um tanto quanto penoso de pioneiro, mas de grande importância para a exposição de uma cultura muito rica a um país que quer conhecê-la.

Mas quer saber qual é uma das maiores dificuldades no meu caminho?

É o desprezo que muitos brasileiros sentem pela própria cultura. Talvez isso seja decorrente das decepções que sentiram com a terra natal, o que de certa forma compreende-se. Mas isso não justifica certas atitudes.

Há alguns dias, bloqueei no Facebook uma brasileira que foi um tanto quanto rude comigo a partir do momento em que estava sendo discutida a desunião de uma das comunidades brasileiras por aqui e eu mencionei a questão cultural. Essa pessoa, em outras ocasiões, já tinha manifestado seu ódio pelo Brasil dizendo que evitava brasileiros a todo custo por seu caminho e preferia ter amigos de outras nacionalidades.

E já tive a oportunidade de constatar ao vivo e a cores como os brasileiros muitas vezes fogem de seus patrícios em vez de buscar uma união que resulte em ajuda, proteção e crescimento mútuo. Tanto no college como em uma experiência de trabalho de tive por aqui, tive decepções muito grandes com brasileiros que cruzaram meu caminho. Para começar, eles recusavam-se a falar comigo em português em qualquer situação, o que interpretei como uma bizarra tentativa de negar suas origens a todo custo. E para terminar... bom, isso eu prefiro nem dizer.

Os brasileiros precisam se dar conta de que nunca serão canadenses como os descendentes de ingleses, escoceses e irlandeses... ou franceses, para aumentar a complicação... que aqui vivem. Serão canadenses como tantos outros que, mesmo falando as línguas oficiais sem qualquer sotaque, trazem consigo uma origem imigrante próxima e uma bagagem de valores culturais diferentes que, em teoria - é claro que há problemas e que ainda há muito a se fazer, mas falo aqui da política oficial do país, que está consagrada na lei -, é recebida de braços abertos pelo Canadá. Idiomas, religião, culinária, música, dança, artes plásticas, literatura, atividades recreativas e desportivas, vida social, moda e vestuário, arquitetura e engenharia e tantos outros valores vêm sendo incorporados à cultura canadense e enriquecendo as opções que o povo deste país tem. Como vários exemplos pequenos e grandes atestam, os canadenses como um todo têm muita curiosidade pelo que os imigrantes oferecem. Eu citaria a shawarma libanesa, que graças ao empreendedorismo dos povos oriundos do Oriente Médio transformou-se no prato mais típico de Ottawa.

E onde entra o Brasil nisso? Ora, entra em tantas coisas que você nem imagina! Tantas coisas que podemos oferecer ao Canadá! Desde o Jiu Jitsu desenvolvido pela família Gracie até a Bossa Nova e o heavy metal da banda mineira Sepultura e o churrasco brasileiro que você tanto adora e do qual sente tanta falta, sem falar no futebol brasileiro... tudo isso é resultado dos movimentos culturais ocorridos no Brasil! Que, por mais que tenha falhado como nação e sociedade, tem, sim, muita coisa boa a oferecer ao mundo.

Que fique claro aqui que não estou defendendo nenhum grupo de valores culturais "inventados" ou "consagrados à força" como tipicamente brasileiros. Como ocorreu várias vezes, por exemplo com o samba. Meu doutorado, pesquisando também sobre a questão da identidade cultural brasileira, não me permite fazer isso nem tampouco discutir com pessoas como a que bloqueei, que foi ainda capaz de bradar: "o que é cultura brasileira?"

O que chamo de "cultura brasileira", aqui, é simplesmente o conjunto da produção intelectual feita por cidadãos brasileiros ou em território brasileiro e de certa forma disseminada e adotada indiscriminadamente ainda que com variáveis. Sem pureza nenhuma, nem qualquer traço de xenofobia. Palavra de um brasileiro que se chama "Alexei Michailowsky". Que nome mais brasileiro, eh?

Precisamos então deixar de lado nossa natureza passional e pensar de cabeça fria. E principalmente parar de fazer o Cazuza, lá no céu, rir de nós e repetir cantando: "São caboclos querendo ser canadenses"! Muito embora, levando em conta o multiculturalismo e as naturalizações, somos exatamente isso: caboclos brasileiros querendo ser canadenses. Pelo lado da nacionalidade não há problema nenhum nisso. Mas pelo lado da cultura pode haver: alguns de nós parecem querer a todo custo, a toda maneira, adotar os valores culturais norte-americanos consagrados pelo cinema... mesmo sem saber ao certo quais eles são e se os próprios nativos estão felizes com isso... é o tal do "sonho canadense" marketeado em vídeos de YouTube... pessoal, vamos para a vida real!

Chega de abaixar a cabeça para eles... eles mesmos não querem isso! Vamos parar de renegar nossa identidade cultural e ser coerentes conosco mesmos... a cada instante que reclamamos da culinária que os restaurantes servem e suspiramos pela gostosa comidinha caseira do Brasil ou por um churrasquinho, estamos expressando os valores com os quais crescemos! Isso muitas vezes acontece sem pensar e não há qualquer problema ou culpa nisso. Por isso mesmo, sinto falta de mais empreendedorismo voltado para a difusão das nossas coisas para os canadenses em geral. Nós somos beneficiados, eles também são, e com isso podemos crescer de verdade.


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