Interactive Media Design como segunda carreira?

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Recebo constantemente perguntas de pessoas que desejam vir para Ottawa e cursar o programa de Interactive Media Design no Algonquin College, e querem saber minha opinião. Na maioria dos casos, são pessoas sem prévia experiência na área e que imaginam que a área tem um certo glamour e que é fácil conseguir empregos na área.

É claro que cada caso é um caso. Com certeza vou receber comentários a este texto com histórias de sucesso, mas as coisas não são bem assim. O sucesso, nessa situação específica de recomeço, parece ser mais a exceção do que a regra.

No meu caso em particular, foi um grande erro ter investido meu dinheiro e principalmente um tempo precioso da minha vida no IMD em vez de retomar minha carreira acadêmica em Musicologia, mesmo precisando dar passos para trás (ou seja, fazer um segundo doutorado "que me fizesse competitivo na América do Norte"). Esse erro teve um preço bastante alto na minha vida.

O curso de Interactive Media Design vive uma interessante crise de identidade. Ele nasceu numa época em que ainda se produzia mídia interativa em formatos tais quais CD-Roms, por exemplo. Mas as sucessivas e rápidas transformações nesse mundo transformaram o IMD, basicamente, num curso para formar web developers com algum conhecimento em fotografia, vídeo e design gráfico. Nos dois anos em que estive lá, o currículo do curso mudou pelo menos duas vezes, e posteriormente mudou ainda mais.

Mas as carreiras em web não representam o futuro? Não existem milhares de vagas, start-ups, etc? Não há oportunidades para empreendedores?

Não é tão fácil assim. É certo que há muitas vagas nesse setor, mas também há muita competição. E saiba que muitos dos seus competidores serão pessoas muito jovens e extremamente talentosas e bem qualificadas. Gente que domina as práticas e tecnologias desde a adolescência ou mesmo o final da infância. Gente que veio dos quatro cantos do planeta para o Canadá, acirrando ainda mais a competição. Começar praticamente da estaca zero aos 35 ou 40 anos não é um bom negócio. Por mais que se fale que no Canadá não há discriminação por idade - há controvérsias -, a juventude é sempre um ponto a favor.

Esses meninos estão no College sobretudo para obter um título. A capacidade, a experiência e o conhecimento eles já têm.

Além disso, uma boa parte dos profissionais realmente desejados pelos empregadores não escolheu essa carreira pensando em facilidade de obter empregos ou bons salários. São pessoas apaixonadas por computador, web, etc., que dormem computador, almoçam computador, jantam computador, e começaram numa fase da vida em que emprego e salário simplesmente não são preocupações: a infância ou a adolescência. Exatamente como os programadores. Nessa área, a obtenção de experiência não necessita tanto de um empregador para lhe prover os meios de trabalho. Você cria seus produtos, descola um servidor e uploadeia. Simples assim. Tudo o que você fizer contará como experiência. Então, você só conseguirá competir com essas pessoas por um emprego aos 40 anos se cair um raio sobre a sua cabeça e você descobrir o ovo de Colombo. O que, convenhamos, é muito improvável.

Esse contexto de farta mão-de-obra de qualidade disponível e preponderância da web também trouxe outra situação interessante, e que deve ser considerada por você ao pensar em fazer um College em IMD. Há oportunidades para profissionais autônomos nessa área sim, mas saiba que há muitos desafios. Hoje em dia todo mundo quer ter uma logo bonita, um website bem planejado, vídeos no YouTube, etc. Mas a maioria absoluta dos clientes não faz a menor ideia do que realmente é o trabalho de designer. Esperam por gênios que entendam exatamente o que querem para seus produtos... que captem tudo no ar! E se esquecem de que eles, os contratantes, precisam saber comunicar exatamente o que querem aos profissionais contratados. E em muitos casos, não sabem. Com isso os designers acabam precisando jogar na base da tentativa-e-erro, criando um terrível círculo vicioso em que nada agrada ao contratante mas a culpa é exclusivamente deste. Não adianta fazer mood board ou protótipos: o cliente não gosta e pede por alterações. Você as executa e o cliente continua não gostando. Nesse contexto, poucas histórias têm final feliz. A escola, que procura te mostrar um mundo perfeito que nem sempre condiz com a realidade lá fora, não te prepara para essa guerra.

Dessa forma, minha sincera recomendação é a de que você só deve buscar o IMD para recomeçar por aqui se gostar muito disso e estiver disposto(a) a dar 1000000% para efetivamente ser competitivo. Tal qual nas áreas de TI em geral. Do contrário, recomece fazendo o que já sabe, o que faz realmente bem. Por menores que sejam as possibilidades, você terá muito mais chances de vencer por ter experiência e ser bom no que faz.

Eu perdi anos preciosos da minha vida estudando e tentando. As experiências foram muito ricas: tive dois empregos, fiz muitos trabalhos voluntários, meu portfólio é grande e continuo aqui enviando currículos sem qualquer resposta ou chamado para entrevistas. E cheguei a um ponto em que não dá mais. 

Unknown

Developer

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